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Uso pedagógico de mídias na escola: práticas inovadoras

Por que ensinar mídia nas escolas?

08:56 AM, 25/8/2010

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RESUMO

 

Esse artigo levanta questões sobre a necessidade de aprender mídia nas escolas. Com base no trabalho de alguns estudiosos do assunto comunicação procurou-se relacionar o uso dos meios e a alfabetização audiovisual aos problemas evidenciados em duas situações descritas. Pretende-se com isso reunir argumentos para justificar a necessidade do estudo dos meios a fim de que os mesmos possibilitem uma melhoria nos processos de produção e uso de tais elementos, assim como do processo de ensino-aprendizagem. O foco do texto está na inabilidade dos docentes para o uso das mídias como recurso pedagógico. Espera-se com a apropriação resultante dos estudos da mídia, o aluno possa exercer os papéis de emissor e receptor com vistas a compreender as mensagens, desenvolver a capacidade de comunicação, de interpretação e a de leitura crítica.

 

 

Palavras-chave: Alfabetização audiovisual, aprendizagem significativa, mídias.

 

Meados dos anos 70. Aula de Geografia. Um slide do mapa do Brasil projetado na parede branca da sala é substituído por uma seqüência de vários outros. A professora, freira de um colégio católico em um bairro da zona norte de São Paulo, falava baixo, num ritmo constante e sonolento. Para chamar a atenção do grupo e quebrar a monotonia, vez ou outra batia com a régua em pontos específicos da projeção do slide, produzindo um barulhinho irritante. A classe entediada de 30 alunos, entre 13 e 15 anos, buscava outras atividades que em nada estavam relacionadas à matéria. Por que saber onde fica o rio São Francisco? Era a pergunta que pairava em vários pensamentos. Somente décadas depois, ao utilizar um mapa rodoviário para cruzar as estradas do Brasil, é que alguns poderiam ver algum sentido naquela aula.

 

Ano de 2007. Aula de Geografia. Uma TV de 20 polegadas, no centro da sala de aula de uma escola pública do interior do Amapá, exibe um DVD. A professora tenta entender os controles e recebe a ajuda de um dos alunos para dar continuidade à atividade. A classe, também de 30 alunos, observa o filme atenta por um tempo, mas ocorrem em alguns momentos distrações e conversas paralelas que tiram o foco de atenção da imagem. Depois do filme, a professora pergunta ao grupo o que entenderam e segue com o conteúdo do material impresso.

 

Guardadas as proporções de tempo e de espaço, os episódios ilustram a relação do meio e da comunicação didática envolvida. Alguns questionamentos emergem: Por que as aulas de geografia não trouxeram significado para os alunos? Onde está a falha? Nos recursos? Na sua utilização? Essas perguntas são pontos de partida para questões que envolvem assuntos como a alfabetização audiovisual e o uso das mídias a serem desenvolvidos nesse trabalho com o objetivo de responder à questão maior: por que ensinar mídias nas escolas?

 

O primeiro passo foi buscar na literatura, algumas referências que pudessem ajudar a entender melhor os conceitos subjacentes na situação descrita a fim de que, em um segundo momento, fosse possível ampliar e transpor para atividades na educação.

 

Ao analisar os cenários das aulas de Geografia é possível identificar algumas causas que provocaram a apatia e o desinteresse dos grupos de alunos, entre elas: o uso ineficiente do recurso (projetor e do DVD), os ruídos na comunicação da professora, a ausência de contexto para a decodificação da mensagem e a falta de estratégias para gerar uma aprendizagem significativa. Esses fatores provocaram problemas interpretativos (Graells, 2000, p. 2-3), ou seja, os alunos (no papel de receptores) ao interpretarem a mensagem não conseguiram extrair a informação pretendida pela professora (emissor). Das causas de tais problemas de interpretação, levantadas pelo autor, estão relacionadas ao episódio as seguintes:

 

    *   Má codificação da mensagem por falta de conhecimento ou hábitos comunicativos do emissor;

    *    Transmissão deficiente da mensagem por falta de habilidade comunicativa do emissor;

    *    Deficiência de captação da mensagem por problemas de percepção do receptor ou por existir uma baixa expectativa na comunicação;

    *  Má decodificação da mensagem por parte do emissor devido à falta de vocabulário, diferente conotação cultural ou por falta de hábitos comunicativos.

 

 

Mesmo que se considere a existência de recursos audiovisuais na década de 70-80, como Super-8 para filmes educacionais e o próprio projetor de slides, é pouco provável que houvesse mudança nos aspectos didáticos de sua utilização. Haja vista que a apatia permaneceu no exemplo mais recente no qual foi utilizado um recurso mais moderno e dinâmico. Parte disso se deve ao fato de que há muito prevalece o domínio do texto impresso nas escolas (Masterman, 2003, p. 430). Apesar de a escrita ser considerada um meio visual – levando-se em conta a apresentação, o desenho e a tipologia cujo conjunto compõe parte significativa do processo total de comunicação, muito embora, por vezes, resulte como inadequada e necessite do acompanhamento de uma imagem -, ainda é preciso saber utilizá-la para desenvolver uma leitura crítica nos alunos.

 

A evolução da tecnologia de comunicação e a criação de novos aparatos audiovisuais que produzem material videográfico são pontos que justificam a necessidade de aprender mídias nas escolas visto que requerem novas competências de leitura, avaliação e produção que precisam ser apropriados pelos envolvidos no seu desenvolvimento. Cada meio possui características que são peculiares e demandam conhecimentos para que se tornem eficientes.

Atualmente, como receptores alunos e o público em sua maioria são “bombardeados” por textos visuais. O grande perigo está em aceitar o significado óbvio que eles aparentam e esquecer que para chegar a esse significado há a necessidade do uso de uma linguagem que passa despercebida. O estudo dos textos visuais e da linguagem visual contribui para que o aluno entenda de forma geral e possa, a partir de suas próprias capacidades intelectuais, utilizar essa habilidade em outras situações. Esse é mais um motivo para o estudo das mídias nas escolas. Na interpretação, é possível entender os códigos: de cor e sombra que são utilizados para conseguir uma determinada atmosfera; de enquadramento, angulação e perspectiva que marcam a relação entre o leitor e o objeto que aparece na ilustração; de seqüência e relações cronológica e causal entre as ilustrações; além dos significados simbólicos associados a objetos, cenários e estilos gráficos; os que estão associados com gestos, expressões faciais e vestuário e os códigos do tipo narrativo ou expositivo (Quin e Sanchez, 1999, p.131-132).

 

Há de se considerar também que os meios ativam nos alunos alguns mecanismos perceptivos e mentais diferentes (Ferrés, 1998, p. 136). Saber como conjugá-los permite compensar possíveis déficits derivados de outros meios. Ademais abordar uma realidade de diferentes perspectivas enriquece o processo de aprendizagem. Tornando-se, portanto, do ponto de vista dos professores e dos desenvolvedores mais uma razão para ensinar mídias nas escolas.

Uma adequada alfabetização audiovisual significa compreender as mensagens suportadas mediante imagens e também a capacidade de comunicar-se através delas para que no papel de receptor seja capaz de entender todas as particularidades da linguagem, assim como saiba se defender do poder de sedução (Graells, 2000, p.2).

 

Ao retomar a situação das aulas de Geografia e relacionando ao que foi encontrado na literatura, o cenário poderia ser outro se as professoras tivessem a formação em mídias que lhes permitiriam obter melhores resultados com os alunos. A melhoria de suas habilidades de comunicação e a provocação de situações que pudessem associar o conhecimento já adquirido pelos alunos para a partir daí introduzir o uso das mídias, seria um fator propício para desenvolver uma aprendizagem mais significativa, despertar a motivação e o interesse dos alunos, tornando as aulas muito mais produtivas.

 

À guisa de conclusão, o ensino de mídias nas escolas irá beneficiar tanto discentes quanto docentes e produtores na formação de leitores capazes de identificar significados nas mensagens veiculadas por diversos meios. A capacitação adequada ajudará os docentes a criar situações que tragam significado ao aprendizado dos alunos. Poderão ajudar a formar cidadãos críticos, capazes de identificar as armadilhas dos meios de massa que usam da sedução da imagem para manipular e através de uma interpretação que se utiliza de diversos canais poderão ampliar sua visão de mundo.

 

Referências bibliográficas:

 

FERRÉS, Joan. Pedagogia dos meios audiovisuais e pedagogia com os meios audiovisuais in Para uma tecnologia educacional. Org.: Juana M. Sancho. Trad. Beatriz Affonso Neves. Porto Alegre: ArtMed. 1998.

GRAELLS, Pere Marquès. La Alfabetización audiovisual – Introducción al lenguaje audiovisual. Artigo. Disponível em

http://dewey.uab.es/pmarques/alfaaudi.htm. Acesso: 27/8/07.

MASTERMAN, Len. ¿Por qué? in La enseñanza de los medios de comunicación. Ediciones de la Torre: Madrid. 1993, p. 15-32.

QUIN, Robyn; MARTINEZ, Mariano Sánchez. Aprender a mirar. El lugar de los textos visuales en el currículum escolar in Propuestas. Revista eletrônica.Comunicar, Nº 12. 1999. Disponível em: http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/158/15801221.pdf. Acesso: 16/9/07.

Wikipedia. Referência ao filme Super-8. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Super-8. Acesso: 12/9/07.