Para trabalhar com a diferença entre as inúmeras formas de linguagem, podemos, inicialmente, comparar a linguagem verbal (que tem por unidade a palavra) e as linguagens não-verbais (que têm outros meios de expressão, como o gesto, o movimento, a imagem, a dança, a nota musical, o símbolo matemático, etc.) mostrando-as em atos concretos de comunicação:
Propor uma atividade que envolva a mímica, para explorar a possibilidade de comunicação por meio da linguagem gestual;
Explorar o código Morse, utilizado para a telegrafia;
observar o código de trânsito, a partir das placas e dos diferentes significados do apito utilizado pelo guarda de trânsito;
Diferenciar os sons produzidos por sinos (de igreja), sirenes (de navio, de fábrica);
Relacionar as pinturas nas cavernas aos significados míticos do homem primitivo;
Demonstrar que a linguagem verbal se realiza pela utilização de um sistema de sinais (signos) produzidos pelo aparelho fonador do homem. Apresentação do aparelho fonador, com identificação de suas partes e das funções, respectivamente, de cada uma delas.
Proposta de Atividade 2
Painel mostrando a seqüência cronológica de várias situações de comunicação, o que permite trabalhar com a relação linguagem e cultura, tipos de linguagem e funções da linguagem. As situações apresentadas permitem ao professor elaborar com os alunos a idéia de que, através dos tempos, a comunicação entre as pessoas vem se realizando por meios diferentes, porém sempre cumprindo o seu papel principal: falar do mundo em que vivemos, isto é, representar esse mundo.
"O capitão, quando eles vieram, estava assentado em uma cadeira e uma alcatifa aos pés por estrado, e bem vestidos, com um colar d’ouro mui grande ao pescoço. (...) Um deles pôs olho no colar do capitão e começou d'acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizia que havia em terra ouro..."
A carta de Caminha é o primeiro texto sobre o Brasil. Não apresenta intenções artísticas, mas é muito significativa por registrar as condições de vida dos primeiros colonizadores e habitantes da terra descoberta. Ela não só informa as características dessa terra, como mostra a visão de mundo dos portugueses, apresentando a cultura dos índios por oposição à dos europeus.
Na época em que foi escrita, a carta era o único meio de comunicação verbal à distância que os navegantes podiam utilizar. Ela deveria ser bem detalhada para cumprir a função a que se destinava --- registrar o novo mundo, sob a forma de notícia. Essa característica é comum a outras manifestações escritas da linguagem, em que o texto escrito tem que suprir a ausência da situação, fornecendo o maior número possível de pistas para esclarecer o seu sentido, a sua intenção.
Texto 2 - Telégrafo
DA DIFÍCIL ARTE DE REDIGIR UM TELEGRAMA
(Jô Soares)
Uma coisa é incontestável: a linguagem telegráfica só surgiu depois do telegrama. Nunca ninguém escreveu uma carta assim: "Viagem boa. Nós bem. Tempo maravilha. Beijosfulano." O "Beijosfulano", numa palavra só, é um expediente para economizar no telegrama. Não. Quando as pessoas só escreviam cartas e não havia crise de papel, o negócio era escrever laudas e laudas. Quanto mais páginas tinha uma carta, mais bonita era. Inventaram até o P.S. , que é uma maneira de se escrever uma carta depois da carta.
Depois, veio Morse, com seus traços e pontos e todo mundo teve que se virar para escrever mais coisas em menos palavras. Fica aqui uma pergunta: o que será que Morse inventou primeiro? O telégrafo ou o código Morse? Das duas uma: ou ele inventou a telegrafia e depois quebrou a cabeça até achar um alfabeto que se prestasse para sinalizar palavras, ou então criou um dia o código, assim de brincadeira e depois ficou pensando: "Como é que eu posso transformar isto aqui num troço útil?" E aí bolou o telégrafo.
Seja como for, com ele surgiu o estilo telegráfico, muito usado hoje em dia não só nos telegramas mas também nos recados e até nos lembretes que às vezes nós deixamos para nós mesmos: "Dar banho no cachorro", "Passar banco pegar dinheiro", "Cancelar dentista" etc.
Este texto, ao lado das intenções humorísticas, permite-nos reconhecer inúmeras características da linguagem telegráfica, utilizada não só nos telegramas, mas em recados e bilhetes. Apesar de serem textos escritos, telegramas, recados e bilhetes têm em comum a intenção de comunicar de maneira econômica. São eliminados artigos, pronomes, adjetivos, preposições ou outras palavras que não sejam estritamente necessárias aos objetivos do autor.
Texto 3 - Telefone
Em uma comunicação telefônica, reproduzem-se algumas características da interação face-a-face. Distantes espacialmente, emissor e receptor não possuem todas as informações contextuais, como gestos, olhares, ambiente, mas conseguem estabelecer um diálogo simultâneo, com interrupções, reordenamentos, frases inacabadas, marcadores conversacionais, elipses de elementos discursivos, próprios da conversação natural.
Essas características dizem respeito à telefonia tradicional. Com os avanços da tecnologia, as informações gestuais e contextuais passarão a fazer parte da comunicação telefônica.
Texto 4 - Internet
Texto da música de Gilberto Gil sobre a Internet
PELA INTERNET
Gilberto Gil ( 1997 )
Criar meu web site
Fazer minha home-page
Com quantos gigabytes
Se faz uma jangada
Um barco que veleje
Que veleje nesse infomar
Que aproveite a vazante da infomaré
Que leve um oriki do meu velho orixá
Ao porto de um disquete de um micro em Taipé
Um barco que veleje nesse infomar
Que aproveite a vazante da infomaré
Que leve meu e-mail até Calcutá
Depois de um hot-link
Num site de Helsinque
Para abastecer
Eu quero entrar na rede
Promover um debate
Juntar via Internet
Um grupo de tietes de Connecticut
De Connecticut acessar
O chefe da Macmilícia de Milão
Um hacker mafioso acaba de soltar
Um vírus pra atacar programas no Japão
Eu quero entrar na rede pra contactar
Os lares do Nepal, os bares do Gabão
Que o chefe da polícia carioca avisa pelo celular
Que lá na praça Onze tem um vídeopôquer para se jogar
Gilberto Gil, na música Pela Internet, apresenta sua visão sobre a Internet, meio de comunicação mundial que vem revolucionando nossos hábitos de obtenção e transmissão de informações. Esse universo é trabalhado poeticamente:
O verbo "navegar" é uma metáfora para a atividade de entrar em contacto com as informações disponíveis via Internet. Faz parte do campo semântico de mar, expresso, na música, por meio dos seguintes vocábulos: velejar, jangada, barco, vazante, maré, mar, porto, rede.
A amplitude espacial abarcada pela Internet, a "rede", vem apresentada sob a forma de países e regiões longínquas: Taipé, Calcutá, Helsinqui, Connecticut, Nepal, Gabão, Milão, Japão.
A partir do vocábulo "vírus", referindo-se a programas que atacam e destroem informações, cria-se uma associação com Macmilícia de Milão, hacker mafioso, polícia carioca.
O vocabulário específico de informática aparece em todo o texto, promovendo a articulação entre a realidade e o universo poético: web-site, home-page, gigabytes, disquete, e-mail, micro, site, hot-link, infomaré, infomar, acessar, contactar, rede, vírus.
Tanto no título como no final da música, Gil faz uma homenagem a Donga, parodiando a música "Pelo telefone", que, na sua época, teve o papel que hoje cabe à Internet. Na paródia, o telefone é substituído pelo celular, condizente com a época atual.
"O chefe da folia pelo telefone manda me avisar que com alegria não se questione para se brincar"
(Donga)
"O chefe da polícia carioca avisa pelo celular que lá na Praça Onze tem um videopôquer para se jogar."
(Gil)
Texto 5
O texto abaixo, Velho diálogo de Adão e Eva, do romance "Memórias póstumas de Brás Cubas" (Machado de Assis), é um exemplo muito sugestivo de comunicação sem palavras.
Contrastar duas situações relacionadas, que apresentam manifestações lingüísticas distintas:
a)Notícia de jornal transmite uma informação em uma linguagem bem objetiva.
Exemplo:
"Pesquisadores do Instituto Roslin, nos arredores de Edimburgo, Escócia, produzem, em fevereiro de 97, Dolly, clone de ovelha geneticamente manipulado. Os cientistas escoceses fundiram um óvulo não fecundado com uma célula doada pela ovelha que queriam copiar."
Esta mensagem informa o local, a datae as características da experiência científica realizada. Devido à referência, por meio dessas informações, a elementos que constituem o nosso repertório de experiências, dizemos que nesta mensagem predomina o caráter referencial, presente na maioria dos atos de comunicação.
Além de a língua servir para informar as nossas experiências, ela funciona como um instrumento para a manifestação de emoções e sentimentos, conforme se verifica na situação a seguir:
b)Ouvinte/telespectador toma conhecimento da notícia sobre a clonagem e expressa seu espanto:
"Puxa vida! Que loucura! Onde será que isto vai parar?"
Evidencia-se, nesta frase, a funçãoexpressivada linguagem, pois há uma exteriorização das emoções do indivíduo. A carga emotiva prevalece sobre a carga informativa, permitindo que se realize a interação entre o falante e o interlocutor. Essa comunicação é extremamente dependente do contexto situacional -- as mesmas expressões de espanto terão outro sentido se forem utilizadas em outras situações.
c) Texto de Vinicius de Moraes
"É uma velha mesa esta sobre a qual hoje bato a minha crônica. Pouco mais de um metro por uns quarenta centímetros de largura. Doce rever-te, velha mesa, depois de tanto, tanto tempo. Como a ti, andaram me polindo."
Por ser um texto poético, caracterizado pela presença de linguagem metafórica ("andaram me polindo"), a mesa é personificada ("velha mesa"), recebendo um tratamento afetivo ("doce rever-te"), ao lado de informações objetivas ( "pouco mais de um metro por uns quarenta centímetros de largura").
d) Carta de Graciliano Ramos a Heloísa Ramos (carta de 04/02/1928)
"Dizes que brevemente serás a metade de minha alma. A metade? Brevemente? Não: já agora és, não a metade, mas toda. Dou-te a alma inteira, deixa-me apenas uma pequena parte para que eu possa existir por algum tempo e adorar-te."
Nesta carta, ao lado da função poética, coexistem a função expressiva e a função apelativa, já que o autor confessa seus sentimentos à pessoa amada, seduzindo-a num processo sugestivo que compreende as imagens: metade da minha alma, a alma inteira, não a metade, mas toda, uma pequena parte". A palavra metade, nesse contexto, assume uma significação metafórica, neutralizando o traço semântico [+concreto], numa busca de redefinição poética do amor como entrega.
Há muito tempo, sim, que não te escrevo. Ficaram velhas todas as notícias. Eu mesmo envelheci: Olha em relevo, estes sinais em mim, não das carícias
( tão leves) que fazias no meu rosto: são golpes, são espinhos, são lembranças da vida a teu menino, que ao sol - posto perde a sabedoria das crianças.