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Blog do Lúcio Saretta

Bate papo com Kenny Braga - parte 2

Postado em 14/12/2010 at 03:20 PM

Bate papo do Lúcio Saretta com Kenny Braga - parte 2

Zero Hora - 08/12/2010

Postado em 13/12/2010 at 11:13 AM

Diário Gaúcho - 08/12/2010

Postado em 13/12/2010 at 11:11 AM

Lançamento livro "Crônicas Douradas" em Porto Alegre

Postado em 1/12/2010 at 05:28 PM

Alô, amigos.

Espero vocês lá!

Lúcio.

Imprensa - Revista Acontece Sul -

Postado em 23/11/2010 at 04:44 PM

Resenha de Uili Bergamin na revista Acontece Sul - edição novembro/2010
sobre o livro Crônicas Douradas



 

Cartas na manga

Postado em 20/11/2010 at 05:58 PM

Esta crônica fala um pouco sobre o Nena, motivo de tantas alegrias para a torcida rubra, que morreu durante a semana.

Valeu,

Lúcio.

 

Cartas na manga

As mãos retorcidas e calejadas abriram o leque de cartas. Um ás de ouro, um rei de espadas, um curinga. Naipes e números, figuras e apostas. O veludo verde da toalha traz à mente a grama de um campo de futebol. Embaralhando e distribuindo as cartas, Manga pensa no popular esporte. Seu olhar está fixo, suas emoções ocultas no ambiente enfumaçado.  Os jogadores fazem seqüências ou trincas.  As mãos de Manga já sofreram várias fraturas, os ossos dos dedos quebraram defendendo bolas e chutes violentos. O famoso cantor Dean Martin teve um obscuro passado como pugilista e suas mãos também sofreram bastante. Para ter alguma coisa entre os dedos, o intérprete de “Volare” e “Everybody Loves Somebody” segurava um cigarro. Talvez Manga precisasse das cartas. 

No Botafogo do final da década de 1950, outros atletas tinham o mesmo hábito. Manga era apenas um garoto vindo do Sport, e talvez tenha sido influenciado. Nas exaustivas excursões pela América do Sul era difícil vencer o tédio. Quarentinha, por exemplo, era um exímio jogador de “pif-paf”. Ficou famoso o incidente dentro de um quarto de hotel em Caracas, no qual Didi (ele era o crupiê da roda) e alguns companheiros foram flagrados pelo técnico João Saldanha em um animado jogo valendo dinheiro. Saldanha não tolerava isso, para ele apostas envolvendo o vil metal podiam trazer discórdia dentro do plantel. Por sua vez, Manga ia se firmando como titular do alvinegro, até ser considerado por alguns como o maior goleiro do time em todos os tempos.

Aílton Corrêa Arruda nasceu em Recife, no ano de 1937. Antes dele, houve um outro Manga. Falo de Agenor Gomes, um arqueiro esguio que defendeu o Santos nos anos 50. Como jogavam na mesma posição, é provável que o Manga do Botafogo tenha sido apelidado em uma referência ao Manga anterior. O fato é que em 1967 Manga vai jogar no Nacional do Uruguai. Em terras charruas ele incorporou à sua “persona” um indefectível sotaque castelhano que o acompanharia para sempre. Envergando a malha tricolor, Manga travou duelos memoráveis com Spencer, atacante equatoriano que jogava pelo Peñarol.  Spencer, até hoje o maior goleador da Taça Libertadores da América, encontrou em Manga um gigante à sua altura.  E o Estádio Centenário tremeu com o estrondo dos choques entre os dois.

Então as cartas voltaram para o baralho e foram misturadas de novo. Manga veio para o Internacional de Porto Alegre, onde foi um dos grandes protagonistas da história vencedora do clube.  Na decisão do campeonato Brasileiro de 1975, ele encontraria mais um terrível inimigo. Os chutes de Nelinho do Cruzeiro eram verdadeiros açoites. Mas o goleiro colorado sempre tinha um ás na manga. Quando Nelinho desferiu uma de suas bombas cheias de veneno, Manga contorceu-se como um gato em pleno ar, fazendo uma defesa antológica, magistral. Essa cena vem à mente de Manga, pairando no ar como a tênue luz do abajur. As cartas são distribuídas mansamente.  Um “straight flush”? Ele espera não ter que blefar dessa vez.

Muitos jogadores de futebol foram como Manga. Alguns apostavam dinheiro. Domingos Da Guia, por exemplo, perdeu verdadeiras fortunas nos cassinos da vida. “A estátua noturna” deslumbrou as platéias uruguaias muito antes de Manga, jogando pelo Nacional ao lado de Nasazzi.  Em 1933, essa era talvez a melhor zaga do mundo. Após uma breve passagem pelo Vasco, Domingos defendeu o Boca Juniors, onde foi campeão em 35. Levantemos o manto de olvido: Yustrich, Domingos e Valussi; Vernieres, Lazzatti e Arico Suárez; Zatelli, “el machetero paraguayo” Benitez Cáceres, Varallo, Cherro e Cusatti. Quando pendurou as chuteiras, mais de dez anos depois, Domingos ficou um pouco “perdido” e freqüentou algumas casas de jogo. Ainda assim, não se sabe se sua modalidade era o carteado, dados ou a roleta.

Para terminar, façamos um rápido esboço sobre outro notável zagueiro de outrora. Falo de Nena. Símbolo do Internacional nos anos quarenta, ainda hoje ele conserva a cautela de seus tempos de atleta. Ao invés de apostar dinheiro, Nena gosta de jogar paciência. Ao lado da companheira Juraci, maço de cartas sobre a mesa redonda de madeira, ele foi motivo de uma matéria de jornal, quando esteve de volta à Porto Alegre em outubro de 2008. Segundo Nilton Santos, se Nena estivesse no time brasileiro que perdeu a final da Copa de 1950 para o Uruguai, o resultado poderia ter sido outro. Os dois faziam parte do plantel à disposição do técnico Flavio Costa, mas não jogaram nenhuma partida. Durante os treinos, Nena dava conselhos valiosos para Nilton, que futuramente seria conhecido como a “enciclopédia do futebol”.

Paciência, arrojo para realizar um lance de coragem, lucidez. Assim como em um jogo de cartas, no futebol não basta ter sorte, outras qualidades determinam o vencedor. Pelo menos até que reis e rainhas voltem para o meio do baralho e a bola role pela última vez antes do apito final.

IX Encontro de Ex-Atletas de Caxias do Sul

Postado em 27/10/2010 at 06:58 PM

aguarde carregar...clique nas pontas para folhear as fotos

Lançamento do Crônicas Douradas na 26ª Feira do Livro Caxias do Sul

Postado em 14/10/2010 at 05:45 PM

Crônicas Douradas

O escritor Lúcio Humberto Saretta, lança às 17h30, no Café Cultural, a obra Crônicas Douradas (Ed. Maquinária).
A obra possui personagens que fazem do esporte, um retrato fiel das emoções que alegram e afligem a alma humana. Com um estilo sóbrio, a história arrasta o leitor ao rico universo de atletas imortais do futebol, do basquete e do boxe.

http://feiradolivrocx.blogspot.com/search/label/Not%C3%ADcias

 

Cobras que fumam

Postado em 6/10/2010 at 10:34 AM


 

Cobras que fumam

Dizem que o hábito de fumar não combina com esporte. Inclusive, dizem também que a boemia é inimiga do atleta. A verdade é que existem histórias curiosas sobre fumantes dentro do mundo do futebol em quantidades apreciáveis. Jogadores, técnicos e jornalistas, todos já apareceram envolvidos em algum momento com o tabaco. Paulo Santana, gremista fanático e inigualável cronista gaúcho, fumante dedicado, versou várias vezes sobre o tema. “É ridículo fumar, é antissocial fumar, é anti-higiênico fumar. Tricotar não é nenhuma das três coisas, mas tricotar não me atrai”. Lembro dele adentrando os estúdios durante certo programa de tv, ao vivo, de cigarro em punho, com seu olhar lânguido e seus comentários sobre a vida. Grande personagem.

No universo dos técnicos, já tivemos figuras marcantes no referido quesito. Francisco Duarte Júnior, o Teté, foi o timoneiro do grande Internacional dos anos 1950. Enquanto instruía seus pupilos no calor das batalhas, Teté não dispensava um bom palheiro. Essa debilidade fazia parte do seu ser, assim como o amor instintivo ao esporte. João Saldanha, embora de curta trajetória como técnico, e Osvaldo Brandão também foram ferrenhos adeptos dessa discutida prática. No futebol portenho, onde o fumo sempre teve uma presença mais forte, saltava aos olhos a figura de César Menotti, com suas longas costeletas e melenas pitando seu cigarro compenetrado. Homem de opiniões contundentes dentro e fora das quatro linhas, Menotti, de certa forma, acabou sendo domesticado pelos militares, servindo involuntariamente à causa dos quartéis, quando conduziu a Argentina ao título da Copa de 1978.

Em outras eras, os próprios artistas da pelota faziam fumaça sem problema nenhum. Claro que ainda não havia uma real consciência sobre os malefícios do vício, pelo contrário, era uma coisa vista em filmes e associada ao luxo e sucesso. Existe uma foto do Garrincha fumando um cigarro tendo ao lado o técnico Vicente Feola, então era uma coisa totalmente liberada.

Um dos maiores ponteiros direitos do futebol brasileiro e o mais querido, “seu Mané” esbanjou talento e picardia durante a final do campeonato carioca de 1962. O Botafogo era um verdadeiro esquadrão: Manga, Joel, Zé Maria, Nilton Santos, já em final de carreira atuando como zagueiro, e Rildo; Ayrton e Arlindo; e um ataque composto exclusivamente por monstros sagrados, com Garrincha, Quarentinha, Amarildo e Zagalo. Flavio Costa era o técnico do Flamengo. Reza a lenda que ele teria incumbido um jovem promissor, estilista da bola, chamado Gerson para auxiliar na marcação à Garrincha.  Todavia, “seu Mané” estava impossível, talvez ninguém no mundo pudesse pará-lo naquela partida. O placar final foi 3 a 0 para o alvinegro, com dois gols do camisa sete. O terceiro, de Vanderlei, contra, também surgiu após uma estocada do anjo das pernas tortas. 

Quanto a Gerson, ainda ouviríamos muito falar dele. Ombros largos e passes certeiros, pé esquerdo privilegiado e pulmões ávidos por fumaça. Alguns anos mais tarde ele faria sucesso no próprio Botafogo, além de compor com maestria o onze canarinho vencedor da Copa do México, em 1970. Dizem que Gerson tragava seu cigarro calmamente no intervalo dos jogos, apagando-o instantes antes de voltar ao gramado. Verdade ou não, o fato é que nosso craque ficou famoso ao estrelar uma propaganda de cigarros na tv, no tempo em que não era estranho vincular um atleta com o tabagismo. 

Hoje em dia causam furor notícias sobre jogadores fumando. O caso de Ronaldo, por exemplo. Bastou vazar na imprensa que o atacante tem esse hábito para vicejar a polêmica. Em pleno século 21, uma cobra que fuma. Mas uma cobra que soube confeccionar gols inesquecíveis, cheios de malícia e oportunismo.  Desde aquele com a camisa do Cruzeiro, roubando a bola das mãos do grande Rodolfo Rodriguez, passando pela sua fase europeia, das arrancadas no Barcelona, até chegar ao Corinthians, onde produziu duas pérolas contra o Santos na final do campeonato paulista de 2009.

Tipo excêntrico de fumante foi Jack Charlton. Hábil na arte de filar a nicotina alheia, Jack, segundo depoimento de um antigo companheiro do Leeds, seria capaz de pedir um cigarro até mesmo para a rainha da Inglaterra. Exageros a parte, louvemos o bom zagueiro que foi Jack, sempre rechaçando o couro com suas fulminantes cabeçadas e impedindo os ataques contrários com firmeza. Uma figura consagrada dentro do futebol mundial, não só pelo título com a seleção inglesa na Copa de 1966, mas também como técnico, sobretudo à frente da Irlanda, nas Copas de 1990 e 94.

Entretanto, se você estiver em Londres, tenha cuidado! Jack pode estar à espreita. Não o estripador, mas o cigarrista, pronto para filar uma porção do seu estimado maço.                                            

Site

Postado em 5/10/2010 at 09:10 AM

 

Alô, amigos!

 

Para conferir outras novidades como fotos dos lançamentos e detalhes sobre os livros acessem o site www.luciosaretta.xpg.com.bragora mesmo!

 

Aquele abraço,

 

Lúcio.

Imprensa

Postado em 29/9/2010 at 11:38 AM

Convite para lançamento do livro Crônicas Douradas

Postado em 16/9/2010 at 05:18 PM

Prezados leitores,
Convido a todos para o lançamento do meu segundo livro, " Crônicas Douradas".


 

Jogo de botão

Postado em 2/8/2010 at 08:27 PM

 

Ainda não me esqueci do dia em que ganhei o meu primeiro time de futebol de botão. Na verdade, eram dois, um do Grêmio e um do Palmeiras. Eu devia ter uns cinco anos, mais ou menos. Eram botões de acrílico, com a foto dos jogadores coladas. Como eu também tinha um “campo”, no caso, uma espécie de tabuleiro de madeira pintado de verde e as linhas em branco, imitando um gramado de verdade, a brincadeira ficou completa. As goleiras eram de plástico branco duro e ficavam soltas em cima do campo. Os goleiros eram um escudo, com um pino acoplado para a gente mexer neles através da goleira, que tinha uma abertura para isso. A bola era preta, chata, e nunca podia ficar totalmente em cima do botão, sem encostar no chão, pois seria “mão na bola”. E tinha a palheta, componente fundamental para o divertimento, usada para fazer o botão jogar. Toda essa parafernália vinha dentro de uma caixinha amarela, com a marca do fabricante. Foram lindos tempos da minha infância.

Cada botão deslizava de uma forma diferente no tabuleiro, uns eram melhores que os outros, devido ao seu formato. Tinha o Pires do Palmeiras, por exemplo, que era um botão fácil de jogar, bem chato e bom de conduzir a bola. José Sebastião Pires Neto participou de um momento histórico no meio de campo do Palestra, sendo companheiro de Ademir Da Guia na última temporada do “Divino” no clube. O botão do Ademir tinha uma cor incrível, um verde transparente, mas escuro. Ele era o único loiro do time. Depois, o Pires faria uma dupla importante com o Mococa, mas o Mococa não estava no meu time de botão. Aliás, eu nem sabia em que posição cada um jogava, espalhando os botões aleatoriamente, mas sempre no mesmo desenho: um em cada canto da pequena área, um em cada canto da grande área, um na meia lua da área, dois em cima da linha divisória do campo de um lado do círculo central, dois do outro lado do círculo e um em cima do próprio círculo, mas fora dele.

No Palmeiras ainda tinha o Zeca que era, como eu aprendi depois, o lateral esquerdo do bicampeonato brasileiro de 1972 e 73, um dos mais antigos do time. O goleiro era o Leão e, na lateral direita, a figura marcante de Rosemiro adornava mais um dos meus botões. Na defesa, Beto Fuscão, ou melhor, Rigoberto Costa, dividia os trabalhos com Mario Soto, um zagueiro que anos mais tarde seria protagonista da violenta final da Libertadores entre Flamengo e Cobreloa. O ataque era formado por Edu, outro remanescente do bicampeonato, o centroavante Toninho “Catarina” e o ponteiro esquerdo Macedo.  Completava o time o saudoso meia Jorge Mendonça. Carioca de Silva Jardim, Mendonça era um jogador habilidoso que durante a Copa de 78 na Argentina, segundo alguns graças à influência do almirante Heleno Nunes, ganhou a posição de Zico na equipe.

No Grêmio, o goleiro era Remi, um atleta que nunca logrou ser titular absoluto no clube. O lateral direito era Eurico, que tinha feito fama no próprio Palmeiras duas vezes campeão brasileiro do técnico Osvaldo Brandão. A zaga era composta por Oberdan e Ancheta, e o lateral esquerdo era Wilson, com o seu cabelo estilo Jackson Five. O ano dessas formações só pode ser 1977, a julgar pelo meio campo tricolor: Vitor Hugo, Iúra e Tadeu Ricci.  Gostaria de traçar algumas linhas sobre o Iúra. Era um dos botões que eu mais gostava, rápido e leve. Na vida real, Iúra, apelido dado, não me perguntem o porquê, a Julio Titow, era um atleta voluntarioso, ostentando um bigode de bandoleiro mexicano e que honrou como poucos a jaqueta tricolor. Também conhecido como “passarinho” pela sua magreza, Iura encerrou a carreira com apenas 27 anos, passando a trabalhar na sua loja de material dentário. Já Tadeu Ricci era um exímio cobrador de faltas oriundo do Flamengo. Sobre ele, certa vez Telê Santana, técnico do Grêmio que solicitou sua contratação, afirmou: “Foi o profissional mais correto que eu conheci”.  Finalmente, o ataque era Tarciso, Alcindo e Éder. O Tarciso era outro botão que eu gostava muito e, fazendo justiça ao seu apelido de “Flecha Negra”, deslizava velozmente no tabuleiro. O acrílico do Grêmio era um azul marinho denso e brilhante, que hipnotizava. Esse tipo de botão a gente chamava de “panelinha”, pois o seu formato lembrava o de uma frigideira rasa de cabeça para baixo. Havia também o tipo “puxador”, que tinha uma espessura bem maior, e era, na minha opinião, mais difícil de jogar, além de ter diâmetros diferentes entre os zagueiros, meias e atacantes.

Um dia eu descobri uns botões que tinham sido do meu pai. Era o lendário Torino italiano, mas não era uma coisa fabricada. Ao invés disso, eram botões de roupa mesmo, provavelmente surrupiados dos casacos da minha vó, os goleiros eram pedaços de madeira pintada, um verdadeiro luxo. Eu inclusive passei a brincar com esses botões, cada um diferente do outro nos tamanhos, cores e formatos.  Outra boa lembrança desse tempo era o campo do meu primo, uma porta de madeira adaptada para o passatempo, muito maior do que o meu tabuleiro, onde desfilavam os times que ele possuía em quantidades industriais, desde a Inter de Limeira até o Cosmos de Nova Iorque. 

 

O Adão sem pecados

Postado em 2/7/2010 at 08:44 AM

Essa crônica presta homenagem aos dez anos do Gauchão vencido heroicamente pelo Caxias, no dia 21 de junho de 2000.

Um abraço a todos!

Lúcio.

 

O Adão sem pecados

No começo, era apenas um pontinho riscando o céu azul. Aos poucos foi crescendo e tomando a forma de um avião, à medida que se aproximava do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. No saguão, dezenas de torcedores do Grêmio aguardavam ansiosos. Afinal, um dos passageiros do vôo que chegava era Leonardo Astrada, uma das maiores contratações da direção tricolor para a temporada de 2000. O avião pousa e começa a rodar lentamente até o portão de desembarque.

A euforia da pequena multidão se transforma em delírio quando Astrada, também conhecido como “El Jefe”, aparece. O contato é rápido, o argentino logo embarcando em uma besta e seguindo para um local desconhecido. No torneio Apertura de 1999, “El Jefe” conquistara o seu décimo título com o River Plate, um recorde até então. Volante clássico, de toques curtos e precisos, além de tenaz marcador, seria ele o homem a vestir a jaqueta número 5 do novo time mosqueteiro. Além de Astrada, o técnico Antônio Lopes teria à sua disposição jogadores consagrados, como Roger, Danrlei, Zinho e o menino prodígio Ronaldinho.

Enquanto isso, em cima da Serra, o Caxias começava a lutar por uma vaga na fase final do Gauchão. Para tanto, a equipe grená deveria disputar uma seletiva. Dessa peneira sairiam cinco times que iriam juntar-se à Internacional, Grêmio e Juventude na fase quente do certame. Na primeira partida, um empate em casa com o Veranópolis, começou a surgir a figura carismática do centroavante Adão. Autor de um dos gols, ele seria protagonista de batalhas memoráveis no comando do ataque.

Adão era um rapaz alto, de semblante calmo e sorridente. E, ao contrário do seu homônimo que foi expulso do Paraíso por morder a fruta proibida, não costumava pecar na hora das conclusões. Seu estilo era simples, sem enfeites ou jogadas luxuosas. Porém, com suas largas passadas e um oportunismo acima do normal, Adão foi castigando os goleiros adversários. Na seletiva, ele ainda marcaria contra Pelotas, Inter de Santa Maria e São José, ajudando o time a passar de fase.

A partir de então, as emoções seriam ainda mais fortes para o torcedor do Caxias. Após uma goleada de 4 a 0 sobre o Passo Fundo, a tabela apontava uma parada dura: o clássico citadino contra o eterno rival Juventude. Com um gol do meio campista Maurício, o Caxias expugna o Alfredo Jaconi e começa a pensar no próximo adversário, o poderoso Internacional. Dessa vez, a peleja terminou com o placar de 2 a 0 para as hostes serranas, gols de Delmer e do sempre bom e correto Adão. A partir daí, o time tropeça duas vezes, contra 15 de Campo Bom e Esportivo. Mas, após uma vitória dramática contra o Santa Cruz, o Caxias tem a chance de ser campeão do primeiro turno. Para tanto, bastava vencer o Grêmio em Porto Alegre.

Em uma bela tarde de outono, o técnico Tite observa confiante enquanto o onze grená pisa o gramado do Olímpico. A partida é aberta, o couro disputado com a típica voracidade que domina as ações no meio de campo. Aos 13 minutos, o juiz Carlos Simon assinala uma falta a favor do Caxias. O experiente volante Ivair prepara-se para a cobrança. Danrlei orienta a barreira, Astrada toma o seu lugar. O chute é seco e a esfera passa por sobre a cabeça de “El Jefe”, indo morrer no fundo das redes. Gol do Caxias.

Nesse instante, começa o fim da curta passagem de Astrada pelo Grêmio. No lance, ele teria se abaixado, deixando o arqueiro vendido. Não podemos esquecer, porém, que Ronaldinho estava em campo. Em um lance de pura habilidade, ele deixa Amato em condições de marcar o gol de empate. Cinco minutos mais tarde, a bola cai nos pés de Adão, na intermediária do gramado. Com suas pernas de gazela, ele corre até o fundo do campo e toca para dentro da área, onde seu fiel escudeiro Jajá surge como um raio para marcar o gol da vitória. A presença na final estava garantida.

O adversário seria o Grêmio, vencedor do segundo turno. A essa altura o Caxias já não era considerado uma zebra e, com certa facilidade até, vence o jogo de ida no Centenário por 3 a 0. Um empate sem gols em Porto Alegre bastou para sagrar o Caxias campeão gaúcho pela primeira vez na sua história. Um título merecido, fruto do sacrifício de um grupo de abnegados e sonhadores entre os quais estava Adão, com a sua pureza e a inata virtude de marcar gols.

Nascer para perder, viver para vencer

Postado em 10/6/2010 at 08:48 PM

 

 

A chama do fósforo iluminou a escuridão do quarto, enquanto a mão pesada de Pasqualena acendia a vela. O fogo permaneceu no pavio, revelando a imagem de Santo Antônio em cima da cômoda. Pasqualena, então, fez uma prece pela saúde de seu bebê Rocco, que estava à beira da morte com pneumonia.  Vários dias se passaram, mas o garotinho negava-se a perecer. O pai, Pierino, alimentava poucas esperanças quanto ao futuro de Rocco. Ele próprio era dono de uma saúde frágil, abalada pelo trabalho insalubre em uma fábrica de sapatos. Na pequena cidade americana de Brockton, a comunidade de origem italiana era grande e muitos conterrâneos do casal solidarizaram-se com o drama. Até que, inesperadamente, uma vizinha muito velha e corcunda fez uma visita ao leito de Rocco. Ela fez com que ele bebesse uma colher de água morna e aconselhou que lhe dessem caldo de galinha. A saúde do garoto então melhorou e ele sobreviveu.

 

Foi a primeira de muitas lutas que ele venceria na vida. Desde cedo interessado em esportes, o jovem Rocco Marchegiano primeiro tentou a sorte no baseball. Sem embargo, seu destino estava nos ringues e ele tornou-se pugilista, categoria peso-pesado. Enquanto servia ao filho um robusto prato de espaguete com almôndegas, Pasqualena repetia a cantilena de que ele poderia se machucar lutando boxe, seria melhor arrumar um emprego normal. Seu apelo não surtiu efeito e um belo dia Rocco foi para Nova Iorque.  A esperá-lo estavam o empresário Al Weill e o treinador Charley Goldman, que começou a forjar aquele que seria o único campeão mundial a não sofrer uma derrota sequer em toda a carreira. Seu nome agora era Rocky Marciano e nada poderia pará-lo. Como um trem desgovernado, dono de um golpe fulminante de direita, Rocky, nos ringues, foi destemido até o fim. Um dos ensinamentos clássicos do boxe diz que “the more you sweat in the gym the less you bleed in the ring”, ou seja, quanto mais você suar nos treinos, menos vai sangrar nas lutas. Ciente disso, Rocky corria obstinadamente pelas ruas da “grande maçã”, aprimorando sua resistência e seu preparo físico. O combate que valeu o título foi em 1952, contra Jersey Joe Walcott na Filadélfia.

 

Enquanto isso, em uma praça de Valparaíso, no Chile, Elias observava tristemente as outras crianças brincando. Como ele queria estar ali, correndo atrás da bola...Mas que jeito, se a falta de ar e a tosse não deixavam? Ele, que tinha feito uma delicada operação para a asma, nunca seria um garoto normal. Quando a família Figueroa se mudou para Quilpé, o pequeno Elias sentiu uma mudança. O ar era diferente, o clima mais seco. E ele começou a perseguir o sonho de jogar futebol. No início o esforço tinha que ser moderado, mas aos poucos Elias foi superando suas limitações. Seu primeiro compromisso como profissional foi com as cores verdes do Santiago Wanderers, de Valparaíso. Sua posição: zagueiro, dono de um estilo elegante, jogando sempre com a cabeça erguida e, vez por outra, marcando presença no ataque. Muito jovem, com menos de vinte anos, Elias Figueroa defendeu a seleção chilena na Copa da Inglaterra, em 1966. No ano seguinte, foi contratado pelo Peñarol, onde atuou com o argentino Ermindo Onega e todo um leque de craques como Mazurkiewicz, Forlán, Joya e Pedro Rocha. Dentro desse ninho de cobras logrou impor o seu futebol e tornou-se uma referência na equipe. Tanto que, quando foi para o Inter de Porto Alegre, a torcida do clube ouro e negro logo sentiu-se órfã do talento de Figueroa. Na Copa da Alemanha em 74, novamente Elias foi destaque. Sua atuação na partida contra os donos da casa rendeu fartos elogios de Gerd Müller, um dos maiores goleadores de todos os tempos. Naquela ocasião, Gerd foi tenazmente marcado e ofuscado por Figueroa, que com suas atuações luxuosas gravou seu nome na história do futebol mundial. Nada mal para aquele garoto asmático que mal podia correr e brincar com os seus amigos de infância.  

 

Porém, quando o assunto é superação, não há como esquecer o exemplo do uruguaio Hector Castro. Após perder a mão direita em uma brincadeira de infância, Hector construiu uma carreira sem precedentes dentro dos gramados, tornando-se ídolo no Nacional de Montevidéu e na seleção do seu país. Prova disso é que “el manco” foi um dos aríetes da vitoriosa campanha do Uruguai na Copa de 1930. Na final contra a Argentina, Hector marcou o último gol do jogo, mandando a bola para as redes do arqueiro Botasso com uma certeira cabeçada. Fora das quatro linhas, sua ascendência sobre o plantel celeste era evidente, sendo “el manco” um dos líderes ao lado do mítico capitão José Nazassi. Ao recordar os grandes jogadores do futebol do nosso continente, o nome de Hector Castro é presença obrigatória.

 

Muitas vezes nos deparamos com situações que parecem intransponíveis e definitivas. Uma doença, um preconceito, terríveis desígnios que podem levar a um futuro incerto e desolador. Ainda assim, quando tudo parece perdido, costuma surgir dentro do homem aquela centelha que conduz à vitória, produzindo os verdadeiros campeões do esporte e da vida.

A mão amiga do esporte

Postado em 3/5/2010 at 09:12 PM

Ao contrário do que acontece aqui no Brasil, onde vemos jovens talentos do esporte sendo tratados à base de pão de ló, paparicados pelos dirigentes, endeusados pela mídia e pagos com salários astronômicos, em alguns países do hemisfério norte a situação é diferente. Lá, os novatos devem primeiro incorporar o espírito da disciplina, cumprindo tarefas impensáveis dentro da mentalidade vigente por aqui. Jack Charlton abraçou o futebol com o intuito de escapar do trabalho nas minas de carvão, destino muito provável para os habitantes da sua cidade natal, Ashington. Em seus primeiros dias como atleta profissional do Leeds, nos anos 1950, o futuro zagueiro da seleção inglesa dividia a rotina dos treinos com o trabalho de catar ervas daninhas no gramado do clube.  Criado nos viveiros do Manchester United, David Platt limpava as chuteiras e os vestiários dos jogadores veteranos. Na Copa da Itália de 1990, Platt ficaria famoso ao marcar um golaço contra a Bélgica do grande goleiro Preud’homme, classificando o “english team” às quartas de final da competição.  

O coração generoso de Foreman também encontramos em Cláudio Adão, notável artilheiro do nosso futebol. Quando Paulo Cezar Caju sentiu as garras das drogas e do alcoolismo se apoderarem dele, foi buscar ajuda com Adão. Como na fábula da formiga que abre as portas da sua casa para a cigarra, Cláudio não titubeou em dar guarida ao amigo, hospedando e incentivando Caju a abandonar o vício. Desde que seu talento surgiu no Botafogo durante a final da Taça Guanabara de 1967 contra o América, Paulo Cezar sempre foi um jogador badalado, tendo atingido os píncaros da glória ao vestir a camisa canarinho na conquista da Copa do México em 1970. Em contrapartida, Cláudio Adão nunca teve  chance na seleção principal, mas o seu instinto goleador fez dele uma peça fundamental nos times em que passou. Em 1974, na partida do Santos contra a Ponte Preta que marcou a despedida de Pelé do clube peixeiro, Cláudio deixou a sua marca no placar. Alguns chegaram a dizer que ele seria o substituto do Rei. Uma fratura na perna atrapalhou um pouco sua trajetória, que continuaria no Flamengo e em mais de vinte outras agremiações, atingindo a respeitável marca de 591 gols. 

O esporte sempre trouxe consigo exemplos de companheirismo.  Quando Rocky Marciano pendurou as luvas, o posto de campeão dos pesos pesados foi ocupado por figuras não tão marcantes ou carismáticas como, por exemplo, Ingemar Johansson e Floyd Patterson.  Mas, quando em 1962 Sonny Liston entrou em cena, o boxe teve novamente um protagonista. Não no sentido técnico, embora Liston tivesse suas qualidades. O que chamava a atenção era a sua aparência física, uma montanha de músculos assustadora. Assim sendo, seus oponentes já subiam no ringue em desvantagem psicológica. Segundo alguns observadores, o gancho de esquerda de Liston era comparável ao de Jack Dempsey, lendário pugilista da década de 1920. Como Liston era semi analfabeto, um de seus “sparrings” lia para ele. Esse rapaz, que teve em Liston uma fonte de inspiração no início da sua carreira, seria um dos grandes nomes da história do esporte. Falo de George Foreman. Solidário com o colega, Foreman buscou amenizar a escuridão em que Liston vivia, trazendo-o para perto do mundo das letras.  

Earvin “Magic” Johnson, por sua vez, foi incumbido da missão de servir o astro Kareem Abdul Jabbar. O calouro dos Los Angeles Lakers deveria cuidar para que nada faltasse ao pivô daquele que foi um dos maiores times de basquete de todos os tempos.  Providenciar o jornal todas as manhãs, ir ao mercado ou comprar cachorro quente para o craque eram funções típicas de Magic. Mais tarde, ele seria a grande estrela do time, mas Kareem nunca se importou em dividir os holofotes. Ao invés disso, ele ajudaria o novato a desenvolver o seu jogo e também a crescer como profissional. Grandes equipes são feitas através da mistura do ímpeto da juventude com a voz da experiência. Kareem pertencia a uma época romântica, embora ainda tivesse muito a dar pelo esporte nos anos 1980. Antes dele, os pivôs eram simplesmente gigantes estáticos que encestavam o couro burocraticamente. Através do seu famoso gancho, Kareem deu novo sentido ao basquete, aproximando-o da arte. Essa jogada inovadora, bela e mortal, segue viva na memória do torcedor. É claro que ter um secretário como Magic Johnson ajudou bastante. Afinal, passado o período em que o assessorou fora das quadras, o armador continuou servindo o velho ídolo, agora com passes açucarados para Kareem marcar muitos pontos.  

No mundo em que vivemos, altamente competitivo e egoísta, poucas vezes encontramos espaço para gestos de bondade. Contudo, se olharmos para certos exemplos vindos do esporte e seus atletas, quem sabe possamos aprender a estender uma mão amiga àqueles que precisam.                          

 

 

Pelas docas de Liverpool

Postado em 8/4/2010 at 09:23 PM
 

 

Caminhando pelas docas de Liverpool,  em determinadas manhãs de janeiro, é impossível vislumbrar o horizonte. Ele se mistura com o mar, a névoa produzindo uma espessa cortina cinza que envolve os dois. O frio é intenso e os pingos de chuva caem sem dar trégua. Foi por essa porta de entrada que muitos irlandeses chegaram à cidade para jogar no Liverpool.

Elisha Scott foi um deles. O goleiro baixinho nascido em Belfast foi um dos responsáveis pela conquista do bicampeonato inglês pelo Liverpool, em 1922 e 23. Ficaram famosos os duelos entre ele e Dixie Dean, notável goleador do rival citadino Everton.  De acordo com a lenda, quando ambos se cruzavam pelas ruas e Dean acenava com a cabeça para Elisha, este voava para defender uma bola de faz de conta, usando a moldura da janela de uma loja qualquer como se fosse o gol. De fato, uma das armas letais de Dean era a sua jogada de cabeça e ele detém o recorde de gols em um campeonato, tendo balançado as redes 60 vezes em 1928, ano em que o Everton foi campeão. Grande fã e praticante de boxe, Dean também sofria nas mãos dos zagueiros. O jornalista Ian Wooldridge conta uma história impressionante ocorrida no início da carreira do atacante. Após sofrer uma séria lesão provocada pela truculência de um defensor, Dean, mais tarde, vingou-se aplicando uma surra no seu agressor quando este saía de um pub. Já Elisha possui o carinho da torcida pela sua longa permanência sob as traves do Liverpool. Afinal, foram mais de duas décadas envergando a casaca vermelha. Além de ser um goleiro hábil e corajoso, o irlandês possuía também o dom da oratória, sendo seus discursos antes dos jogos muito apreciados pelos companheiros.

Hoje em dia, Liverpool tem uma população muito inferior à de outras épocas. Na década de trinta do século passado mais de oitocentas mil pessoas viviam lá. Em 1966, a cidade hospedou em suas ruelas medievais a seleção brasileira que disputava a Copa da Inglaterra. Com uma preparação deficiente, tanto dentro como fora das quatro linhas, a equipe canarinho decepcionou a turba que compareceu aos jogos no estádio do Everton, Goodison Park. Após a vitória na partida de estréia contra a Bulgária, o Brasil perdeu para Hungria e Portugal, sendo eliminada na primeira fase do torneio. No seu compromisso contra a seleção da “pantera negra” Eusébio, o técnico Vicente Feola mudou a formação de praticamente todo o time: Manga, Fidélis, Brito, Orlando e Rildo; Denílson e Lima; Jairzinho, Silva, Pelé e Paraná, viram o sonho do tri se desmanchar como a espuma das ondas golpeando as docas da cidade.

O cidadão comum de Liverpool é um vibrante fã de futebol. Muito prestativo, traz na ponta da língua seu ídolo, seu jogo inesquecível. Em uma parada de ônibus qualquer, um senhor imerso em um sobretudo cinza como o céu, esbugalhará os olhos para dizer que Ian Rush foi o grande nome do seu time nos últimos tempos. Maior artilheiro histórico do Liverpool, o galês formou uma sociedade inesquecível com Kenny Dalglish durante os anos oitenta, período em que o clube ganhou vários títulos. Rush aproveitava os lançamentos açucarados de Dalglish e, valendo-se da sua velocidade ímpar, castigava os goleiros sem dó. Mas nem sempre foi fácil. Na final da Liga dos Campeões de 1984, o Liverpool enfrentou a Roma. Por mera coincidência, a partida foi realizada no Estádio Olímpico da “cidade eterna”. O time italiano, porém, não soube aproveitar o fator local e perdeu a taça após uma sofrida decisão nos pênaltis.  Na ocasião, a torcida inglesa teria sido hostilizada pelos anfitriões, fato que pode ter incentivado os “hooligans” a darem o troco no ano seguinte, quando a Juventus foi para a final do mesmo torneio contra o Liverpool e teve vários simpatizantes mortos na famigerada tragédia de Heysel.

Não podemos esquecer que Liverpool foi o berço de uma das bandas mais simpáticas do rock, aquela formada por John, Paul, Ringo e George. No bairro do IAPI em Porto Alegre, alguns rapazes entraram na onda e fundaram o grupo Liverpool, em 1965. Três anos mais tarde veio o primeiro LP, “Por Favor Sucesso”. Mimi e Marcos Lessa, Peko Santana, Edinho Espíndola e o carismático Fughetti Luz lançavam, assim, a semente do rock gaúcho. Sabemos que o Rio Guaíba não é o Mar da Irlanda, mas, naquele tempo de tremendas revoluções, eles eram feitos da mesma água.

Quando o Liverpool venceu o Milan na final da Liga dos Campeões em 2005, uma coisa incrível aconteceu. A torcida do Everton se uniu às festividades, recebendo os vencedores com um honesto entusiasmo nos braços. Acima das rivalidades mesquinhas prevaleceu o espírito esportivo. Após mais um dia de trabalho nas docas, pescadores, estivadores e marujos em geral rumaram para o pub mais próximo. Entre jarras de cerveja brindaram a façanha, enquanto que, lá fora, o reflexo da lua de maio pairava sobre o mar plácido e sereno.   

Lúcio Saretta e o craque do basquete brasileiro Carioquinha

Postado em 4/3/2010 at 09:38 PM

Incríveis visitas de outrora

Postado em 20/2/2010 at 09:41 PM

 

Existem certas passagens na vida de grandes artistas que são uma espécie de lado B de um disco de vinil. Por exemplo, a vinda de Noel Rosa ao Rio Grande do Sul é um fato pouco abordado quando se fala do poeta e compositor de Vila Isabel. Foi no ano de 1932 que Noel aceitou o convite de Francisco Alves para integrar o conjunto “Ases do Samba”, juntamente com Mario Reis, Pery Cunha e o pianista Nonô, tio de Cauby Peixoto e Cyro Monteiro. Porto Alegre recebeu a trupe com grande expectativa, afinal seria a nata do samba a tocar no Teatro Imperial. Outras cidades menores também foram contempladas com a maestria de Noel e seus companheiros. São Leopoldo, Pelotas, Rio Grande e Caxias do Sul viveram um momento único, sublime e inédito.

A visita do grande Torino do pós-guerra ao Brasil foi outro acontecimento desses que não se tem notícia todos os dias.  O Pacaembu engalanou-se para hospedar a famosa equipe italiana, que vinha assombrando o mundo com o seu futebol, preenchendo os sonhos da garotada brasileira. Sim, o grande Torino veio desfilar a sua arte e o seu carisma por aqui.  Naquele ano de 48, Torino era a Detroit da Itália, a terra do automóvel, da Fiat. E também do vermute, tendo o conde Enrico Cinzano presidido o clube grená na década de vinte. O apelo popular do Torino era muito forte, contrastando com a aura aristocrática da rival Juventus. No Brasil, os jogadores foram paparicados de todas as maneiras, recebendo convites para entrevistas e festas.

Dentro de campo a coisa foi um pouco diferente. Apesar do caráter amistoso dos jogos, todos queriam tirar uma lasquinha daquele esquadrão tão célebre e poderoso. O primeiro a passar pelo teste foi o Palmeiras. Uma das principais figuras do escrete paulista era o goleiro Oberdan Cattani, um ex caminhoneiro da cidade de Sorocaba que tinha o apelido de “A Muralha Verde”. O pai de Oberdan era  oriundo da Toscana, fato que contribuiu para sua identificação com o clube. Outro craque e presença certa no time era Waldemar Fiúme, um jogador polivalente lembrado até hoje como uma das bandeiras palmeirenses de todos os tempos. Faz pensar o que deve ter sido o duelo entre Waldemar e Valentino Mazzola, o grande condutor do Torino. De qualquer maneira os visitantes abrem o placar através de Gabetto, atacante narigudo e habituado a vazar as redes contrárias. O Palmeiras empata em seguida, mostrando que o Torino não era imbatível. Na verdade, o time dirigido pelo técnico Mario Sperone estava cansado pela viagem e também com a acolhida exageradamente festiva. A derrota veio no segundo jogo, contra o Corinthians. A imprensa nacional não titubeou em descer o malho nos ilustres visitantes pelo pífio futebol apresentado.

Sempre no Pacaembu, o próximo adversário foi a Portuguesa. E desta vez o Torino não decepcionou, infligindo uma goleada de 4 a 1 no time brasileiro. O último jogo da excursão foi contra o São Paulo campeão paulista daquele ano e que exibia a mítica linha média Rui, Bauer e Noronha.  No ataque o veterano Leônidas da Silva representava uma ameaça constante, fazendo a alegria do técnico Vicente Feola com seus gols e jogadas mirabolantes. Contra os peninsulares ele teria de superar um dos destaques do elenco, o famoso goleiro Valerio Bacigalupo. O embate entre os dois foi épico. Bacigalupo chegou ao Torino em 45, o último ano da Segunda Guerra. Proveniente do Genoa, ele não dispensava a boina característica usada por muitos goleiros na época. Após um lance fortuito, ele e Leônidas trocam “gentilezas” e acabam expulsos. O placar da despedida foi um empate em dois gols.  

Os anos passaram e outro time dos sonhos visitou o Brasil para júbilo dos amantes do futebol. O Honved de Puskas e companhia esteve aqui em 1957 apresentando-se no Maracanã e no Pacaembu. Apesar de estar um pouco acima de seu peso normal, o “Major Galopante” foi capaz de entusiasmar as platéias que assistiram aos jogos. Botafogo e Flamengo foram os adversários daquela bela equipe, base da seleção húngara que havia deslumbrado o mundo na Copa de 54. Além de Puskas, craques como Czibor, Kocsis e Hidegkuti faziam do Honved um timaço. Foram jogos memoráveis. O Flamengo tinha Dida, Evaristo e Moacir. O Botafogo Didi, Garrincha e Paulo Valentim. E quem viu com certeza não esqueceu desse momento tão bonito e singular do nosso futebol.

Reminiscências sobre Orlando Lelé

Postado em 28/12/2009 at 08:48 AM

 

O futebol tem a inestimável virtude de gerar e perpetuar personagens. Homens que habitam um canto distante de nossa mente, aparecendo de quando em quando, despertando em nós lembranças e sentimentos adormecidos. As primeiras imagens de Orlando Lelé chegaram até mim graças a um programa de tv dominical, em que o jornalista Milton Neves mostrava gols de arquivo. Com a sua silhueta impressionante, Orlando capturou como poucos a aura de sua época de jogador, ou seja, os anos 70 do século passado. Invariavelmente atuando na faixa lateral direita do Maracanã, corria vigoroso atrás da bola. Longas melenas e um vasto bigode adornavam o rosto de Orlando, enquanto  o seu corpanzil branco e magro empregava mais uma investida ao ataque.

Natural de Santos, Orlando começou a sua carreira no clube alvinegro da Vila Belmiro. Eram os últimos anos de Pelé no time e o jovem ocupava esporadicamente a lacuna deixada por Carlos Alberto Torres na lateral direita. Jogando ao lado dos argentinos Cejas, goleiro campeão do mundo com o Racing , e  Ramos Delgado, Orlando foi aprimorando o seu ofício. Mas era um plantel desorganizado. O meia Afonsinho atesta que “a diretoria era muito fraca, o ambiente conturbado”. No ataque, Alcindo e Pelé tentavam reviver os tempos de seleção brasileira, sem sucesso. No ano de 73 Orlando militaria nas fileiras do Coritiba, vivendo um momento ímpar em sua vida. O técnico do clube coxa branca era o famoso Tim, grande estudioso do futebol e campeão argentino de 68 com o San Lorenzo. Apesar de ter rendido bons frutos, a experiência em canchas paranaenses não durou muito. O destino de Orlando Lelé seria o América carioca. Lá as coisas começariam a acontecer de verdade para ele e um grande sonho seu tornar-se-ia realidade: a camisa verde e amarela.

O América de então estava longe de ser o clube pobre e estagnado que é hoje. Pelo contrário, era uma das forças do futebol, não só do Rio de Janeiro como do Brasil, figurando como protagonista nos campeonatos nacionais. O seu ataque era uma digna constelação, formando com Flecha, Bráulio, o “garoto de ouro”, Luisinho, Edu e Gilson Nunes. Edu Coimbra, além de irmão de Zico, é também o maior artilheiro histórico da agremiação rubra. Orlando constituiu-se rapidamente em um baluarte daquele time. De seus pés saíam inclusive gols importantes, como aquele que ajudou o América a derrotar o Fluminense na final da Taça Guanabara de 74. O presidente Wilson Carvalhal não titubeia em afirmar que “o América sabe vencer sem humilhar e perder sem humilhar-se”. A consagração de Orlando seria a convocação para a seleção brasileira. Em uma partida marcante contra o Uruguai no Maracanã, em abril de 76, ele faz a sua estréia entrando no lugar do flamenguista Toninho Baiano. Tudo corria bem, até que em um lance fortuito Rivelino dá um soco no lateral celeste Sergio Ramirez, revidando uma agressão ao jovem Zico. Ramirez não esqueceria tal gesto. No final do jogo, enfurecido, ele  corre atrás do “reizinho do parque”, que, ciente do perigo da situação, rola escada abaixo no afã de refugiar-se nos vestiários. O sururu está formado. Nesse instante surge Orlando como um raio, na tentativa de socorrer algum companheiro. Ferido em seus brios, não pôde fugir à luta, que naquela altura envolvia até mesmo repórteres e membros das comissões técnicas das duas seleções.

A vida segue e as mudanças nos clubes ao final de cada temporada são grandes. Não surpreende, pois, a contratação de Orlando pelo Vasco da Gama em 77. Em São Januário ele receberia vários apelidos por parte da imprensa, como por exemplo, “o canhão da colina” e “o homem que come chumbo”. O clube cruzmaltino tinha como timoneiro Orlando Fantoni, que soube como ninguém entender  o espírito do grupo e montar uma defesa que ficou conhecida como “a barreira do inferno”: Mazaropi, Orlando, Abel, Geraldo e Marco Antônio. Não foram poucas as vezes em que “titio Fantoni”, como era chamado pelos jogadores, exultou à beira do gramado com os chutes de Orlando. Tais petardos, se não redundassem em gol, serviam de alimento para  Roberto Dinamite,  sempre atento ao rebote da zaga.

Orlando Lelé morreria jovem. Após sofrer um acidente doméstico ele ficaria tetraplégico, antes de partir com apenas 50 anos. Sempre lembrado como um sujeito brincalhão e alegre, Orlando jamais comprometeu em serviço, deixando um legado de boas e edificantes memórias dentro do esporte.

 


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