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Blog do Lúcio Saretta

Alquimistas do ringue

Posted on 23/10/2009 at 09:47 AM

 

Alquimistas do ringue

Existem homens que habitam as esquinas do mundo. Nova Iorque, a metrópole que nunca dorme, foi o palco de muitos fatos sobre os quais eu falarei agora. Quanto aos homens, estou me referindo aos profissionais que vivem nos cantos de um ringue em uma luta de boxe. Os treinadores, como verdadeiros anjos da guarda, estão sempre a postos para socorrer e aconselhar os seus pugilistas. Eles são um capítulo à parte dentro do esporte que os ingleses chamam de “a doce ciência”.

Quando os empresários de Joe Louis o levaram para treinar com Jack Blackburn, o veterano professor não acreditou que o garoto fosse triunfar na carreira.  Para ele, era quase impossível o surgimento de um novo Jack Johnson, o lendário peso pesado negro que foi campeão mundial entre 1908 e 1915. Dentro do mais alto escalão do boxe, um negro, alvo de todo tipo de preconceitos e artimanhas, teria que suar sangue para chegar ao topo. E ser, nas palavras de Blackburn, “bom fora do ringue e mau dentro dele”. Bem, Joe Louis foi muito mais do que isso.  Ele foi simplesmente um gênio no seu ofício, além de um grande exemplo de caráter e nobreza. Muito disso deveu-se à presença constante de Blackburn no canto em que Joe vinha descansar nos intervalos entre os assaltos.  Superado o ceticismo, o velho tornou-se o escudeiro ideal para o rapaz. Um dos seus conselhos era: “let your fist be the referee”, ou seja, que o punho de Joe fosse o árbitro, sempre superando o rival com nitidez, sem dar margem para interpretações dúbias de algum juiz larápio.   Joe escutava com atenção e obedecia as palavras do mestre, um grande bebedor de cerveja que passou quatro anos preso por assassinato. Dono de uma considerável ficha policial e de uma cicatriz no rosto adquirida em uma briga de faca em um bar, Blackburn morreu em 1942.

Em 1948, ano em que Joe Louis fez a sua última luta como detentor do título de campeão antes de se aposentar (ele voltaria dois anos depois, sendo derrotado por Ezzard Charles), Charlie Goldman recebeu em suas mãos um diamante bruto, pronto para ser lapidado. Seu nome era Rocky Marciano, um rapaz atarracado, com pernas grossas e desajeitado, mas dono de um golpe fulminante de direita. Goldman, ele próprio um ex-lutador com mais de trezentas lutas no currículo, era um treinador respeitado em Nova Iorque, já tendo trabalhado com três campeões mundiais. Porém, faltava encontrar um talento na categoria peso pesado, a mais importante do boxe. Esse é o momento pelo qual todos os treinadores passam a vida esperando, algo que pode acontecer ou não. Goldman passou a modelar Rocky, fazendo com que o pupilo batesse no saco de velocidade. Rocky preferia o saco pesado, mas a intenção de Goldman era condicioná-lo a manter as mãos erguidas para proteger o rosto. Outra providência tomada foi amarrar as pernas de Rocky para que ele se acostumasse a dar passos mais curtos durante as lutas. Segundo Lou Duva, treinador do futuro campeão Evander Holyfield, a grande qualidade de Goldman era explicar o porquê das coisas, ensinando Rocky o motivo de cada exercício. Charlie Goldman morreu enquanto dormia, em 1968. Durante o seu último sono, vestia o roupão usado por Rocky quando este se tornou campeão dos pesos pesados.

Ao contrário de Blackburn e Goldman, Ângelo Dundee nunca lutou boxe profissional. Contudo, ele foi um dos treinadores mais conceituados, tendo atuado no “corner” de figuras como Muhammad Ali, Sugar Ray Leonard e George Foreman, quando o decano lutador empreendeu uma volta aos ringues, capturando o cinturão que fora seu vinte e um anos antes.  Ao chegar em Nova Iorque, Ângelo foi “adotado” por Charlie Goldman e começou a aprender os truques da labuta. Dundee, nessa época, carregava os baldes que seriam usados nas lutas. O ritual de enfaixar as mãos do pugilista, esticando corretamente a gaze, foi logo incorporado na sua rotina. Munido de um arsenal de frascos e ampolas, o treinador tinha técnicas secretas de como curar um corte sofrido no calor do combate, estancando a perda de sangue como se fosse um cirurgião.  Sempre que podia, Dundee dava uma passada no ginásio Stillman’s, na Oitava Avenida. Era um lugar sombrio e fétido, as grandes janelas sempre sujas impedindo a entrada da luz do sol. Para os lutadores, aquilo era o paraíso.

Dundee acreditava que as habilidades naturais do atleta deviam ser preservadas, sendo o papel do treinador desenvolver o estilo que melhor se adaptasse às aptidões do pupilo. Muitas vezes, decisões difíceis deviam ser tomadas. Quando Dundee interrompeu a luta entre Muhammad Ali e Larry Holmes, em 1980, o instinto de preservar a saúde do seu pugilista falou mais alto que o orgulho de seguir brigando, pois Ali estava totalmente à mercê, incapaz de se defender.

Na Idade Média, o processo de transformar metais vis em ouro era perseguido pelos bruxos. A pedra filosofal do boxe, que transforma toscos lutadores em legítimos campeões, repousa na astúcia do treinador em aprimorar o atleta, buscando sempre a perfeição, como se fosse um alquimista do ringue


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