Vítimas do invisível
Vítimas do invisível
Certas torcidas de futebol se destacam pela virtude da paciência. Que o diga a sofrida legião de fãs do Torino, que, com abnegado espírito de luta e estoicismo, transformou a espera por títulos em uma espécie de ofício, em uma arte de conviver com o revés. Depois de contar com um dos maiores esquadrões da Europa e do mundo, quando foi penta-campeão italiano na década de 40 do século passado, o clube grená mergulhou em um período impressionante de ostracismo. Mesmo que tenha vencido o scudetto de 1976, a caminhada do Torino sempre esteve marcada por momentos difíceis, trágicos até. Tudo começou com o desastre aéreo que liquidou o time fabuloso do pós-guerra. Na década de 60, um novo ídolo surgiu para trazer esperança à torcida. Gigi Meroni, também conhecido como a “farfalla granata”, era um jovem contestador, espécie de George Best peninsular, que tratava a pelota com destreza e lirismo próprios de um revolucionário. Mostrando que o Torino precisa vencer, além dos adversários dentro de campo, também as fatalidades fora dele, em 1967 o jogador símbolo da retomada, único capaz de substituir Valentino Mazzola no coração do torcedor, acabou morrendo atropelado em frente ao portão da sua casa, quando saía para comprar um sorvete.
A perda de Gigi Meroni foi sucedida por outro tremendo baque, quando, no campeonato de 1972, acontecimentos estranhos vitimaram o Torino. O time, que empregava uma tenaz perseguição ao líder Milan, acabou perdendo um ponto precioso em polêmica partida contra a Sampdoria. Após um lance protagonizado pelos ases do ataque Cláudio “il poeta del gol” Sala e Paolo Pulici, surge o centro campista Aldo Agroppi e manda a bola para o arco. Porém, um defensor do onze genovês rechaça a esfera, quando ela já havia cruzado a linha fatal. O juiz não valida o gol e o Torino perde pelo placar de dois a um. A efeméride ficou marcada pela torcida grená como “l’episodio dello scandalo”. Justamente quando a equipe dava mostras de que poderia vencer o título, coisa que não acontecia desde 1949, ano do desaparecimento do “grande Torino”, a fortuna negou seu sorriso novamente. Para piorar, o scudetto ficou com a odiada rival Juventus, que terminou a temporada com um ponto de vantagem sobre o Milan e o próprio Torino.
Peço licença para recordar o célebre discurso de Jânio Quadros, em que ele fala sobre “as forças ocultas” que o teriam levado a renunciar. Muito bem. No campeonato italiano, as forças ocultas estão presentes em muitos jogos, impedindo que os clubes pequenos consigam um lugar ao sol. Geralmente, os favorecidos pela mão invisível e contumaz que age a cada domingo estão incrustados na catedral do poder e atendem pelos nomes de Juventus, Milan e Inter. Não foram poucos os lances curiosos em que “la vecchia signora” de Turim, por exemplo, acabou levando vantagem. E agora eu gostaria de trazer à baila o famigerado caso do gol anulado de Turone. Corria a temporada 1980-81, e a Roma tinha chances reais na disputa pelo caneco. Se vencesse a líder Juventus no Estádio Comunale, o time de Falcão e Bruno Conti alcançaria também ele o topo da tabela. Típica jornada chuvosa na cinza Turim. Quase no final do jogo, veio o lance antológico que daria a vitória à Roma: com um peixinho, Turone manda a bola para as redes de Dino Zoff. Para espanto de todos, inclusive do arqueiro juventino, o juiz anula o gol com uma desfaçatez avassaladora. Nesse instante, o torcedor “giallorosso” pôde sentir o impacto do golpe fantasma que tantas vezes transformou em pó os sonhos dos clubes menos ricos.
Entretanto, até mesmo a milionária Inter de Milão foi vítima das manobras escondidas nos bastidores, da sanha da Velha Senhora pelos louros da vitória. No campeonato de 1998 o time lombardo exibia em suas fileiras nomes como os de Kanu, Simeone, Recoba e do jovem Ronaldo “fenômeno”. A Juventus, que, como de costume, liderava o torneio, hospedou os pupilos do técnico Gigi Simoni no estádio Delle Alpi, naquela que seria a partida decisiva da temporada. Os fatos ocorridos no gramado convulsionaram toda a Itália, sem distinção de cores clubísticas. A Inter tem um pênalti escandaloso sobre Ronaldo sonegado e, na seqüência da jogada, quando um jogador da Juventus cai dentro da área “nerazzurra”, o árbitro não titubeia em apontar para a marca de cal. Del Piero cobra e faz. Em briga de cachorro grande, aquele com as bênçãos do invisível levou a melhor.
A força de uma camisa não se faz de uma hora para a outra. Foi através dos tempos que a Juventus cimentou o estilo vencedor e pragmático que a caracteriza. Para todo Gastão existe um Pato Donald. Assim como os primos das histórias de Walt Disney, Juventus e Torino seguem os seus caminhos. O jornalista Gianpaolo Ormezzano certa vez definiu a torcida do time grená como sendo “i parafulmini del destino”, como se os infortúnios fossem magnetizados por ela. Sem embargo, se o papel de vítima lhe cai bem, não foi nem será ela a única a sofrer com as armadilhas ocultas no fascinante mundo do futebol italiano.