A locomotiva
A locomotiva
No princípio, eram todos contra o Vasco. Quando disputou pela primeira vez o campeonato carioca da primeira divisão, em 1923, o atrevimento do clube cruz-maltino causou repulsa entre os grandes clubes da elite. Afinal, ao invés de ser o saco de pancadas do torneio como era esperado, o Vasco fez uma campanha irrepreensível e ergueu o caneco. O seu pecado foi, além de mostrar bom futebol, ser o time da colônia portuguesa, repleto de negros, mestiços e analfabetos. Aos poucos, o clube foi conquistando um lugar ao sol, ainda mais depois da construção do estádio de São Januário e da empolgante conquista do título carioca de 1929. Outra campanha digna de registro viria em 1945, ano em que o Vasco foi campeão invicto. Começavam as façanhas do “Expresso da Vitória”.
Era um trem cor de chumbo, que cuspia uma fumaça densa e negra pela chaminé. O primeiro maquinista dessa formidável locomotiva foi o uruguaio Ondino Viera. Segundo o massagista Mario Américo, antes da chegada de Ondino, o Vasco “ganhava dos times grandes, mas perdia dos pequenos”. O técnico, então, foi acomodando os passageiros para a partida do trem. Uma das peças mais importantes do elenco, Djalma foi deslocado por Ondino da ponta-direita para o meio de campo, compactando a equipe. Na zaga destacava-se o ímpeto e a liderança de Augusto. Além de ter sido o jogador que trocou flâmulas com Obdulio Varela antes da final da Copa de 1950, Augusto ficou conhecido por ter machucado o joelho de Dondinho, pai de Pelé. Foi num jogo entre Atlético Mineiro e São Cristóvão, primeiro time de Augusto. Ex-policial, ele foi um dos responsáveis em manter a ordem dentro dos vagões da locomotiva vascaína. Outro bom companheiro de viagem era Ademir, um dos melhores atacantes surgidos na história do nosso futebol. Também conhecido como “Queixada”, famoso por sua velocidade, jogava em todas as posições ofensivas e tinha um chute forte e certeiro. Não é exagero dizer que Ademir foi quem personificou melhor, com a contundência das suas atuações e identificação com a torcida, a alma daquele extraordinário time de futebol.
À medida que ia avançando por entre colinas e vales verdejantes, a máquina de aço vez por outra mudava sua tripulação. A partir de 1947 coube ao técnico Flavio Costa a tarefa de colocar carvão na caldeira e levar o Vasco a novas vitórias. Outro que embarcou no trem cruz-maltino foi Danilo, um “center-half” de estilo clássico e patrão da meia cancha do time. Alto, esguio, elegante, mas que sabia destruir quando necessário, formou uma trinca inesquecível com Eli e Jorge. Mas nem só de glórias viveu essa magnífica equipe. Assim como em 1946, quando o Fluminense de Gentil Cardoso foi campeão, dois anos mais tarde o Botafogo também logrou superar o poderio do esquadrão de São Januário. Mesmo assim, a locomotiva não descarrilou e seguiu firme no seu rumo de triunfos.
Naqueles dias de regozijo para o torcedor, uma figura imponente guardava o arco do time com a dedicação de uma mãe a zelar pelo filho recém nascido. Frio como gelo, ágil como um gato, Barbosa foi o grande goleiro dos anos dourados do Vasco, sempre passando confiança e tranqüilidade para os zagueiros. A extremidade oposta do gramado, por sua vez, era o habitat de Francisco Aramburu, ou simplesmente Chico. Ponteiro esquerdo dotado de grande nobreza e espírito de luta, esse gaúcho de Uruguaiana teve um assento cativo no vagão dos bambas do elenco. E como esquecer de Maneca, um jogador fora de série que deslumbrava a todos com a beleza e precisão dos seus passes? Igualmente preciso nas assistências, Ipojucan era um meio campista alto, corpulento e de estilo criativo. Muito antes de Sócrates, ele já dominava a técnica da jogada de calcanhar, além de outras picardias mais que ajudavam a compor o espetáculo do “Expresso da Vitória” a cada domingo. Aliás, a origem do apelido do time está em um programa de variedades da popular Rádio Nacional, no qual um cantor de pouca fama homenageou o Vasco com uma canção. O singelo e inocente regalo acabou plasmando a alcunha para a posteridade.
A viagem da locomotiva prosseguia agradavelmente. Da janela, os jogadores apreciavam a bela paisagem e o céu azul repleto de brancas nuvens. O ponto mais alto da montanha aproximava-se. Em 1949, o Vasco foi novamente campeão carioca invicto. No ano seguinte, o topo foi alcançado. Para alegria geral da nação cruz-maltina, o time amealhou o título de primeiro campeão carioca da Era Maracanã. Após uma partida dramática contra o sempre perigoso América, a vitória chegou com dois gols de Ademir. Ainda assim, haveria tempo para o canto de cisne dessa fabulosa equipe. Ao descrever a descida da parábola, a locomotiva conquistou seu último título, em 1952.
Fim de festa. O trem foi arrastando-se vagarosamente pelos trilhos até parar na estação. Os passageiros, cansados e felizes, desceram e recolheram suas bagagens. Cada um tomou o rumo do seu lar, com a sensação do dever cumprido e com muitas histórias para contar.