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Blog do Lúcio Saretta

Meu encontro com Tarica

Posted on 23/4/2009 at 08:58 PM

Meu encontro com Tarica

Era uma sexta-feira qualquer. Eu estava no meu botequim de costume encerrando mais uma semana de trabalho. Tomava minha cerveja de pé, e a garrafa já estava suando, molhando o vidro do balcão onde ficam as balas e chicletes. Era noite. De repente, alguém me pergunta se eu já tinha ouvido falar do Tarica. Isso porque eu tinha uma certa fama nesse bar, de vez em quando eu dava algumas escalações de times que eu decorava.  Por exemplo, o Brasil de 50. E começava: Barbosa, Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode...O pessoal ficava impressionado, e, de alguma maneira, o meu moral se elevava. Por uma dessas coincidências da vida, antes de sair de casa naquela mesma tarde eu havia passado a vista em um livro sobre o Oreco, famoso lateral esquerdo do Inter e que depois jogou no Corinthians. Por isso o nome Tarica não me soou estranho. Matutei por alguns instantes e soltei o verbo: “Ele não é de Santa Maria, compadre do Oreco?”. Nesse instante o bar foi tomado por um silêncio que durou alguns segundos, enquanto um frenesi  percorreu a espinha dos presentes. Virei para o interior do estabelecimento e encarei um senhor baixo, de cabelos pretos, bigode e nariz adunco. Era o Tarica. Percebi imediatamente que ele estava feliz em ser reconhecido. Começamos a conversar.

Como eu já disse, a história do Tarica está intimamente ligada à do Oreco. Parceiros fora das quatro linhas, eles jogaram juntos no Inter de Santa Maria, no Inter de Porto Alegre e também no Corinthians. Na capital gaúcha, Oreco fez história, integrando a seleção de todos os tempos do colorado eleita pela revista Placar: Manga, Paulinho, Figueroa, Nena e Oreco; Salvador, Carpeggiani e Falcão; Tesourinha, Larry e Carlitos. Também coube a ele a honra de ter sido o primeiro gaúcho campeão mundial com a seleção brasileira. É claro que o titular da Copa de 58 na Suécia foi o Nilton Santos, mas isso não tira os méritos do Oreco, que jogou onze partidas com a camisa canarinho. Em 1957 o Tarica foi jogar no Corinthians, onde já estava o seu vizinho de rua dos tempos de Santa Maria. No nosso bate papo, lembro dele recordar saudoso a figura de Osvaldo Brandão, seu técnico no clube paulista. Para não deixar morrer o colóquio, citei o famoso ataque alvinegro de 54, Cláudio, Luizinho, Baltazar, Rafael e Simão.

No já mencionado livro sobre o Oreco, uma bela obra do Candido Otto da Luz, o Tarica resume como foi sua passagem pelo futebol bandeirante: “No Corinthians, o Oreco era cobra e eu minhoca”.  Ele aparece em algumas fotos na posição de ponteiro direito, formando o ataque com Luizinho, Índio, Rafael e Boquita. Quase meio século depois, era interessante como o Tarica tinha mudado pouco. Sua fala era jovial, lúcida e serena. Ele deve ter sofrido muito com o falecimento do seu bom amigo. Ao participar de uma partida de futebol com outros jogadores veteranos, em 1985, Oreco teve um enfarte e não resistiu.

Enquanto o nosso encontro acontecia, entre goles de cerveja, senti que o Tarica era uma cara gente fina e, como todo boleiro que se preza, orgulhoso dos seus feitos dentro do popular esporte.  Em 1961 ele veio jogar no Flamengo de Caxias do Sul, hoje SER Caxias. Nesse ano, atuando como centroavante, Tarica marcou o gol da vitória em um clássico contra o tradicional rival Juventude, expugnando o estádio Alfredo Jaconi. O Flamengo exibia em suas fileiras valores como o lateral Laércio, até hoje o jogador que mais vezes atuou no time grená, e o meia Macalé, oriundo do Bangu carioca e que marcou época nos gramados caxienses. Foi uma vitória importante dentro do campeonato gaúcho de então, tendo em vista o gabarito da equipe adversária, com Bugre, Nezito, Babá, Puccinelli e Lory. Dois anos depois, Tarica pendurou as chuteiras e virou técnico do time. Ele ficou nessa função até 1964, passando a morar definitivamente na cidade. E essa é a razão pela qual eu o encontrei naquela noite.

Foi um momento inusitado, em que eu pude beber um pouco da sabedoria e da experiência de alguém que conviveu e atuou profissionalmente com grandes figuras do futebol. Mas a noite foi ficando cada vez mais escura, os ponteiros do relógio implacavelmente davam o seu recado.O dono do bar iniciou o seu ritual de sempre, passando a chave na porta lateral para evitar retardatários indesejáveis e baixando a pesada grade que protege a entrada principal. Até que, discretamente como havia chegado, o Tarica foi embora.

Uma pena. Eu nunca mais vi o Tarica.

grande saretta

Posted on 21/5/2009 at 01:02 PM by esteves
veja só, eu conheço este cidadão" Tarica" de vistaa, e nunca imaginei este folclore todo. Por acaso, ele é um senhor baixo atarracado com um "panceps" avantajado? Parabens pelo blog! Um abraco do grena esteves!

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