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Blog do Lúcio Saretta

Fecham-se as cortinas

Posted on 3/2/2009 at 09:50 PM

Fecham-se as cortinas

Ele já não era o mesmo. Joe Louis parecia cansado quando esteve em São Paulo no mês de maio de 1950. Sua aparência, em uma luta de exibição que fez no país, era uma sombra do passado, músculos flácidos e reflexos lentos. Dentro de poucos dias ele voltaria a lutar oficialmente, perdendo a decisão por pontos contra Ezzard Charles, em uma das suas  únicas très derrotas como profissional . Boxe e futebol sempre foram dois esportes com uma íntima ligação. A seleção uruguaia de futebol também estava na capital paulista na ocasião, envolvida na disputa de mais uma Copa Rio Branco com o Brasil. E Obdulio Varela  não desperdiçou a chance de ver o seu grande ídolo Joe Louis em carne e osso. Segundo o jornalista Franklin Morales no livro “Maracaná - Los laberintos del carácter” , o capitão da celeste era fã de boxe. Naquele instante, duas figuras maiores dentro do esporte estavam mais próximas do que nunca, Obdulio fitando Joe Louis, uma alegria incontida dentro de si.

Obdulio nunca faria a fortuna que fez Joe Louis. Sua fama ficaria restrita no âmbito futebolístico. Porém, uma cruel coincidência uniu esses nobres atletas: o ocaso devastador, a velhice sem o reconhecimento dos seus tempos áureos, em que brindavam as platéias com atuações cheias de heroísmo e galhardia. Sem embargo, eles não foram os únicos a sentir o gosto amargo do crepúsculo, na sua inocente humildade de genuínos campeões. Em seu auge, bajulados pela sociedade. No inverno de seus dias, esquecidos e marginalizados.

Analisemos o caso de Carreiro, exímio ponta esquerda do Fluminense no começo dos anos 40. Conhecido como o “Rui Barbosa do futebol”, participou de campanhas memoráveis do tricolor, até ser dominado pelo ócio e pelo alcoolismo ao parar de jogar. Abandonado pela mulher, passou a viver como indigente. O jornalista Mario Filho sintetizou bem a situação, criticando o espiríto ingrato das pessoas no seu livro “O Negro no Futebol Brasileiro”: “Carreiro era visto dormindo debaixo de um banco de praça pública. Falava-se disso quase à meia voz, como um segredo. Para que pronunciar, outra vez, o nome de Carreiro”?

O pugilista argentino José Maria Gatica saboreou o calor da fama e o frio lúgubre do olvido popular. Ex-engraxate e analfabeto, Gatica aprendeu a lutar nas ruas, tornando-se um dos grandes valores do boxe sul-americano. Assim como Joe Louis, “El Mono” era dono de um altruísmo singular. No seu apogeu, distribuía dinheiro a amigos, parentes ou a qualquer pessoa que lhe parecesse necessitada. Quem sabe lembrando de seus dias difíceis, antes do sucesso, Gatica dava sem pedir nada em troca. Profundamente identificado com a figura de Juan Domingo Perón, ele foi aos poucos perdendo espaço com a derrocada do general em 1955. Morreu atropelado por um ònibus em 1963, após mais um dia de trabalho, vendendo bonecos na porta do estádio do Independiente.

Um dos nossos maiores artilheiros, oportunista nato e apaixonado pelo gol, que fazia enrouquecer as gargantas da torcida vascaína cada vez que mandava a bola para as redes, Vavá também foi  vítima do comum desprezo pelos campeões do passado. Durante o seu enterro, em janeiro de 2002, tamanho descaso provocou a indignação de Jair Rosa Pinto, outro virtuose dos gramados de antigamente. Para Jair, “O Leão da Copa” de 58 merecia um reconhecimento maior, e não apenas a sempre hipócrita presença de alguns cartolas, colocando uma bandeira sobre o caixão de maneira fria e protocolar.

Não falarei aqui do ocaso de Heleno, do triste fim de Garrincha ou das injustiças cometidas contra Barbosa. A história se repete de maneira melancólica. Aqueles que um dia arrastaram multidões às praças esportivas com o seu carisma e talento, são vistos trabalhando como porteiros, taxistas, recebendo olhares piedosos de quem finge não ver, como se fossem fantasmas. Foi assim com Obdulio, que passou a receber salário de funcionário público trabalhando em um cassino de Montevideu. Joe Louis, por sua vez, valeu-se da gratidão de personalidades como Frank Sinatra, que ajudou financeiramente o campeão quando ele teve problemas de saúde, já no fim da vida.

Infelizmente, muitas vezes só damos valor às pessoas depois que as perdemos. Com os maiores vultos do esporte, sobretudo aqueles que não tiveram a sorte de se estabelecer após o final de suas carreiras, essa mística é ainda mais cruel e sombria.

Nota do autor: o comentário a seguir foi postado por Valter Duarte Ferreira Filho no site Campeões do Futebol. Ele joga novas luzes sobre a figura de Carreiro e sua morte.

Li com profundo desgosto a coluna do Lúcio Saretta em que, citando Mário Filho, conta que Carreiro, o "Rui Barbosa da pelota", terminou seus dias na sarjeta, dormindo até debaixo de banco de praça. Isso não aconteceu. Lamento dizer que a fonte, em quem tanto depositam confiança, não é confiável. Mais preocupado em romancear do que documentar como testemunha o que terá presenciado, Mário Filho inventou demais em "O Negro no Futebol Brasileiro". Por exemplo, consultem jornais e revistas da época e verão que jamais ocorreu o arremesso desesperado de bolas na Lagoa no Fla-Flu decisivo de 1941 por parte do time do Fluminense. Invenção do Mário Filho que virou lenda, e de lenda tornou-se "fato". Carreiro, expulso naquele jogo, negava essa estória.
Hoje, tenho 60 anos de idade, sou professor universitário de Ciência Política da UFRJ e da UERJ. Fui vizinho do Carreiro, João Baptista Siqueira Lima, de 1957 até o dia da sua morte, por sinal, dia de meu aniversário. Morávamos no edifício da rua Leandro Martins 22. Eu e meus pais no apartamento 315 e ele no 313. Foram anos de maravilhosa amizade. De fato, ele era alcoólatra, embora só bebesse mesmo nos fins de semana, quando convidava amigos para serenatas e outros encontros festivos em seu apartamento. Cantores e compositores de sucesso da época costumavam aparecer por lá. Carreiro não tinha problemas financeiros e, segundo meu pai, trabalhava para dirigentes do Fluminense num escritório em que, de acordo com o que diziam, "lesava o fisco". Era uma pessoa maravilhosa, engraçadíssimo. Era espírita. Por vezes fazia sessões em seu apartamento. Morreu de AVC hemorrágico no Hospital Sousa Aguiar. Meus pais, em quem ele muito confiava, ficaram muito comovidos quando ele morreu. Passei por ele na porta do edifício horas antes de ele morrer. Estava muito bem vestido, mas nervoso, pressão alta, pelo que soube depois. Estava com medo de morrer. Ainda me lembro: - "Oi, Valtinho". Ao que respondi: -" Oi, Carreiro". Veio depois a ambulância e o levou.
Por favor, façam alguma coisa para apagar essa falsidade a respeito da vida dele.
 
Abraços
Valter

CRônicas!

Posted on 20/2/2009 at 03:32 PM by Anonymous
O Saretta sabe fazer crõnicas como poucos no Braisl, relacionadas ao futebol. É um enciclopédia viva do futebol mundial. Precisamos de gente realmente lembrando do nosso futebol. Nós brasileiros temos memória curta. Parabéns Saretta, belas crônicas!

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