Bolas de fogo
Bolas de fogo
Esta história começa em Alegrete. Quando o menino João Saldanha exultava com as ações dos revoltosos maragatos na luta contra Borges de Medeiros em 23, ele não imaginava que um dia seria técnico de futebol. Mais tarde, a família iria para o Rio de Janeiro levada por Gaspar, o pai de João, durante os primeiros anos do governo de Getúlio Vargas. Lá, João tornou-se torcedor do Botafogo, jogando futebol na praia com o futuro craque alvinegro Heleno de Freitas. Em 56, o presidente Paulo Azeredo convida o gaúcho, que já havia trabalhado como diretor no clube, para participar do departamento de futebol. Tudo vai bem, até que o posto de técnico fica vazio. Bandeira botafoguense em seus tempos de jogador, Efigênio de Freitas Bahiense, o Geninho, fora afastado pela direção por pedir demais para renovar o contrato. Em uma situação inédita, João passa para a beira do gramado, estreando, assim, na função de técnico.
Antes de ir embora, Geninho, ex-combatente da Segunda Guerra e policial, alerta João sobre “Mané” Garrincha. O exuberante ponteiro direito era uma verdadeira “fera”, talento incrível com a bola nos pés e grande gozador fora de campo. A primeira tarefa do novel treinador seria, pois, domar o gênio meio infantil, meio demoníaco de Garrincha. O campeonato carioca de 57 seria definido por Nilton Santos como “uma espécie de romance policial”. O lateral esquerdo recorda que nenhum time despontou como franco favorito ao título, e o Botafogo de João Saldanha não era exceção. O goleiro Adalberto, um negro alto e forte, garantia uma certa segurança à zaga, ainda que esta contasse com o gabarito de Nilton Santos. A “enciclopédia” era, sem dúvida, o jogador de maior presença no time, pela sua hierarquia técnica e liderança. Outro que dava consistência ao setor era o médio Servilio, cujo nome verdadeiro era José Lucas. Oriundo do Flamengo, ele tinha o apelido pela sua semelhança com o antigo atacante Servílio do Corinthians. Também mostravam valentia o jovem zagueiro Tomé e o atacante Edson “praça Mauá”. E havia as cobras. Durante os jogos, a esfera circulava mansamente entre as travessuras de Garrincha e os toques cerebrais de Didi, até ser oferecida para os gols de Paulo Valentim e os petardos de Quarentinha, verdadeiras bolas de fogo.
Filho do outrora atleta vascaíno Quarenta, Waldir Cardoso Lebrego era um paraense tímido, que despontara para o futebol no Paysandu. Quando João Saldanha assumiu o time, uma de suas primeiras medidas foi pedir a volta de Quarentinha, que estava emprestado ao Bonsucesso. O atacante seria essencial na campanha do alvinegro. Durante feijoadas promovidas por Garrincha na sua terra natal, Pau Grande, Quarentinha exibia um grande apetite, devorando pimentas cruas com cachaça. Com uma dieta quente como aquela, energia não lhe faltava. E ele botava fogo nos jogos. Seus chutes eram de uma potência avassaladora, um pesadelo permanente para os goleiros rivais. O time foi se acertando e chegou à final contra o Fluminense. O que se viu então, foi um baile de proporções antológicas. O grande maestro da tarde foi Garrincha. Mesmo marcado com tenacidade por Clóvis e Altair, Mané causou grandes estragos na defesa tricolor, fazendo lançamentos precisos para Paulo Valentim. Placar final, 6 a 2 para o Botafogo. Incumbido por Saldanha com a tarefa de marcar Telê, o craque e pensador do onze “pó de arroz”, Quarentinha não fez gols no massacre.
Nesse mesmo ano de 1957, um jovem pianista americano atingia o topo das paradas. Enquanto Garrincha assombrava a todos com sua adorável irreverência, Jerry Lee Lewis magnetizava as platéias com o seu rock enérgico e novo. Um de seus sucessos foi justamente a canção “Great Balls of Fire”, que bem poderia ser a trilha sonora da pequena epopéia botafoguense. Virtuose como poucos, Jerry tocava o piano de forma selvagem, usando o cotovelo e os pés nas suas performances. Eram picardias de uma época romântica e inocente, também vivida por Garrincha, com seus dribles desconcertantes, e Quarentinha, com suas bolas de fogo queimando as redes contrárias.