Vou botar meu carro-bomba na avenida
Leio no jornal que Cesare Battisti estará em Caxias do Sul para autografar seus livros. Confesso que fiquei estarrecido com o fato. Afinal, independentemente dos méritos literários de Battisti, é óbvio que o italiano deve sua fama a crimes cometidos no passado, quando participou de um grupo terrorista envolvido em assaltos e assassinatos diversos. Tentarei não entrar no terreno pantanoso que envolve ideologias políticas. Alguém poderá perguntar qual o problema do homem narrar a sua história, a sua versão dos fatos? Até porque, (surpresa) Battisti nega as acusações. Sem problemas. Inclusive, um dos livros marcantes da minha vida foi “Os Carbonários” de Alfredo Sirkis, um relato humano e jornalístico (sobre a luta armada contra a última ditadura no Brasil) de teor maravilhoso e que mexeu com as minhas estruturas. O que me deixou triste foi constatar que, enquanto a grande maioria dos escritores de “verdade”, que luta de forma inglória e quixotesca para obter um pingo de reconhecimento junto ao público, algumas figuras gozam de uma exposição midiática tremenda, graças a atividades que nada tem a ver com a literatura em si.
Cito o exemplo de Chico Buarque. Não restam dúvidas quanto ao talento musical do autor de “A Banda” e “O Meu Amor”, entre tantas outras belas canções, assim como a sua importância dentro da cena artística em nosso país. Mesmo assim, gostaria de saber se os seus livros teriam recebido a quantidade considerável de láureas e elogios caso Chico fosse “apenas” um escritor. Atenção! Ninguém quer aqui impedir alguém de escrever apenas pelo fato de ser famoso em outro ramo. Chico não tem culpa nenhuma nisso, pelo contrário, tomara que as pessoas leiam o que ele escreveu e fiquem felizes. Até mesmo porque, todo letrista é um pouco poeta, são coisas que de certa forma se entrelaçam.
Entretanto, Cesare Battisti é um pouco demais para mim. Talvez eu devesse deixar isso pra lá, me preocupar com coisas mais importantes e parar de questionar a validade ou a fraude que repousa na figura do simpático “ativista” peninsular enquanto escritor. Não seria mais inteligente tirar alguma lição disso tudo? Quem sabe eu deva, a partir de agora, botar meu carro-bomba na rua, explodir uma penca de bancos, amolar a minha faca e mutilar algumas pessoas de forma sanguinolenta e cruel.
É provável que no lançamento do meu próximo livro a sessão de autógrafos seja das mais concorridas.