O fardo da invenção
O ofício do escritor traz consigo mistérios e absurdos que desafiam a compreensão. Afinal, o que leva uma pessoa a se debruçar sobre uma folha em branco, às vezes por horas a fio, parindo e sufocando intermináveis tentativas de produzir alguma coisa de conteúdo minimamente aceitável? Sem saber se alguém irá interessar-se por seus devaneios, o escritor trabalha como se estivesse tateando em um quarto escuro, entregue à própria sorte e risco. Abastecendo a nave que conduz o solitário aventureiro, o desejo de visitar portos distantes e comunicar-se com épocas futuras.
Para tanto, o artista sofre. Na busca de um sopro de inspiração qualquer, o pobre ourives do verbo depara-se com uma mescla de sentimentos tais como agonia, dor, loucura e renúncia. O ato de escrever demanda mais esforço físico que carregar cem quilos. É preciso estar bem descansado e lúcido para empunhar a pena pesada e cheia de espinhos que irá transpor o pensamento para o papel. Nem mesmo a prática é capaz de amenizar o calvário do processo criativo. Assim como o músico prestes a subir no palco, o escritor enfrenta uma nova emoção em cada frase concebida, fazendo da sua arte um ato de coragem instintiva.
Em troca da magia fugaz produzida pela palavra, o escritor deixa de comer, dormir, tomar uma cerveja gelada ou simplesmente entregar-se ao ócio de uma leitura agradável e sem compromisso. Batalhando insensível contra as teclas, em busca de algo que está dentro de si, ele suporta o castigo sem pestanejar, movido pela incerteza atroz de alcançar a beleza das letras.