A rua dos sonhos
Existe uma categoria de boxeadores desconhecida do grande público que merece um olhar mais atento. São atletas que ajudaram a construir a história desse belo e dramático esporte, mas que nem sempre receberam o crédito devido. Archie Moore é um deles. Nascido na pequena Benoit, no estado do Mississippi, Moore foi criado por sua tia Willie e seu tio Cleveland em St. Louis. Lá, o garoto começou a trilhar o caminho do boxe. Nos anos 1920, eram comuns as brigas de rua na cidade. Por incrível que pareça, essa prática tinha um caráter sadio e fascinante para as crianças, que confraternizavam tomando refrigerante após o “exercício”. Mesmo assim, Archie acabou preso e mandado a um reformatório, graças a uma tentativa de assalto. Quando a pena foi cumprida, o rapaz, inspirado pelo carismático peso-pena Kid Chocolate, buscou no boxe uma profissão.
Foi uma longa e árdua jornada, onde Archie aplicou nocautes e colecionou viagens ao redor do mundo antes de ter a chance de lutar pelo título dos meio-pesados. A consagração veio em dezembro de 1952, quando Archie venceu o campeão Joey Maxim e apoderou-se do cinturão. Contudo, a luta que ficou eternizada como um momento de rara beleza dentro do esporte aconteceu seis anos depois. Dessa vez seria Moore a defender o título. O “velho mangusto”, como o pugilista era também chamado, graças à sua pele negra e cabelos espetados que faziam lembrar o animal, teria um osso duro de roer pela frente. O desafiante Yvon Durelle era um ex-pescador canadense dono de ombros largos como os de Tarzan e um golpe fulminante de direita. Quando soou o gongo, Durelle subitamente tomou as rédeas do combate, derrubando Archie nada menos do que três vezes somente no primeiro assalto. Relembrando o episódio, o “velho mangusto” afirma ter “caminhado pela rua dos sonhos” ao beijar a lona, como se seus sentidos estivessem em uma outra dimensão, alterados pelo terrível impacto do punho de seu contendor. Estrelas girando, luzes coloridas e outros delírios mais devem ter povoado a mente do campeão, enquanto ele tentava instintivamente reerguer-se. Sob o olhar incrédulo do público presente ao Montreal Fórum, Archie resistiu ao castigo para, no décimo-primeiro assalto, nocautear Durelle em uma reviravolta sem precedentes na história do boxe.
Quem também caminhou pela rua imaginada por Archie foi Joe Louis, outro monstro sagrado da nobre arte. O responsável por mandar Louis a nocaute foi o alemão Max Schmeling, um pugilista esperto que tinha mãos insensíveis e duras como pedras. Embora tenha sido o campeão dos pesos-pesados entre 1930 e 32, Schmeling ganhou destaque, de fato, graças ao dia em que deixou Joe Louis esparramado na lona como se fosse um boneco de pano. Nos instantes em que o juiz contava até dez, o “bombardeiro marrom” de Detroit passeou por um mundo estranho, onde sua consciência ganhou contornos imprecisos e tênues como os de uma sombra. Ao contrário de Moore, Louis não se levantaria. A luta para ele acabou no “round” de número doze, mas uma noção clara dos acontecimentos só viria no ambiente tristonho do vestiário.
As garras de uma derrota improvável sempre são mais afiadas. A decepção sentida por Louis, que vinha trilhando o caminho da glória a passos largos quando sofreu o revés no duelo com Schmeling, assolou também a seleção brasileira de futebol após a final da Copa do Mundo de 1950. Aureolada com um favoritismo poucas vezes visto na história do torneio, a equipe do técnico Flavio Costa acabou perdendo o jogo e o título para o Uruguai dentro do Maracanã, a catedral do popular esporte tupiniquim. Mais do que um soco no estômago, a derrocada foi um baque de proporções avassaladoras, levando jogadores como os grandes Zizinho e Jair Rosa Pinto a sair perambulando pelas ruas como zumbis, envolvidos em um misto de loucura e fantasia. Pelas calçadas escuras, enquanto buscavam o rumo dos seus lares, o espectro do fracasso era um pesadelo real do qual os atletas brasileiros tentavam inutilmente acordar.
Apesar dos momentos de dor física e psicológica gerados no calor da disputa, o mundo do esporte é uma fonte inesgotável de virtudes. Com o passar dos anos, as seleções de Brasil e Uruguai envolvidas na final de 1950 criaram um vínculo de amizade, reunindo-se com frequência, como se fossem veteranos de uma guerra sem fuzis. Da mesma forma, Max Schmeling e Joe Louis estreitaram laços de admiração e respeito após pendurarem as luvas, tendo, inclusive, o alemão arcado com as despesas do funeral de Louis. E Archie Moore e Yvone Durelle nunca perderam a chance de exaltar um ao outro ao longo da vida. O significado da luta épica protagonizada por eles permaneceu vivo, ajudando a construir uma outra rua dos sonhos, feita de bravura, nobreza e humanidade.