Os admiráveis bailarinos do esporte
Uma orquestra tocando noite adentro, uma pista para dançar tango, um cálice de vinho. Se a luz estivesse tênue, tanto melhor para Moreno. Em seu abraço tenaz, invariavelmente, uma bela mulher. O ritmo da música conduz Moreno, suas pernas instintivamente seguindo a milonga triste. No dia seguinte, ele trocaria o terno de linho pelo calção, o sapato pela chuteira, a gravata pela camisa da “banda roja” do River Plate. O salão pelo gramado de um campo de futebol. A única coisa que não mudaria era a adoração que José Manuel Moreno despertava nas multidões. Atuou em filmes de cinema e foi um atleta cigano, defendendo, além do River, onde foi campeão argentino em 1936, 37, 41 ,42 e 47, times do México, Colômbia, Chile e Uruguai. Para os mais antigos, livres do vício alienante da televisão, ele foi melhor do que Maradona. Jogava para o torcedor humilde, embalando os sonhos da plebe com suas atuações mirabolantes. Apesar do caráter introspectivo do cidadão portenho, a presença de Moreno dentro de campo era um show, algo que teve muito a ver com a sua condição de dançarino. Além do fato do tango ser um fenômeno popular, o que gerava uma empatia instantânea entre o craque e as massas, as noites transcorridas bailando nos cabarés de Buenos Aires serviam como exercício para Moreno: -“A mi me gustaba mucho bailar el tango y hasta los días jueves íbamos, con los muchachos, al Tibidabo o al Chantecler. Nos encontrábamos con pibas, con amigos, nos aflojábamos de los problemas y bailábamos el tango, algo que nos daba una gimnasia bárbara: estabilidad, compás, agilidad, ritmo”.
É notório que o hábito de dançar favorece o atleta. Antes de ser famoso, o campeão mundial dos pesos pesados Rocky Marciano era um assíduo frequentador de bailes dançantes. Ao contrário de Moreno, a sua habilidade era desprezível. O seu interesse maior era bater papo com os amigos. Isso até ele conhecer Bárbara, uma bela garota praticante de esportes e que seria a sua futura esposa. O desajeitado Rocky, então, pedia para a moça ensinar-lhe alguns passos, com o objetivo de melhorar o seu jogo de pernas para o boxe. Nos ringues, Rocky transbordava essa obstinação, essa ânsia de vencer a despeito de suas limitações. No tempo em que carregava cestas de uva até o porão do seu avô Luigi, o jovem já sonhava com voos maiores, exercitando os músculos enquanto esmagava a fruta para fazer vinho. Os anos 1940 e 50 foram os anos de Rocky. Um lutador que venceu graças a um golpe fulminante de direita, uma determinação sem limites, e, por que não, às aulas de dança da sua diligente namorada.
Na mesma época em que reinou Rocky, o boxe produziu um dos atletas mais impressionantes da sua história. Estou falando de Sugar Ray Robinson, segundo muitos entendidos, o melhor, “pound for pound”, ou seja, libra por libra, a medida de peso utilizada para aferir os pugilistas. Isso equivale dizer que ele teria sido o melhor entre todos, independentemente da categoria, do mais leve ao mais pesado. Peço a gentileza do leitor não confundir o personagem desta crônica com Sugar Ray Leonard, também um grande lutador, mas que atuou mais na década de 1980. Durante a sua infância, em Nova Iorque, o Sugar Ray original viveu momentos difíceis. Eram os anos 1930, logo após a quebra da Bolsa de Valores e a pindaíba era geral. O garoto, então, dançava em frente aos teatros da Broadway, ganhando alguns trocados para comprar balas. Certo dia, admirado com a habilidade do guri, um empresário levou Sugar Ray para se apresentar de verdade, no interior do teatro. Apesar de um pouco nervoso, o menino prodígio não decepcionou, arrancando palmas calorosas da platéia. Mais tarde, já adulto e famoso como campeão de boxe, Robinson empregou uma volta aos palcos. Isso foi depois dele sofrer o único nocaute da sua carreira contra Joey Maxim, em junho de 1952. Sugar Ray, então, abandonou momentaneamente os ringues e, vestindo um “smoking” amarelo e abotoaduras dançou em cassinos e boates, recebendo cachês dignos de um Gene Kelly. Para manter-se em forma, ele fazia corridas e treinava mais forte do que como boxeador. Afinal, suas pernas tinham que estar sempre prontas para o espetáculo.
Dentro do ringue, Robinson era igualmente espetacular. Uma das suas principais virtudes era o balanço, a rapidez nos golpes e a técnica. Seus alvos eram a têmpora, o coração e o fígado do oponente. Apesar disso, Robinson era um lutador que não gostava de punir o adversário, mas sim, brindar o público com uma atuação decente , finalizando a luta rapidamente sempre que podia fazer isso. Ídolo de Muhammad Ali, Sugar Ray Robinson, durante os vinte e cinco anos em que atuou nos ringues, passou da mais absoluta pobreza aos píncaros da fama e da fortuna, até voltar a ser um cidadão comum no fim da sua vida. No ringue ou na ribalta, um talento a ser lembrado, com seus pés dançando e contando belas histórias.