Líricos e brutais
Por entre sofás de couro, abajures e porta retratos, eles circulavam, os punhos nus e a consciência levemente ébria. Alegres como dois meninos, Ernest Hemingway e Gene Tunney trocavam golpes ludicamente, pelo prazer do exercício físico e da amizade. O grande escritor americano era um notável entusiasta do boxe e, sempre que podia, desafiava algum pugilista de outrora para testar as suas habilidades. Tunney, por sua vez, era íntimo das rodas intelectuais. Letrado, ombreava-se sem problemas com figuras como, por exemplo, George Bernard Shaw, de quem inclusive era amigo. Após destronar o mítico Jack Dempsey do posto de campeão dos pesos pesados, em 1926, Tunney definitivamente entrou para a história do esporte. A segunda luta entre eles, no ano seguinte, foi marcada pela polêmica. Quando Dempsey derrubou o rival no sétimo assalto, os cem mil espectadores no Soldiers Field, em Chicago, entraram em êxtase. Nesse instante, talvez cego pelo desejo de vingança, o estupendo lutador não recuou para um canto neutro do ringue, o que acabou distraindo o juiz. Na confusão, Tunney ficou mais do que os dez segundos permitidos se recuperando e, posteriormente, venceu o combate por pontos. O episódio ficou conhecido como “a luta da longa contagem”.
Algum tempo depois, Hemingway passou a receber Tunney com grande hospitalidade na sua casa, em Cuba. O autor de “O Velho e o Mar” gostava de ter um drink sempre pronto para brindar com o ex-campeão. No dia em que protagonizavam o estranho bailado sobre os tapetes da sala, Hemingway, de forma desajeitada e involuntária, acertou um golpe baixo. Tunney, que em seu auge tinha um estilo cerebral de lutar, foi tomado pelo instinto de esmurrar sem dó a face do anfitrião. Para sorte de Hemingway, o excelso pugilista conteve sua ira milímetros antes de acertar o alvo e a brincadeira acabou por ali mesmo.
Durante as décadas de 1940 e 50, Mario Lanza gozou de imensa popularidade dentro do “showbusiness”. Além de ser um tenor da mais fina estirpe, Mario exibia seu talento em canções românticas nas telas do cinema. A sua interpretação de Enrico Caruso permanece até hoje na lembrança dos fãs da boa música e da sétima arte. Fazendo o papel do seu ídolo, Mario deixou fluir a potência, o lirismo e a paixão que emanava da sua voz. A sua estampa impressionante, composta por largos ombros e um peito sempre estufado, explica-se pela devoção do cantor pelo boxe e pela cultura do corpo. É claro que na sua profissão de tenor ter uma caixa de ressonância avantajada contava muito. Mas o fato é que Mario foi, até o final dos seus dias, um lutador diletante. Não causa espanto, pois, a sua forte amizade com Rocky Marciano, o lendário e invicto campeão dos pesos pesados. Além do esporte e da culinária italiana, admiração e respeito mútuo serviam de magneto entre eles. Certa vez, Mario recebeu Max Baer em sua casa. Também conhecido como “O Arlequim do Pugilismo”, Baer amealhou o cinturão da categoria máxima do boxe em 1934. Fiel ao seu apodo, o bravo campeão tinha uma veia humorística notável, sempre sorridente e disposto a entreter as platéias. Após beberem algumas taças de vinho, Baer gaba-se que Rocky não teria sido páreo para ele. Mario discorda e as duas figuras começam a “treinar” na sala. Imitando o jeito de lutar agachado do amigo Rocky, o tenor acerta um gancho de esquerda, deixando o fanfarrão estirado sobre uma poltrona.
Mãos pesadas e rudes podem produzir linhas belas e suaves sobre uma folha de papel. Eder Jofre, a glória maior do boxe brasileiro, é, também, um talentoso desenhista. Desde a sua infância, o virtuose dos ringues empunhou o lápis para traçar imagens de rara sensibilidade. Com a mesma desenvoltura com que fazia os rivais beijarem a lona, Eder impressionou nomes consagrados da pintura como, por exemplo, o grande artista cearense Aldemir Martins. Contudo, as façanhas esportivas acabaram por ofuscar a sua faceta, digamos, subjetiva. Em novembro de 1960, Eder enfrentou o mexicano Eloy Sanchez no Olympic Auditorium, em Los Angeles. Diante de um público na sua maioria hostil e personalidades como o ator Kirk Douglas e o genial peso médio Sugar Ray Robinson, Eder alcançou o topo da sua árdua caminhada dentro do boxe. As vitórias contra inimigos clássicos, como Ernesto Miranda e o perigoso Joe Medel, não tinham sido em vão. No sexto assalto prevaleceu a qualidade e a têmpera do “Galo de Ouro”. Uma combinação perfeita de golpes pôs o valente Sanchez a nocaute, desencadeando uma bonita festa em todos os cantos do Brasil. Finalmente Eder Jofre era campeão mundial!
Em um primeiro momento, o boxe pode parecer um esporte brutal. Porém, é preciso analisar a brutalidade como algo relativo. Afinal, quantas pessoas de físico esquálido e inofensivo possuem um caráter torpe e mesquinho, capazes de vilanias e desumanidades de todos os tipos? Por outro lado, até mesmo os artistas mais sublimes viveram o sonho e a magia de desafiar o medo e a dor. E deixar para trás, junto com o suor da luta, a raiva e a solidão que existem dentro da alma humana.