Sonhos de um urubu
Outro dia, encontrei um livro perdido em um armário. Eu devia ter uns quinze anos, mais ou menos, quando li esse livro. Era a história de um urubu que sonhava em ser gente. O nome do livro era “Cândido Urbano Urubu”, de Carlos Eduardo Novaes. Cândido era um urubu pequeno, digamos criança, que se recusava a voar. Tudo para parecer gente, afinal gente não voa. Em determinado momento da narrativa ele, que vivia no campo, vai para a cidade, na esperança de aprender os segredos dos homens.
Sabemos que o urubu é o símbolo do Flamengo, time que conta com uma torcida numerosa nos quatro cantos do país. Talvez o mascote tenha sido escolhido em função das condições da maioria dessa torcida, pobre e negra, retrato da essência do povo brasileiro. Pois bem, corria o ano de 1981, e essa grande massa sonhava com vôos mais altos, já que o rubro-negro acabara de erguer a Libertadores da América, após dura contenda com o chileno Cobreloa. No primeiro jogo, vitória brasileira no Maracanã. Em Santiago, porém, o onze carioca sofreu com a truculência do regime de Pinochet. Um verdadeiro clima de guerra foi armado para intimidar o rubro-negro. Pressão fora de campo, covardia dentro dele. Lico, um dos maestros do time, quase ficou cego, além de perder alguns dentes, graças à violência do zagueiro Mario Soto. O desempate foi no campo neutro do estádio Centenário de Montevidéu, ocasião em que prevaleceu a hierarquia de Zico, “o galinho de Quintino”, e seus asseclas.
Enquanto isso, no velho mundo quem dava as cartas era o Liverpool. Na final da Liga dos Campeões, em Paris, o conjunto inglês despachou o sempre perigoso Real Madrid. O gol da vitória saiu após uma arrancada espetacular de Alan Kennedy, levando à loucura os fanáticos torcedores bretões. Aliás, o Liverpool era um belo time. O lateral Phil Neal, presença marcante na seleção inglesa, dava segurança à defesa, juntamente com seu xará Phil Thompson. E havia também a famosa trinca escocesa, formada por Alan Hansen, Graeme Souness e Kenny Dalglish, sobre quem peço licença para falar um pouco. Na sua infância, Dalglish fora um fervoroso torcedor do Rangers de Glasgow, sua cidade natal. Todavia, para um adolescente que sonha em jogar em um grande clube, não é dado o luxo de escolher, e ele acabou contratado pelo grande rival, o Celtic. Nessa época, ele idolatrava o carismático goleador Denis Law, uma das bandeiras da seleção escocesa. Mais tarde, seria o próprio Dalglish um recordista em atuações com a camisa azul-marinho de seu país. Agora, no Liverpool, o meia era peça fundamental no esquema do técnico Bob Paisley.
Planeta Terra, cidade Tóquio. Dezembro de 81. Flamengo e Liverpool pisam na relva de um ensolarado estádio Nacional para o choque final entre os campeões sul-americano e europeu. A luz dos televisores ligados ilumina a madrugada de domingo no Brasil. Ninguém quer perder o grande jogo. O juiz assopra o apito, começa a peleja. Andrade para Júnior, Júnior contra Dalglish, vantagem para o paraibano. As ações favorecem o time brasileiro, até que, aos 12 minutos, surge Nunes. Aproveitando um belo passe de Zico, “o artilheiro das grandes decisões” ilude o goleiro Bruce Grobbelaar, tirando o zero do placar. O tempo passa e a disputa na meia cancha é voraz. Falta a favor das hostes rubro-negras. Zico corre para a bola, a zaga dá rebote e Adílio, “o neguinho bom de bola”, viola inapelavelmente a cidadela britânica. A vitória está próxima. Ainda na primeira etapa sai o terceiro gol. Nunes de novo. Com sua indefectível juba balançando no ar, o artilheiro comemora com o resto do time. Era o ápice da história do Flamengo.
No livro que eu li, o urubu não vira gente. Impressionado com o ritmo frenético da cidade grande, ele pensa que talvez o ser humano seja um refém da sua própria ganância. Mas, como todo urubu, ele deve ter exultado com a façanha da equipe brasileira. Afinal, ele era o símbolo daquela massa tão sofrida, que em um instante sublime assistia o time dos seus amores ser campeão.