Sem remorso
Sem remorso
Madison Square Garden. O templo sagrado do boxe em Nova York, palco de memoráveis combates na época de ouro desse esporte. Estamos em dezembro de 1930 e, em breve, uma nova luta terá início. Não será uma luta qualquer, entre dois pugilistas adversários pela vitória, mas a luta de um homem contra um de seus mais profundos e terríveis sentimentos: o remorso.
Max Baer, filho de um açogueiro judeu da Califórnia, era conhecido pelo seu estilo fanfarrão, sempre com um sorriso nos lábios. Para muitos críticos, porém, não possuía coragem e determinação para ser um bom boxeador, o que ele compensava com uma força incrível nos braços. “O Carniceiro de Livermore” era, sobretudo, uma espécie de aventureiro, que gozava a vida cercado do luxo e da fama proporcionados pelo boxe. Antes de subir no famoso ringue , enquanto fazia boxe-sombra para relaxar no vestiário, Max pensava na fatalidade ocorrida na sua última luta. Um combate em que a tragédia se abateu sobre ele e seu contendor, Frankie Campbell. Em determinado instante, Campbell descuidou-se e recebeu um murro avassalador na cabeça. Mesmo assim, a luta prosseguiu, até que no quinto assalto Baer encurralou o rival nas cordas e desferiu uma saraivada de golpes, provocando o nocaute. Levado a um hospital em San Franscisco, Campbell veio a falecer devido à gravidade dos ferimentos. O sorriso, marca registrada de Baer, desapareceu por completo nos meses que seguiram. E foi assim, refém de uma angústia que quase o fez abandonar a carreira, que ele enfrentou Ernie Schaaf no Madison Square Garden, perdendo por pontos após dez assaltos. A revanche contra Schaaf viria dois anos depois, em Chicago. Em outra feroz batalha, Baer castigou duramente o oponente. Seqüelado, Schaaf morreria após um combate com Primo Carnera, em fevereiro de 1933. Mas, o burburinho dos cafés entre os entendidos do boxe não deixava dúvidas: o verdadeiro responsável pela tragédia era Max Baer, que carregaria um triste peso na consciência, até morrer de ataque cardíaco em 1959.
Geralmente, os grandes campeões são dotados de nobreza e fidalguia. Um caso curioso ocorreu com o nosso exímio pugilista Éder Jofre, durante sua luta com o italiano Nevio Carbi em 1970. Graças à sua técnica e força superiores, o “Galo de Ouro” dominava o rival, que, cansado de tanto apanhar, pediu que Éder diminuísse o ritmo. Porém, Jofre pensou tratar-se de um truque e castigou ainda mais o pobre europeu. Após a luta, Carbi explicou que realmente correra perigo e Jofre, com a sua pureza peculiar e um aperto no coração, pensou em deixar os ringues, arrependido com a brutalidade que cometera. Nascido no seio de uma família de pugilistas, Éder Jofre sempre foi adepto do boxe limpo e leal.
Um dos maiores lutadores de todos os tempos foi, sem dúvida, Mike Tyson. Dono de um estilo selvagem, ele costumava nocautear seus adversários após poucos segundos de luta. E suas táticas não eram de todo válidas ou aceitáveis. Como, por exemplo, seu hábito de bater depois do gongo soar encerrando um assalto, ou usar os cotovelos para fustigar o rival em meio a um “clinch”. Amado por uns, odiado por outros, o seu carisma era evidente, em muito graças à esperteza de seus empresários, que souberam criar uma aura de invencibilidade ao redor de Tyson. Seus oponentes já entravam no ringue sob forte temor, derrotados por antecipação. Mesmo assim, ele apresentava certos traços de compaixão. Fã de filmes antigos sobre boxe, Tyson chegou a imitar o gesto do lendário Jack Dempsey, que costumava ajudar o rival nocauteado a caminhar até seu córner. Mas, na maioria das vezes, Tyson era uma verdadeira máquina de bater, insensível até mesmo com seus “sparrings” e dono de uma personalidade agressiva também fora do tablado.
Na verdade, aquele delinqüente juvenil produzido pelas ruas do Brooklyn, poderia ter se regenerado através do esporte. Seu tutor em seus primeiros dias de boxe, Cus D’Amato, tentou pavimentar um caminho digno para Tyson. Para o velho técnico, o boxe era uma questão de vontade antes que habilidade, e ele possuía essa garra como ninguém. Sua derrocada foi uma perda para o esporte, mas também para a sociedade, que com suas desigualdades em nada contribuiu na formação do caráter do menino. Campeão Mundial e dono de milhões de dólares, Tyson perdeu tudo. Ao contrário de Max Baer e Éder Jofre, viveu e lutou sem remorso, maltratando adversários e, principalmente, a si mesmo.