Letras no gramado
Letras no gramado
Desde que começou a ser praticado no Brasil, o futebol sempre despertou sentimentos antagônicos dentro da sociedade. Para alguns, era uma perda de tempo ou uma coisa de desocupados. Para outros, uma atividade saudável, e que trazia no seu cerne as benesses que o espírito esportivo produz: o respeito e a camaradagem entre as pessoas. Entre os escritores a coisa não foi diferente. O futebol, para o bem ou para o mal, atiçou a verve nessa classe desde seus primórdios, sendo tema de debates acalorados.
Filho de um português e de uma escrava, Lima Barreto foi um tenaz opositor à prática do esporte no início do século passado. O autor de “Triste Fim de Policarpo Quaresma” chegou até a organizar uma “Liga Brasileira Contra o Football”. Para ele o futebol era um fator de desagregação social que desviava a atenção das pessoas de assuntos mais importantes. Combatido pelos parnasianos, Lima Barreto sempre mostrou em sua obra preocupação com a realidade brasileira, estabelecendo uma ponte entre os estilos romântico e modernista. Este grande expoente de nossas letras morreu em 1922, deixando como herança uma produção de valor inestimável.
As raízes do futebol, porém, já estavam irreversivelmente plantadas no nosso cotidiano. Elevado à condição de “verdadeira instituição brasileira”, nas palavras de Gilberto Freyre, o esporte conquistava novos adeptos a cada dia. Foi Freyre o autor do prefácio do livro “O Negro no Futebol Brasileiro” de Mario Filho. Essa notável obra literária, que tem a sua primeira edição em 1947, estabelece um verdadeiro retrato da identidade do nosso povo. Interessante o paralelo que Freyre traça entre dois craques, cada um no seu ofício: “Domingos (...) está para o nosso futebol como Machado de Assis para nossa literatura, isto é, na situação de uma espécie de inglês desgarrado entre os tropicais”. É que o grande Domingos da Guia tinha um estilo mais sóbrio de jogar, contrário aquela coisa mais rítmica, herdada do samba e da capoeira.
Outro grande escritor a dedicar-se ao futebol foi José Lins do Rego. Esse paraibano do município de Pilar participou ativamente do processo que transformou o esporte em assunto importante nas páginas dos jornais. Com suas crônicas publicadas no Jornal dos Sports entre 1945 e 57, o autor de “Menino de Engenho” foi um dos primeiros “parciais” clubísticos dentro da imprensa. Era Flamengo assumido, sendo integrante de uma espécie de confraria, os “Dragões Rubro-Negros”. Durante o Sul-Americano de 53 em Lima, houve um mal entendido envolvendo o escritor e o craque Zizinho. Foi o fim de uma amizade. Tudo teria acontecido por diferenças quanto ao “bicho” pago aos jogadores. José Lins, atuando como funcionário da CBD, era o chefe da delegação brasileira nessa ocasião.
Quando Heleno de Freitas foi jogar na Colômbia em 1950, um jovem aspirante a escritor era repórter esportivo em Barranquilla. Na redação do jornal “El Heraldo”, Gabriel Garcia Márquez escreveu vários textos analisando as atuações exuberantes do brasileiro com a camisa do Atlético Junior. Ele não era ainda o autor de “Cem Anos de Solidão”, mas pode-se dizer que com o seu talento ajudou a registrar momentos preciosos do esporte. Da mesma forma Eduardo Galeano escreveu sobre o tema. Entre outras obras consagradas de nosso vizinho uruguaio podemos citar “As Veias Abertas da América Latina”, um relato de como nosso continente foi saqueado pelas nações européias. Com “Futebol ao Sol e à Sombra”, Galeano nos deixa um verdadeiro clássico e exemplo vivo de que o esporte instiga também os grandes intelectuais.
Para terminar, poderíamos citar João Cabral de Melo Neto. Eleito por unanimidade para a Academia Brasileira de Letras em 1969, o autor de “Morte e Vida Severina” é famoso por ter imortalizado o craque palmeirense Ademir da Guia em um poema. Aqui vai um trecho: “Ademir impõe com seu jogo o ritmo do chumbo (e o peso), da lesma, da câmara lenta, do homem dentro do pesadelo”. Felizes de nós que podemos desfrutar desses gênios falando daquilo que o povo gosta. Afinal, como diz o ditado, “mens sana in corpore sano”.