Paulo Valentim - Goleador esquecido
Paulo Valentim – Goleador Esquecido
Se me permitem, hoje eu gostaria de divagar sobre um jogador pouco conhecido da maioria. Infelizmente a memória da gente é curta e os craques do passado estão condenados ao limbo do esquecimento, perdidos e menosprezados pelo público em geral. Já é hora, portanto, de resgatar a história. Faz-se mister dar luz a fatos que ontem povoaram o imaginário popular, fazendo o entusiasta do futebol vibrar e sofrer, sentir e se emocionar. O jogador a que me refiro é Paulo Valentim. Nascido em Barra do Piraí (RJ), militou no Guarani de Volta Redonda e Atlético Mineiro, antes de chegar ao Botafogo. Típico centroavante, trazia dentro de si uma avalanche de gols, sendo capaz, porém, de desperdiçá-los na mesma dose.
Na decisão do Campeonato Carioca de 1957, Paulinho é protagonista de relevo, ao marcar cinco vezes na vitória de 6x2 sobre o Fluminense. O técnico botafoguense era o nosso João Saldanha que havia dado ordens para que Quarentinha não desgrudasse de Telê, anulando assim o jogador mais inteligente do ataque tricolor. Garrincha e Didi alimentaram Paulinho o jogo inteiro e ele, em uma jornada de gala, fez gol até de bicicleta, para desespero do pobre goleiro Castilho. Essa soberba atuação, contudo, não foi suficiente para levá-lo à Copa da Suécia, já que Mazzola e Vavá eram os escolhidos por Vicente Feola para a posição. Em 59 o Brasil disputa o Sul Americano em Buenos Aires. Trata-se da primeira competição oficial desde a conquista do caneco no ano anterior. Desta vez Paulo Valentim está entre os convocados. No dia do jogo contra o Uruguai, o “onze” verde-amarelo entra no estádio Monumental de Nuñez escalado da seguinte maneira pelo técnico Feola: Castilho, Djalma Santos, Orlando, Bellini e Coronel; Formiga e Didi; Garrincha, Almir, Pelé e Chinesinho. No final do primeiro tempo, Almir, duramente provocado pelos zagueiros da “celeste”, é agredido, o que faz Pelé sair em sua defesa. O sururu está formado. Os 22 jogadores partem para a briga, com direito a uma voadora de Didi em defesa de Chinesinho. Após o tumulto, o Uruguai sai na frente, através de Escalada. No segundo tempo Paulinho entra no lugar de Coronel e marca três vezes, virando o jogo sensacionalmente. Essa orgia futebolística de Paulinho desperta a cobiça dos anfitriões do torneio. Boca e River no início da década de 60 estavam atrás de jogadores estrangeiros, que com o seu carisma pudessem trazer o torcedor de volta aos estádios. Se fala de “futbol espectáculo”, o que para o jornalista Diego Fucks foi uma: “locura importadora de jugadores”. Loucura ou não, o fato é que Paulo Valentim é contratado pelo Boca Juniors. O presidente da equipe argentina é o lendário Alberto Armando. Seu recado para Paulinho é claro: “Usted hágale goles a River. De los demás partidos no se preocupe”.
E assim foi. Com a camisa azul e ouro, Paulinho fez dez gols contra o River, sendo até hoje o máximo goleador do Boca no confronto contra o rival. Sua vítima preferida era o goleiro Amadeo Carrizo, verdadeiro baluarte e revolucionário no estilo de jogo na sua posição. O fato é que pela sua entrega e vocação para o gol, Paulo Valentim é até hoje figura obrigatória na galeria dos heróis “boquenses” de todos os tempos. Após o sucesso na Argentina, Paulinho ainda jogaria no México, sem o mesmo brilho. Volta para Buenos Aires, onde vem a falecer em 1984. Seu nome já é uma lenda e o grito da torcida, que fazia tremer o grande Carrizo, parece que ainda paira no ar: “Tim...Tim...Tim...Gol de Valentim”.