Pelas docas de Liverpool

Caminhando pelas docas de Liverpool, em determinadas manhãs de janeiro, é impossível vislumbrar o horizonte. Ele se mistura com o mar, a névoa produzindo uma espessa cortina cinza que envolve os dois. O frio é intenso e os pingos de chuva caem sem dar trégua. Foi por essa porta de entrada que muitos irlandeses chegaram à cidade para jogar no Liverpool.
Elisha Scott foi um deles. O goleiro baixinho nascido em Belfast foi um dos responsáveis pela conquista do bicampeonato inglês pelo Liverpool, em 1922 e 23. Ficaram famosos os duelos entre ele e Dixie Dean, notável goleador do rival citadino Everton. De acordo com a lenda, quando ambos se cruzavam pelas ruas e Dean acenava com a cabeça para Elisha, este voava para defender uma bola de faz de conta, usando a moldura da janela de uma loja qualquer como se fosse o gol. De fato, uma das armas letais de Dean era a sua jogada de cabeça e ele detém o recorde de gols em um campeonato, tendo balançado as redes 60 vezes em 1928, ano em que o Everton foi campeão. Grande fã e praticante de boxe, Dean também sofria nas mãos dos zagueiros. O jornalista Ian Wooldridge conta uma história impressionante ocorrida no início da carreira do atacante. Após sofrer uma séria lesão provocada pela truculência de um defensor, Dean, mais tarde, vingou-se aplicando uma surra no seu agressor quando este saía de um pub. Já Elisha possui o carinho da torcida pela sua longa permanência sob as traves do Liverpool. Afinal, foram mais de duas décadas envergando a casaca vermelha. Além de ser um goleiro hábil e corajoso, o irlandês possuía também o dom da oratória, sendo seus discursos antes dos jogos muito apreciados pelos companheiros.
Hoje em dia, Liverpool tem uma população muito inferior à de outras épocas. Na década de trinta do século passado mais de oitocentas mil pessoas viviam lá. Em 1966, a cidade hospedou em suas ruelas medievais a seleção brasileira que disputava a Copa da Inglaterra. Com uma preparação deficiente, tanto dentro como fora das quatro linhas, a equipe canarinho decepcionou a turba que compareceu aos jogos no estádio do Everton, Goodison Park. Após a vitória na partida de estréia contra a Bulgária, o Brasil perdeu para Hungria e Portugal, sendo eliminada na primeira fase do torneio. No seu compromisso contra a seleção da “pantera negra” Eusébio, o técnico Vicente Feola mudou a formação de praticamente todo o time: Manga, Fidélis, Brito, Orlando e Rildo; Denílson e Lima; Jairzinho, Silva, Pelé e Paraná, viram o sonho do tri se desmanchar como a espuma das ondas golpeando as docas da cidade.
O cidadão comum de Liverpool é um vibrante fã de futebol. Muito prestativo, traz na ponta da língua seu ídolo, seu jogo inesquecível. Em uma parada de ônibus qualquer, um senhor imerso em um sobretudo cinza como o céu, esbugalhará os olhos para dizer que Ian Rush foi o grande nome do seu time nos últimos tempos. Maior artilheiro histórico do Liverpool, o galês formou uma sociedade inesquecível com Kenny Dalglish durante os anos oitenta, período em que o clube ganhou vários títulos. Rush aproveitava os lançamentos açucarados de Dalglish e, valendo-se da sua velocidade ímpar, castigava os goleiros sem dó. Mas nem sempre foi fácil. Na final da Liga dos Campeões de 1984, o Liverpool enfrentou a Roma. Por mera coincidência, a partida foi realizada no Estádio Olímpico da “cidade eterna”. O time italiano, porém, não soube aproveitar o fator local e perdeu a taça após uma sofrida decisão nos pênaltis. Na ocasião, a torcida inglesa teria sido hostilizada pelos anfitriões, fato que pode ter incentivado os “hooligans” a darem o troco no ano seguinte, quando a Juventus foi para a final do mesmo torneio contra o Liverpool e teve vários simpatizantes mortos na famigerada tragédia de Heysel.
Não podemos esquecer que Liverpool foi o berço de uma das bandas mais simpáticas do rock, aquela formada por John, Paul, Ringo e George. No bairro do IAPI em Porto Alegre, alguns rapazes entraram na onda e fundaram o grupo Liverpool, em 1965. Três anos mais tarde veio o primeiro LP, “Por Favor Sucesso”. Mimi e Marcos Lessa, Peko Santana, Edinho Espíndola e o carismático Fughetti Luz lançavam, assim, a semente do rock gaúcho. Sabemos que o Rio Guaíba não é o Mar da Irlanda, mas, naquele tempo de tremendas revoluções, eles eram feitos da mesma água.
Quando o Liverpool venceu o Milan na final da Liga dos Campeões em 2005, uma coisa incrível aconteceu. A torcida do Everton se uniu às festividades, recebendo os vencedores com um honesto entusiasmo nos braços. Acima das rivalidades mesquinhas prevaleceu o espírito esportivo. Após mais um dia de trabalho nas docas, pescadores, estivadores e marujos em geral rumaram para o pub mais próximo. Entre jarras de cerveja brindaram a façanha, enquanto que, lá fora, o reflexo da lua de maio pairava sobre o mar plácido e sereno.