Zizinho e a barca
Postado em 29/6/2009 at 08:43 PM
Zizinho e a barca
As amarras se soltaram e a barca começou a deslizar suavemente pelo mar. A brisa acariciava os cabelos de Zizinho, enquanto que o seu rosto duro fitava o horizonte. Quantas vezes ele havia feito o trajeto até sua casa em Niterói? A barca era sua amiga e proporcionava momentos de conforto, alívio para as armadilhas da vida e do seu ofício de jogador de futebol. Em que pese o fato de ser um ídolo, tantos dissabores ele vivera. E os bancos de madeira da barca eram testemunhas da sua tristeza, das suas mágoas.
Mas nem sempre foi assim. Nos seus dourados anos vestindo a camisa do Flamengo, Zizinho fora tremendamente feliz. Basta lembrar o famoso tri campeonato carioca: 1942, 43 e 44, época em que o seu talento era a força locomotora de um time inesquecível, com a classe estarrecedora de um Domingos na retaguarda. Ou com a fúria goleadora de um Perácio, o canhão de Nova Lima, chamado também de “pé de chumbo” pelo cronista Luiz Mendes. E como olvidar do bom companheiro gaúcho Pirilo, notável estilista na arte de vazar as redes inimigas? Não. Definitivamente a vida não era um rosário de lamentações para Zizinho.
As emoções confundiam-se no peito do craque à medida que a barca ganhava águas profundas. A verdade era que agora ele defendia as cores do Bangu. Um clube que ele veio a amar e no qual fez novas amizades. Sem embargo, a sua saída do Flamengo era uma ferida aberta que o vento salgado do mar não deixava curar. Negociado à revelia com o grêmio suburbano pelo presidente Dario de Melo Pinto, Zizinho considerou-se traído pelo clube que defendera com tanta lealdade. As viagens na barca começaram a ser amargas e melancólicas. A ingratidão era uma coisa difícil de esquecer.
E então veio a derrota para o Uruguai. Segundo muitos, uma tragédia apenas comparável ao suicídio de Getúlio Vargas. E Zizinho fora um de seus protagonistas, não conseguindo vencer a garra charrua dos vários Obdulios, Gambettas e Tejeras. Atônito, após o tríplice apito foi consolado pelo arqueiro rival Roque Máspoli, iniciando ali uma comovente amizade que perduraria através do tempo. Em várias oportunidades os elencos desse estupendo choque voltariam a encontrar-se, quer fosse no Rio de Janeiro ou em Montevideo. Mas isso seria mais tarde. Naquele dia no Maracanã, a Jules Rimet repousaria nas mãos de “albañil” de Obdulio Varela, enquanto Zizinho partiria para o seu mais lúgubre retorno ao lar. Fatalidade? Muitos anos depois ele reconheceria em uma entrevista: “Os uruguaios eram melhores”. Novos desafios haveriam de amenizar tanto dissabor.
Em 1951, o Bangu foi comendo pelas beiradas e chegou à decisão do título carioca contra o Fluminense de Telê, Didi, Carlyle e Orlando “Pingo de Ouro”. Foram duas partidas em que aconteceu de tudo, inclusive um lance em que Didi acabou quebrando a perna do lateral Mendonça. Bem vigiado pelo beque Pinheiro, Zizinho não pôde dar o troféu ao clube que tão bem lhe recebera. Em Moça Bonita, ele sentiria as dificuldades de atuar por uma equipe de menor expressão. As arbitragens de ontem, assim como as de hoje, costumavam ajudar sem escrúpulos os chamados clubes “grandes”. Ficou na história o episódio em que Eunápio de Queiroz expulsou Zizinho no intervalo de uma partida contra o Vasco, após o jogador ter feito um trocadilho com o nome do juiz e a palavra “larápio”. O Bangu era prejudicado e sua estrela maior sentia-se perseguida.
A barca conduzia lentamente os passageiros, o balanço das ondas causando enjôo em algum turista despreparado. Não em Zizinho. Veterano de tantas travessias, ele sentia que a hora de pendurar as chuteiras se aproximava. Sim, mas ainda haveria tempo para mais um título, dessa vez em terras bandeirantes, com a casaca tricolor do São Paulo. Novamente atuando por um time forte, o craque foi uma peça fundamental no esquema do técnico húngaro Bela Guttman. No ano seguinte, o Brasil seria campeão do mundo na Suécia, com Pelé maravilhando as audiências européias. Poucos sabiam que aquele moleque endiabrado sonhava em jogar como um dia fizera Zizinho. Pelé tornou-se o rei. Zizinho era o ídolo do rei. Na seleção canarinho ele nunca teve muita sorte, sobretudo após o estigma de 1950. E, para piorar, houve o problema no sul-americano de Lima, em 1953, no qual ele acabou rotulado de mercenário pelo escritor José Lins do Rego, chefe da delegação brasileira na ocasião. Esse episódio, inclusive, motivou Zizinho a escrever o livro “Verdades e Mentiras no Futebol”, em 2001.
Até que o dia da última viagem chegou. As brumas escureceram a visão de Zizinho, e ele foi vendo a sua querida Niterói sumindo aos poucos, ficando cada vez menor, enquanto a barca ia subindo para o céu, até desaparecer completamente no infinito.
Acervo de Futebol
Postado em 22/6/2009 at 09:09 AM
Olá, amigos.
Gostaria de divulgar uma nova e importante iniciativa que certamente vai agradar a todos interessados na história do nosso futebol.
Trata-se do ACERVO DE FUTEBOL, uma nobre ideia do Maiquel Machado da Silva, abnegado empreendedor que não para de adicionar livros sobre o popular esporte nas prateleiras do seu projeto.
Não deixem de conferir.
O endereço é www.acervodefutebol.blogspot.com
Até mais!
JORNAL ZERO HORA - comentário sobre livro
Postado em 1/6/2009 at 09:54 AM
Indicação do Livro Alicate Contra Diamante e outras histórias do esporte, na Coluna Bola Dividida - Mário Macos de Souza, Jornal Zero Hora - RS - 31/05/2009

A locomotiva
Postado em 12/5/2009 at 06:34 PM
A locomotiva
No princípio, eram todos contra o Vasco. Quando disputou pela primeira vez o campeonato carioca da primeira divisão, em 1923, o atrevimento do clube cruz-maltino causou repulsa entre os grandes clubes da elite. Afinal, ao invés de ser o saco de pancadas do torneio como era esperado, o Vasco fez uma campanha irrepreensível e ergueu o caneco. O seu pecado foi, além de mostrar bom futebol, ser o time da colônia portuguesa, repleto de negros, mestiços e analfabetos. Aos poucos, o clube foi conquistando um lugar ao sol, ainda mais depois da construção do estádio de São Januário e da empolgante conquista do título carioca de 1929. Outra campanha digna de registro viria em 1945, ano em que o Vasco foi campeão invicto. Começavam as façanhas do “Expresso da Vitória”.
Era um trem cor de chumbo, que cuspia uma fumaça densa e negra pela chaminé. O primeiro maquinista dessa formidável locomotiva foi o uruguaio Ondino Viera. Segundo o massagista Mario Américo, antes da chegada de Ondino, o Vasco “ganhava dos times grandes, mas perdia dos pequenos”. O técnico, então, foi acomodando os passageiros para a partida do trem. Uma das peças mais importantes do elenco, Djalma foi deslocado por Ondino da ponta-direita para o meio de campo, compactando a equipe. Na zaga destacava-se o ímpeto e a liderança de Augusto. Além de ter sido o jogador que trocou flâmulas com Obdulio Varela antes da final da Copa de 1950, Augusto ficou conhecido por ter machucado o joelho de Dondinho, pai de Pelé. Foi num jogo entre Atlético Mineiro e São Cristóvão, primeiro time de Augusto. Ex-policial, ele foi um dos responsáveis em manter a ordem dentro dos vagões da locomotiva vascaína. Outro bom companheiro de viagem era Ademir, um dos melhores atacantes surgidos na história do nosso futebol. Também conhecido como “Queixada”, famoso por sua velocidade, jogava em todas as posições ofensivas e tinha um chute forte e certeiro. Não é exagero dizer que Ademir foi quem personificou melhor, com a contundência das suas atuações e identificação com a torcida, a alma daquele extraordinário time de futebol.
À medida que ia avançando por entre colinas e vales verdejantes, a máquina de aço vez por outra mudava sua tripulação. A partir de 1947 coube ao técnico Flavio Costa a tarefa de colocar carvão na caldeira e levar o Vasco a novas vitórias. Outro que embarcou no trem cruz-maltino foi Danilo, um “center-half” de estilo clássico e patrão da meia cancha do time. Alto, esguio, elegante, mas que sabia destruir quando necessário, formou uma trinca inesquecível com Eli e Jorge. Mas nem só de glórias viveu essa magnífica equipe. Assim como em 1946, quando o Fluminense de Gentil Cardoso foi campeão, dois anos mais tarde o Botafogo também logrou superar o poderio do esquadrão de São Januário. Mesmo assim, a locomotiva não descarrilou e seguiu firme no seu rumo de triunfos.
Naqueles dias de regozijo para o torcedor, uma figura imponente guardava o arco do time com a dedicação de uma mãe a zelar pelo filho recém nascido. Frio como gelo, ágil como um gato, Barbosa foi o grande goleiro dos anos dourados do Vasco, sempre passando confiança e tranqüilidade para os zagueiros. A extremidade oposta do gramado, por sua vez, era o habitat de Francisco Aramburu, ou simplesmente Chico. Ponteiro esquerdo dotado de grande nobreza e espírito de luta, esse gaúcho de Uruguaiana teve um assento cativo no vagão dos bambas do elenco. E como esquecer de Maneca, um jogador fora de série que deslumbrava a todos com a beleza e precisão dos seus passes? Igualmente preciso nas assistências, Ipojucan era um meio campista alto, corpulento e de estilo criativo. Muito antes de Sócrates, ele já dominava a técnica da jogada de calcanhar, além de outras picardias mais que ajudavam a compor o espetáculo do “Expresso da Vitória” a cada domingo. Aliás, a origem do apelido do time está em um programa de variedades da popular Rádio Nacional, no qual um cantor de pouca fama homenageou o Vasco com uma canção. O singelo e inocente regalo acabou plasmando a alcunha para a posteridade.
A viagem da locomotiva prosseguia agradavelmente. Da janela, os jogadores apreciavam a bela paisagem e o céu azul repleto de brancas nuvens. O ponto mais alto da montanha aproximava-se. Em 1949, o Vasco foi novamente campeão carioca invicto. No ano seguinte, o topo foi alcançado. Para alegria geral da nação cruz-maltina, o time amealhou o título de primeiro campeão carioca da Era Maracanã. Após uma partida dramática contra o sempre perigoso América, a vitória chegou com dois gols de Ademir. Ainda assim, haveria tempo para o canto de cisne dessa fabulosa equipe. Ao descrever a descida da parábola, a locomotiva conquistou seu último título, em 1952.
Fim de festa. O trem foi arrastando-se vagarosamente pelos trilhos até parar na estação. Os passageiros, cansados e felizes, desceram e recolheram suas bagagens. Cada um tomou o rumo do seu lar, com a sensação do dever cumprido e com muitas histórias para contar.
Meu encontro com Tarica
Postado em 23/4/2009 at 08:58 PM
Meu encontro com Tarica
Era uma sexta-feira qualquer. Eu estava no meu botequim de costume encerrando mais uma semana de trabalho. Tomava minha cerveja de pé, e a garrafa já estava suando, molhando o vidro do balcão onde ficam as balas e chicletes. Era noite. De repente, alguém me pergunta se eu já tinha ouvido falar do Tarica. Isso porque eu tinha uma certa fama nesse bar, de vez em quando eu dava algumas escalações de times que eu decorava. Por exemplo, a Alemanha de 74. E começava: Maier, Vogts, Schwarzenbeck, Beckenbauer e Breitner...O pessoal ficava impressionado, e, de alguma maneira, o meu moral se elevava. Por uma dessas coincidências da vida, antes de sair de casa naquela mesma tarde eu havia passado a vista em um livro sobre o Oreco, famoso lateral esquerdo do Inter e que depois jogou no Corinthians. Por isso o nome Tarica não me soou estranho. Matutei por alguns instantes e soltei o verbo: “Ele não é de Santa Maria, compadre do Oreco?”. Nesse instante o bar foi tomado por um silêncio que durou alguns segundos, enquanto um frenesi de excitação percorreu a espinha dos presentes. Virei para o interior do estabelecimento e encarei um senhor baixo, de cabelos pretos, bigode e nariz adunco. Era o Tarica. Percebi imediatamente que ele estava feliz em ser reconhecido. Começamos a conversar.
Como eu já disse, a história do Tarica está intimamente ligada à do Oreco. Parceiros fora das quatro linhas, eles jogaram juntos no Inter de Santa Maria, no Inter de Porto Alegre e também no Corinthians. Na capital gaúcha, Oreco fez história, integrando a seleção de todos os tempos do colorado eleita pela revista Placar: Manga, Paulinho, Figueroa, Nena e Oreco; Salvador, Carpeggiani e Falcão; Tesourinha, Larry e Carlitos. Também coube a ele a honra de ter sido o primeiro gaúcho campeão mundial com a seleção brasileira. É claro que o titular da Copa de 58 na Suécia foi o Nilton Santos, mas isso não tira os méritos do Oreco, que jogou onze partidas com a camisa canarinho. Em 1957 o Tarica foi jogar no Corinthians, onde já estava o seu vizinho de rua dos tempos de Santa Maria. No nosso bate papo, lembro dele recordar saudoso a figura de Osvaldo Brandão, seu técnico no clube paulista. Para não deixar morrer o colóquio, citei o famoso ataque alvinegro de 54, Cláudio, Luizinho, Baltazar, Rafael e Simão.
No já mencionado livro sobre o Oreco, uma bela obra do Candido Otto da Luz, o Tarica resume como foi sua passagem pelo futebol bandeirante: “No Corinthians, o Oreco era cobra e eu minhoca”. Ele aparece em algumas fotos na posição de ponteiro direito, formando o ataque com Luizinho, Índio, Rafael e Boquita. Quase meio século depois, era interessante como o Tarica tinha mudado pouco. Sua fala era jovial, lúcida e serena. Ele deve ter sofrido muito com o falecimento do seu bom amigo. Ao jogar uma partida de futebol com outros jogadores veteranos, em 1985, Oreco teve um enfarte e não resistiu.
Enquanto o nosso encontro acontecia, entre goles de cerveja, senti que o Tarica era uma cara gente fina e, como todo boleiro que se preza, orgulhoso dos seus feitos dentro do popular esporte. Em 1961 ele veio jogar no Flamengo de Caxias do Sul, hoje SER Caxias. Nesse ano, atuando como centroavante, Tarica marcou o gol da vitória em um clássico contra o tradicional rival Juventude, expugnando o estádio Alfredo Jaconi. O Flamengo exibia em suas fileiras valores como o lateral Laércio, até hoje o jogador que mais vezes atuou no time grená, e o meia Macalé, oriundo do Bangu carioca e que marcou época nos gramados caxienses. Foi uma vitória importante dentro do campeonato gaúcho de então, tendo em vista o gabarito da equipe adversária, com Bugre, Nezito, Babá, Puccinelli e Lory. Dois anos depois, Tarica pendurou as chuteiras e virou técnico do time. Ele ficou nessa função até 1964, passando a morar definitivamente na cidade. E essa é a razão pela qual eu o encontrei naquela noite.
Foi um momento inusitado, em que eu pude beber um pouco da sabedoria e da experiência de alguém que conviveu e atuou profissionalmente com grandes figuras do futebol. Mas a noite foi ficando cada vez mais escura, os ponteiros do relógio implacavelmente davam o seu recado.O dono do bar iniciou o seu ritual de sempre, passando a chave na porta lateral para evitar retardatários indesejáveis e baixando a pesada grade que protege a entrada principal. Até que, discretamente como havia chegado, o Tarica foi embora.
Uma pena. Eu nunca mais vi o Tarica.
Uma noite de gala
Postado em 12/3/2009 at 10:01 PM
Uma noite de gala
Dizem que a primeira vez a gente não esquece. Pois bem. Como bom interiorano, vim a conhecer o estádio Beira-Rio na ocasião em que o Inter encontrava-se empenhado em uma árdua batalha pela Libertadores de 1989. Não seria uma noite qualquer. Levado por meu tio, camisa de flanela xadrez sobre uma camiseta preta de banda de heavy metal, ao vislumbrar a imponência do tapete verde fui tomado por um nobre sentimento. Uma mistura de júbilo e assombro. Naquela agradável noite outonal, o céu escuro e límpido, de tempo firme, quente até, seria um contraste perfeito para a atuação do time.
O Gigante da Beira-Rio. Um sonho incrível, que teve em José Pinheiro Borda um de seus principais e abnegados idealizadores. Quando em julho de 63 esse português lançava a pedra fundamental do estádio, a sua concretização era uma incógnita. Muitos zombaram, dizendo que ao invés de cadeiras seriam vendidas “bóias cativas”, apenas porque a obra estaria às margens do rio Guaíba. Pinheiro Borda faleceu sem ver o seu intuito realizado. Porém, o seu espírito guerreiro, tenaz e empreendedor vive presente, acompanhando os passos da instituição colorada.
Mesmo sem saber desta bonita história, lá estava eu, analisando a escalação do Inter. O jovem técnico Abel Braga mandou a campo: Taffarel, Luis Carlos Winck, Aguirregaray, Norton e Casemiro; Norberto, Luis Carlos Martins e Luis Fernando; Heider, Nilson e Edu. O adversário desta fase de oitavas de final seria o Peñarol. Nem o mais otimista torcedor poderia prever o massacre que aconteceria dentro do retângulo de jogo. Logo aos sete minutos Nilson abre os trabalhos. Paulista de Santa Rita do Passa Quatro, o esguio centroavante vivia uma fase exuberante. Após ter castigado o goleiro Mazaropi duas vezes no chamado “Gre-Nal do século” alguns dias antes, seu prestígio era evidente. Ainda no primeiro tempo ele faz mais um e, para surpresa geral, o cabeludo zagueiro Norton anotou duas vezes. Seu companheiro de defesa era Oscar Aguirregaray, um ex-jogador do próprio Peñarol, assim como Diego Aguirre, outro uruguaio a envergar a jaqueta escarlate naqueles tempos. Opção ofensiva do técnico Abel, Diego era uma espécie de reserva de luxo. Revelado pelo pequeno Liverpool, um time da segunda divisão do país oriental, passou ao Peñarol, onde foi forjado para ser o sucessor de Fernando “el potrillo” Morena. Ele recorda: “pesaba 500 kilos esa camiseta, porque era mucha historia”. Pela mão do técnico Máspoli, lendário goleiro da celeste na Copa de 50, o jovem atacante foi ganhando confiança e quedou gravado nos anais ao marcar o gol do título da Libertadores de 87, quando o Peñarol derrotou o America de Cali. No meu primeiro jogo no Beira-Rio, Diego participou entrando no lugar de Edu Lima.
O baile seguiu na etapa final, quando Heider deixou sua marca em duas oportunidades. Taffarel não teve muito trabalho, sempre bem protegido pela zaga. O único motivo de preocupação naquele quadro do Peñarol era Carlos “el pato” Aguilera. Baixinho, escorregadio, espécie de Romário castelhano, Aguilera cumpria uma breve passagem pelo clube ouro e negro de Montevideo. Seu futuro repousava no Genoa da Itália. Lá atuaria ao lado de seus conterrâneos Perdomo e Ruben Paz, antigo ídolo colorado, sob a batuta do impagável técnico Franco Scoglio. Atacante valoroso e matador, “el pato” havia causado problemas ao Brasil na Copa América de 83, quando venceu o arqueiro Leão em jogo no estádio da Fonte Nova. Contra o Inter, Aguilera também deixou sua marca, credenciando-se para ser o artilheiro daquela Libertadores com 10 gols. Mas a partida já estava decidida. O Peñarol ficou com nove jogadores e o placar final foi um catedrático 6 a 2 a favor das hostes rubras.
Debutando no gigante, não percebi de imediato o momento ímpar que eu estava presenciando. Inconscientemente eu dera um tremendo “pé quente”. Porém, demoraria algum tempo para que eu voltasse a pisar o concreto do Beira-Rio. O sonho de conquistar aquela Libertadores se desvaneceria dramaticamente em uma decisão por pênaltis contra o Olímpia. Como bem disse Cícero: “o tempo derruba as ilusões da opinião, mas estabelece as decisões da natureza”. A façanha seria alcançada dezessete anos depois, sob o comando do mesmíssimo técnico Abel. E o jogo contra o Peñarol permanece como uma bela recordação da minha mocidade.
Fecham-se as cortinas
Postado em 3/2/2009 at 09:50 PM
Fecham-se as cortinas
Ele já não era o mesmo. Joe Louis parecia cansado quando esteve em São Paulo no mês de maio de 1950. Sua aparência, em uma luta de exibição que fez no país, era uma sombra do passado, músculos flácidos e reflexos lentos. Dentro de poucos dias ele voltaria a lutar oficialmente, perdendo a decisão por pontos contra Ezzard Charles, em uma das suas únicas très derrotas como profissional . Boxe e futebol sempre foram dois esportes com uma íntima ligação. A seleção uruguaia de futebol também estava na capital paulista na ocasião, envolvida na disputa de mais uma Copa Rio Branco com o Brasil. E Obdulio Varela não desperdiçou a chance de ver o seu grande ídolo Joe Louis em carne e osso. Segundo o jornalista Franklin Morales no livro “Maracaná - Los laberintos del carácter” , o capitão da celeste era fã de boxe. Naquele instante, duas figuras maiores dentro do esporte estavam mais próximas do que nunca, Obdulio fitando Joe Louis, uma alegria incontida dentro de si.
Obdulio nunca faria a fortuna que fez Joe Louis. Sua fama ficaria restrita no âmbito futebolístico. Porém, uma cruel coincidência uniu esses nobres atletas: o ocaso devastador, a velhice sem o reconhecimento dos seus tempos áureos, em que brindavam as platéias com atuações cheias de heroísmo e galhardia. Sem embargo, eles não foram os únicos a sentir o gosto amargo do crepúsculo, na sua inocente humildade de genuínos campeões. Em seu auge, bajulados pela sociedade. No inverno de seus dias, esquecidos e marginalizados.
Analisemos o caso de Carreiro, exímio ponta esquerda do Fluminense no começo dos anos 40. Conhecido como o “Rui Barbosa do futebol”, participou de campanhas memoráveis do tricolor, até ser dominado pelo ócio e pelo alcoolismo ao parar de jogar. Abandonado pela mulher, passou a viver como indigente. O jornalista Mario Filho sintetizou bem a situação, criticando o espiríto ingrato das pessoas no seu livro “O Negro no Futebol Brasileiro”: “Carreiro era visto dormindo debaixo de um banco de praça pública. Falava-se disso quase à meia voz, como um segredo. Para que pronunciar, outra vez, o nome de Carreiro”?
O pugilista argentino José Maria Gatica saboreou o calor da fama e o frio lúgubre do olvido popular. Ex-engraxate e analfabeto, Gatica aprendeu a lutar nas ruas, tornando-se um dos grandes valores do boxe sul-americano. Assim como Joe Louis, “El Mono” era dono de um altruísmo singular. No seu apogeu, distribuía dinheiro a amigos, parentes ou a qualquer pessoa que lhe parecesse necessitada. Quem sabe lembrando de seus dias difíceis, antes do sucesso, Gatica dava sem pedir nada em troca. Profundamente identificado com a figura de Juan Domingo Perón, ele foi aos poucos perdendo espaço com a derrocada do general em 1955. Morreu atropelado por um ònibus em 1963, após mais um dia de trabalho, vendendo bonecos na porta do estádio do Independiente.
Um dos nossos maiores artilheiros, oportunista nato e apaixonado pelo gol, que fazia enrouquecer as gargantas da torcida vascaína cada vez que mandava a bola para as redes, Vavá foi outra vítima do comum desprezo pelos campeões do passado. Durante o seu enterro, em janeiro de 2002, tamanho descaso provocou a indignação de Jair Rosa Pinto, outro virtuose dos gramados de antigamente. Para Jair, “O Leão da Copa” de 58 merecia um reconhecimento maior, e não apenas a sempre hipócrita presença de alguns cartolas, colocando uma bandeira sobre o caixão de maneira fria e protocolar.
Não falarei aqui do ocaso de Heleno, do triste fim de Garrincha ou das injustiças cometidas contra Barbosa. A história se repete de maneira melancólica. Aqueles que um dia arrastaram multidões às praças esportivas com o seu carisma e talento, são vistos trabalhando como porteiros, taxistas, recebendo olhares piedosos de quem finge não ver, como se fossem fantasmas. Foi assim com Obdulio, que passou a receber salário de funcionário público trabalhando em um cassino de Montevideu. Joe Louis, por sua vez, valeu-se da gratidão de personalidades como Frank Sinatra, que ajudou financeiramente o campeão quando ele teve problemas de saúde, já no fim da vida.
Infelizmente, muitas vezes só damos valor às pessoas depois que as perdemos. Com os maiores vultos do esporte, sobretudo aqueles que não tiveram a sorte de se estabelecer após o final de suas carreiras, essa mística é ainda mais cruel e sombria.
Centuriões da pelota
Postado em 25/1/2009 at 02:26 PM
Centuriões da pelota
Olá pessoas. Na história do campeonato italiano, o time da Roma logrou o troféu máximo em três ocasiões. Embora seja um grande clube situado na capital daquele país, o seu cartel é irrisório se comparado aos de Juventus e Milan, por exemplo. Já disse alguém que para a Juventus vencer três “scudettos”, basta merecer um. Para a Roma, porém, é preciso merecer três para ganhar um. Obviamente a frase foi feita por um torcedor romano, mas a verdade não está muito distante. A desigualdade entre os títulos conquistados é impressionante, pende largamente em favor do trio Juve-Milan-Inter. Por isso hoje eu gostaria de analisar os triunfos da Roma.
A aurora desta simpática agremiação data do ano de 1927, quando uma fusão entre os times da capital, Fortitudo, Alba Audace e Roman Football Club gera a AS Roma. A partir de então, as atividades atléticas do clube correriam sempre vigorosas como as águas do rio Tevere. O primeiro “scudetto” chega quando o continente estava sob a sombra negra da II Guerra Mundial, em 1942. Nessa temporada, os inimigos ferozes pelo caneco foram Torino e Venezia. A Roma mandava seus jogos no lendário campo de Testaccio, uma espécie de alçapão para os visitantes. Destaquemos algumas figuras marcantes daquele time. Sob os três paus a estampa imponente de Guido Masetti, goleiro de defesas arrojadas e estilo voador. Seus colegas de zaga eram Brunella e Acerbi. A linha média contava com Donati, Mornese e Bonomi e o ataque começava com o albanês Krieziu, Luigi Di Pasquale, e tinha além do capitão Amedeo Amadei, o meia Coscia e o argentino Pantó. Uma polêmica sobre esse título é a de que ele teria sido obtido graças a um decreto de Mussolini. Os romanistas defendem-se alegando ter sido o “Duce” torcedor da Lazio. De qualquer maneira os festejos foram tímidos em razão da guerra. E a espera por outra conquista seria longa e sofrida como um calvário.
Até que em 1980 chega a Roma o meio campista Paulo Roberto Falcão, dono de toques refinados no trato com a pelota. A torcida sonhou com dias melhores. O presidente Dino Viola, um visionário que conseguiu reequilibrar as finanças da Roma, foi o grande mentor daquele time que venceria o segundo “scudetto” em 83. E no banco de reservas o técnico Nils Liedholm, ou “Il barone”, mítico ex-atacante sueco, dava as cartas. Tancredi, Nela e Vierchowod; Maldera, Ancelotti e Falcão; Bruno Conti, Prohaska, Pruzzo, Di Bartolomei e Iorio. Estes foram os onze heróis a erguer a taça. Interessante o paradoxo entre Falcão e Bruno Conti. Enquanto que “o oitavo rei de Roma”, apresentava um futebol de estilo europeu, elegante e apolíneo, Bruno Conti era um ponta direita “à brasileira”, dono de uma picardia rara entre jogadores do velho mundo. O artilheiro Roberto Pruzzo, por sua vez, era uma máquina de fazer gols e, até o surgimento de Totti, maior goleador histórico da Roma. E Agostino Di Bartolomei, bom amigo de Falcão, fruto das categorias de base e um dos líderes dentro de campo. Doces lembranças. O jogo do título foi contra o Genoa no estádio Marassi. O empate em um gol foi o suficiente para desencadear a festa amarelo e vermelha. Dino Viola, emocionado, diz que é o fim do pesadelo. Os centuriões romanos marcham novamente.
Por fim, ainda que sem ter provocado tamanho impacto, chegou o terceiro “scudetto” em 2001. Talvez motivada pelo título da co-irmã Lazio no ano anterior, a Roma realiza uma campanha irretocável. Fundamental a contratação de Batistuta junto à Fiorentina e o comando de Fabio Capello, um especialista em decisões e raposa velha dos gramados. Auxiliando o goleiro Antonioli , uma zaga bastante conhecida: Cafu e Antonio Carlos, Zago para os italianos, dividem a tarefa com o argentino Samuel e Zebina. Para fazer a bola rodar no meio campo a presença séria de Marcos Assunção foi vital, assim como a raça de Candela e Tommasi. Dos pés de Totti saíam as jogadas que resultaram nos gols de Batistuta, Del Vecchio e Montella. Aliás, além de capitão e maestro do time, Totti, “il pupone di Porta Metronia” é também famoso pelas suas gafes, tendo inclusive um livro de anedotas sobre ele. O dia D chega contra o Parma no estádio Olímpico, quando Totti, Montella e Batistuta castigam o guarda metas Buffon, dando assim, novamente motivos para uma alegre comemoração pelas ruas da cidade.
Rivais para sempre
Postado em 29/12/2008 at 10:18 PM
Rivais para sempre
Tudo começou no dia 9 de maio de 1951. Nessa data, enfrentaram-se pela primeira vez as seleções da Argentina e Inglaterra. Talvez esse seja o clássico mais emblemático entre países sul-americanos e europeus, aquele que possui uma rivalidade mais marcante. Pois naquele dia, em Wembley, a história começou a ser escrita em grande estilo. O placar apontava vantagem mínima para os argentinos, gol de Boyé, um ponteiro direito muito querido pelo torcedor de seu país. Seu apelido era “El Atómico”, pela potência de seus chutes e cabeçadas , tendo brilhado primeiro no Boca e depois no Racing. Mas o personagem que passou para a galeria de heróis foi Miguel Angel Rugilo, goleiro do Vélez. De perfil arrojado e voador, Rugilo passou a defender toda e qualquer investida do “english team”, recebendo o apelido de “León de Wembley”. Ainda que os ingleses tenham feito dois gols e virado a partida, o primeiro capítulo de uma saga já estava registrado.
Passam-se dois anos, e uma nova partida, dessa vez em solo sul-americano, acontece. O palco seria o Monumental de Nuñez em Buenos Aires. As arquibancadas para o evento estavam lotadas, ainda que a construção do estádio não estivesse totalmente concluída. O técnico argentino era Guillermo “El Infiltrador” Stabile, que fora artilheiro da Copa de 30 no Uruguai. Stabile escalou para a partida o ataque do Independiente e quem brilhou na vitória por 3 x 1 foi Ernesto Grillo, autor de um golaço. Após driblar quatro defensores contrários, Grillo desfere um chute improvável, sem ângulo e que, desde então, tornou-se uma espécie de ícone, para os argentinos é claro, do confronto em si.
Próxima parada: Rancágua, Chile. O estádio Carlos Dittborn hospeda mais uma partida válida pela Copa do Mundo de 1962. Dessa vez, porém, o time inglês não toma conhecimento de nossos vizinhos e marca logo três vezes com Flowers, Bobby Charlton e Greaves. Inútil o gol de Sanfilippo.
Londres em 66 era uma cidade psicodélica. As meninas de mini-saia deliravam ao som dos Beatles. Mas, naquele mês de julho, o que estava em jogo era mais uma taça Jules Rimet. E com o estádio de Wembley preenchido por uma multidão, realizou-se um dos capítulos mais dramáticos e perturbadores da nossa lista. Como esquecer a expulsão de Rattín, justo quando a Argentina finalmente tinha montado um time competitivo para disputar uma Copa? O técnico Juan Carlos Lorenzo tinha no nosso bom Antonio Ubaldo uma figura chave, um líder. Além disso, Perfumo na zaga, Artime e o pícaro Oscar Más no ataque. Tudo em vão. Jogada ensaiada da dupla de ataque do West Ham: Peters cruza da esquerda e Hurst vence Roma com uma cabeçada perfeita. A Argentina caiu de pé. Após o jogo, a festa inglesa foi típica. Nas palavras do meio campista Stiles: “We all got well and truly drunk”.
Os anos passam. Nuvens negras pairam sobre o céu de Mar Del Plata em 82. O general Galtieri visita a concentração da seleção de César Luis Menotti. A Argentina finalmente era campeã e os pupilos de “El Flaco” tentariam o bi na Espanha a todo custo. O povo vivia um momento de dificuldades e o futebol sempre era uma esperança, um bálsamo contra a pobreza cada vez maior. A tensão no país era evidente, mas mesmo assim o general deseja boa sorte ao time. Quando os jogadores recebem a notícia de que a Guerra das Malvinas eclodira, muitos ficaram receosos em partir. Um submarino inglês afunda o cruzador General Belgrano, matando 300 marinheiros. Vergonha. A Argentina é eliminada da Copa, mesmo com a jovem promessa Maradona, enquanto as tropas de Margareth Thatcher acabam com as pretensões de Galtieri como quem tira um doce de uma criança. Curiosa a situação de Ardiles. “El Pìton”, eixo central da equipe argentina, na época defendia o Tottenham. Em partida contra o Leicester, toda vez que Ardiles pegava na bola a torcida gritava “Inglaterra, Inglaterra”, ao que a torcida do Tottenham respondia “Argentina, Argentina”. O futebol é realmente incrível...
A vingança não tardaria. Na Copa do México em 86 Maradona faz o famoso gol com a mão, além de desmoralizar a seleção do técnico Bobby Robson com uma arrancada desde o campo de defesa, antes de sutilmente vencer o pobre goleiro Shilton. Mas a história estava longe de terminar. Em 98 deu Argentina, nos pênaltis na partida de Saint Ettiene pela Copa da França. Quatro anos depois, David Beckham seria o verdugo britânico no Japão. Quem sabe qual será o resultado do próximo embate?
A volta do suburbano
Postado em 10/12/2008 at 10:50 PM
A volta do suburbano
Domingos sintonizou o rádio para acompanhar a grande final entre Bangu e Flamengo. Afinal, ele havia dado seus primeiros chutes jogando pelo grêmio suburbano, e seu coração era Bangu de verdade. Isso foi no final da década de 20, os treinos eram feitos após a sua jornada de trabalho como tecelão na fábrica de tecidos. Essa fábrica, aliás, era a geradora de renda e empregos em Bangu, e o clube fora fundado em razão da sua existência. Naqueles tempos, Domingos era mais um do clã dos Da Guia a tentar a sorte no futebol. Antes dele vieram os irmãos Ladislau e Mamede, chamado de “Médio”, e Luiz Antônio, todos no Bangu. Sabemos bem aonde Domingos chegou. Todos os adjetivos sobre ele foram esgotados, o maior beque do Brasil, “o divino mestre”. A bola que seguia o seu comando, como se ele tivesse um imã em seus pés. “A estátua noturna”, sereno e apolíneo mesmo no meio do mais selvagem dos ataques inimigos. Luiz Antônio, mais velho, foi melhor do que Domingos, um jogador sensacional, nas palavras do próprio irmão caçula. Mas os louros e a condição de mito ficaram com Domingos, que, antes de virar ídolo, trabalhou também como ladrilheiro e mata-mosquitos.
Infelizmente, Domingos não conseguiu ser campeão com o Bangu. Em 33, ele já estava no Nacional do Uruguai, já era craque da seleção brasileira. Foi nesse ano que o quadro suburbano amealhou a sua maior glória: campeão carioca, o primeiro da era profissional. Ladislau, cuja alcunha era “tijoleiro”, graças à potência de seus chutes, fazia parte do plantel, assim como Médio, e vários outros atletas negros. Dizem que os loucos abrem os caminhos que mais tarde serão trilhados pelos sábios. Nesse caso, a contribuição em quebrar barreiras raciais foi um notável mérito do Bangu. O técnico Luis Vinhaes até tentou implementar uma culinária mais sofisticada nas concentrações, mas a rapaziada pedia o bom e velho feijão. Era um grupo operário e humilde, que teve o Fluminense como contendor na final do campeonato. A zaga suburbana era um osso duro de roer. Euclides no gol, Mário ou Camarão e Sá Pinto. No meio tinha o Santana e o Médio, e o ataque contava com Sobral, Ladislau, Plácido e o goleador Tião. Embora todos previssem o contrário, inclusive o jornalista Mario Filho, a taça foi mesmo parar em Bangu. Após uma estrondosa goleada de 4 a 0, a história estava escrita nas cores vermelho e branco. A festa na chegada dos jogadores ao subúrbio foi algo de proporções avassaladoras. Diz a lenda que os estoques de cerveja nos botecos terminaram, consumidos pela torcida em êxtase. Foguetes estouraram até a madrugada, como se fossem trovões dos deuses do futebol, reconhecendo a façanha antológica de um Davi contra um Golias.
Foi o típico caso de uma ilusão que virou verdade. O tempo revelou que aquele fora um ano único, pois o Bangu não mais ergueria o caneco. Até que em 1966 os ventos pareciam estar mudando novamente. O grêmio suburbano vinha com tudo, comandado pelo técnico argentino Alfredo Gonzáles. Domingos acompanhava o trabalho de Alfredo, ambos haviam jogado juntos no Boca Juniors e no Flamengo. O rosto do argentino era branco como se fosse de cera, contrastando com olhos negros e fundos. Ele herdara aquele time quando Zizinho teve que sair por questões particulares. Mestre Ziza, porém, deixara algumas boas jogadas ensaiadas, como a tabela em “X” entre Paulo Borges e Cabralzinho.
O Maracanã seria o palco da final. O Flamengo era o franco favorito para ganhar o bi-campeonato. O juíz apita o início da partida. Espantosamente, o Bangu começa a enfiar gols. Ocimar. Aladim. Paulo Borges. Domingos atento ao pé do rádio. O baile era tremendo, os nervos foram ficando à flor da pele. De repente, um choque entre Ladeira e o rubro negro Paulo Henrique. O sururu está formado. Almir Pernambuquinho, valente como só ele, briga como um leão, até ser contido pelo goleiro Ubirajara do Bangu. Vários jogadores são expulsos, o jogo termina por ali mesmo. Os jornais sentenciam o nascimento de uma nova mística. A mística da camisa suburbana, desmanchando, ainda que em uma fugaz oportunidade, o poder do manto sagrado rubro-negro.
Domingos desliga o rádio. Na sua casa em Bangu, ele vai dormir feliz.
Bolas de fogo
Postado em 5/11/2008 at 08:46 PM
Bolas de fogo
Esta história começa em Alegrete. Quando o menino João Saldanha exultava com as ações dos revoltosos maragatos na luta contra Borges de Medeiros em 23, ele não imaginava que um dia seria técnico de futebol. Mais tarde, a família iria para o Rio de Janeiro levada por Gaspar, o pai de João, durante os primeiros anos do governo de Getúlio Vargas. Lá, João tornou-se torcedor do Botafogo, jogando futebol na praia com o futuro craque alvinegro Heleno de Freitas. Em 56, o presidente Paulo Azeredo convida o gaúcho, que já havia trabalhado como diretor no clube, para participar do departamento de futebol. Tudo vai bem, até que o posto de técnico fica vazio. Bandeira botafoguense em seus tempos de jogador, Efigênio de Freitas Bahiense, o Geninho, fora afastado pela direção por pedir demais para renovar o contrato. Em uma situação inédita, João passa para a beira do gramado, estreando, assim, na função de técnico.
Antes de ir embora, Geninho, ex-combatente da Segunda Guerra e policial, alerta João sobre “Mané” Garrincha. O exuberante ponteiro direito era uma verdadeira “fera”, talento incrível com a bola nos pés e grande gozador fora de campo. A primeira tarefa do novel treinador seria, pois, domar o gênio meio infantil, meio demoníaco de Garrincha. O campeonato carioca de 57 seria definido por Nilton Santos como “uma espécie de romance policial”. O lateral esquerdo recorda que nenhum time despontou como franco favorito ao título, e o Botafogo de João Saldanha não era exceção. O goleiro Adalberto, um negro alto e forte, garantia uma certa segurança à zaga, ainda que esta contasse com o gabarito de Nilton Santos. A “enciclopédia” era, sem dúvida, o jogador de maior presença no time, pela sua hierarquia técnica e liderança. Outro que dava consistência ao setor era o médio Servilio, cujo nome verdadeiro era José Lucas. Oriundo do Flamengo, ele tinha o apelido pela sua semelhança com o antigo atacante Servílio do Corinthians. Também mostravam valentia o jovem zagueiro Tomé e o atacante Edson “praça Mauá”. E havia as cobras. Durante os jogos, a esfera circulava mansamente entre as travessuras de Garrincha e os toques cerebrais de Didi, até ser oferecida para os gols de Paulo Valentim e os petardos de Quarentinha, verdadeiras bolas de fogo.
Filho do outrora atleta vascaíno Quarenta, Waldir Cardoso Lebrego era um paraense tímido, que despontara para o futebol no Paysandu. Quando João Saldanha assumiu o time, uma de suas primeiras medidas foi pedir a volta de Quarentinha, que estava emprestado ao Bonsucesso. O atacante seria essencial na campanha do alvinegro. Durante feijoadas promovidas por Garrincha na sua terra natal, Pau Grande, Quarentinha exibia um grande apetite, devorando pimentas cruas com cachaça. Com uma dieta quente como aquela, energia não lhe faltava. E ele botava fogo nos jogos. Seus chutes eram de uma potência avassaladora, um pesadelo permanente para os goleiros rivais. O time foi se acertando e chegou à final contra o Fluminense. O que se viu então, foi um baile de proporções antológicas. O grande maestro da tarde foi Garrincha. Mesmo marcado com tenacidade por Clóvis e Altair, Mané causou grandes estragos na defesa tricolor, fazendo lançamentos precisos para Paulo Valentim. Placar final, 6 a 2 para o Botafogo. Incumbido por Saldanha com a tarefa de marcar Telê, o craque e pensador do onze “pó de arroz”, Quarentinha não fez gols no massacre.
Nesse mesmo ano de 1957, um jovem pianista americano atingia o topo das paradas. Enquanto Garrincha assombrava a todos com sua adorável irreverência, Jerry Lee Lewis magnetizava as platéias com o seu rock enérgico e novo. Um de seus sucessos foi justamente a canção “Great Balls of Fire”, que bem poderia ser a trilha sonora da pequena epopéia botafoguense. Virtuose como poucos, Jerry tocava o piano de forma selvagem, usando o cotovelo e os pés nas suas performances. Eram picardias de uma época romântica e inocente, também vivida por Garrincha, com seus dribles desconcertantes, e Quarentinha, com suas bolas de fogo queimando as redes contrárias.
Blog Ressacão
Postado em 14/10/2008 at 11:22 PM
Alô, rapaziada!
Uma dica para quem gosta de vídeos de surf e resenhas de filmes europeus é o blog do meu amigo Rafael Frizzo de Tramandaí.
O endereço é http://ressacao.blogspot.com
Valeu!
Ases no batente
Postado em 14/10/2008 at 11:21 PM
Ases no batente
Um dos maiores jogadores da história do Flamengo foi, sem dúvida, Dida. Quando o rubro-negro conquistou seu segundo tricampeonato carioca em 1955, Dida formava uma entrosada ala esquerda de ataque junto com outro rapaz de Maceió, o ponteiro Zagallo. Edvaldo Alves de Santa Rosa vestiu a camisa do Flamengo por dez anos, sendo por muito tempo o maior goleador histórico do clube. Isso durou até o surgimento de Zico. Em fevereiro de 1979, jogando contra o Goytacaz, o “galinho” quebrou o recorde de Dida, aliás, seu ídolo de infância. Para atingir essa marca, Zico fez muitos gols de falta. Ele era um grande batedor, mas se engana quem pensa que o efeito malicioso de seus chutes com a pelota parada seja obra do acaso. Não. Apesar de craque nato, Zico era também um abnegado, ficando até mais tarde depois dos treinos, lapidando sua arte de forma incansável.
Assim também era Neto do Corinthians, famoso por gols antológicos dentro do quesito consagrado por Zico. O rubro negro, inclusive, foi vítima dos petardos do “xodó da Fiel”. Foi no Maracanã, durante o campeonato brasileiro de 1991. Nessa ocasião, o ilustre filho de Santo Antônio da Posse estufou as redes do bom goleiro Gilmar, despachando um verdadeiro “pombo sem asa” em cobrança de falta quase da intermediária do campo. Esse gol deveria ser guardado dentro de uma caixinha de veludo, pois trata-se de uma obra prima. Muito bem. Neto virou ídolo da massa corintiana graças a momentos como esse. Rebelde, falastrão, foi o grande timoneiro da equipe que venceu o Brasileirão de 1990. Eis aqui o onze mosqueteiro daquela final: Ronaldo, Giba, Marcelo Dijian, Guinei e Jacenir; Márcio, Wilson Mano, Neto e Tupãzinho; Fabinho e Mauro. Técnico: Nelsinho Batista.
Interessante a maneira de Neto comemorar os gols. Após pegar impulso com uma corrida em direção à torcida, ele deslizava de joelhos na relva , com um braço nas costas e o outro erguido no ar. Toda essa eloqüência combinava bem com o caráter pouco convencional do meia. Porém, até mesmo os ases do esporte precisam suar para alcançar seus objetivos. Assim como um pintor ou um escritor trabalha incansavelmente para atingir o seu ápice criativo, o atleta, sendo dedicado, igualmente persegue a perfeição. Como bem disse o pintor Paul Klee: “A gente encontra o próprio estilo quando não consegue fazer as coisas de outra maneira”. O estilo de Neto bater faltas foi sendo moldado desde os seus tempos no Guarani, quando ele dedicava-se aos treinos com ardor juvenil. A repetição quase mecânica dos movimentos produziu um admirável verdugo para os arqueiros contrários.
Outro exemplo de craque instintivo, mas que logrou burilar a sua técnica através de um trabalho metódico, é o do argentino Sanfilippo. Nascido futebolisticamente no San Lorenzo, José “Nene” Sanfilippo, foi artilheiro do campeonato de seu país em quatro oportunidades seguidas, de 1958 a 61, um recorde ainda não superado. Oportunista, dono de grande visão de jogo e combativo, brilhou também na seleção argentina. Na análise do conceituado jornalista Julio César Pasquato, Sanfilippo incorporou a atitude de goleador contumaz e: “se esmeró en esa especialidad con perseverancia casi obsesiva, quedándose en el campo de entrenamiento hasta muy tarde(...)practicando el remate de cualquier distancia y posición”. Essa disposição se refletia no rendimento de Sanfilippo, que inclusive jogou no Bahia no final de sua carreira, sendo lembrado até hoje por suas atuações no clube nordestino.
Sem trabalho, é difícil atingir o sucesso. Por isso vale a pena resgatar o caso de Larry Bird, do time de basquete do Boston Celtics. A sua alvorada diária, lá por seis horas da manhã, era transcorrida alegremente em um ginásio, cobrando cerca de quinhentos lances livres. E Larry decidia os jogos, muitas vezes através de um arremesso com a bola morta. Eram dias dourados para o Celtics, onde Larry dividia as ações na quadra com feras do calibre de Robert Parish, Kevin McHale e o saudoso Dennis Johnson.
A minha humilde conclusão é que o atleta, por mais talentoso que seja, sempre pode melhorar sua técnica através do treinamento. Essa dedicação contagia, inclusive, o resto do grupo, servindo de estímulo para atingir conquistas coletivas. Por isso é impossível não se comover com esses estupendos jogadores, que, a despeito de sua genética superior e privilegiada para o esporte, com louvável disciplina passam horas e horas praticando, praticando, praticando...
Site Campeões do Futebol
Postado em 4/10/2008 at 03:05 PM
Alô, amigos!
Estou colaborando com o site "Campeões do Futebol", um acervo completo sobre campeonatos regionais, nacionais e internacionais.
Confiram!!!
http://www.campeoesdofutebol.com.br/index.htm
Didi e o Pelé branco
Postado em 29/9/2008 at 08:05 PM
Didi e o Pelé Branco
Olá, pessoas. Hoje quero falar um pouco sobre uma das glórias do futebol brasileiro. O jogador por excelência, o craque sem nenhuma sombra de dúvida que “jogava futebol como quem chupa uma laranja”, nas palavras de Neném Prancha. Nascido Valdir Pereira, jogou nos modestos Americano e Madureira antes de chegar em um clube grande, no caso o Fluminense. Lá, ganhou seu primeiro título em 1951, integrando um ataque célebre que tinha: Telê, Orlando Pingo D’ Ouro, Carlyle, Didi e Joel. Embora alguns digam que o ídolo da torcida tricolor era o goleiro Castilho, é óbvio que o grande organizador daquele time era o Didi. E aqui não quero me estender quanto às suas qualidades técnicas, pois isso seria chover no molhado. Em 1956, graças à astúcia de João Saldanha, o Botafogo compra Didi. Talvez sejam dessa época as recordações mais intensas e românticas do seu futebol. Campeão em 1957, 61 e 62, nesse time não teve muito trabalho. Era só lançar a bola no vazio do setor direito de ataque alvinegro que o ponteiro Garrincha resolvia. E como ele lançava!
Após pendurar as chuteiras, Didi tornou-se técnico. Na Seleção Peruana conseguiu a façanha de levar o time à Copa do México em 70, eliminando a poderosa Argentina. Era um belo time: Rubiños no gol, Chumpitaz na zaga, Mifflin, que depois jogou no Santos, no meio campo, Cubillas e Gallardo no ataque, entre outros. Mesmo estando na chave da Alemanha, Didi levou o Peru às quartas de final, após vencer Bulgária e Marrocos. Só que aí pegou a Seleção Brasileira que, como sabemos, não estava para pouca coisa. Porém, o fato de ter eliminado a Argentina da Copa não passou despercebido. Tanto é que após a aventura mexicana, Didi assume o River Plate, paradigma do jeito argentino de jogar futebol. O clube da banda roja vinha sem ganhar títulos desde 1957 e só sairia da fila alguns anos mais tarde, em 1975. Uma seca semelhante àquelas vividas por Corinthians e Botafogo. A torcida tinha poucas alegrias. Uma delas foi a vitória em um Superclásico de 1971, onde Didi, utilizando jogadores das categorias de base, venceu um Boca Juniors repleto de profissionais experientes como Marzolini, Rogel, Ponce e Pianetti.
Outro grande mérito de Didi foi ter lançado no time principal o imberbe Norberto Osvaldo Alonso. “Beto” Alonso foi a grande figura do River depois de Labruña e antes de Francescoli. Um jogador colossal que, assim como Didi, gostava de jogar bonito. Certa vez, após driblar o goleiro Santoro do Independiente sem tocar na bola, recebeu da imprensa esportiva Argentina o apelido de “Pelé Branco”. É que o lance fora parecido com aquele protagonizado pelo Rei na Copa de 70, no qual ele deixa sem pai nem mãe o goleiro uruguaio Mazurkiewicz. A diferença é que, no caso de Beto Alonso, a jogada termina em gol. Quando vence o Metropolitano de 1975, dando fim ao jejum de títulos, o meio campo do River era Juan José Lopez, Reinaldo “Mostaza” Merlo e Beto Alonso. Apenas Merlo não fora lançado por Didi, que com as suas preleções e a sua tarimba era adorado pelos jogadores, ensinando como bater na bola e revelando os segredos da sua “folha seca”. Nas palavras de JJ López: “Las charlas técnicas con Didi no tenían desperdício. Era un lírico, insistía en la creación del jugador”.
Infelizmente, futebol é resultado, e apesar de algumas vitórias, especialmente contra o Boca, em 1972, Didi vai embora. Mesmo que essa sua passagem pelo River seja pouco discutida aqui no Brasil, o fato é que foi ele o responsável pelo lançamento de um grande no mundo do futebol. Pergunte a qualquer torcedor argentino.
Livro Alicate contra Diamante
Postado em 4/9/2008 at 08:52 PM
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Riva versus Riva
Postado em 27/8/2008 at 10:32 PM
Riva versus Riva
Serpentinas brancas e papel picado cobrindo o verde gramado do Monumental de Núñez em uma noite fria de Buenos Aires. A primeira Copa do Mundo de que tenho lembrança, é a da Argentina. Lembro-me de Luque, o bigodudo centroavante platino fazendo gols naquele jogo contra o Peru. Memórias distantes de uma criança que ainda não entendia bem as coisas.
Foi essa também a última Copa de Roberto Rivellino, o canto de cisne de um guerreiro do nosso futebol. Lesionado, ele não pôde contribuir com todo o seu talento. O tempo também pesava contra ele. Àquela altura, Rivellino era o último remanescente da turma de 70 ainda na Seleção. No México, ele tinha sido um dos mais jovens do elenco. O ambiente do grupo era saudável e Rivellino gozava de grande popularidade entre os companheiros. Era “bigode” pra cá, “orelha” pra lá. Mas o craque bonachão era quase sempre chamado de “Riva”. O Brasil foi derrubando os adversários como uma fileira de dominós, até chegar à final contra a Itália de Riva. Itália de Riva? Calma, pessoal. Não estou fazendo confusão. Os peninsulares também tinham o seu Riva.
E não era um Riva qualquer. Gigi Riva foi um dos maiores jogadores italianos surgidos depois da Segunda Guerra Mundial. Um goleador implacável, simplesmente o maior de toda a história da seleção italiana com 35 conquistas. Além disso, Riva foi o grande herói do memorável e solitário “scudetto” do Cagliari. “Paladino della Sardegna”, como certa vez escreveu um jornalista, Riva foi adotado pela ensolarada ilha, sempre tão esquecida e desprezada pela parte rica da Itália. Depois de jogar pelo Legnano da terceira divisão, Riva incorporou como ninguém o espírito do Cagliari, e o clube nunca mais foi o mesmo depois disso. O ápice de tudo foi em abril de 1970, quando o time do técnico Manlio Scopigno venceu o Bari e botou a mão na taça. Antes da partida, como se fosse um cantor romântico, Riva jogou flores para a torcida, num gesto imortalizado pelas câmeras de tv. Carismático, vencedor e, acima de tudo, artilheiro contumaz. A Itália naturalmente passou a apostar em Riva como o grande nome para a Copa do México.
Mas não foi bem assim, o bravo atacante não rendeu o esperado, talvez pressionado pela enorme expectativa popular. Foram três gols, dois contra os anfitriões e um na fantástica contenda com a Alemanha. Na final, a Itália pegaria justamente o Brasil do nosso Riva. Interessante que, além da coincidência do nome, havia o fato de ambos jogarem com a camisa onze e terem um verdadeiro canhão na perna esquerda. Não sei se eles chegaram a ficar cara a cara durante a partida, ou se houve algum choque ou dividida entre os dois. Mas quem ficou com os louros da vitória foi o “Reizinho do Parque ”, alcunha dada a Rivellino pelo jornalista Antônio Guzman.
Desde cedo paparicado pela massa corintiana, Riva teve a dura tarefa de conduzir o time em uma espécie de travessia do deserto, o longo calvário dos anos sem título. Em outro clube talvez a espera não fosse tão difícil, mas o Corinthians sempre esteve acostumado a vencer. Com Gigi Riva foi o contrário, já que para o Cagliari, vencer o campeonato foi uma façanha única, um momento belo e fugaz, que nunca mais se repetiria. Depois daquela tarde no Estádio Asteca, Riva encontraria Riva mais uma vez. Foi no estádio Olímpico de Roma, durante uma excursão do Brasil à Europa em 1973. O nosso bom Roberto agora vestia a camisa dez, herdada de Pelé. Era apenas um amistoso e a Itália venceu, atenuando um pouco a dor pela derrota de três anos antes. Nesse jogo, Riva alcançou Giuseppe “Peppìn” Meazza na tabela de goleadores da “azzurra”. Após uma saída em falso do goleiro Leão, o carrasco italiano pegou o rebote e mandou para as redes. Foi um duro golpe para o Brasil, que não perdia há 36 partidas.
Enquanto isso, a relação de Riva com a Fiel ia se deteriorando aos poucos, muito em razão do famigerado jejum de títulos. O triste fim veio depois da decisão perdida para o Palmeiras no campeonato paulista de 74. Injustamente culpado pelo novo fracasso, o craque acaba vendido ao Fluminense. Males que vem para bem, com a camisa tricolor Riva conquistaria dois campeonatos cariocas, sendo uma das bandeiras do esquadrão montado pelo esperto presidente Francisco Horta. Quanto à Gigi Riva, ele permaneceria até o fim da carreira vestindo as cores “rossoblu” do Cagliari. Embora tenazmente assediado pelas poderosas Juventus, Inter e Milan, Riva optou pela lealdade ao povo sardo. Segundo alguns cronistas, essa decisão, embora repleta de nobres valores, foi nociva para o goleador. Privado da oportunidade de jogar por uma equipe competitiva, Riva tornou-se prisioneiro da ilha que tanto amava. Mas o seu recado já tinha sido dado. Assim como Rivellino, Riva foi um exemplo de caráter e valor humano admirado mesmo pelas torcidas rivais, fato que só ocorre com os monstros sagrados do futebol.
Sem remorso
Postado em 14/1/2008 at 09:04 PM
Sem remorso
Madison Square Garden. O templo sagrado do boxe em Nova York, palco de memoráveis combates na época de ouro desse esporte. Estamos em dezembro de 1930 e, em breve, uma nova luta terá início. Não será uma luta qualquer, entre dois pugilistas adversários pela vitória, mas a luta de um homem contra um de seus mais profundos e terríveis sentimentos: o remorso.
Max Baer, filho de um açogueiro judeu da Califórnia, era conhecido pelo seu estilo fanfarrão, sempre com um sorriso nos lábios. Para muitos críticos, porém, não possuía coragem e determinação para ser um bom boxeador, o que ele compensava com uma força incrível nos braços. “O Carniceiro de Livermore” era, sobretudo, uma espécie de aventureiro, que gozava a vida cercado do luxo e da fama proporcionados pelo boxe. Antes de subir no famoso ringue , enquanto fazia boxe-sombra para relaxar no vestiário, Max pensava na fatalidade ocorrida na sua última luta. Um combate em que a tragédia se abateu sobre ele e seu contendor, Frankie Campbell. Em determinado instante, Campbell descuidou-se e recebeu um murro avassalador na cabeça. Mesmo assim, a luta prosseguiu, até que no quinto assalto Baer encurralou o rival nas cordas e desferiu uma saraivada de golpes, provocando o nocaute. Levado a um hospital em San Franscisco, Campbell veio a falecer devido à gravidade dos ferimentos. O sorriso, marca registrada de Baer, desapareceu por completo nos meses que seguiram. E foi assim, refém de uma angústia que quase o fez abandonar a carreira, que ele enfrentou Ernie Schaaf no Madison Square Garden, perdendo por pontos após dez assaltos. A revanche contra Schaaf viria dois anos depois, em Chicago. Em outra feroz batalha, Baer castigou duramente o oponente. Seqüelado, Schaaf morreria após um combate com Primo Carnera, em fevereiro de 1933. Mas, o burburinho dos cafés entre os entendidos do boxe não deixava dúvidas: o verdadeiro responsável pela tragédia era Max Baer, que carregaria um triste peso na consciência, até morrer de ataque cardíaco em 1959.
Geralmente, os grandes campeões são dotados de nobreza e fidalguia. Um caso curioso ocorreu com o nosso exímio pugilista Éder Jofre, durante sua luta com o italiano Nevio Carbi em 1970. Graças à sua técnica e força superiores, o “Galo de Ouro” dominava o rival, que, cansado de tanto apanhar, pediu que Éder diminuísse o ritmo. Porém, Jofre pensou tratar-se de um truque e castigou ainda mais o pobre europeu. Após a luta, Carbi explicou que realmente correra perigo e Jofre, com a sua pureza peculiar e um aperto no coração, pensou em deixar os ringues, arrependido com a brutalidade que cometera. Nascido no seio de uma família de pugilistas, Éder Jofre sempre foi adepto do boxe limpo e leal.
Um dos maiores lutadores de todos os tempos foi, sem dúvida, Mike Tyson. Dono de um estilo selvagem, ele costumava nocautear seus adversários após poucos segundos de luta. E suas táticas não eram de todo válidas ou aceitáveis. Como, por exemplo, seu hábito de bater depois do gongo soar encerrando um assalto, ou usar os cotovelos para fustigar o rival em meio a um “clinch”. Amado por uns, odiado por outros, o seu carisma era evidente, em muito graças à esperteza de seus empresários, que souberam criar uma aura de invencibilidade ao redor de Tyson. Seus oponentes já entravam no ringue sob forte temor, derrotados por antecipação. Mesmo assim, ele apresentava certos traços de compaixão. Fã de filmes antigos sobre boxe, Tyson chegou a imitar o gesto do lendário Jack Dempsey, que costumava ajudar o rival nocauteado a caminhar até seu córner. Mas, na maioria das vezes, Tyson era uma verdadeira máquina de bater, insensível até mesmo com seus “sparrings” e dono de uma personalidade agressiva também fora do tablado.
Na verdade, aquele delinqüente juvenil produzido pelas ruas do Brooklyn, poderia ter se regenerado através do esporte. Seu tutor em seus primeiros dias de boxe, Cus D’Amato, tentou pavimentar um caminho digno para Tyson. Para o velho técnico, o boxe era uma questão de vontade antes que habilidade, e ele possuía essa garra como ninguém. Sua derrocada foi uma perda para o esporte, mas também para a sociedade, que com suas desigualdades em nada contribuiu na formação do caráter do menino. Campeão Mundial e dono de milhões de dólares, Tyson perdeu tudo. Ao contrário de Max Baer e Éder Jofre, viveu e lutou sem remorso, maltratando adversários e, principalmente, a si mesmo.
Letras no gramado
Postado em 29/10/2007 at 07:56 PM
Letras no gramado
Desde que começou a ser praticado no Brasil, o futebol sempre despertou sentimentos antagônicos dentro da sociedade. Para alguns, era uma perda de tempo ou uma coisa de desocupados. Para outros, uma atividade saudável, e que trazia no seu cerne as benesses que o espírito esportivo produz: o respeito e a camaradagem entre as pessoas. Entre os escritores a coisa não foi diferente. O futebol, para o bem ou para o mal, atiçou a verve nessa classe desde seus primórdios, sendo tema de debates acalorados.
Filho de um português e de uma escrava, Lima Barreto foi um tenaz opositor à prática do esporte no início do século passado. O autor de “Triste Fim de Policarpo Quaresma” chegou até a organizar uma “Liga Brasileira Contra o Football”. Para ele o futebol era um fator de desagregação social que desviava a atenção das pessoas de assuntos mais importantes. Combatido pelos parnasianos, Lima Barreto sempre mostrou em sua obra preocupação com a realidade brasileira, estabelecendo uma ponte entre os estilos romântico e modernista. Este grande expoente de nossas letras morreu em 1922, deixando como herança uma produção de valor inestimável.
As raízes do futebol, porém, já estavam irreversivelmente plantadas no nosso cotidiano. Elevado à condição de “verdadeira instituição brasileira”, nas palavras de Gilberto Freyre, o esporte conquistava novos adeptos a cada dia. Foi Freyre o autor do prefácio do livro “O Negro no Futebol Brasileiro” de Mario Filho. Essa notável obra literária, que tem a sua primeira edição em 1947, estabelece um verdadeiro retrato da identidade do nosso povo. Interessante o paralelo que Freyre traça entre dois craques, cada um no seu ofício: “Domingos (...) está para o nosso futebol como Machado de Assis para nossa literatura, isto é, na situação de uma espécie de inglês desgarrado entre os tropicais”. É que o grande Domingos da Guia tinha um estilo mais sóbrio de jogar, contrário aquela coisa mais rítmica, herdada do samba e da capoeira.
Outro grande escritor a dedicar-se ao futebol foi José Lins do Rego. Esse paraibano do município de Pilar participou ativamente do processo que transformou o esporte em assunto importante nas páginas dos jornais. Com suas crônicas publicadas no Jornal dos Sports entre 1945 e 57, o autor de “Menino de Engenho” foi um dos primeiros “parciais” clubísticos dentro da imprensa. Era Flamengo assumido, sendo integrante de uma espécie de confraria, os “Dragões Rubro-Negros”. Durante o Sul-Americano de 53 em Lima, houve um mal entendido envolvendo o escritor e o craque Zizinho. Foi o fim de uma amizade. Tudo teria acontecido por diferenças quanto ao “bicho” pago aos jogadores. José Lins, atuando como funcionário da CBD, era o chefe da delegação brasileira nessa ocasião.
Quando Heleno de Freitas foi jogar na Colômbia em 1950, um jovem aspirante a escritor era repórter esportivo em Barranquilla. Na redação do jornal “El Heraldo”, Gabriel Garcia Márquez escreveu vários textos analisando as atuações exuberantes do brasileiro com a camisa do Atlético Junior. Ele não era ainda o autor de “Cem Anos de Solidão”, mas pode-se dizer que com o seu talento ajudou a registrar momentos preciosos do esporte. Da mesma forma Eduardo Galeano, outro autor sul-americano, escreveu sobre o tema. Entre outras obras consagradas de nosso vizinho uruguaio podemos citar “As Veias Abertas da América Latina”, um relato de como nosso continente foi saqueado pelas nações européias. Com “Futebol ao Sol e à Sombra”, Galeano nos deixa um verdadeiro clássico e exemplo vivo de que o esporte instiga também os grandes intelectuais.
Para terminar, poderíamos citar João Cabral de Melo Neto. Eleito por unanimidade para a Academia Brasileira de Letras em 1969, o autor de “Morte e Vida Severina” é famoso por ter imortalizado o craque palmeirense Ademir da Guia em um poema. Aqui vai um trecho: “Ademir impõe com seu jogo o ritmo do chumbo (e o peso), da lesma, da câmara lenta, do homem dentro do pesadelo”. Felizes de nós que podemos desfrutar desses gênios falando daquilo que o povo gosta. Afinal, como diz o ditado, “mens sana in corpore sano”.
Livro disponível !
Postado em 29/10/2007 at 12:11 PM
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Alicate Contra Diamante
Este Livro traz as primeiras crônicas escritas por Lúcio Saretta, tendo como tema principal o esporte e seus personagens marcantes.
Craques do futebol de ontem são retratados de maneira envolvente, levando o leitor a uma viagem pelo tempo. O grande Torino da década de 40, Dadá Maravilha, Leônidas da Silva e histórias reveladoras sobre Didi e Maradona, constrastam com fatos dos dias atuais.
Além disso, é uma obra que propõe uma reflexão sobre os nobres valores que o esporte traz consigo, como companheirismo, amizade e superação.
Acima de tudo, Alicate Contra Diamante traça um paralelo notável entre o esporte e a vida, o passado e o presente, a paixão do torcedor e a razão do historiador.
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