Bolas de fogo
Postado em 5/11/2008 at 08:46 PM
Bolas de fogo
Esta história começa em Alegrete. Quando o menino João Saldanha exultava com as ações dos revoltosos maragatos na luta contra Borges de Medeiros em 23, ele não imaginava que um dia seria técnico de futebol. Mais tarde, a família iria para o Rio de Janeiro levada por Gaspar, o pai de João, durante os primeiros anos do governo de Getúlio Vargas. Lá, João tornou-se torcedor do Botafogo, jogando futebol na praia com o futuro craque alvinegro Heleno de Freitas. Em 56, o presidente Paulo Azeredo convida o gaúcho, que já havia trabalhado como diretor no clube, para participar do departamento de futebol. Tudo vai bem, até que o posto de técnico fica vazio. Bandeira botafoguense em seus tempos de jogador, Efigênio de Freitas Bahiense, o Geninho, fora afastado pela direção por pedir demais para renovar o contrato. Em uma situação inédita, João passa para a beira do gramado, estreando, assim, na função de técnico.
Antes de ir embora, Geninho, ex-combatente da Segunda Guerra e policial, alerta João sobre “Mané” Garrincha. O exuberante ponteiro direito era uma verdadeira “fera”, talento incrível com a bola nos pés e grande gozador fora de campo. A primeira tarefa do novel treinador seria, pois, domar o gênio meio infantil, meio demoníaco de Garrincha. O campeonato carioca de 57 seria definido por Nilton Santos como “uma espécie de romance policial”. O lateral esquerdo recorda que nenhum time despontou como franco favorito ao título, e o Botafogo de João Saldanha não era exceção. O goleiro Adalberto, um negro alto e forte, garantia uma certa segurança à zaga, ainda que esta contasse com o gabarito de Nilton Santos. A “enciclopédia” era, sem dúvida, o jogador de maior presença no time, pela sua hierarquia técnica e liderança. Outro que dava consistência ao setor era o médio Servilio, cujo nome verdadeiro era José Lucas. Oriundo do Flamengo, ele tinha o apelido pela sua semelhança com o antigo atacante Servílio do Corinthians. Também mostravam valentia o jovem zagueiro Tomé e o atacante Edson “praça Mauá”. E havia as cobras. Durante os jogos, a esfera circulava mansamente entre as travessuras de Garrincha e os toques cerebrais de Didi, até ser oferecida para os gols de Paulo Valentim e os petardos de Quarentinha, verdadeiras bolas de fogo.
Filho do outrora atleta vascaíno Quarenta, Waldir Cardoso Lebrego era um paraense tímido, que despontara para o futebol no Paysandu. Quando João Saldanha assumiu o time, uma de suas primeiras medidas foi pedir a volta de Quarentinha, que estava emprestado ao Bonsucesso. O atacante seria essencial na campanha do alvinegro. Durante feijoadas promovidas por Garrincha na sua terra natal, Pau Grande, Quarentinha exibia um grande apetite, devorando pimentas cruas com cachaça. Com uma dieta quente como aquela, energia não lhe faltava. E ele botava fogo nos jogos. Seus chutes eram de uma potência avassaladora, um pesadelo permanente para os goleiros rivais. O time foi se acertando e chegou à final contra o Fluminense. O que se viu então, foi um baile de proporções antológicas. O grande maestro da tarde foi Garrincha. Mesmo marcado com tenacidade por Clóvis e Altair, Mané causou grandes estragos na defesa tricolor, fazendo lançamentos precisos para Paulo Valentim. Placar final, 6 a 2 para o Botafogo. Incumbido por Saldanha com a tarefa de marcar Telê, o craque e pensador do onze “pó de arroz”, Quarentinha não fez gols no massacre.
Nesse mesmo ano de 1957, um jovem pianista americano atingia o topo das paradas. Enquanto Garrincha assombrava a todos com sua adorável irreverência, Jerry Lee Lewis magnetizava as platéias com o seu rock enérgico e novo. Um de seus sucessos foi justamente a canção “Great Balls of Fire”, que bem poderia ser a trilha sonora da pequena epopéia botafoguense. Virtuose como poucos, Jerry tocava o piano de forma selvagem, usando o cotovelo e os pés nas suas performances. Eram picardias de uma época romântica e inocente, também vivida por Garrincha, com seus dribles desconcertantes, e Quarentinha, com suas bolas de fogo queimando as redes contrárias.
Blog Ressacão
Postado em 14/10/2008 at 11:22 PM
Alô, rapaziada!
Uma dica para quem gosta de vídeos de surf e resenhas de filmes europeus é o blog do meu amigo Rafael Frizzo de Tramandaí.
O endereço é http://ressacao.blogspot.com
Valeu!
Ases no batente
Postado em 14/10/2008 at 11:21 PM
Ases no batente
Um dos maiores jogadores da história do Flamengo foi, sem dúvida, Dida. Quando o rubro-negro conquistou seu segundo tricampeonato carioca em 1955, Dida formava uma entrosada ala esquerda de ataque junto com outro rapaz de Maceió, o ponteiro Zagallo. Edvaldo Alves de Santa Rosa vestiu a camisa do Flamengo por dez anos, sendo por muito tempo o maior goleador histórico do clube. Isso durou até o surgimento de Zico. Em fevereiro de 1979, jogando contra o Goytacaz, o “galinho” quebrou o recorde de Dida, aliás, seu ídolo de infância. Para atingir essa marca, Zico fez muitos gols de falta. Ele era um grande batedor, mas se engana quem pensa que o efeito malicioso de seus chutes com a pelota parada seja obra do acaso. Não. Apesar de craque nato, Zico era também um abnegado, ficando até mais tarde depois dos treinos, lapidando sua arte de forma incansável.
Assim também era Neto do Corinthians, famoso por gols antológicos dentro do quesito consagrado por Zico. O rubro negro, inclusive, foi vítima dos petardos do “xodó da Fiel”. Foi no Maracanã, durante o campeonato brasileiro de 1991. Nessa ocasião, o ilustre filho de Santo Antônio da Posse estufou as redes do bom goleiro Gilmar, despachando um verdadeiro “pombo sem asa” em cobrança de falta quase da intermediária do campo. Esse gol deveria ser guardado dentro de uma caixinha de veludo, pois trata-se de uma obra prima. Muito bem. Neto virou ídolo da massa corintiana graças a momentos como esse. Rebelde, falastrão, foi o grande timoneiro da equipe que venceu o Brasileirão de 1990. Eis aqui o onze mosqueteiro daquela final: Ronaldo, Giba, Marcelo Dijian, Guinei e Jacenir; Márcio, Wilson Mano, Neto e Tupãzinho; Fabinho e Mauro. Técnico: Nelsinho Batista.
Interessante a maneira de Neto comemorar os gols. Após pegar impulso com uma corrida em direção à torcida, ele deslizava de joelhos na relva , com um braço nas costas e o outro erguido no ar. Toda essa eloqüência combinava bem com o caráter pouco convencional do meia. Porém, até mesmo os ases do esporte precisam suar para alcançar seus objetivos. Assim como um pintor ou um escritor trabalha incansavelmente para atingir o seu ápice criativo, o atleta, sendo dedicado, igualmente persegue a perfeição. Como bem disse o pintor Paul Klee: “A gente encontra o próprio estilo quando não consegue fazer as coisas de outra maneira”. O estilo de Neto bater faltas foi sendo moldado desde os seus tempos no Guarani, quando ele dedicava-se aos treinos com ardor juvenil. A repetição quase mecânica dos movimentos produziu um admirável verdugo para os arqueiros contrários.
Outro exemplo de craque instintivo, mas que logrou burilar a sua técnica através de um trabalho metódico, é o do argentino Sanfilippo. Nascido futebolisticamente no San Lorenzo, José “Nene” Sanfilippo, foi artilheiro do campeonato de seu país em quatro oportunidades seguidas, de 1958 a 61, um recorde ainda não superado. Oportunista, dono de grande visão de jogo e combativo, brilhou também na seleção argentina. Na análise do conceituado jornalista Julio César Pasquato, Sanfilippo incorporou a atitude de goleador contumaz e: “se esmeró en esa especialidad con perseverancia casi obsesiva, quedándose en el campo de entrenamiento hasta muy tarde(...)practicando el remate de cualquier distancia y posición”. Essa disposição se refletia no rendimento de Sanfilippo, que inclusive jogou no Bahia no final de sua carreira, sendo lembrado até hoje por suas atuações no clube nordestino.
Sem trabalho, é difícil atingir o sucesso. Por isso vale a pena resgatar o caso de Larry Bird, do time de basquete do Boston Celtics. A sua alvorada diária, lá por seis horas da manhã, era transcorrida alegremente em um ginásio, cobrando cerca de quinhentos lances livres. E Larry decidia os jogos, muitas vezes através de um arremesso com a bola morta. Eram dias dourados para o Celtics, onde Larry dividia as ações na quadra com feras do calibre de Robert Parish, Kevin McHale e o saudoso Dennis Johnson.
A minha humilde conclusão é que o atleta, por mais talentoso que seja, sempre pode melhorar sua técnica através do treinamento. Essa dedicação contagia, inclusive, o resto do grupo, servindo de estímulo para atingir conquistas coletivas. Por isso é impossível não se comover com esses estupendos jogadores, que, a despeito de sua genética superior e privilegiada para o esporte, com louvável disciplina passam horas e horas praticando, praticando, praticando...
Site Papo de Bola
Postado em 4/10/2008 at 03:13 PM
Alô, turma.
A partir de hoje vocês também podem ler minhas crônicas no site "Papo de Bola", um endereço muito legal para quem gosta de estar bem informado sobre futebol e outros esportes.
Um abraço!
www.papodebola.com.br
Site Campeões do Futebol
Postado em 4/10/2008 at 03:05 PM
Alô, amigos!
Estou colaborando com o site "Campeões do Futebol", um acervo completo sobre campeonatos regionais, nacionais e internacionais.
Confiram!!!
http://www.campeoesdofutebol.com.br/index.htm
Didi e o Pelé branco
Postado em 29/9/2008 at 08:05 PM
Didi e o Pelé Branco
Olá, pessoas. Hoje quero falar um pouco sobre uma das glórias do futebol brasileiro. O jogador por excelência, o craque sem nenhuma sombra de dúvida que “jogava futebol como quem chupa uma laranja”, nas palavras de Neném Prancha. Nascido Valdir Pereira, jogou nos modestos Americano e Madureira antes de chegar em um clube grande, no caso o Fluminense. Lá, ganhou seu primeiro título em 1951, integrando um ataque célebre que tinha: Telê, Orlando Pingo D’ Ouro, Carlyle, Didi e Joel. Embora alguns digam que o ídolo da torcida tricolor era o goleiro Castilho, é óbvio que o grande organizador daquele time era o Didi. E aqui não quero me estender quanto às suas qualidades técnicas, pois isso seria chover no molhado. Em 1956, graças à astúcia de João Saldanha, o Botafogo compra Didi. Talvez sejam dessa época as recordações mais intensas e românticas do seu futebol. Campeão em 1957, 61 e 62, nesse time não teve muito trabalho. Era só lançar a bola no vazio do setor direito de ataque alvinegro que o ponteiro Garrincha resolvia. E como ele lançava!
Após pendurar as chuteiras, Didi tornou-se técnico. Na Seleção Peruana conseguiu a façanha de levar o time à Copa do México em 70, eliminando a poderosa Argentina. Era um belo time: Rubiños no gol, Chumpitaz na zaga, Mifflin, que depois jogou no Santos, no meio campo, Cubillas e Gallardo no ataque, entre outros. Mesmo estando na chave da Alemanha, Didi levou o Peru às quartas de final, após vencer Bulgária e Marrocos. Só que aí pegou a Seleção Brasileira que, como sabemos, não estava para pouca coisa. Porém, o fato de ter eliminado a Argentina da Copa não passou despercebido. Tanto é que após a aventura mexicana, Didi assume o River Plate, paradigma do jeito argentino de jogar futebol. O clube da banda roja vinha sem ganhar títulos desde 1957 e só sairia da fila alguns anos mais tarde, em 1975. Uma seca semelhante àquelas vividas por Corinthians e Botafogo. A torcida tinha poucas alegrias. Uma delas foi a vitória em um Superclásico de 1971, onde Didi, utilizando jogadores das categorias de base, venceu um Boca Juniors repleto de profissionais experientes como Marzolini, Rogel, Ponce e Pianetti.
Outro grande mérito de Didi foi ter lançado no time principal o imberbe Norberto Osvaldo Alonso. “Beto” Alonso foi a grande figura do River depois de Labruña e antes de Francescoli. Um jogador colossal que, assim como Didi, gostava de jogar bonito. Certa vez, após driblar o goleiro Santoro do Independiente sem tocar na bola, recebeu da imprensa esportiva Argentina o apelido de “Pelé Branco”. É que o lance fora parecido com aquele protagonizado pelo Rei na Copa de 70, no qual ele deixa sem pai nem mãe o goleiro uruguaio Mazurkiewicz. A diferença é que, no caso de Beto Alonso, a jogada termina em gol. Quando vence o Metropolitano de 1975, dando fim ao jejum de títulos, o meio campo do River era Juan José Lopez, Reinaldo “Mostaza” Merlo e Beto Alonso. Apenas Merlo não fora lançado por Didi, que com as suas preleções e a sua tarimba era adorado pelos jogadores, ensinando como bater na bola e revelando os segredos da sua “folha seca”. Nas palavras de JJ López: “Las charlas técnicas con Didi no tenían desperdício. Era un lírico, insistía en la creación del jugador”.
Infelizmente, futebol é resultado, e apesar de algumas vitórias, especialmente contra o Boca, em 1972, Didi vai embora. Mesmo que essa sua passagem pelo River seja pouco discutida aqui no Brasil, o fato é que foi ele o responsável pelo lançamento de um grande no mundo do futebol. Pergunte a qualquer torcedor argentino.
Livro Alicate contra Diamante
Postado em 4/9/2008 at 08:52 PM
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Riva versus Riva
Postado em 27/8/2008 at 10:32 PM
Riva versus Riva
Serpentinas brancas e papel picado cobrindo o verde gramado do Monumental de Núñez em uma noite fria de Buenos Aires. A primeira Copa do Mundo de que tenho lembrança, é a da Argentina. Lembro-me de Luque, o bigodudo centroavante platino fazendo gols naquele jogo contra o Peru. Memórias distantes de uma criança que ainda não entendia bem as coisas.
Foi essa também a última Copa de Roberto Rivellino, o canto de cisne de um guerreiro do nosso futebol. Lesionado, ele não pôde contribuir com todo o seu talento. O tempo também pesava contra ele. Àquela altura, Rivellino era o último remanescente da turma de 70 ainda na Seleção. No México, ele tinha sido um dos mais jovens do elenco. O ambiente do grupo era saudável e Rivellino gozava de grande popularidade entre os companheiros. Era “bigode” pra cá, “orelha” pra lá. Mas o craque bonachão era quase sempre chamado de “Riva”. O Brasil foi derrubando os adversários como uma fileira de dominós, até chegar à final contra a Itália de Riva. Itália de Riva? Calma, pessoal. Não estou fazendo confusão. Os peninsulares também tinham o seu Riva.
E não era um Riva qualquer. Gigi Riva foi um dos maiores jogadores italianos surgidos depois da Segunda Guerra Mundial. Um goleador implacável, simplesmente o maior de toda a história da seleção italiana com 35 conquistas. Além disso, Riva foi o grande herói do memorável e solitário “scudetto” do Cagliari. “Paladino della Sardegna”, como certa vez escreveu um jornalista, Riva foi adotado pela ensolarada ilha, sempre tão esquecida e desprezada pela parte rica da Itália. Depois de jogar pelo Legnano da terceira divisão, Riva incorporou como ninguém o espírito do Cagliari, e o clube nunca mais foi o mesmo depois disso. O ápice de tudo foi em abril de 1970, quando o time do técnico Manlio Scopigno venceu o Bari e botou a mão na taça. Antes da partida, como se fosse um cantor romântico, Riva jogou flores para a torcida, num gesto imortalizado pelas câmeras de tv. Carismático, vencedor e, acima de tudo, artilheiro contumaz. A Itália naturalmente passou a apostar em Riva como o grande nome para a Copa do México.
Mas não foi bem assim, o bravo atacante não rendeu o esperado, talvez pressionado pela enorme expectativa popular. Foram três gols, dois contra os anfitriões e um na fantástica contenda com a Alemanha. Na final, a Itália pegaria justamente o Brasil do nosso Riva. Interessante que, além da coincidência do nome, havia o fato de ambos jogarem com a camisa onze e terem um verdadeiro canhão na perna esquerda. Não sei se eles chegaram a ficar cara a cara durante a partida, ou se houve algum choque ou dividida entre os dois. Mas quem ficou com os louros da vitória foi o “Reizinho do Parque ”, alcunha dada a Rivellino pelo jornalista Antônio Guzman.
Desde cedo paparicado pela massa corintiana, Riva teve a dura tarefa de conduzir o time em uma espécie de travessia do deserto, o longo calvário dos anos sem título. Em outro clube talvez a espera não fosse tão difícil, mas o Corinthians sempre esteve acostumado a vencer. Com Gigi Riva foi o contrário, já que para o Cagliari, vencer o campeonato foi uma façanha única, um momento belo e fugaz, que nunca mais se repetiria. Depois daquela tarde no Estádio Asteca, Riva encontraria Riva mais uma vez. Foi no estádio Olímpico de Roma, durante uma excursão do Brasil à Europa em 1973. O nosso bom Roberto agora vestia a camisa dez, herdada de Pelé. Era apenas um amistoso e a Itália venceu, atenuando um pouco a dor pela derrota de três anos antes. Nesse jogo, Riva alcançou Giuseppe “Peppìn” Meazza na tabela de goleadores da “azzurra”. Após uma saída em falso do goleiro Leão, o carrasco italiano pegou o rebote e mandou para as redes. Foi um duro golpe para o Brasil, que não perdia há 36 partidas.
Enquanto isso, a relação de Riva com a Fiel ia se deteriorando aos poucos, muito em razão do famigerado jejum de títulos. O triste fim veio depois da decisão perdida para o Palmeiras no campeonato paulista de 74. Injustamente culpado pelo novo fracasso, o craque acaba vendido ao Fluminense. Males que vem para bem, com a camisa tricolor Riva conquistaria dois campeonatos cariocas, sendo uma das bandeiras do esquadrão montado pelo esperto presidente Francisco Horta. Quanto à Gigi Riva, ele permaneceria até o fim da carreira vestindo as cores “rossoblu” do Cagliari. Embora tenazmente assediado pelas poderosas Juventus, Inter e Milan, Riva optou pela lealdade ao povo sardo. Segundo alguns cronistas, essa decisão, embora repleta de nobres valores, foi nociva para o goleador. Privado da oportunidade de jogar por uma equipe competitiva, Riva tornou-se prisioneiro da ilha que tanto amava. Mas o seu recado já tinha sido dado. Assim como Rivellino, Riva foi um exemplo de caráter e valor humano admirado mesmo pelas torcidas rivais, fato que só ocorre com os monstros sagrados do futebol.
Sem remorso
Postado em 14/1/2008 at 09:04 PM
Sem remorso
Madison Square Garden. O templo sagrado do boxe em Nova York, palco de memoráveis combates na época de ouro desse esporte. Estamos em dezembro de 1930 e, em breve, uma nova luta terá início. Não será uma luta qualquer, entre dois pugilistas adversários pela vitória, mas a luta de um homem contra um de seus mais profundos e terríveis sentimentos: o remorso.
Max Baer, filho de um açogueiro judeu da Califórnia, era conhecido pelo seu estilo fanfarrão, sempre com um sorriso nos lábios. Para muitos críticos, porém, não possuía coragem e determinação para ser um bom boxeador, o que ele compensava com uma força incrível nos braços. “O Carniceiro de Livermore” era, sobretudo, uma espécie de aventureiro, que gozava a vida cercado do luxo e da fama proporcionados pelo boxe. Antes de subir no famoso ringue , enquanto fazia boxe-sombra para relaxar no vestiário, Max pensava na fatalidade ocorrida na sua última luta. Um combate em que a tragédia se abateu sobre ele e seu contendor, Frankie Campbell. Em determinado instante, Campbell descuidou-se e recebeu um murro avassalador na cabeça. Mesmo assim, a luta prosseguiu, até que no quinto assalto Baer encurralou o rival nas cordas e desferiu uma saraivada de golpes, provocando o nocaute. Levado a um hospital em San Franscisco, Campbell veio a falecer devido à gravidade dos ferimentos. O sorriso, marca registrada de Baer, desapareceu por completo nos meses que seguiram. E foi assim, refém de uma angústia que quase o fez abandonar a carreira, que ele enfrentou Ernie Schaaf no Madison Square Garden, perdendo por pontos após dez assaltos. A revanche contra Schaaf viria dois anos depois, em Chicago. Em outra feroz batalha, Baer castigou duramente o oponente. Seqüelado, Schaaf morreria após um combate com Primo Carnera, em fevereiro de 1933. Mas, o burburinho dos cafés entre os entendidos do boxe não deixava dúvidas: o verdadeiro responsável pela tragédia era Max Baer, que carregaria um triste peso na consciência, até morrer de ataque cardíaco em 1959.
Geralmente, os grandes campeões são dotados de nobreza e fidalguia. Um caso curioso ocorreu com o nosso exímio pugilista Éder Jofre, durante sua luta com o italiano Nevio Carbi em 1970. Graças à sua técnica e força superiores, o “Galo de Ouro” dominava o rival, que, cansado de tanto apanhar, pediu que Éder diminuísse o ritmo. Porém, Jofre pensou tratar-se de um truque e castigou ainda mais o pobre europeu. Após a luta, Carbi explicou que realmente correra perigo e Jofre, com a sua pureza peculiar e um aperto no coração, pensou em deixar os ringues, arrependido com a brutalidade que cometera. Nascido no seio de uma família de pugilistas, Éder Jofre sempre foi adepto do boxe limpo e leal.
Um dos maiores lutadores de todos os tempos foi, sem dúvida, Mike Tyson. Dono de um estilo selvagem, ele costumava nocautear seus adversários após poucos segundos de luta. E suas táticas não eram de todo válidas ou aceitáveis. Como, por exemplo, seu hábito de bater depois do gongo soar encerrando um assalto, ou usar os cotovelos para fustigar o rival em meio a um “clinch”. Amado por uns, odiado por outros, o seu carisma era evidente, em muito graças à esperteza de seus empresários, que souberam criar uma aura de invencibilidade ao redor de Tyson. Seus oponentes já entravam no ringue sob forte temor, derrotados por antecipação. Mesmo assim, ele apresentava certos traços de compaixão. Fã de filmes antigos sobre boxe, Tyson chegou a imitar o gesto do lendário Jack Dempsey, que costumava ajudar o rival nocauteado a caminhar até seu córner. Mas, na maioria das vezes, Tyson era uma verdadeira máquina de bater, insensível até mesmo com seus “sparrings” e dono de uma personalidade agressiva também fora do tablado.
Na verdade, aquele delinqüente juvenil produzido pelas ruas do Brooklyn, poderia ter se regenerado através do esporte. Seu tutor em seus primeiros dias de boxe, Cus D’Amato, tentou pavimentar um caminho digno para Tyson. Para o velho técnico, o boxe era uma questão de vontade antes que habilidade, e ele possuía essa garra como ninguém. Sua derrocada foi uma perda para o esporte, mas também para a sociedade, que com suas desigualdades em nada contribuiu na formação do caráter do menino. Campeão Mundial e dono de milhões de dólares, Tyson perdeu tudo. Ao contrário de Max Baer e Éder Jofre, viveu e lutou sem remorso, maltratando adversários e, principalmente, a si mesmo.
Letras no gramado
Postado em 29/10/2007 at 07:56 PM
Letras no gramado
Desde que começou a ser praticado no Brasil, o futebol sempre despertou sentimentos antagônicos dentro da sociedade. Para alguns, era uma perda de tempo ou uma coisa de desocupados. Para outros, uma atividade saudável, e que trazia no seu cerne as benesses que o espírito esportivo produz: o respeito e a camaradagem entre as pessoas. Entre os escritores a coisa não foi diferente. O futebol, para o bem ou para o mal, atiçou a verve nessa classe desde seus primórdios, sendo tema de debates acalorados.
Filho de um português e de uma escrava, Lima Barreto foi um tenaz opositor à prática do esporte no início do século passado. O autor de “Triste Fim de Policarpo Quaresma” chegou até a organizar uma “Liga Brasileira Contra o Football”. Para ele o futebol era um fator de desagregação social que desviava a atenção das pessoas de assuntos mais importantes. Combatido pelos parnasianos, Lima Barreto sempre mostrou em sua obra preocupação com a realidade brasileira, estabelecendo uma ponte entre os estilos romântico e modernista. Este grande expoente de nossas letras morreu em 1922, deixando como herança uma produção de valor inestimável.
As raízes do futebol, porém, já estavam irreversivelmente plantadas no nosso cotidiano. Elevado à condição de “verdadeira instituição brasileira”, nas palavras de Gilberto Freyre, o esporte conquistava novos adeptos a cada dia. Foi Freyre o autor do prefácio do livro “O Negro no Futebol Brasileiro” de Mario Filho. Essa notável obra literária, que tem a sua primeira edição em 1947, estabelece um verdadeiro retrato da identidade do nosso povo. Interessante o paralelo que Freyre traça entre dois craques, cada um no seu ofício: “Domingos (...) está para o nosso futebol como Machado de Assis para nossa literatura, isto é, na situação de uma espécie de inglês desgarrado entre os tropicais”. É que o grande Domingos da Guia tinha um estilo mais sóbrio de jogar, contrário aquela coisa mais rítmica, herdada do samba e da capoeira.
Outro grande escritor a dedicar-se ao futebol foi José Lins do Rego. Esse paraibano do município de Pilar participou ativamente do processo que transformou o esporte em assunto importante nas páginas dos jornais. Com suas crônicas publicadas no Jornal dos Sports entre 1945 e 57, o autor de “Menino de Engenho” foi um dos primeiros “parciais” clubísticos dentro da imprensa. Era Flamengo assumido, sendo integrante de uma espécie de confraria, os “Dragões Rubro-Negros”. Durante o Sul-Americano de 53 em Lima, houve um mal entendido envolvendo o escritor e o craque Zizinho. Foi o fim de uma amizade. Tudo teria acontecido por diferenças quanto ao “bicho” pago aos jogadores. José Lins, atuando como funcionário da CBD, era o chefe da delegação brasileira nessa ocasião.
Quando Heleno de Freitas foi jogar na Colômbia em 1950, um jovem aspirante a escritor era repórter esportivo em Barranquilla. Na redação do jornal “El Heraldo”, Gabriel Garcia Márquez escreveu vários textos analisando as atuações exuberantes do brasileiro com a camisa do Atlético Junior. Ele não era ainda o autor de “Cem Anos de Solidão”, mas pode-se dizer que com o seu talento ajudou a registrar momentos preciosos do esporte. Da mesma forma Eduardo Galeano, outro autor sul-americano, escreveu sobre o tema. Entre outras obras consagradas de nosso vizinho uruguaio podemos citar “As Veias Abertas da América Latina”, um relato de como nosso continente foi saqueado pelas nações européias. Com “Futebol ao Sol e à Sombra”, Galeano nos deixa um verdadeiro clássico e exemplo vivo de que o esporte instiga também os grandes intelectuais.
Para terminar, poderíamos citar João Cabral de Melo Neto. Eleito por unanimidade para a Academia Brasileira de Letras em 1969, o autor de “Morte e Vida Severina” é famoso por ter imortalizado o craque palmeirense Ademir da Guia em um poema. Aqui vai um trecho: “Ademir impõe com seu jogo o ritmo do chumbo (e o peso), da lesma, da câmara lenta, do homem dentro do pesadelo”. Felizes de nós que podemos desfrutar desses gênios falando daquilo que o povo gosta. Afinal, como diz o ditado, “mens sana in corpore sano”.
Livro disponível !
Postado em 29/10/2007 at 12:11 PM
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Alicate Contra Diamante
Este Livro traz as primeiras crônicas escritas por Lúcio Saretta, tendo como tema principal o esporte e seus personagens marcantes.
Craques do futebol de ontem são retratados de maneira envolvente, levando o leitor a uma viagem pelo tempo. O grande Torino da década de 40, Dadá Maravilha, Leônidas da Silva e histórias reveladoras sobre Didi e Maradona, constrastam com fatos dos dias atuais.
Além disso, é uma obra que propõe uma reflexão sobre os nobres valores que o esporte traz consigo, como companheirismo, amizade e superação.
Acima de tudo, Alicate Contra Diamante traça um paralelo notável entre o esporte e a vida, o passado e o presente, a paixão do torcedor e a razão do historiador.
* Livro disponível na Livraria Maneco - Caxias do Sul, em breve em outras Livrarias no Brasil - ou entre em contato p/ adquirir exemplar. |
Paulo Valentim - Goleador esquecido
Postado em 8/10/2007 at 06:35 PM
Paulo Valentim – Goleador Esquecido
Se me permitem, hoje eu gostaria de divagar sobre um jogador pouco conhecido da maioria. Infelizmente a memória da gente é curta e os craques do passado estão condenados ao limbo do esquecimento, perdidos e menosprezados pelo público em geral. Já é hora, portanto, de resgatar a história. Faz-se mister dar luz a fatos que ontem povoaram o imaginário popular, fazendo o entusiasta do futebol vibrar e sofrer, sentir e se emocionar. O jogador a que me refiro é Paulo Valentim. Nascido em Barra do Piraí (RJ), militou no Guarani de Volta Redonda e Atlético Mineiro, antes de chegar ao Botafogo. Típico centroavante, trazia dentro de si uma avalanche de gols, sendo capaz, porém, de desperdiçá-los na mesma dose.
Na decisão do Campeonato Carioca de 1957, Paulinho é protagonista de relevo, ao marcar cinco vezes na vitória de 6x2 sobre o Fluminense. O técnico botafoguense era o nosso João Saldanha que havia dado ordens para que Quarentinha não desgrudasse de Telê, anulando assim o jogador mais inteligente do ataque tricolor. Garrincha e Didi alimentaram Paulinho o jogo inteiro e ele, em uma jornada de gala, fez gol até de bicicleta, para desespero do pobre goleiro Castilho. Essa soberba atuação, contudo, não foi suficiente para levá-lo à Copa da Suécia, já que Mazzola e Vavá eram os escolhidos por Vicente Feola para a posição. Em 59 o Brasil disputa o Sul Americano em Buenos Aires. Trata-se da primeira competição oficial desde a conquista do caneco no ano anterior. Desta vez Paulo Valentim está entre os convocados. No dia do jogo contra o Uruguai, o “onze” verde-amarelo entra no estádio Monumental de Nuñez escalado da seguinte maneira pelo técnico Feola: Castilho, Djalma Santos, Orlando, Bellini e Coronel; Formiga e Didi; Garrincha, Almir, Pelé e Chinesinho. No final do primeiro tempo, Almir, duramente provocado pelos zagueiros da “celeste”, é agredido, o que faz Pelé sair em sua defesa. O sururu está formado. Os 22 jogadores partem para a briga, com direito a uma voadora de Didi em defesa de Chinesinho. Após o tumulto, o Uruguai sai na frente, através de Escalada. No segundo tempo Paulinho entra no lugar de Coronel e marca três vezes, virando o jogo sensacionalmente. Essa orgia futebolística de Paulinho desperta a cobiça dos anfitriões do torneio. Boca e River no início da década de 60 estavam atrás de jogadores estrangeiros, que com o seu carisma pudessem trazer o torcedor de volta aos estádios. Se fala de “futbol espectáculo”, o que para o jornalista Diego Fucks foi uma: “locura importadora de jugadores”. Loucura ou não, o fato é que Paulo Valentim é contratado pelo Boca Juniors. O presidente da equipe argentina é o lendário Alberto Armando. Seu recado para Paulinho é claro: “Usted hágale goles a River. De los demás partidos no se preocupe”.
E assim foi. Com a camisa azul e ouro, Paulinho fez dez gols contra o River, sendo até hoje o máximo goleador do Boca no confronto contra o rival. Sua vítima preferida era o goleiro Amadeo Carrizo, verdadeiro baluarte e revolucionário no estilo de jogo na sua posição. O fato é que pela sua entrega e vocação para o gol, Paulo Valentim é até hoje figura obrigatória na galeria dos heróis “boquenses” de todos os tempos. Após o sucesso na Argentina, Paulinho ainda jogaria no México, sem o mesmo brilho. Volta para Buenos Aires, onde vem a falecer em 1984. Seu nome já é uma lenda e o grito da torcida, que fazia tremer o grande Carrizo, parece que ainda paira no ar: “Tim...Tim...Tim...Gol de Valentim”.
Convite: Lançamento do Livro Alicate Contra Diamante
Postado em 5/10/2007 at 10:36 AM
O marinheiro Gentil
Postado em 27/9/2007 at 08:08 PM
O Marinheiro Gentil
Chama a atenção a ausência de técnicos negros no nosso futebol. Afinal, se analisarmos a formação da maioria das equipes, tanto nas séries A, B ou C, veremos que muitos dos jogadores são representantes da raça negra. Ela está presente no processo de miscigenação que resultou na identidade do brasileiro. Por isso, faremos aqui uma breve divagação sobre o tema.
Após pendurar as chuteiras, Didi foi ser técnico. Obteve triunfos memoráveis com a seleção peruana na Copa de 70, desfazendo a máxima de que o bom treinador geralmente foi um jogador medíocre. Depois da epopéia mexicana, dirigindo o River Plate de Buenos Aires, mais uma vez Didi foi personagem, marcando com êxito a sua passagem no país vizinho. A proposta no clube era, então, valorizar as categorias de base, lançando os talentos “prata da casa”. Muitos jovens jogadores foram lançados por Didi, entre eles Norberto Alonso, mais tarde um dos campeões da Copa de 78. Quando Didi é demitido, após um fracasso contra o San Lorenzo, “Beto” Alonso fica inconformado. “Siempre se castiga al caballo más noble”, diria ele. Em 75, Didi comandaria o Fluminense no campeonato brasileiro, ocasião na qual chegou às semifinais, sendo eliminado pelo Inter de Minelli.
Mesmo não sendo brasileiro, cabe aqui uma referência ao trabalho de Francisco Maturana. Este colombiano nascido em Quibdó, transformou-se de um aplicado zagueiro do Nacional de Medellín, clube que defendeu por dez anos, em um técnico respeitado. Comandando o próprio Nacional foi campeão da Libertadores de 89, após derrotar o Olímpia na final. Tal proeza credenciou Maturana para o cargo de técnico da seleção. Sob sua batuta, a Colômbia obteve o passaporte para a Copa da Itália em 90. Eram tempos de Valderrama, Rincon e Redin. O time faz uma bela campanha na primeira fase, classificando-se em um difícil grupo, que contava ainda com Alemanha, Iugoslávia e Emirados Árabes. Tudo ia bem até que, em um gesto de inocência típico do jogador colombiano, o espalhafatoso goleiro Higuita perde a bola para o camaronês Roger Milla, durante a partida das oitavas em Nápoli. O veterano jogador faz o gol que elimina a equipe sul-americana do torneio. Mas a Colômbia agora não era mais uma surpresa. Maturana, a quem Jorge Valdano chamou certa vez de “sonhador inteligente”, foi sem dúvida um dos responsáveis por essa nova realidade.
Quando da inauguração do estádio Beira Rio, Valmir Louruz formava a dupla de zaga colorada com Scala. Como técnico, levou o Juventude à conquista da Copa do Brasil de 99, façanha que garantiu o time da serra gaúcha na taça Libertadores do ano seguinte. Com a sua maneira serena de comandar, montou um grupo coeso, que não se assustou com o favoritismo do Botafogo e faturou o caneco.
Talvez o primeiro técnico negro no Brasil tenha sido Gentil Cardoso. Como suboficial da Marinha, viajou pelo velho mundo, desvendando os segredos do futebol inglês e do sistema WM. Sempre com o seu bonezinho xadrez na cabeça, Gentil começou a desenvolver suas idéias no Bonsucesso de 31. Nessa época, o pequeno clube carioca contava em suas fileiras com Leônidas da Silva, que mais tarde seria o “diamante negro”. Em suas navegações, Gentil esteve também em Rio Grande, onde ajudou a montar a equipe do Riograndense, campeão gaúcho em 39. Sua passagem pelo Fluminense em 46 é lembrada até hoje. Com a frase antológica, “Dêem-me Ademir e eu lhes darei o título”, bancou a contratação do célebre centroavante, que andava em baixa no Vasco. Ademir não só foi trazido como fez o gol do título, concretizando a profecia de Gentil. Em 53, no Botafogo, é ele a receber o desconhecido Garrincha, no dia de seu primeiro treino no clube. Gostava de se auto proclamar como “o moço preto”, traço de um recalque que lhe acompanharia sempre. Por outro lado, Flavio Costa era o “moço branco dos grandes”, sempre lembrado para dirigir a seleção brasileira. Outra mania de Gentil era promover uma espécie de tribunal dentro do vestiário. Era escolhida uma comissão que deveria “julgar” a atuação dos companheiros. Porém, ao invés de surtir qualquer efeito positivo, esta polêmica medida não raro atiçava a desunião e o ciúme dentro do elenco.
Sonhando com o jogo que amava, Gentil atravessou mares bravios em busca do conhecimento, de novas táticas do futebol. Apesar do preconceito, cimentou seu nome na história, deixando um legado que, embora bastante folclórico, permanece a instigar nossa curiosidade sobre o esporte.
Viajando pela Europa
Postado em 7/9/2007 at 05:12 PM
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Viajando pela Europa |
A era do amadorismo dentro do futebol reserva alguns episódios marcantes. As excursões realizadas por clubes latino-americanos à Europa figuram como belas páginas de um tempo distante, onde o esporte estava longe de ser um negócio visando exclusivamente lucro.
O Paulistano foi sem dúvida expoente maior do espírito diletante no Brasil. Fundado em 1900, o clube deixou de participar dos campeonatos de futebol quando o profissionalismo foi oficializado no país, nos anos 30 do século passado. Antes disso, foi protagonista de muitas vitórias em canchas paulistas. Seu inimigo mortal era o São Paulo Athletic Club do saudoso desportista Charles Muller. Com as cores vermelho e branco em seu uniforme e a saudação “aleguá”, algo como “avante”, na boca de seus atletas, o Paulistano cativou as platéias da terra da garoa. Até mesmo o famoso escritor Mario de Andrade dedicou um singelo poema ao clube.
O ápice da curta existência desta agremiação foi a viagem até o continente europeu no ano de 1925. A aventura começou no porto de Santos, dia 10 de fevereiro. Sob o comando do presidente Antônio Prado Jr, a delegação embarcou no navio “Zeelândia”, rumo à glória em gramados além do oceano. O personagem principal deste pequeno romance era o atacante Arthur “el Tigre” Friedenreich. Um dos primeiros heróis do nosso futebol, Fried, como também era chamado, chegara ao Paulistano em 18, logo assumindo o posto de artilheiro da equipe. Filho de um comerciante alemão de Blumenau, Friedenreich herdou a pele morena de sua mãe Matilde. Também faziam parte da delegação os estudantes Araken Patuska e Filó. O primeiro era jogador do Santos e viajava como convidado. O segundo era o famoso Amphilóquio Marques, que mais tarde seria campeão da Copa de 34 com a Itália, favorecido pela sua dupla cidadania. Para passar o tempo no convés do “Zeelândia”, Friedenreich tocava chorinhos em seu violão. Em breve, ele teria de mostrar serviço.
O primeiro jogo da representação brasileira é também o mais emblemático da viagem. Em Paris, o Paulistano enfrentou a seleção francesa. Antes do prélio, Nestor, Clodoaldo e Barthô; Sérgio, Nondas e Abatte; Filó, Mario, Friedenreich, Araken e Netinho, gritaram em uníssono: “aleguá!”. Com uma retumbante goleada de 7 a 2, o quadro bandeirante obteve uma vitória incontestável. Apesar do campo castigado pela neve, “el Tigre” marcou três vezes. A turnê prosseguiria pela França e, depois, por Suíça e Portugal, sendo o Paulistano derrotado uma única vez em nove jogos.
Nessa mesma época outro clube sul-americano desfilava suas artes no velho mundo. A bordo do cruzeiro “Formosa” a delegação do Boca Juniors havia chegado ao porto espanhol de Vigo, proveniente de Montevideo. A partir daí o clube argentino percorreu Espanha, França e Alemanha, cumprindo um roteiro que durou cinco meses. Tal aventura foi possível graças ao êxito obtido pela seleção uruguaia no ano anterior nas Olimpíadas de Paris, fato que abriu as portas européias ao futebol da região do Rio da Prata.
Entre os atletas destacavam-se o goleiro Américo Tesoriere, figura lendária da época amadora, além de Ludovico Bidoglio e Domingo Tarascone. Segundo o jornalista Hans Henningsen, Bidoglio era um zagueiro reconhecido pela sua fidalguia dentro das quatro linhas. Sendo incapaz de um gesto desleal, optava por deixar o atacante passar a fazer falta. Quanto a Tarascone, era um grande ponta direita e ídolo do Boca, tendo sido imortalizado por Carlos Gardel no tango “Patadura” . Sua carreira no clube terminaria junto com a conquista do campeonato argentino de 31, o primeiro da fase profissional. Quando a equipe retornou a Buenos Aires foi recebida com uma grande festa. Dizem que no mesmo navio chegava à América o físico Albert Einstein que, ao ver a multidão em polvorosa, pensou ser ele o motivo de tamanho júbilo. A verdade é que, a partir daquela triunfal excursão, o Boca Juniors consolidou sua condição de clube popular no país vizinho.
Naquele ano em que desbravaram o antigo continente, Paulistano e Boca Juniors fincaram a bandeira do futebol sul-americano em solo distante. Ainda que suas trajetórias depois disto tenham sido opostas, resta-nos a lembrança e a certeza de que suas pioneiras aventuras não foram em vão.
Olá, amigos!
Postado em 7/9/2007 at 03:36 PM
A partir de hoje estarei escrevendo crônicas sobre a história do esporte.
Espero que gostem e comentem!
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