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Blog do Lúcio Saretta

O fardo da invenção

Postado em 8/2/2012 at 05:16 PM

O ofício do escritor traz consigo mistérios e absurdos que desafiam a compreensão. Afinal, o que leva uma pessoa a se debruçar sobre uma folha em branco, às vezes por horas a fio, parindo e sufocando intermináveis tentativas de produzir alguma coisa de conteúdo minimamente aceitável? Sem saber se alguém irá interessar-se por seus devaneios, o escritor trabalha como se estivesse tateando em um quarto escuro, entregue à própria sorte e risco.   Abastecendo a nave que conduz o solitário aventureiro, o desejo de visitar portos distantes e comunicar-se com épocas futuras.

Para tanto, o artista sofre. Na busca de um sopro de inspiração qualquer, o pobre ourives do verbo depara-se com uma mescla de sentimentos tais como agonia, dor, loucura e renúncia. O ato de escrever demanda mais esforço físico que carregar cem quilos. É preciso estar bem descansado e lúcido para empunhar a pena pesada e cheia de espinhos que irá transpor o pensamento para o papel. Nem mesmo a prática é capaz de amenizar o calvário do processo criativo. Assim como o músico prestes a subir no palco, o escritor enfrenta uma nova emoção em cada frase concebida, fazendo da sua arte um ato de coragem instintiva. 

Em troca da magia fugaz produzida pela palavra, o escritor deixa de comer, dormir, tomar uma cerveja gelada ou simplesmente entregar-se ao ócio de uma leitura agradável e sem compromisso.  Batalhando insensível contra as teclas, em busca de algo que está dentro de si, ele suporta o castigo sem pestanejar, movido pela incerteza atroz de alcançar a beleza das letras. 

Parábola de um campeão

Postado em 12/1/2012 at 09:14 AM
Era um verdadeiro campeão do boxe. Lutava com bravura e lealdade, respeitando o esporte e impressionando o público com o seu espírito indômito. Buscava o nocaute logo nos primeiros “rounds”, evitando assim, causar um sofrimento maior no rival. Suas atuações dignificavam a “nobre arte”, e sua fama brilhava como o sol. Sofreu o assédio de empresários inescrupulosos, interessados em explorar o seu talento e ganhar dinheiro em cima da sua imagem. Resistiu a eles, como um leão entre um bando de hienas. Mesmo após tornar-se campeão mundial, continuou a lutar com humildade, defendendo o cinturão com galhardia e coragem. Apesar da rígida rotina de atleta, enfrentava as privações do ofício com disciplina e alegria, preservando o corpo e a mente para o próximo combate.
 
Um dia decidiu que era hora de aproveitar a vida. Começou a gastar a fortuna que amealhara nos ringues com festas, bebidas, jogos de azar e carrões. Dava dinheiro a estranhos e não poupava presentes e luxos às suas fugazes namoradas. Entregou-se àqueles que queriam transformar a sua carreira em um grande negócio lucrativo. Fumando enormes charutos, passou a esnobar os treinos e a descuidar da forma física, preferindo os holofotes e a bajulação dos eventos sociais.
 
Então veio a queda. Sem fôlego e com os músculos flácidos, beijou a lona pela primeira vez ao enfrentar um desafiante desconhecido e bem mais jovem. Ainda conseguiu se levantar, totalmente grogue e cambaleante, buscando em vão encontrar a sua velha destreza. Mas as noites sem dormir cobravam o seu preço e, após uma saraivada de golpes no fígado e na cabeça, um gancho de direita na mandíbula mandou o campeão a nocaute. A partir daí, ele nunca mais foi o mesmo. Luta após luta, passou a sofrer derrotas humilhantes para pugilistas medíocres, que não seriam dignos de carregar as suas luvas quando ele estava no auge. Abandonado por seus falsos amigos e amores, acabou descendo todos os degraus rumo ao completo esquecimento e à miséria.
 
Contudo, antes de desistir de viver, rolando em uma sarjeta qualquer, foi reconhecido por um antigo fã. Este levou o campeão para um albergue, onde lhe deram um banho e comida. De repente, o interesse popular na sua figura ressurgiu, e ele passou a fazer palestras sobre a sua trajetória, os seus percalços e suas façanhas. Nunca mais voltou aos ringues, mas encontrou uma nova vocação, orientando os mais jovens sobre os caminhos incertos e misteriosos da vida. 

Histórias grenás

Postado em 25/12/2011 at 08:08 PM

O grande poeta uruguaio Eduardo Galeano certa vez exaltou as seleções de seu país, vencedoras do torneio de futebol nas Olimpíadas de 1924 e 28. Eram times formados por atletas “operários e boêmios”, já que então, ainda não havia o profissionalismo no esporte. Operários e boêmios. Essa classificação cairia como uma luva para um time que desde 1935 engrandece o esporte gaúcho. Falo do Caxias, um clube que conta com uma das torcidas mais aguerridas e solidárias do nosso Estado. E agora falo de operários, como bem simboliza a engrenagem estampada na camisa de cor grená. Uma cor que embriaga, cor de vinho tinto, produzido nas parreiras da serra. Um dos mais bonitos uniformes do nosso Rio Grande. Bonito porque único, assim como a sua história.

Em 1935 surge o Grêmio Esportivo Flamengo, já exibindo as cores grená, azul e branco. No primeiro jogo contra o Juventude, o Flamengo vence por 3 a 1, escrevendo assim, o primeiro capítulo de uma rivalidade que até hoje divide a cidade de Caxias do Sul. Em 1951, o Flamengo inaugura a Baixada Rubra que seria o seu “alçapão” nos anos que viriam. Principalmente a partir de 54, quando o futebol caxiense começa a disputar o Campeonato Metropolitano, espécie de antecessor do nosso Gauchão. Nos anos de 69 e 70 o Flamengo é bicampeão do Interior.

Após uma infrutífera fusão com o co-irmão esmeraldino, esforço para tentar superar dificuldades financeiras, o clube volta com outro nome: Sociedade Esportiva e Recreativa Caxias. O ano era 1975 e a moda era cabelo comprido e calça boca de sino. Para poder participar do Campeonato Brasileiro do ano seguinte, o Caxias constrói em tempo recorde, o estádio Centenário, no mesmo lugar onde se encontrava a Baixada Rubra. Começa então, um período tão rico como breve, quando o Caxias conquistou a honra de ser o primeiro clube do interior gaúcho a participar do Brasileirão. O jogo de estréia no novo estádio é contra o Inter, que ostentava o título de campeão brasileiro. Porém, o Caxias não se intimidou, vencendo por 2 a 1, gols de Osmar e Bebeto.

Adalberto Vilasboas dos Reis havia sido artilheiro do Gauchão por duas vezes pelo Gaúcho de Passo Fundo. Também conhecido como “Canhão da Serra”, Bebeto viveu intensamente esse momento mágico do Caxias. Esse moço de Soledade atuou no clube grená entre 76 e 79, sendo nesse período o principal goleador da equipe. Em jogo válido pelo Brasileirão de 77 contra o Flamengo no Maracanã, Bebeto deixou a sua marca , quando o Caxias só não venceu porque sofreu o gol de empate de um tal de Zico. Em 2003 Bebeto vai para o céu, provocando o desabafo de Bagatini, ex-companheiro de Caxias: “O Bebeto era um jogador agregador, que unia o grupo. Lembro que eu, o Felipão, ele e outros jogadores nos reuníamos nas escadarias do Parque Cinqüentenário para trocar algumas idéias”. Felipão? Sim, o condutor do penta na Copa de 2002 era um dos zagueiros do Caxias nessa época dourada. Oriundo do Aimoré, Luis Felipe teve como técnico Sérgio “majestade do arco” Moacir Torres Nunes, que analisa o estilo do pupilo enquanto zagueiro: “Era tosco e viril, mas nunca desleal”. Cedenir, seu companheiro de zaga, era um jogador mais técnico e habilidoso, que compensava um pouco a afobação de Felipão. O auge desse esquadrão foi em 78, quando o Caxias treinado por Carlos Froner, ficou em décimo lugar no Brasileirão, invicto no estádio Centenário.

O tempo passou e um novo time digno de registro surgiu em 2000, quando o “falcão grená” sagrou-se campeão gaúcho, sobre o Grêmio de Ronaldinho. Gilmar, Jairo Santos, Emerson, Paulo Turra e Sandro Neves; Ivair, Titi, Maurício e Gil Baiano; Adão e Jajá. Esses foram os protagonistas dessa mais recente conquista. Iludido após uma batalha jurídica contra o Figueirense, na qual estava em jogo o acesso à série A do Brasileirão, o Caxias perdeu um pouco do seu rumo. Para piorar, o time caiu para a série C em 2005. Mas a torcida, formada na sua maioria por operários e boêmios, não deixa morrer o sonho indômito de reencontrar a felicidade. Felicidade que se torna ainda maior quando acompanhada por um prato de massa e um bom cálice de vinho. De preferência tinto, como a camisa do Caxias.

A rua dos sonhos

Postado em 21/11/2011 at 10:11 PM

Existe uma categoria de boxeadores desconhecida do grande público que merece um olhar mais atento. São atletas que ajudaram a construir a história desse belo e dramático esporte, mas que nem sempre receberam o crédito devido. Archie Moore é um deles.  Nascido na pequena Benoit, no estado do Mississippi, Moore foi criado por sua tia Willie e seu tio Cleveland em St. Louis. Lá, o garoto começou a trilhar o caminho do boxe. Nos anos 1920, eram comuns as brigas de rua na cidade. Por incrível que pareça, essa prática tinha um caráter sadio e fascinante para as crianças, que confraternizavam tomando refrigerante após o “exercício”. Mesmo assim, Archie acabou preso e mandado a um reformatório, graças a uma tentativa de assalto. Quando a pena foi cumprida, o rapaz, inspirado pelo carismático peso-pena Kid Chocolate, buscou no boxe uma profissão.

 

Foi uma longa e árdua jornada, onde Archie aplicou nocautes e colecionou viagens ao redor do mundo antes de ter a chance de lutar pelo título dos meio-pesados. A consagração veio em dezembro de 1952, quando Archie venceu o campeão Joey Maxim e apoderou-se do cinturão.  Contudo, a luta que ficou eternizada como um momento de rara beleza dentro do esporte aconteceu seis anos depois.  Dessa vez seria Moore a defender o título. O “velho mangusto”, como o pugilista era também chamado, graças à sua pele negra e cabelos espetados que faziam lembrar o animal, teria um osso duro de roer pela frente. O desafiante Yvon Durelle era um ex-pescador canadense dono de ombros largos como os de Tarzan e um golpe fulminante de direita. Quando soou o gongo, Durelle subitamente tomou as rédeas do combate, derrubando Archie nada menos do que três vezes somente no primeiro assalto. Relembrando o episódio, o “velho mangusto” afirma ter “caminhado pela rua dos sonhos” ao beijar a lona, como se seus sentidos estivessem em uma outra dimensão, alterados pelo terrível impacto do punho de seu contendor. Estrelas girando, luzes coloridas e outros delírios mais devem ter povoado a mente do campeão, enquanto ele tentava instintivamente reerguer-se. Sob o olhar incrédulo do público presente ao Montreal Fórum, Archie resistiu ao castigo para, no décimo-primeiro assalto, nocautear Durelle em uma reviravolta sem precedentes na história do boxe.

 

Quem também caminhou pela rua imaginada por Archie foi Joe Louis, outro monstro sagrado da nobre arte. O responsável por mandar Louis a nocaute foi o alemão Max Schmeling, um pugilista esperto que tinha mãos insensíveis e duras como pedras. Embora tenha sido o campeão dos pesos-pesados entre 1930 e 32, Schmeling ganhou destaque, de fato, graças ao dia em que deixou Joe Louis esparramado na lona como se fosse um boneco de pano. Nos instantes em que o juiz contava até dez, o “bombardeiro marrom” de Detroit passeou por um mundo estranho, onde sua consciência ganhou contornos imprecisos e tênues como os de uma sombra. Ao contrário de Moore, Louis não se levantaria. A luta para ele acabou no “round” de número doze, mas uma noção clara dos acontecimentos só viria no ambiente tristonho do vestiário.

 

As garras de uma derrota improvável sempre são mais afiadas. A decepção sentida por Louis, que vinha trilhando o caminho da glória a passos largos quando sofreu o revés no duelo com Schmeling, assolou também a seleção brasileira de futebol após a final da Copa do Mundo de 1950. Aureolada com um favoritismo poucas vezes visto na história do torneio, a equipe do técnico Flavio Costa acabou perdendo o jogo e o título para o Uruguai dentro do Maracanã, a catedral do popular esporte tupiniquim. Mais do que um soco no estômago, a derrocada foi um baque de proporções avassaladoras, levando jogadores como os grandes Zizinho e Jair Rosa Pinto a sair perambulando pelas ruas como zumbis, envolvidos em um misto de loucura e fantasia. Pelas calçadas escuras, enquanto buscavam o rumo dos seus lares, o espectro do fracasso era um pesadelo real do qual os atletas brasileiros tentavam inutilmente acordar.

 

Apesar dos momentos de dor física e psicológica gerados no calor da disputa, o mundo do esporte é uma fonte inesgotável de virtudes. Com o passar dos anos, as seleções de Brasil e Uruguai envolvidas na final de 1950 criaram um vínculo de amizade, reunindo-se com frequência, como se fossem veteranos de uma guerra sem fuzis. Da mesma forma, Max Schmeling e Joe Louis estreitaram laços de admiração e respeito após pendurarem as luvas, tendo, inclusive, o alemão arcado com as despesas do funeral de Louis. E Archie Moore e Yvone Durelle nunca perderam a chance de exaltar um ao outro ao longo da vida. O significado da luta épica protagonizada por eles permaneceu vivo, ajudando a construir uma outra rua dos sonhos, feita de bravura, nobreza e humanidade.                       

Bate-papo com o jornalista Kenny Braga - 27ª Feira do Livro - Caxias do Sul - RS

Postado em 16/10/2011 at 08:09 PM

Gostaria de agradecer a todos que compareceram ao bate-papo com o jornalista Kenny Braga na última sexta-feira.

Dono de um vasto repertório de histórias pitorescas sobre futebol, boemia, música e literatura, Kenny mesmerizou a atenção da plateia do início ao fim do encontro.

Para mim foi uma alegria muito grande mediar o debate e compartilhar do calor humano que viceja na praça Dante Alighieri no período da Feira do Livro.

Obrigado e até a próxima!

Clique nas pontas para ver fotos do evento

Entrevista TV Câmara de Caxias do Sul

Postado em 13/9/2011 at 11:10 PM

 

Programa "Dicas de leitura" - TV Câmara de Caxias do Sul - Ago 2011

Saretta e Washington

Postado em 27/8/2011 at 11:31 AM

Desbravando os caminhos da colônia em um domingo de sol, às vezes é possível encontrar algo mais do que uma bela paisagem e a farta culinária italiana.

Alguns dias atrás, tive a sorte e o prazer de confraternizar com Washington, um dos maiores goleadores do futebol brasileiro ao longo da sua rica história.

Fica aqui o registro desse encontro inusitado.

Até a próxima!

  

Jayme Paviani cita Crônicas Douradas

Postado em 18/7/2011 at 07:57 PM

O comentário a seguir foi feito pelo filósofo e professor Jayme Paviani, na sua coluna do caderno Almanaque, encartado no jornal Pioneiro, de 16 e 17 de julho de 2011.

Para mim, trata-se de uma honra passar pelo crivo do Paviani, uma figura que representa como poucos a história da educação e da arte em Caxias do Sul.

Obrigado, professor!

- Dentre os livros que tive o prazer de receber, um é do Lúcio Humberto Saretta, Crônicas Douradas (2010). No título ele já informa o gênero de texto e no subtítulo introduz o leitor nos temas de suas crônicas, “os dramas, conquistas e mitos do esporte”. As páginas estão povoadas de personagens e de informações. Nesse segundo livro, Saretta continua mostrando dedicação à escrita, sabendo tirar dela o sabor do conhecimento e transpirando emoção. O mundo do esporte faz girar o mundo da vida. Trata do esporte além dos limites da nação, do campo, da arena. Questiona o perder e o vencer como limites do humano. Fala de coisas simples, cotidianas, de modo acessível, com simpatia. Assim, diz coisas permanentes, verdades que ficam e tecem a experiência humana.

 

Um encontro especial

Postado em 11/7/2011 at 11:03 PM
Foi com grande prazer que participei do projeto “Livros para ouvir”. O evento aconteceu no último dia 06, na Sala de Cinema Ulysses Geremia, com a mediação do talentoso escritor gaúcho Uili Bergamin. Agradeço ao pessoal da Biblioteca Pública Dr. Demetrio Niederauer pelo convite, assim como aos alunos e professores da Escola Irmão José Otão, à APADEV (Associação dos Pais e Amigos dos Deficientes Visuais) e a todos que marcaram presença e colaboraram para a realização do bate-papo.
Durante essa ocasião especial, pude falar um pouco sobre o meu trabalho, livros e esportes, buscando despertar o interesse dos jovens e deficientes visuais para um mundo mais humano e digno.
Muito obrigado e até a próxima! 

45º Concurso Anual Literário de Caxias do Sul

Postado em 14/6/2011 at 10:24 PM

Cerimônia de entrega do prêmio do 45º Concurso Anual Literário de Caxias do Sul, realizada no Centro Municipal de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho, em 13 de junho de 2011.
Lúcio Humberto Saretta - Vencedor na categoria Autores Estreantes, com as crônicas:
" O botequim "
" A gôndola fantasma "
" A formatura "





Os admiráveis bailarinos do esporte

Postado em 11/4/2011 at 10:04 PM

Uma orquestra tocando noite adentro, uma pista para dançar tango, um cálice de vinho. Se a luz estivesse tênue, tanto melhor para Moreno.  Em seu abraço tenaz, invariavelmente, uma bela mulher. O ritmo da música conduz Moreno, suas pernas instintivamente seguindo a milonga triste. No dia seguinte, ele trocaria o terno de linho pelo calção, o sapato pela chuteira, a gravata pela camisa da “banda roja” do River Plate. O salão pelo gramado de um campo de futebol. A única coisa que não mudaria era a adoração que José Manuel Moreno despertava nas multidões. Atuou em filmes de cinema e foi um atleta cigano, defendendo, além do River, onde foi campeão argentino em 1936, 37, 41 ,42 e 47, times do México, Colômbia, Chile e Uruguai.  Para os mais antigos, livres do vício alienante da televisão, ele foi melhor do que Maradona. Jogava para o torcedor humilde, embalando os sonhos da plebe com suas atuações mirabolantes. Apesar do caráter introspectivo do cidadão portenho, a presença de Moreno dentro de campo era um show, algo que teve muito a ver com a sua condição de dançarino. Além do fato do tango ser um fenômeno popular, o que gerava uma empatia instantânea entre o craque e as massas, as noites transcorridas bailando nos cabarés de Buenos Aires serviam como exercício para Moreno: -“A mi me gustaba mucho bailar el tango y hasta los días jueves íbamos, con los muchachos, al Tibidabo o al Chantecler. Nos encontrábamos con pibas, con amigos, nos aflojábamos de los problemas y bailábamos el tango, algo que nos daba una gimnasia bárbara: estabilidad, compás, agilidad, ritmo”.  

É notório que o hábito de dançar favorece o atleta. Antes de ser famoso, o campeão mundial dos pesos pesados Rocky Marciano era um assíduo frequentador de bailes dançantes. Ao contrário de Moreno, a sua habilidade era desprezível. O seu interesse maior era bater papo com os amigos. Isso até ele conhecer Bárbara, uma bela garota praticante de esportes e que seria a sua futura esposa. O desajeitado Rocky, então, pedia para a moça ensinar-lhe alguns passos, com o objetivo de melhorar o seu jogo de pernas para o boxe. Nos ringues, Rocky transbordava essa obstinação, essa ânsia de vencer a despeito de suas limitações. No tempo em que carregava cestas de uva até o porão do seu avô Luigi, o jovem já sonhava com voos maiores, exercitando os músculos enquanto esmagava a fruta para fazer vinho. Os anos 1940 e 50 foram os anos de Rocky. Um lutador que venceu graças a um golpe fulminante de direita, uma determinação sem limites, e, por que não, às aulas de dança da sua diligente namorada. 

Na mesma época em que reinou Rocky, o boxe produziu um dos atletas mais impressionantes da sua história. Estou falando de Sugar Ray Robinson, segundo muitos entendidos, o melhor, “pound for pound”, ou seja, libra por libra, a medida de peso utilizada para aferir os pugilistas. Isso equivale dizer que ele teria sido o melhor entre todos, independentemente da categoria, do mais leve ao mais pesado. Peço a gentileza do leitor não confundir o personagem desta crônica com Sugar Ray Leonard, também um grande lutador, mas que atuou mais na década de 1980. Durante a sua infância, em Nova Iorque, o Sugar Ray original viveu momentos difíceis. Eram os anos 1930, logo após a quebra da Bolsa de Valores e a pindaíba era geral. O garoto, então, dançava em frente aos teatros da Broadway, ganhando alguns trocados para comprar balas. Certo dia, admirado com a habilidade do guri, um empresário levou Sugar Ray para se apresentar de verdade, no interior do teatro. Apesar de um pouco nervoso, o menino prodígio não decepcionou, arrancando palmas calorosas da platéia. Mais tarde, já adulto e famoso como campeão de boxe, Robinson empregou uma volta aos palcos. Isso foi depois dele sofrer o único nocaute da sua carreira contra Joey Maxim, em junho de 1952. Sugar Ray, então, abandonou momentaneamente os ringues e, vestindo um “smoking” amarelo e abotoaduras dançou em cassinos e boates, recebendo cachês dignos de um Gene Kelly. Para manter-se em forma, ele fazia corridas e treinava mais forte do que como boxeador. Afinal, suas pernas tinham que estar sempre prontas para o espetáculo. 

Dentro do ringue, Robinson era igualmente espetacular. Uma das suas principais virtudes era o balanço, a rapidez nos golpes e a técnica. Seus alvos eram a têmpora, o coração e o fígado do oponente. Apesar disso, Robinson era um lutador que não gostava de punir o adversário, mas sim, brindar o público com uma atuação decente , finalizando a luta rapidamente sempre que podia fazer isso. Ídolo de Muhammad Ali, Sugar Ray Robinson, durante os vinte e cinco anos em que atuou nos ringues, passou da mais absoluta pobreza aos píncaros da fama e da fortuna, até voltar a ser um cidadão comum no fim da sua vida. No ringue ou na ribalta, um talento a ser lembrado, com seus pés dançando e contando belas histórias.

Site Olá Serra Gaúcha!

Postado em 10/3/2011 at 09:39 PM

Caros leitores,

A partir de hoje estou colaborando com o site "Olá Serra Gaúcha!", um veículo muito interessante sempre com novidades e curiosidades sobre a região.

Meus textos estão no blog "Memórias do Esporte".

Não deixem de conferir:

 
 www.olaserragaucha.com.br

 

Valeu!

 

Líricos e brutais

Postado em 27/2/2011 at 12:38 PM

 

Por entre sofás de couro, abajures e porta retratos, eles circulavam, os punhos nus e a consciência levemente ébria. Alegres como dois meninos, Ernest Hemingway e Gene Tunney trocavam golpes ludicamente, pelo prazer do exercício físico e da amizade.  O grande escritor americano era um notável entusiasta do boxe e, sempre que podia, desafiava algum pugilista de outrora para testar as suas habilidades. Tunney, por sua vez, era íntimo das rodas intelectuais. Letrado, ombreava-se sem problemas com figuras como, por exemplo, George Bernard Shaw, de quem inclusive era amigo.  Após destronar o mítico Jack Dempsey do posto de campeão dos pesos pesados, em 1926, Tunney definitivamente entrou para a história do esporte.  A segunda luta entre eles, no ano seguinte, foi marcada pela polêmica. Quando Dempsey derrubou o rival no sétimo assalto, os cem mil espectadores no Soldiers Field, em Chicago, entraram em êxtase. Nesse instante, talvez cego pelo desejo de vingança, o estupendo lutador não recuou para um canto neutro do ringue, o que acabou distraindo o juiz. Na confusão, Tunney ficou mais do que os dez segundos permitidos se recuperando e, posteriormente, venceu o combate por pontos. O episódio ficou conhecido como “a luta da longa contagem”.  

Algum tempo depois, Hemingway passou a receber Tunney com grande hospitalidade na sua casa, em Cuba. O autor de “O Velho e o Mar” gostava de ter um drink sempre pronto para brindar com o ex-campeão. No dia em que protagonizavam o estranho bailado sobre os tapetes da sala, Hemingway, de forma desajeitada e involuntária, acertou um golpe baixo. Tunney, que em seu auge tinha um estilo cerebral de lutar, foi tomado pelo instinto de esmurrar sem dó a face do anfitrião. Para sorte de Hemingway, o excelso pugilista conteve sua ira milímetros antes de acertar o alvo e a brincadeira acabou por ali mesmo. 

Durante as décadas de 1940 e 50, Mario Lanza gozou de imensa popularidade dentro do “showbusiness”. Além de ser um tenor da mais fina estirpe, Mario exibia seu talento em canções românticas nas telas do cinema. A sua interpretação de Enrico Caruso permanece até hoje na lembrança dos fãs da boa música e da sétima arte. Fazendo o papel do seu ídolo, Mario deixou fluir a potência, o lirismo e a paixão que emanava da sua voz.  A sua estampa impressionante, composta por largos ombros e um peito sempre estufado, explica-se pela devoção do cantor pelo boxe e pela cultura do corpo. É claro que na sua profissão de tenor ter uma caixa de ressonância avantajada contava muito. Mas o fato é que Mario foi, até o final dos seus dias, um lutador diletante. Não causa espanto, pois, a sua forte amizade com Rocky Marciano, o lendário e invicto campeão dos pesos pesados.  Além do esporte e da culinária italiana, admiração e respeito mútuo serviam de magneto entre eles. Certa vez, Mario recebeu Max Baer em sua casa. Também conhecido como “O Arlequim do Pugilismo”, Baer amealhou o cinturão da categoria máxima do boxe em 1934. Fiel ao seu apodo, o bravo campeão tinha uma veia humorística notável, sempre sorridente e disposto a entreter as platéias. Após beberem algumas taças de vinho, Baer gaba-se que Rocky não teria sido páreo para ele. Mario discorda e as duas figuras começam a “treinar” na sala. Imitando o jeito de lutar agachado do amigo Rocky, o tenor acerta um gancho de esquerda, deixando o fanfarrão estirado sobre uma poltrona. 

Mãos pesadas e rudes podem produzir linhas belas e suaves sobre uma folha de papel. Eder Jofre, a glória maior do boxe brasileiro, é, também, um talentoso desenhista. Desde a sua infância, o virtuose dos ringues empunhou o lápis para traçar imagens de rara sensibilidade. Com a mesma desenvoltura com que fazia os rivais beijarem a lona, Eder impressionou nomes consagrados da pintura como, por exemplo, o grande artista cearense Aldemir Martins. Contudo, as façanhas esportivas acabaram por ofuscar a sua faceta, digamos, subjetiva. Em novembro de 1960, Eder enfrentou o mexicano Eloy Sanchez no Olympic Auditorium, em Los Angeles. Diante de um público na sua maioria hostil e personalidades como o ator Kirk Douglas e o genial peso médio Sugar Ray Robinson, Eder alcançou o topo da sua árdua caminhada dentro do boxe. As vitórias contra inimigos clássicos, como Ernesto Miranda e o perigoso Joe Medel, não tinham sido em vão. No sexto assalto prevaleceu a qualidade e a têmpera do “Galo de Ouro”. Uma combinação perfeita de golpes pôs o valente Sanchez a nocaute, desencadeando uma bonita festa em todos os cantos do Brasil. Finalmente Eder Jofre era campeão mundial!

Em um primeiro momento, o boxe pode parecer um esporte brutal. Porém, é preciso analisar a brutalidade como algo relativo. Afinal, quantas pessoas de físico esquálido e inofensivo possuem um caráter torpe e mesquinho, capazes de vilanias e desumanidades de todos os tipos? Por outro lado, até mesmo os artistas mais sublimes viveram o sonho e a magia de desafiar o medo e a dor. E deixar para trás, junto com o suor da luta, a raiva e a solidão que existem dentro da alma humana.

 

Sonhos de um urubu

Postado em 9/2/2011 at 09:19 PM


Outro dia, encontrei um livro perdido em um armário.  Eu devia ter uns quinze anos, mais ou menos, quando li esse livro. Era a história de um urubu que sonhava em ser gente. O nome do livro era “Cândido Urbano Urubu”, de Carlos Eduardo Novaes.  Cândido era um urubu pequeno, digamos criança, que se recusava a voar. Tudo para parecer gente, afinal gente não voa. Em determinado momento da narrativa ele, que vivia no campo, vai para a cidade, na esperança de aprender os segredos dos homens.

 

Sabemos que o urubu é o símbolo do Flamengo, time que conta com uma torcida numerosa nos quatro cantos do país. Talvez o mascote tenha sido escolhido em função das condições da maioria dessa torcida, pobre e negra, retrato da essência do povo brasileiro. Pois bem, corria o ano de 1981, e essa grande massa sonhava com vôos mais altos, já que o rubro-negro acabara de erguer a Libertadores da América, após dura contenda com o chileno Cobreloa. No primeiro jogo, vitória brasileira no Maracanã. Em Santiago, porém, o onze carioca sofreu com a truculência do regime de Pinochet. Um verdadeiro clima de guerra foi armado para intimidar o rubro-negro. Pressão fora de campo, covardia dentro dele. Lico, um dos maestros do time, quase ficou cego, além de perder alguns dentes, graças à violência do zagueiro Mario Soto. O desempate foi no campo neutro do estádio Centenário de Montevidéu, ocasião em que prevaleceu a hierarquia de Zico, “o galinho de Quintino”, e seus asseclas.

 

Enquanto isso, no velho mundo quem dava as cartas era o Liverpool. Na final da Liga dos Campeões, em Paris, o conjunto inglês despachou o sempre perigoso Real Madrid. O gol da vitória saiu após uma arrancada espetacular de Alan Kennedy, levando à loucura os fanáticos torcedores bretões. Aliás, o Liverpool era um belo time. O lateral Phil Neal, presença marcante na seleção inglesa, dava segurança à defesa, juntamente com seu xará Phil Thompson. E havia também a famosa trinca escocesa, formada por Alan Hansen, Graeme Souness e Kenny Dalglish, sobre quem peço licença para falar um pouco. Na sua infância, Dalglish fora um fervoroso torcedor do Rangers de Glasgow, sua cidade natal. Todavia, para um adolescente que sonha em jogar em um grande clube, não é dado o luxo de escolher, e ele acabou contratado pelo grande rival, o Celtic. Nessa época, ele idolatrava o carismático goleador Denis Law, uma das bandeiras da seleção escocesa. Mais tarde, seria o próprio Dalglish um recordista em atuações com a camisa azul-marinho de seu país.  Agora, no Liverpool, o meia era peça fundamental no esquema do técnico Bob Paisley.

 

Planeta Terra, cidade Tóquio. Dezembro de 81. Flamengo e Liverpool pisam na relva de um ensolarado estádio Nacional para o choque final entre os campeões sul-americano e europeu. A luz dos televisores ligados ilumina a madrugada de domingo no Brasil. Ninguém quer perder o grande jogo. O juiz assopra o apito, começa a peleja. Andrade para Júnior, Júnior contra Dalglish, vantagem para o paraibano. As ações favorecem o time brasileiro, até que, aos 12 minutos, surge Nunes. Aproveitando um belo passe de Zico, “o artilheiro das grandes decisões” ilude o goleiro Bruce Grobbelaar, tirando o zero do placar.  O tempo passa e a disputa na meia cancha é voraz. Falta a favor das hostes rubro-negras. Zico corre para a bola, a zaga dá rebote e Adílio, “o neguinho bom de bola”, viola inapelavelmente a cidadela britânica.  A vitória está próxima. Ainda na primeira etapa sai o terceiro gol. Nunes de novo. Com sua indefectível juba balançando no ar, o artilheiro comemora com o resto do time. Era o ápice da história do Flamengo.

 

No livro que eu li, o urubu não vira gente. Impressionado com o ritmo frenético da cidade grande, ele pensa que talvez o ser humano seja um refém da sua própria ganância. Mas, como todo urubu, ele deve ter exultado com a façanha da equipe brasileira. Afinal, ele era o símbolo daquela massa tão sofrida, que em um instante sublime assistia o time dos seus amores ser campeão.

 

Coração de ouro

Postado em 6/1/2011 at 07:56 PM

Quando a bola rola em uma partida de futebol, a maioria dos jogadores assume uma postura de entrega total. Muitos deles realmente suam sangue na disputa pela posse da pelota. Alguns encantam pela técnica e visão de jogo. Outros, pela liderança positiva que exercem sobre os companheiros. E há aqueles que são malvados. São os anti-heróis, os vilões de um espetáculo repleto de drama que é o jogo. A sua sina é quebrar a lei e, muitas vezes, machucar. Fazer o adversário sentir-se intimidado, diminuído. Na maioria dos casos esse papel cabe a um defensor. Um zagueiro.

João Evangelista Belfort Duarte, foi um abnegado sócio nos começos do América FC. Graças às muitas providências tomadas pelo jovem, esse clube obtém destaque ímpar no nosso ainda incipiente futebol. Atuando também dentro das quatro linhas, Belfort sempre foi um exemplo de postura em campo. Quando foi criado o troféu Belfort Duarte para premiar aqueles jogadores que se sobressaíssem pelo jogo limpo, o beque Moisés do Vasco da Gama declara com convicção: “Zagueiro que se preza não ganha o Belfort Duarte”.  A sua posição reflete o comportamento de muitos de seus colegas. Como Francisco Jesuíno Avanzi . O popular Chicão, atleta de Ponte Preta e São Paulo, entre outros, começou a carreira no XV da sua cidade natal, Piracicaba. Ostentava um vasto bigode que o deixava parecido com um bandoleiro mexicano. E não esmorecia jamais nas divididas. Que o diga o meia Ângelo do Atlético Mineiro. Em um dos lances da final do campeonato brasileiro de 77, Chicão, atuando pelo São Paulo, quebrou a perna do talentoso jogador do Galo. Mas, se Pelé quebrou a perna do zagueiro Procópio, a gente deduz que até os craques tem o seu dia de “caçador”. Pode ser o caso de Almir “Pernambuquinho”. Era um atacante, mas jogava com a disposição férrea de um defensor. Na final do campeonato carioca de 1966, ao sentir que o Flamengo não reverteria o placar, brigou sozinho contra todo o time do Bangu. Porém, fora de campo Almir era um boêmio de caráter simples e alegre, típico do nordestino.

E o que dizer de Figueroa? Os cotovelos mais famosos do pampa gaúcho, que com certa crueldade até, pararam tantos atacantes contrários ao arco colorado, pertenciam a uma espécie de poeta. Ele transformou a “maldade” em arte e transformou-se em um mito. Talvez por causa dos problemas de saúde que teve na infância, Dom Elias agigantou-se quando virou atleta profissional. Outro paradoxo em Figueroa, era a sua aparência de galã, contrastando com o seu jogo viril. Problema que não teve Nobby Stiles. Apelidado de “açougueiro”, esse sagaz meio campista do Manchester United, foi um dos baluartes do “english team” na conquista da Copa de 66. Sua aparência era um tanto quanto estranha. Baixinho, Stiles, quando sorria, deixava perceber a ausência de um ou dois dentes, o que provavelmente assustava os oponentes.

No basquete da NBA, também temos um exemplo clássico de um jogador conhecido pela sua crueldade. Bill Laimbeer do Detroit, um branco em um esporte predominantemente negro, era, porém, um bom arremessador da linha dos três pontos.  No final da década de 1980, nos dois anos em que o título foi decidido entre Detroit e Lakers, Bill Laimbeer desfilou seu repertório de brutalidades. Com a palavra “Magic” Johnson: “Fazer falta é uma coisa, mas Laimbeer tentava castigar  você até o fim”.  O craque do basquete continua: “Mesmo assim, fora da quadra ele parecia ser um cara legal”.

Muitas vezes, no calor da batalha, algum jogador, sofrendo com a falta de criatividade, apela para a violência. É do jogo. Também muitas vezes, ao terminar a peleja, aqueles que mais baixaram o “pau”, são figuras extremamente tímidas e bondosas. Escondido em um cenho franzido ou em um punho cerrado pode repousar um coração de ouro. Mas, até que o adversário descubra, os   “malvados” da bola estarão lá, distribuindo bordoadas e pontapés, defendendo as cores do seu time com unhas e dentes. E o que seria do mocinho se não fosse o bandido?

Lúcio Saretta e Kenny Braga

Postado em 14/12/2010 at 03:22 PM

Bate papo do Lúcio Saretta com Kenny Braga no lançamento do livro Crônicas Douradas, na livraria Saraiva do Praia de Belas Shopping em Porto Alegre-RS no dia 08/12/2010
 

Bate papo com Kenny Braga - parte 2

Postado em 14/12/2010 at 03:20 PM

Bate papo do Lúcio Saretta com Kenny Braga - parte 2

Zero Hora - 08/12/2010

Postado em 13/12/2010 at 11:13 AM

Diário Gaúcho - 08/12/2010

Postado em 13/12/2010 at 11:11 AM

Lançamento livro "Crônicas Douradas" em Porto Alegre

Postado em 1/12/2010 at 05:28 PM

Alô, amigos.

Espero vocês lá!

Lúcio.


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