9/2/2011 - A MORTE E O FERREIRO
Ha muito tempo,quando os bichos falavam e o Sol tinha fases como a Lua,dois reinos vizinhos entraram em guerra.Foram tantas as batalhas que a morte quase cansou de trabalhar.Levava gente de manha a noite,mesmo aos domingos.Quando tudo terminou,sete anos depois, a gadanha dela tinha perdido o fio e quebrado a ponta.
Entao a Morte procurou um ferreiro, numa pequena aldeia, perto do ultimo campo de batalha.Ele era um homem valente, nao se assustou ao ver a Morte parada na porta.
- Ja chegou a minha hora?
- Nao.Preciso dos seus servicos.
A Morte mostrou a gadanha.
- Precisa de uma lamina nova - o ferreiro disse. - Vai demorar um pouco.Melhor a senhora sentar.
- Eu nunca sento - a Morte respondeu.
Entregou a gadanha e ficou num canto, confundida com as sombras.
O ferreiro segurou a gadanha, sentiu o peso dela e disse:
- Parece uma gadanha comum.
E uma gadanha comum na, mao dos outros - a Morte disse.
O ferreiro trabalhou a noite toda.Pela madrugada, a gadanha tinha uma lamina nova. Chegava a brilhar de tao afiada e pontuda.
A Morte saiu das sombras, pegou a gadanha, examinou-a.
- Ficou muito boa, ferreiro. Quanto lhe devo?
- Nada.
- Entao, obrigada. Ate outro dia.
- Espere ai. Quero um favor em troca.
A Morte esperou.
- Quero que a senhora , me avise com antecedencia. Para eu me preparar pra minha hora.
- Avisarei - ela disse sem nem se virar, e sumiu na rua.
Anos e anos se passaram. O ferreiro nunca mais teve noticias da Morte.
Na verdade ate se esqueceu dela.
Uma noite, voltando para casa, viu um brilho branco nas sombras.Eram os dentes da Morte sob o capuz preto. O ferreiro disse:
- Tudo bem? Veio me avisar?
- Nao. Vim busca-lo.
- Mas como?! A senhora prometeu que ia me avisar com antecedencia.
- Eu avisei.
- Nao recebi aviso nenhum.
- Seus cabelos ficaram brancos?
- Ficaram.
- Seu rosto se encheu de rugas?
- Sim.
- Suas pernas ficaram fracas?
- Ficaram. Estou ate usando bengala.
- Suas costas encurvaram?
- Encurvaram.
- Entao, ferreiro? Quantos avisos mais voce queria?
- Mas velho assim eu posso morrer com oitenta anos, com cem ou cento e vinte. Um aviso desses nao me serve. Quero com hora e lugar certos.
- Esta bem. Dentro de sete dias, aqui no jardim - a Morte disse e sumiu.
O ferreiro ficou quieto, pensando. Sete dias nao era muito. Precisava se apressar.
Mas o ferreiro nao se apressou. Nesses sete dias, fez o que sempre fazia, do jeito que sempre fazia. Apenas passou mais tempo com os netos, contando histrias.
Quando o prazo se encerrou, ele estava no jardim, a espera da Morte. Ele nao disse nada. Ela tambem nao disse nada.
Foram andando juntos, como velhos amigos.
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