Criar um Blog
Gerenciar um Blog
Visitar Próximo Blog
Denuncie

Escritos de Geraldo Domezi

contatos com o autor: gefitesp2007@yahoo.com.br

Postado em 1/11/2011 em 01:49 PM

Apresentação

Postado em 28/7/2011 em 01:18 PM

 

 Geraldo Domezi

Professor, Escritor, Presbítero Católico

Disponível para assessoria

 

Aqui você encontrará

Homilias dominicais com comentários das leituras de cada domingo do calendário litúrgico em preparação a calebrações eucarísticas ou missas, pelo método da leitura sociológica da Bíblia, considerando os gêneros literários em questão como apologética, midráxico, apocalipses, parábolas, alegorias, caráter litúrgico ou catequético de  textos.

 

 

Sejam Bem Vindos 

Recados

Postado em 28/7/2011 em 12:48 PM

Leia outros textos do Autor deste Blog sobre temas de

Filosofia, História, Sociologia, Política, etc...

digitando: www.clickgratis.blog.br/gdomezi

 

 

Conheça a História, a proposta e a programação do grupo

GEFITESP

Veja no Youtube o filme

"Somos o GEFITESP"

 

GEFITESP

Postado em 27/7/2011 em 03:16 PM

Objetivos do GEFITESP

Álbum de Fotos

Click ao lado

capa

Postado em 26/7/2011 em 05:57 PM
CONSIDERAÇÕES
 
SOBRE
 
JESUS
 
 
E o Cristianismo ontem e hoje
 
A partir de homilias dominicais
 
Geraldo Domezi
 
 
 

Introdução

Postado em 26/7/2011 em 05:56 PM
Breve Introdução
 
            Como padre da Igreja Católica, aceitei convites para partilhar um apreciável “café com leite e pão com manteiga”, aquele almoço do domingo ou aquele churrasco no fundo do quintal. E, como assunto da conversa, aquela consideração que fiz na homilia da missa. Alguns pontos desses diálogos foram específicos para determinados contextos. Outros, de caráter mais amplo, prolongando e detalhando a exposição de dez minutos na missa, já que foram apreciados e qualificados como interessantes, achei que seria útil colocá-los no papel. E aqui está uma pequena contribuição para uma reflexão teológica que me parece acessível para iniciantes no estudo da teologia. Oxalá possa alguém tirar dela algum proveito.
 
 
 
 
 
 
Dedicatória
 
            A todos que não vieram apenas com a Bíblia fechada pedindo-me para benzê-la, mas que vieram com a Bíblia aberta, pedindo-me uma conversa sobre alguma passagem dela.
            “Marta, Marta, tu te preocupas com tantas coisas e uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e essa não lhe será tirada” (Lc 10, 41).

Um pouco da História

Postado em 26/7/2011 em 05:54 PM
Para início de conversa, um pouco de História
 
História Bíblica
Do ano 538 a.C. ao ano 44 d.C.
 
No ano de 538 antes de Cristo o rei persa Ciro conquistou a Babilônia e permitiu que os judeus voltassem para a Judéia (com a condição que lhe pagassem tributo). Sassabassan assumiu o comando, logo em 537 a.C. lançou a fundação do novo templo de Jerusalém e em 520 a.C. (dezessete anos depois) construiu o templo. Os judeus que retornaram da Babilônia começaram a colocar em prática os seus ideais de reconstrução da capital Jerusalém e do país, mas não respeitaram a organização religiosa e econômica, de agricultura e pastoreio, dos que haviam ficado, dos que já estavam lá antes deles chegarem. Os habitantes da Samaria (samaritanos) foram veementemente contra a construção de muralhas em Jerusalém.
                     Em 458 a.C. (62 anos depois), Esdras (sumo sacerdote dos judeus), além de ampliar as construções (com a ajuda de Neemias) purificou a Judéia das infiltrações pagãs. Em 428 a.C. (trinta anos depois) houve uma segunda reforma religiosa de Neemias.
                     No ano 398 a.C. (trinta anos depois) o rei da Síria, Antaxerxes II, reconheceu a legislação dos judeus. A Judéia formou um estado teocrático (governado por Deus) e passou a ter moeda própria (a dracma). Era o que os judeus tradicionais mais queriam.
         Mas por volta do ano 320 a.C. (oitenta anos depois) aconteceu um fato que mudaria a história. Alexandre Magno (filho do rei da Macedônia Felipe II) realizou grandes conquistas militares e se tornou o senhor do mundo. Porém morreu logo, e seu império foi dividido. Os sírios, que passaram a mandar na Judéia, foram aos poucos introduzindo o paganismo na região, foram levando para o local o chamado helenismo (cultura e religiões gregas). Esse processo de lentas mudanças durou 150 anos.
            No ano 175 a.C. houve uma atitude bem mais radical contra os judeus. Um rei chamado Antíoco resolveu proibir, sob pena de morte, toda e qualquer cultura e religião judaica e obrigar todos os judeus a terem uma nova cultura e uma nova religião. Surgiu então uma revolta dos judeus, chamada “Guerra dos Macabeus”. Essa guerra foi liderada pelos irmãos Macabeus e durou até 141 a.C. (trinta anos) quando os invasores sírios selêucidas se retiraram. Os judeus então adquiriram liberdade religiosa e independência política. A Judéia voltou a ser um estado teocrático (governado por Deus) liderado pelo sumo sacerdote com apoio dos fariseus. Os fariseus eram homens que lutaram pela independência e ganharam autoridade e notabilidade. Mas foram se tornando cada vez mais legalistas, fundamentalistas e fanáticos.
                    No ano de 104 a.C., trinta e cinco anos após a independência, o sumo sacerdote Aristóbulo I proclamou-se rei dos judeus. Morreu um ano depois e foi sucedido pelo filho Janeu, que reinou 27 anos. Quando ele morreu foi sucedido por sua mãe, Alexandra, que teve o filho Hircano II como sumo sacerdote por nove anos, até que morreu (em 67 a.C.) e o filho Hircano II se proclamou rei. Mas seu irmão caçula Aristóbulo II o derrubou do trono e se fez rei. Manteve-se como rei e sumo sacerdote até o ano de 63 a.C.
         Vendo essa patifaria toda, o general romano Pompeu, que havia conquistado a Síria, achou que era o momento de conquistar também a Judéia. Pompeu conquistou a Judéia e nomeou Hircano II sumo sacerdote. Mas Antípater, ministro de Hircano, era quem de fato governava a Judéia em nome de Pompeu. Antípater morreu envenenado em 43 a.C. O general romano Marco Antonio (Pompeu já tinha sido morto) nomeou o filho de Antípater, Herodes, como administrador da Judéia (Herodes se notabilizou por massacrar uma revolta liderada por um líder popular chamado Ezequias). Com apoio de reis estrangeiros, Antígono se fez rei dos judeus. Herodes se refugiou em Roma e se casou com a neta de Hircano II, chamada Mariana. Em 37 a.C. Herodes voltou a Jerusalém, fez uma guerra, venceu Antígono e se tornou o rei dos judeus. Em 30 a.C., Herodes mandou matar Hircano II, o sumo sacerdote e sua esposa Mariana. Herodes encheu a Judéia de idolatria, mas também agradou os judeus ao construir o novo templo de Jerusalém, bem maior do que no anterior. No ano 7 a.C. Herodes mandou matar os dois filhos que tivera com Mariana I, com medo que estes lhe tomassem o trono.
                    Morreu Herodes no ano 4 a.C. O imperador de Roma, Otávio César Augusto, não quis mais rei dos judeus. Nomeou três filhos de Herodes da seguinte maneira: Herodes Antipas ficou sendo governador da Galiléia. Filipe, de Betânia e Traconítide. Arquelau foi feito governador da Judéia, Samaria e Iduméia. Mas Arquelau ficou poucos anos no governo porque era muito bruto e de pouca habilidade política. Tentou introduzir a imagem de um deus pagão no templo de Jerusalém e reprimiu manifestações com muita violência. Numa das revoltas foram crucificadas duas mil pessoas. A Judéia ficou ingovernável e Arquelau foi deposto por Roma no ano 6 d.C. Já Herodes Antipas governou a Galiléia até o ano 39. Na ocasião da crucificação de Jesus era ainda governador da Galiléia enquanto a Judéia era governada por Pilatos, que ficou no governo do ano 26 ao ano 39.
                     No ano 39 o imperador romano Calígula deu ordem para introduzir a imagem dele no templo de Jerusalém, pois queria ser adorado como Deus. O legado romano, Petrônio e Herodes Agripa, vieram com um exército para introduzir a imagem. Mas, conforme narra Flávio Josefo, dez mil camponeses judeus se reuniram diante do palácio em Ptalomaida e repetiram o mesmo protesto em Tíberíades. “Jogaram-se no chão, esticaram o pescoço e disseram estar prontos para serem mortos. E fizeram isso durante quarenta dias e nesse tempo não trabalharam no campo, enquanto a época do ano exigia deles que fossem semear” (Antiguidades Judaicas, XVIII 8,1-9). Então a execução do projeto foi sendo adiada até que, no ano 41, o imperador Calígula foi assassinado em Roma.
                     Voltando a Roma, Herodes Agripa apoiou Cláudio para ser o novo imperador, no lugar de Calígula. Em troca, Cláudio o nomeou rei de toda a Palestina. Assim, em 41, Herodes Agripa se tornou rei da Judéia e da Galiléia e reinou até a sua morte, em 44. Fiel à política romana, Herodes Agripa procurava reprimir qualquer movimento de rebelião. E começou a perseguir os cristãos.
            Após a morte de Herodes Agripa, Roma mudou novamente o regime e toda a Palestina passou a ser governada por um procurador com residência em Cesaréia.
 
 
 
História dos Judeus na Palestina  
Do ano 30 ao ano 70 d.C
 
     Herodes Antipas havia sido tirado do governo da Galiléia no ano 39 pelo imperador Calígula, que o substituiu por Herodes Agripa. Por ter recebido o apoio de Herodes Agripa para suceder Calígula, assassinado em 41, Cláudio, o novo imperador, nomeou-o rei de toda a Palestina. Morrendo Agripa no ano 44, a Judéia voltou a ser uma província governada por um procurador. O primeiro procurador dessa fase foi Tibério Alexandre, do ano 46 ao ano 48. Sucedeu-o Cumano, que foi procurador na Judéia do ano 48 ao ano 52. Ao mesmo tempo, em 49, Agripa II, filho de Herodes Agripa, foi nomeado inspetor do templo de Jerusalém, com direito a designar o sumo sacerdote dos judeus. Em 52, Cláudio desterra Cumano e dá o seu cargo a Agripa II. Em 54, Nero se tornou imperador de Roma (até 68) no lugar de Cláudio e, em 55, uniu ao território governado por Agripa II parte da Peréia e da Galiléia. Agripa II chegou a nomear seis sumos sacerdotes. De 60 a 62 o procurador é Festo. De 62 a 64 é Albino. De 64 a 66 é Floro.
     Em Roma acontece em 64 o incêndio que destruiu grande parte da cidade, provocado por Nero, que fez a culpa recair sobre os cristãos de lá. Pelo fato de os cristãos não cultuar os deuses, tudo de ruim era tido pela população como castigo dos deuses por causa dos cristãos.
     Em 68, Nero se suicidou. Em 69, Vespasiano se tornou imperador de Roma. Confiou a se filho Tito (que se tornaria imperador em 79) o cerco de Jerusalém. Tito destruiu Jerusalém e o templo e massacrou os judeus.
     Nesses 40 anos, além de muitos outros conflitos, houve três insurreições em massa na Palestina. Foram anos de muita convulsão social. Em três ocasiões as legiões romanas, estacionadas na zona de Antioquia da Síria, intervieram.
     Além disso, havia as constantes afrontas de romanos para com os judeus. A exemplo do arbitrário e sanguinário Pilatos, que ficara conhecido por atitudes de zombaria em relação à religiosidade dos judeus, soldados romanos muitas vezes feriram a sensibilidade popular judia, por exemplo, quando um deles expôs seu traseiro aos fiéis do alto do templo ou aquele que rasgou publicamente um exemplar da Torá (ambos no ano 52) (Flávio Josefo, Guerra II 224-231).
    O cristianismo surgiu nesse contexto, como uma corrente reformadora no seio do povo de Israel, ao lado de outras correntes reformadoras da época. Sabemos por Flávio Josefo que entre os anos 30 e 66 houve vários movimentos populares proféticos e messiânicos. Ao mesmo tempo Roma, além de sua dominação econômica, tentava aumentar sua influência religiosa e ideológica sobre os judeus, que reagiam a isso. A Judéia era um barril de pólvora que explodiria entre os anos 66 a70.
     Tiago, chamado “o justo” e “o irmão do Senhor”, muito cedo se estabeleceu em Jerusalém e foi líder da comunidade cristã em Jerusalém chamada pela população de “seita dos nazarenos” e lá ficou até ser morto em 62.
     Sobre essa situação de conflito escreve Carlos Mesters: “Todos esses fatos deixaram marcas profundas no povo judeu. De repente, este se viu ameaçado pelo poder do Império, agora sediado em Cesaréia, bem perto. Esta nova ameaça reacendeu o sentimento anti-romano, estimulou a desconfiança para com os estrangeiros, fez crescer os movimentos nacionalistas e, por isso mesmo, aumentou as divergências internas entre os próprios judeus, a ponto de tornar quase impossível a reconciliação. Assim, a partir dos anos quarenta, a rebelião contra Roma retomou força, o zelo pela Lei se alargava e começava a organizar-se no partido mais radical dos zelotes. A nova conjuntura repercutiu nas comunidades cristãs, cujos membros eram todos judeus, e dificultava a convivência entre eles. De um lado, fortaleceu-se a tendência dos que insistiam na observância da Lei de Moisés e das tradições judaicas (...) De outro lado, pessoas como Barnabé e Paulo, seguidores do rumo de Estêvão, já não se sentem à vontade na comunidade de Jerusalém (...) A crise provocada pela mudança da conjuntura favoreceu a missão para fora da Palestina (...). Assim, Tiago e a comunidade de Jerusalém tornaram-se símbolo daqueles que exigiam dos pagãos convertidos a observância da Lei de Moisés (At 15,5. 20-21; Gl 2,12). Barnabé, Paulo e a comunidade de Antioquia tornaram-se símbolo da abertura para os não judeus. Eles não exigiam a observância da Lei nem a circuncisão para os pagãos que queriam converter-se ( Gl 2,6; At 15,1-2.12).
     Finalmente, de todos os conflitos, o mais marcante e decisivo foi a guerra judaica, dos anos 66 a 74. Escreve Jorge Pixley (RIBLA, agosto de 1985): “Jerusalém foi o centro dessa insurreição que foi também uma revolução dos pobres contra seus próprios líderes. Por três anos, desde 67 até 70, os revolucionários controlaram a cidade de Jerusalém. A natureza revolucionária dessas ações é patente por atos como foram o assassinato do sumo sacerdote Ananias e o incêndio dos arquivos onde constavam as dívidas da população”.
     A resposta foi terrível: a destruição de Jerusalém e do templo pelas tropas romanas, ação que contou inicialmente com a presença do próprio Vespasiano e depois de seu filho Tito, que comandou a operação.
 
 
 
O Cristianismo em Jerusalém
Do ano 30 ao ano 140 d.C
 
 
     Dos discípulos e discípulas de Jesus que o seguiram até Jerusalém (inclusive Maria, sua mãe) onde ele foi crucificado, quais permaneceram em Jerusalém e quais voltaram para a Galiléia? Não se deve responder a essa pergunta com informações puras e simples (ou simplistas) tiradas dos Evangelhos Canônicos, Atos dos Apóstolos e Cartas de Paulo. Até porque tais informações, se bem analisadas e não harmonizadas simplisticamente, não coincidem entre si. Lucas faz parecer que além da família de Jesus, da qual Tiago era o líder (por direito conforme a tradição judaica) os doze permaneceram em Jerusalém. Mas Lucas faz isso com um objetivo teológico: os doze apóstolos seriam os novos condutores de Israel, continuadores das antigas doze tribos da Israel do Antigo Testamento. Diz Lc 22,30: “Sentareis em tronos para governar as doze tribos de Israel”. Pode-se perguntar se, de fato, os doze apóstolos, ou mesmo a maioria deles se transferiu para Jerusalém. Paulo diz em Gl 1,18-19: “Três anos depois (de seu encontro com Jesus) subi a Jerusalém para conhecer Cefas (Pedro) e fiquei com ele quinze dias. Dos outros apóstolos não vi mais nenhum, mas somente Tiago, irmão do Senhor”.
     Archebald Mulford Woodruff (em RIBLA, agosto de 1985) diz que Lucas “nas suas tentativas de harmonizar conflitos e mascarar posturas e desenvolvimentos divergentes, tenta ajustar as informações da tradição recebida, mas não consegue encobrir eficientemente os remendos”. Diz ele ainda que “segundo o programa teológico de Lucas, era necessário partir do templo, do centro de judaísmo, pois Jesus não era uma ameaça a ele, ele era antes a sua plena realização”. Para Woodruff “Os apóstolos em torno do templo é que representam um relativo retrocesso em relação ao movimento de Jesus. Relativo porque após a execução de Jesus todos os cristãos estavam buscando possibilidades (...) a partir de seu próprio contexto”.
     Eusébio de Cesaréia, historiador e um dos expoentes da patrística, considera Tiago o primeiro bispo de Jerusalém. Diz ele que depois do martírio de Tiago (em 62) “os apóstolos do Senhor que ainda viviam em todas as partes, junto com os que pela carne eram parentes do Senhor, consultaram quem seria digno de suceder Tiago e unanimemente escolheram Simeão, filho de Clopas”. (História Eclesiáticas III.11). Esse Clopas (ou Cleofas) foi irmão de José, o pai de Jesus. Quem decidia a liderança era a família de Jesus. A inclusão dos apóstolos é mais uma questão de interpretação.
     Provavelmente essa escolha foi feita antes de 66, antes da guerra judaica.
     O que aconteceu com a Igreja de Jerusalém entre os anos 70 e 132. Sabemos muito pouco.
     Em 132 o imperador Adriano fundou novamente Jerusalém depois de uma segunda guerra e proibiu ali a presença de judeus. Surgiu então em Jerusalém, conforme Eusébio (em História Eclesiástica Vl.6), uma Igreja de Cristãos gentios que escolheu um homem chamado Marcos como seu primeiro bispo.
     Um dos elementos para se conhecer a Igreja de Jerusalém se tem ao examinar a relação entre Paulo e Tiago. Em Gl 1,18-19 Paulo entende Tiago como colaborador de Pedro. Em outro momento há uma decisão de Tiago, Pedro e João de reconhecer o ministério de Paulo com os gentios, conforme Gl 2,1-10. Em Gl 2,11-13 Paulo diz: “Quando Cefas veio em Antioquia, eu o enfrentei abertamente, porque ele tinha se tornado digno de censura. Com efeito, antes de chegarem alguns vindo da parte de Tiago, ele comia com os gentios, mas, quando chegaram, ele se subtraía e andava retraído, com medo dos circuncisos. Os outros judeus começaram também a fingir junto com ele, a tal ponto que até Barnabé se deixou levar pela sua hipocrisia”. A seguir, Pauloquestiona Pedro por forçar os gentios a viverem como judeus. Atos 21,15-26 fala da última visita de Paulo a Jerusalém. Diz que foram recebidos com alegria e que, no dia seguinte, foram à casa de Tiago, onde os anciãos se reuniram. Os anciãos glorificaram a Deus pelo que Deus realizou entre os gentios pelo ministério de Paulo, mas depois disseram a Paulo que milhares de judeus abraçaram a fé e nem por isso deixaram de ser zeladores da lei. E disseram que foram informados de que Paulo havia ensinado aos judeus que viviam no meio dos gentios a não seguirem as tradições judaicas. E advertiram Paulo de que ele poderia ser linchado pela multidão de judeus por causa disso. Impuseram uma série de rituais judaicos a Paulo.
     A Igreja de Jerusalém, diferente de Paulo, era uma igreja judia. Atos 6,7 diz que muitos sacerdotes aderiram à fé em Jesus sem deixar de ser sacerdotes no templo. Hegesipo, citado por Eusébio em sua História Eclesiática (II. 23. 5-6) informa (os escritos do próprio Hegesipo desapareceram) que Tiago vestia-se de linho e estava autorizado a entrar no templo. E depois, no século V, dirá Epifânio, bispo de Salamis, Chipre, que Tiago usava a mitra do sumo sacerdote e podia entrar uma vez por ano no Santo dos Santos (Haer. 78. 6-7). Essas informações podem ser lendárias, mas evidenciam a linha adotada por Tiago.
     Nos capítulos 6 e 7 de Atos dá para perceber a diferença entre a concepção de Estêvão e a de Tiago. O que Estêvão diz sobre o templo e a lei judaica, Tiago não diria.
     Pode-se questionar a maneira como Atos dos Apóstolos caracteriza o grupo de Estêvão. Diz Woodruff no referido artigo: “Lucas tenta submeter hierárquica e cronologicamente os servidores das mesas aos apóstolos. Os apóstolos é que teriam sugerido a criação do cargo destes. Além disso, são os apóstolos que conferem autoridade aos ’sete’ através da imposição de mãos. Na verdade Lucas está lidando com dois grupos de liderança distintos (...) Estêvão era um pregador sábio e eloqüente (...). Os sete (...) servir às mesas e cuidar das viúvas (...) seria desperdício de talento, pois eles eram profetas, pregadores carismáticos e eloqüentes (...) realizam exatamente o mesmo ministério dos apóstolos (...) não agem subordinados aos apóstolos”.
     Jorge Pixley (em artigo na RIBLA, agosto 1985) diz também que havia dois grupos cristãos, o grupo de Estêvão (dos helenistas) e o grupo dos apóstolos (ou de Tiago). (Atos 8,1 diz que os cristãos helenistas se dispersaram e os apóstolos não). E que “As autoridades judias sabiam diferenciar os dois partidos. Perseguiam os cristãos helenistas mas podiam conviver com os hebreus”.
     Tudo isso pode ser percebido lendo-se por trás das palavras.
      Lucas escreveu provavelmente quando não havia uma igreja em Jerusalém, quando o templo já havia sido destruído por Tito, quando ser cristão era ter deixado de ser pagão ou judeu, quando não se podia ser cristão e judeu ao mesmo tempo. Lembrando o capítulo 11 de Atos, em que Pedro assume uma mentalidade semelhante a de Paulo, o autor, no artigo aqui citado, diz que houve um período em que a igreja de Jerusalém preferiu Tiago a Pedro, pois “não estavam dispostos a desconhecer seu povo numa situação aguda de opressão”. Mas depois, diz ele, prevaleceu a atitude de Pedro, que era a verdade do futuro.
     O posicionamento de Tiago (que não deve ser confundido com Tiago Maior, irmão de João, morto a mando de Herodes Agripa) é ilustrado pela descrição de Flávio Josefo (em Antiguidades XX. 197-203) sobre a morte de Tiago. Diz que César enviou Albino à Judéia, como procurador no lugar de Festo que havia morrido. Aproveitando a ocasião (o novo procurador estava ainda a caminho), Agripa II trocou o sumo sacerdote por outro, chamado Anano, que condenou Tiago à morte. Os que gostavam de Tiago, dizendo que Anano já começava mal como sumo sacerdote, conseguiram que ele fosse logo destituído. Quer dizer, Tiago foi executado às pressas por um sumo sacerdote recém-instalado, antes de o procurador chegar. Contudo, Flávio Josefo, como aristocrata que era, achava que esse Anano era o homem que evitaria que Jereusalém fosse destruída pelos romanos. Ele tinha maioria no sinédrio e era duro com os sacerdotes revoltosos.
     Parece que Tiago era identificado com os sacerdotes mais críticos e isso transparece em Tg 5, 1-4 e Tg 2,6. Mas também era chamado “o justo” além de pela sua análise do problema social, por sua advertência contra o homicídio, como aparece em Tg 2,11.

 

Sermão para o 5° Domingo Comum, Ano A

Postado em 26/7/2011 em 05:52 PM
Sermão para o 5º Domingo Comum, Ano A
(Is 58.7-10/ 1 Cor 2,1-5/ Mt 5,1-12a/ Sl 112)
 
 
 
       A liturgia da palavra de hoje utiliza o simbolismo da luz e do sal. O profeta Isaías, na primeira leitura de hoje, diz que brilha a luz de quem partilha o pão (v.7), acolhe os pobres (v.7), os indigentes (v.10), de quem caminha na justiça (v.8), de quem não pratica a opressão e não tem hábitos autoritários (v.9). E seus dizeres têm semelhança com os do salmo de hoje, o 134.
       A palavra luz está hoje em diversos títulos, denominações. Pessoas que se destacam pela sua intelectualidade ou pelo cargo que ocupam são chamadas de ilustres ou ilustríssimas. Pessoas sábias são chamadas lúcidas ou iluminadas. Os que freqüentam a escola são chamados “alunos”, palavra que significa “sem luz”, querendo dizer que são pessoas que foram buscar a ilustração ou iluminação dos professores, dos mestres (Essa relação é contestada por pensadores que criticam a pedagogia tradicional). Enfim, a luz é símbolo da ilustração, do conhecimento.
       Mas o que nos é exemplo no testemunho do apóstolo Paulo, como nos mostra a segunda leitura de hoje, da primeira carta de Paulo aos Coríntios, não é a “linguagem elevada e prestígio da sabedoria humana” (v.1) a exemplo da linguagem dos filósofos e dos históricos poetas gregos, mas o saber a partir de Jesus Cristo crucificado (v.2).
       A luz tem simbolismo bem amplo na Bíblia. Usamos sempre a luz da vela na celebração litúrgica. Talvez ela seja pouco percebida e admirada numa cidade grande tão cheia de luzes para todos os lados. Lembro-me de quando eu era criança na roça. Íamos com o pai e a mãe na reza do terço. Voltávamos no meio da escuridão, andando por estradas ou trilhas. Quando o pai riscava um fósforo para acender um cigarro de palha eu me agradava e impressionava com a claridade que me parecia imensa. No ambiente camponês que vivia Jesus também a luz tinha mais destaque do que no nosso tão modernizado e eletrizado.
O Evangelho nos convida a ser luz. E não a ser uma luz escondida e sim bem visível. Mas ser luz para fazer brilhar a glória de Deus. E não a própria. Observo o seguinte: não é para a lâmpada que a gente olha, mas para as coisas que ela ilumina. Ela não brilha em função de si mesma. Muitas vezes nem percebemos a lâmpada. Nós a percebemos quando ela é muito fraca. Também a percebemos se ela for forte demais, pois incomoda. Os traficantes até disparam contra veículos que andam com farol alto. Devemos ser luz na medida certa, nem fraca demais e nem forte demais. Como luz forte demais, que incomoda, alguns participantes de igreja ganham o apelido de “Aparecido” ou “Cidão” ou “Aparecida”.
Ouvimos dizer que há gente vivendo “nas trevas” ou “na escuridão”. Essa escuridão pode significar os vícios, o egoísmo, a falta de fé, o não dar um sentido para a própria vida... Pode significar a falta de amor. A luz faz a gente enxergar o outro. O amor cristão faz a gente enxergar as necessidades dos outros para as quais muitos são insensíveis.
O filósofo grego Platão contou uma história que ficou conhecida como “mito da caverna”. Ela fala de três homens que viviam numa caverna e tinham medo de sair dela e olhar a luz de frente. Nesse caso a luz significa a filosofia, que faz ir além do senso comum.
Sobre o sal podemos dizer algo semelhante. Na época de Jesus havia muito sal, sobretudo as margens do Mar Morto (que hoje é bem conhecido dos que lá foram como turistas e viram como no Mar Morto qualquer um fica boiando em suas águas por causa da grande quantidade de sal que ele tem). Ele era utilizado também como combustível para ativar o fogo.
Não pode faltar sal na comida. No entanto, quando comemos nem nos lembramos do sal. Só nos lembramos dele quando ele falta ou quando tem demais. Assim, a pessoa cristã não deve ser sal demais e nem de menos. Nem insossa e nem intragável.
Há muitas pessoas que perderam o gosto pela vida. O que fazer? Dizia um famoso médico alemão chamado Sigmund Freud que a doença mental vem da incapacidade de descobrir novidades. A pessoa criativa é entusiasmada. Entusiasmar-se, pelo significado da palavra (etimologia) significa encher-se de Deus. Tem gente que não se entusiasma com nada. Fica à toa, esperando a morte chegar. Para dar gosto à vida, há muito que se pode fazer, conforme os dons, por exemplo, no campo da arte e da música: artesanato, pintura, jardinagem, culinária, dança, etc, etc. Uma das doenças mais comuns hoje é a depressão. Ela pode ser curada ou amenizada com o ocupar-se e dar sentido para a vida, um significado para a existência. Podemos ajudar pessoas a sair do isolamento depressivo. É absurdo que, numa cidade grande, em meio a tanta gente, um dos maiores problemas seja a solidão. O sistema político e econômico em vigor reforça o individualismo. Temos que fazer a diferença.
Peçamos a Deus que nos ajude com a luz do Evangelho a enxergar novos caminhos, a enxergar melhor os outros, sendo sensíveis às suas necessidades. E como sal, na dose certa, ajudar os outros a adquirir mais gosto pelo viver.

Sermão para o 9° Domingo Comum, Ano A

Postado em 26/7/2011 em 05:51 PM
Sermão para o 9° Domingo Comum, Ano A
 
 
 
                A liturgia da Palavra do 9° domingo do Tempo Comum, ano A, nos traz como Evangelho do dia Mt. 7,21-27. Ele diz que “nem todo aquele que diz Senhor, Senhor entrará no reino dos céus, mas o que coloca em prática a Palavra de Deus”. Costumo dizer que nem todas as pessoas que são religiosas, que têm muita religiosidade, muita devoção, têm verdadeiramente fé. Fé é muito mais do que religiosidade. Infelizmente muitas vezes, nos meios de comunicação de massa, se costuma chamar toda e qualquer expressão religiosa de fé. Até se identifica erroneamente religião como compromisso e ampla prática e fé como simples crença ou apenas sentimento de alguém que pode ser desengajado ou descomprometido. Não se dão conta de que os fariseus que tanta oposição faziam a Jesus, eram muito religiosos e que o sinédrio que condenou Jesus à morte era constituído de pessoas religiosas.
            Qual é o significado e a amplitude da fé? No século XVI, Martinho Lutero, um dos principais iniciadores da Reforma Protestante, discordou do papa que dizia que a salvação vinha das obras. Disse que a salvação não vem das obras e sim da fé. Podemos concordar com isso se entendermos a fé como algo que inclui as obras. Na época de Lutero acontecia que homens ricos muito perversos, sem terem passado por uma verdadeira conversão, compravam a “salvação”. Em troca dela davam dinheiro para as obras da Igreja. Era a famosa “venda de indulgências”. O papa declarava que tais pessoas, apesar de tudo, estavam salvas por que ele, representante de Cristo na terra, tinha autoridade para ligar as pessoas ao céu, já que Jesus dera essa autoridade a Pedro. Era uma distorção.
            O que é a verdadeira fé? O evangelho de hoje compara os que ouvem a palavra de Deus e a põe em prática com a pessoa que construiu sua casa sobre a rocha, diferente daquela que construiu sua casa sobre a areia.
            A religiosidade sem a verdadeira fé, que inclui o compromisso sócio-transformador, sempre revisado à luz de uma bem fundamentada teologia, compara-se a uma casa construída sobre a areia. Acontece às vezes de certos provocadores baratos dizerem a determinados líderes: “Sua celebração não está com nada, pois reúne pouca gente!” e exaltarem os religiosos que reúnem multidões. Respondo que prefiro falar profundamente com duas pessoas do que superficialmente com dois milhões.

Sermão para 12° Domingo Comum, Ano A

Postado em 26/7/2011 em 05:49 PM
Sermão para o 12° Domingo Comum, Ano A
Jr 20,10-13 / Rm 5,12-15 / Mt 10,26-33
 
 
            A liturgia da palavra deste domingo lembra a atitude profética. Jeremias poderia ter sido um profeta oficial, daqueles que falavam o que agradava ao rei (e hoje ele não seria conhecido), mas ele seguiu outros critérios, que incluíam a prática da justiça e do direito. Por isso foi perseguido.
            O evangelho de hoje revela uma realidade dos primeiros cristãos. Eles encontraram no cristianismo um maravilhoso modo de viver, tão diferente daquele que lhes foi ensinado a partir da ideologia de dominação do Império Romano ou do fundamentalismo dos fariseus. Mas aí se deram conta de uma dura perseguição. O que fazer? Submeter-se aos dominadores e deixar acabar o movimento de Jesus? O texto de Mt 10,26-33 foi escrito para animar os cristãos e dar um sentido à realidade de sua opção.
            Alguns poderão perguntar: Por que Jesus diz que fala no escuro e às escondidas e pede para proclamar “à luz do dia” e “sobre os telhados”? Parece que esse “no escuro” e “às escondidas” refere-se ao período anterior à ressurreição. Esta dá uma clareza e uma certeza bem maiores.
            O medo pode servir como proteção e o “não temas” não significava que os cristãos não deviam ter nenhum cuidado. Houve momentos em que os cristãos se reuniram nas catacumbas. Mas eles deviam não se intimidar com a arrogância e a prepotência dos perseguidores. Estes matam o corpo, mas não podem matar a alma. Não são poderosos. Poderoso mesmo é Deus, que pode matar o corpo e a alma. Há quem diga que “o que pode arruinar o corpo e a alma no inferno”, de que fala o Evangelho, seja o demônio. Outros que Deus “pode” jogar o corpo e a alma no inferno, mas não faz, pois quem o faz é o próprio pecador, que se entrega ao pecado. O fato é que o perseguidor (ou torturador) não tem poder além de torturar e matar só o corpo do perseguido. O poder desgraçado que ele tem é sim o de matar o seu próprio corpo e a sua própria alma
            Sergio Paranhos Fleury foi um terrível torturador, especializado em requintes de crueldade, a serviço da recente ditadura no Brasil. Ele torturou barbaramente o frei dominicano Tito de Alencar de Lima, que morreu em conseqüência das torturas que sofreu. Numa carta que escreveu escondido e conseguiu entregar a alguém ele dizia: “Prefiro morrer do que perder a vida”. Naquele período sangrento Tito morreu em conseqüência das torturas sofridas, mas não perdeu a vida. Fleury não morreu naquela ocasião, mas perdeu a vida. Sua perda foi muito maior. Em conseqüência disso o final de sua “vida” foi muito desgraçado. Acabou sendo jogado bêbado na água pelos “amigos” e se afogando. Assim também vários outros torturadores animalescos e nojentos dos quais conhecemos a biografia tiveram o final da vida marcado por intrigas, abandono e traição.
            Deus nos ama mais do que a todas as suas criaturas e nos têm como filhos. Não nos entreguemos às futilidades deste mundo e vivamos os valores próprios dessa filiação divina.

Sermão para o 14º Domingo Comum, Ano A

Postado em 26/7/2011 em 05:47 PM
Sermão para 14° Domingo Comum, Ano A
(Zc 9,9-10 / Sl 144 (145) / Rm 8,9. 11-13 / Mt 11,25-30)
 
 
      O povo hebreu, do Antigo Testamento, considerava-se o “povo escolhido”, a “nação santa”. No entanto, via-se sempre dominado por algum governante estrangeiro que, além de oprimi-lo e explorá-lo, muitas vezes desrespeitava sua religião, sua cultura. Esperava então por um rei messias, um salvador que expulsasse o dominador estrangeiro. Chamava esse messias esperado de “Filho de Davi”.
       Contudo, o profeta Zacarias, depois de anunciar um rei para Jerusalém, descreve-o de tal modo que ele não fica parecendo um Filho de Davi. Ele é humilde e vem montado num jumento. Um rei ou general costumava entrar numa cidade num carro de guerra ou num vistoso cavalo e cercado de soldados imponentes que impressionavam.
      Recentemente veio a esta cidade o presidente dos Estados Unidos. Nem é necessário descrever as características de sua vinda, pois a imprensa mostrou-a muito. E se imaginássemos ele chegando humilde e até montado num jumento? Quem anda de jumento hoje no Brasil é o nordestino pobre e esse hábito é motivo de risos aqui no sul.
Essa descrição do rei humilde coincide com a imagem de Jesus. E nos humildes que o seguem ele reconhece uma sabedoria que foi escondida dos estudados deste mundo e revelada aos pequenos: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu a da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequeninos” (Mt 11,25). E por ele não ser arrogante, autoritário, sem piedade, misericórdia e compaixão como tantas autoridades políticas e religiosas de sua época ele diz: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e abatidos sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso (...) Pois o meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mt 11,28-30).
      Jesus procurava sempre incluir os pobres, doentes, desanimados no convívio social, fazendo-os se sentir dignos e não impuros condenados por Deus a pagar pelos pecados e sem bênçãos divinas.
      Ainda hoje muitos religiosos dizem que os ricos foram abençoados por Deus, num esquema divino de retribuição e que os pobres são os que ainda não alcançaram a benção. Devemos corrigir essa distorção. Como fez Jesus.

Sermão para o 18º Domingo Comum, Ano A

Postado em 26/7/2011 em 05:44 PM
Sermão para o 18º Domingo Comum, Ano A
 
 
Joaquim Jeremias escreveu livros que têm fama de clássicos indispensáveis para estudiosos da teologia bíblica. Um deles, publicado pela Editora Paulus, com o título “Isto é o meu Corpo” trata de situar e contextualizar a última ceia de Jesus e as ceias eucarísticas dos primeiros cristãos. Lamenta que as palavras da instituição da eucaristia, tomadas isoladamente, separadas de seu contexto histórico, tenham sido transformadas em misteriosa fórmula mágica. Afirma ele que a ceia da quinta-feira santa foi o último elo de uma longa cadeia de refeições que Jesus tomou com seus discípulos. E trata do que pode ter significado assentar à mesa com Jesus. Diz que “para o oriental, a refeição tomada em comum tem um significado mais profundo do que para nós ocidentais”. Ilustra com vários episódios da história bíblica. Cita Gn 26, em que Abimelec faz aliança com Isaac numa refeição. Em Gn 31, Labão fez um contrato com seu sobrinho Jacó e depois convidou seus parentes para comer. Joaquim Jeremias diz que “convidar alguém para a própria mesa é sinal de paz, de confiança, de fraternidade, de perdão”.
            Podemos ainda acrescentar, dentre as várias passagens do antigo testamento que falam da refeição, Gn 14, onde Melquisedec, numa refeição, faz aliança com Abraão; em 2 Reis 4 vemos as refeições do profeta Eliseu com a sunamita; também em 2 Reis 4 apenas vinte pães de cevada são apresentados para cem pessoas, e ele diz que “comerão e ainda sobrará”; em 1 Reis 17 a viúva de Sarepta diz ao profeta Elias que tinha apenas um punhado de farinha e um pouco de azeite e ele responde assegurando “a vasilha de farinha não se esvaziará e a jarra de azeite não acabará”.
             Escreve Joaquim Jeremias na referida obra:
 
            A grande consideração atribuída à refeição em comum continuou no hebraísmo antigo. Mas acrescentou-se-lhe um elemento completamente novo: a oração antes e depois da refeição. Quando a família se reunia para a refeição, o pai tomava o pão, levantava-o de modo que todos o pudessem ver e, em nome de todos os presentes pronunciava sobre ele uma doxologia: “Louvor a vós, Senhor, nosso Deus, rei do mundo, que fazeis nascer o pão da terra”. Os presentes faziam sua oração de louvor respondendo “amém”; em seguida o pai partia o pão em pedaços (pelo menos do tamanho de uma azeitona) e os dava a cada um dos comensais; partia um pedaço para si e comia, dando assim aos presentes o sinal para que cada um comesse o seu pedaço. Comendo o “pão da bênção”, os comensais participam da doxologia pronunciada pelo chefe de família. Depois da refeição se recitava a oração de agradecimento: o pai de família (ou o hóspede de maior consideração, convidado por ele) fazia, assentado, a exortação: “Louvemos Iahweh, nosso Deus, ao qual pertence tudo o que acabamos de comer!”. Em seguida, com a mão direita levantava o “cálice da bênção” (1 Cor 10,16) um palmo acima da mesa e, com os olhos voltados para ele, recitava a oração final. É provável que no tempo de Jesus ela fosse de seguinte teor:
            “Louvor a vós, Senhor, nosso Deus, que alimentais o mundo todo com bondade, graça e misericórdia”.
            Os comensais faziam sua oração respondendo “amém” e participavam da bênção bebendo do cálice, que era passado entre eles.
            Não sabemos como e quando foi introduzido o piedoso costume de rezar antes e depois das refeições; vários indícios fazem supor que ele se tenha originado entre os fariseus. No tempo de Jesus esta prática já era comum. Com a oração à mesa, a refeição em comum assumia um significado completamente novo, elevando-se da esfera profana para a religiosa e se transformando de instituição meramente social em reunião realizada sob o olhar de Deus. A primeira epístola de Timóteo diz que o alimento “é santificado pela palavra de Deus e pela oração” (1 Tm 4,5). Justamente por isso as pessoas piedosas, fossem elas teólogos (rabinos) ou leigos (fariseus), tinham o dever religioso de consersar pura a comunhão da mesa e de não admitir nela a presença de pessoas ímpias. “Um teólogo... não pode assentar-se à mesa junto com pessoas que não conhecem a Lei”.
            Assentar-se à mesa com Jesus é algo mais: é proclamação do início do tempo da salvação ³. O novo povo de Deus que se formava em torno de sua pessoa constituía para Jesus uma grande família, que vinha ocupar o lugar daquelas que ele e seus discípulos tinham deixado (Mc 10,29s). Na família de Deus dos últimos tempos, o pai é ele e os familiares e comensais são aqueles que o seguem (Mt 10,25); as mulheres mais velhas são sua mãe e os homens e os jovens, seus irmãos (Mc 3,34). Mas todos eles, mesmo que sejam mais velhos, são ao mesmo tempo os pequenos, as crianças, os menores da família (Mt 11,25), aos quais Jesus se dirige como a crianças (Mc 10,14). A “família de Deus” se manifestou como tal principiante quando, nas refeições comunitárias, Jesus, qual pai de família, recita a oração da mesa e parte o pão (Mc 6,41;8,6;14,24). É surpreendente que entre os comensais de Jesus se encontrem pecadores e publicanos. O oriental, que, melhor do que nós sabia apreciar o valor de uma ação simbólica, compreendia imediatamente que, para pessoas marginalizadas nos planos religioso e moral, como eram os pecadores, o serem admitidas á mesa de Jesus significava perdão e salvação.
            A confissão de Pedro em Cesaréia de Filipe (Mc 8,29) deu à participação na mesa de Jesus um sentido ainda mais profundo. Se Jesus era realmente o Messias, para a multidão de seus discípulos cada refeição tomada em sua companhia era uma prefiguração, uma antecipação (mais exatamente, um dom antecipado) da refeição escatológica. Daquele momento em diante, comer e beber com o Mestre significava nada menos do que a comunhão da comunidade reunida com o Redentor, a festa das núpcias, o penhor da participação no banquete eterno. A partir da confissão de Pedro, cada participação na mesa de Jesus proclama que:
a era messiânica está começada:
o tempo messiânico é tempo de redenção;
o tempo messiânico é tempo de perdão.
 
 O problema que mais preocupou a Igreja primitiva a respeito da mesa comum foi o da participação nela: devia admitir a todos ou devia estabelecer condições restritivas? Segundo os severos judeu-cristãos, as restrições se impunham porque para eles era natural que um judeu observante não comesse em companhia de pagãos (At 11,3). É este o motivo pelo qual os judeu-cristãos de Antioquia foram severamente criticados pelos cristãos de Jerusalém, companheiros de Tiago, “irmão” do Senhor: eles se assentavam à mesa junto com cristãos helenistas. Até Pedro e, para grande desgosto de Paulo, seu colaborador Barnabé não ousavam mais celebrar a ceia com os cristãos provenientes do paganismo (Gl 2, 11-13), o que levou Paulo a protestar energicamente (vv.14-21). O fato de que tanto em Jerusalém (At 11,3; Gl 2,12) como em Roma (Rm 14,1-15,13) os judeu-cristãos não comessem junto com os cristãos provenientes do paganismo torna verossímil a hipótese de que também fora do ambiente os dois grupos se reunissem separadamente para as refeições. Paulo não se conformou com esta situação. É verdade que ele havia dado às suas comunidades, como a disposição disciplinar eclesiástica, a regra de excluir da mesa comum os pecadores renitentes (1 Cor 5,11; cf. v. 9; 2Ts 3,14); mas, quanto à separação que se verifica na ceia do Senhor, ele lutou contra ela com todas as forças. O seu raciocínio, apresentado às duas partes, é claro: por acaso Cristo não morreu pelo irmão (Rm 14,15)? Não estais todos nas mãos de Deus, que vos concede, a todos, a graça do perdão (Gl 2,15s) ? Não vês que o irmão enquanto se alimenta, louva a Deus (Rm 14,6)? Não pertenceis, tu e ele, na vida e na morte, ao mesmo Senhor (14,17)? Acolhei-vos, pois, mutuamente (14,1;15,7) .
 
John Dominic Crossan, em seu livro “O Jesus Histórico” ( Ed. Imago) chama uma característica do cristianismo originário de “comensalidade aberta”. O cristianismo nasceu na mesa partilhada. Quem você chama para a sua mesa? No judaísmo só se sentava à mesa os considerados bons, os eleitos. A novidade revolucionária do cristianismo é que a mesa da comunhão está aberta para quem quiser chegar. Foi isso que fez nascer o cristianismo: trazer para a mesa os escravos de uma sociedade escravocrata, não mais como escravos. É a mesa da inversão do modo como se vive fora dela.
            Na primeira leitura da Liturgia da Palavra de hoje, (Is 55,1-3), que tem semelhança com o Salmo 144 (145) deste domingo, Deus convida os que estão com sede para irem à nascente das águas. Ele convida os que estão com fome a buscar trigo sem dinheiro, vinho e leite sem pagar. A utopia do autor do livro de Isaías supera as relações de mercado.
            No Novo Testamento essa utopia é atualizada na descrição do livro Atos dos Apóstolos sobre como viviam os primeiros cristãos, sem haver necessitados entre eles, graças ao amor de Cristo. Desse amor, diz a segunda leitura de hoje, Rm 8,35.37-39, “nada nos separará”.
            O evangelho de hoje (Mt 14,13-21) é conhecido como “multiplicação os pães”. Ele tem paralelo em Marcos 6,30-44, e Lucas 9,10-17 e João 6,1-15.
            Analisemos primeiro um detalhe próprio do Evangelho de Mateus. A “Bíblia Edição Pastoral” (Editora Paulus) dá a esse texto de Mt 14,13-21 o belo título “O Banquete da Vida”. E ele vem logo após um texto que tem por título “O Banque da Morte” (Mt 14,1-12). Os dois se ligam fazendo com que o martírio de João Batista motive a missão de Jesus. “Quando soube da morte de João Batista Jesus partiu” (Mt 14,13). Antes de analisar o tal banquete da morte vale lembrar um fato que está no livro de John Dominic Crossan, “Jesus, uma Biografia Revolucionária”, Ed. Imago, p. 51: Quando, em 184 A.E.C, Catão era um dos dois censores oficiais em Roma, ele expulsou Lúcio Flamínio do senado, a despeito de seu posto consular. Seu crime é descrito pelo orador Cícero, que morreu em 43 A.E.C; mais uma vez pelo historiador Lívio, que morreu em 17 E.C; e finamente pelo retórico Sêneca, o Velho, que morreu em 40 E.C.Eis uma das versões na história de Roma de autoria de Lívio, Livro 39.43,3-4:
            Em Placência, uma conhecida mulher, por quem Flamínio estava desesperadamente apaixonado, fora convidado para jantar. Ai ele se vangloriava para a cortesã, entre outras coisas, sobre sua severidade no andamento de processos e como fizera prender muitas pessoas, sob sentença, que ele pretendia decapitar. Então a mulher, reclinando-se sob ele, disse que nunca tinha visto uma pessoa decapitada e que estava muito ansiosa para ter essa visão. Imediatamente, ele disse, o amante generoso, ordenando que um dos desgraçados fosse levado até ele, cortou sua cabeça com a espada. Esse feito (...) foi selvagem e cruel: em meio a bebida e banquete, onde era costume verter libações para os deuses e rezar por bênçãos, como espetáculo para uma meretriz desavergonhada, reclinando-se no peito de um cônsul, uma vítima humana sacrificada e salpicando a mesa com seu sangue!
 
O texto de Mt 14,1-12 trata de um banquete ocorrido por ocasião do aniversário de Herodes, governador da Galiléia. Não é o mesmo Herodes da época do nascimento de Jesus, o Herodes Magno, que foi rei, construiu vários luxuosos e grandiosos palácios, fortalezas, e reformou o templo de Jerusalém. Ficou também conhecido pela sua crueldade tendo mandado matar muita gente, até três de seus filhos que poderiam tomar-lhe o trono. Trata-se agora do filho de Herodes (o Grande) chamado Herodes Antipas, rebaixado por Roma a apenas governador e só da Galiléia, No banquete, entre os seus convidados ricos, está uma mulher que lhe agradou com sua dança. Herodes então, a frente dos convidados, disse a ela que pedisse o que quisesse. E ela, entre os caprichos dos ricaços, pediu que fosse trazida, num prato, a cabeça de João Batista. Vemos aí que o banquete dos ricos consagra a miséria dos pobres e decide o assassinato do líder dos pobres. A esse banquete Jesus opõe um banquete da vida, que é uma celebração e uma festa popular.
            O texto do qual tratamos é de caráter litúrgico e catequético, rico em simbologia. Dois detalhes podemos estranhar. O primeiro é que as multidões saem das cidades, vão a pé, e chegam ao local antes de Jesus, que foi de barco. Não andariam assim tão depressa e nem Jesus navegaria tão lentamente. É que a construção literária de Mateus é uma compilação feita com a junção de trechos de vários textos. O outro é o que diz que os que comeram eram cincos mil homens “sem contar mulheres e crianças”. Não diríamos isso hoje porque não estamos numa sociedade patriarcal como as dos judeus do 1° século.
            Que o texto é litúrgico podemos entender pelo versículo 19: “Jesus tomou os cinco pães e dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães e os distribuiu”. Aqui é bom reler as palavras de Joaquim Jeremias no início deste artigo.
            Voltemos ao texto de Mateus. No versículo 14 Jesus vê uma grande multidão, enche-se de compaixão e cura os que estão doentes. Hoje vemos uma multidão de gente massificada, reduzida a número. E entre ela muitos doentes. Ou a multidão toda está doente; o planeta terra está doente em conseqüência de um desenvolvimento não sustentável, entregue a um capitalismo que gera desperdício e destruição. Se no evangelho em questão Jesus manda recolher as sobras de pão para que nada se perca, hoje estamos numa sociedade onde tudo se perde. Na cultura dos descartáveis muitos parecem estar dizendo “desperdicem muito porque isso gera empregos”, sem se dar conta de que a terra não está repondo tudo o que dela está sendo tirado.
            Analisemos mais alguns símbolos e um palavreado novo, de inversão. Os discípulos sugerem a Jesus despedir as pessoas para elas poderem ir comprar comida. Mas Jesus substitui a palavra despedir pela acolher, ir por vir e comprar por dar. Ao dizer aos discípulos “Daí-lhes vós mesmos de comer”, Jesus ensina que a solução não está na dependência dos ricos, mas que neles próprios está a solução. “Só temos aqui cinco pães e dois peixes”. Cinco mais dois são sete, número muito usado na Bíblia e que significa perfeição. O dito popular atual de que “o pouco com Deus é muito” pode trazer uma ideologia de conformismo. Há quem diga que Deus não quer que ninguém tenha pouco, que ninguém acumule e que tudo seja partilhado para que haja abundância.
            Jesus mandou que todos se sentassem. Na sociedade de Jesus havia muitos escravos e os escravos não se sentavam para comer. Aí está indiretamente, outra novidade.
             Das sobras recolhem doze cestos cheios. O número 12 significa totalidade. Hoje há comida para todos os habitantes da terra e, no entanto, muitos passam fome.
            Fazendo o paralelo com os outros evangelistas aparecem mais símbolos e gestos. Por exemplo, em Marcos e Lucas se diz que Jesus mandou que todos se sentassem em grupos, gesto que pode lembrar uma atual organização popular. O Evangelho de João acrescenta que os cinco pães e dois peixes foram trazidos por um menino, o que é muito significativo, sobretudo o era numa sociedade em que as crianças eram tão desconsideradas. Nesse caso a criança é agente, é ativa, dá o início da solução.
            O Evangelho do qual aqui tratamos não é parte de nenhum manual de organização prática sociológica e política sistematizado. Mas serve de inspiração para uma prática comunitária. Não nos deixemos contaminar pelos símbolos e pelas palavras das mensagens individualizantes do sistema estabelecido, que são transmitidas pelos meios de comunicação de massa.     

Sermão para 21° Domingo Comum, Ano A

Postado em 26/7/2011 em 05:43 PM
Sermão para o 21º Domingo Comum, Ano A
(Is 22,19-23 / Rm 11,33-36 / Mt 16,13-20)
 
            Uma das grandes perguntas dos catequistas cristãos do primeiro século era esta: Quem é Jesus? E até um dos Evangelhos Canônicos (o de Marcos) foi escrito a partir dessa pergunta.
            Como hoje se responde quem é Jesus? Diferentemente do século I, a dificuldade da grande maioria hoje é aceitar ou imaginar Jesus como homem. O famoso filme sobre Jesus produzido em 2004 por Mel Gibson, assistido por muita gente, mostrou Jesus suportando tantas torturas que nenhum ser humano agüentaria. Qualquer um morreria com menos da metade daquilo. Assim ele mostrou Jesus como sendo alguém que não assumiu exatamente a condição humana. Teria sido mais Deus do que homem. O Concílio de Calcedônia, realizado no ano de 451 concluiu que Jesus foi 100% Deus e 100% homem. Não foi metade Deus e metade homem. Como Deus totalmente Deus e como homem totalmente homem. Entendo que suas limitações humanas não eram supridas pela sua condição divina. Algumas passagens dos Evangelhos que dão a entender isso devem ser tomadas em seu contexto e gênero literário. Para se perceber como a condição humana de Jesus é negada hoje basta ver as reações de indignação quando algum escritor diz que Jesus dançava, ria (ou tinha esposa como escreveu Dan Brown, sem fundamentar bem o que diz).
            No século I a grande dificuldade era aceitar a condição divina de Jesus. O Evangelho de hoje mostra que uns o entediam como um profeta outros como João Batista, outros como Elias que voltou. Mas não como Deus e como Messias. Como aceitar que aquele pobre, filho do carpinteiro José, de Nazaré, fosse Deus?
            Mas o que pensavam os discípulos, aqueles que estavam com ele na missão? Pedro faz sua profissão de fé em Jesus como o Messias, o filho do Deus vivo. Não apenas verdadeiro, mas vivo. De que valeria uma verdade que não promovesse a vida? Pode-se aqui pensar na passagem da fé “de Jesus”, judaica, para a fé “em Jesus”. Por isso ele recebe a chave do reino de Deus para ligar e desligar a terra do céu. Esse episódio deve ser lido à luz do texto de Isaías que é a primeira leitura de hoje. Diz ela que a chave do palácio real será tirada do tirano administrador e entregue a Eliacim, filho de Helcias. Agora Jesus entrega a Simão Pedro, filho de Jonas, homem pobre, do povo e não da elite, não apenas uma chave de um palácio real, mas do reino universal, eterno, definitivo.

Sermão para o 22° Domingo Comum, Ano A

Postado em 26/7/2011 em 05:40 PM
Sermão para 22° Domingo Comum, Ano A
 
 
 
 
                O calendário litúrgico da Igreja Católica estabelece como elementos bíblicos para a celebração eucarística do 22° domingo do tempo comum do ano A leituras que revelam a identidade dos verdadeiros cristãos.
            Na Carta aos Romanos cap. 12, v.2, o apóstolo Paulo ensina: “Não vos conformeis com o mundo”. Perguntamos então: Qual é a forma ou modelo deste mundo? Certa vez, numa comunidade, um dos participantes, dizia que na fábrica onde ele trabalhou seus colegas inicialmente só falavam de dois assuntos: mulher e futebol, e que ele foi introduzindo outras conversas, com mais conteúdo, mas não sem sofrer rejeição. Essa rejeição, comum aos cristãos verdadeiros, foi também experimentada pelos profetas do Antigo Testamento. De modo que o profeta Jeremias afirma em Jr 20,7-9 que se tornou alvo de irrisão e todos zombavam dele ao ponto de dizer que não queria mais lembrar-se nem falar do nome de Deus.
            Jesus seguiu o exemplo dos profetas ao contar com a perseguição por não se conformar com este mundo, ou seja, com os ditames do sistema estabelecido. De repente, numa atitude que pode ter parecido como de alguém que não tivesse dormido direito ou precisasse de umas férias, Jesus começou a falar coisas estranhas aos discípulos. Disse que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumo sacerdotes e dos mestres da lei e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia (Mt 16,21-27). Pedro (que não é necessariamente a pessoa de Pedro, mas uma representação dos discípulos) tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!” E Jesus respondeu duramente a Pedro porque. “Não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens”. E deu a sua máxima que é inversa a da lógica deste mundo: “Quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la e quem perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la”. Ele pegou a norma comum e virou-a ao contrário.
            De vez em quando ouvimos a noticia de que algum rico se suicidou ou morreu por overdose de alguma droga. Não seria tão estranha a noticia de que algum pobre desempregado e endividado cometeu suicídio. Mas ouvidos falar de ricos que, com tudo o que tinham, não conseguiram ser felizes e nem mesmo continuar vivendo. E não é difícil encontrar ricos que, com toda a riqueza que juntaram, vivem nervosos, desgostosos, amargurados. E ouvimos falar da filha rica que matou o pai e a mãe. E do homem rico que matou a namorada por ela ter resolvido deixá-lo. Por outro lado podemos ver gente simples e pobre transbordando alegria, ânimo e generosidade. É dando que se recebe, diz o ditado que recentemente um político interpretou mal. Vale a comparação: O que faz um rio estar vivo é o seu desaguar, levar suas águas para outro rio ou para o mar, numa constante doação e renovação.
            Do sistema vigente brota em abundância a banalidade e a futilidade. E a crença de que são mais felizes, como mostra os programas de auditório, as pessoas que têm mais dinheiro e beleza física, as que são modelos, atores e atrizes de novela. Dele também o consumismo irracional e insano, que mantém os hospitais lotados. Dizia um sábio religioso oriental chamado Dalai Lama que “as pessoas perdem a saúde para ganhar dinheiro. Depois perdem o dinheiro tentando recuperar a saúde. Vivem como se nunca fossem morrer e morrem sem terem vivido”.
            Não é difícil encontrar gente financeiramente privilegiada que passa a vida nervosa, aborrecida, sempre preocupada com seus investimentos financeiros, dia e noite fazendo contas, trabalhando sem parar para descansar, sem desfrutar sequer do conforto de sua casa. Vive pobre para morrer rica e deixa a herança para gerar brigas entre os filhos.
            A comunicação decorrente do sistema estabelecido faz parecer que a felicidade vem da riqueza material. Leva muitos a jogar na loteria e bem poucos ganharem um prêmio que é sempre alto, num esquema que concentra renda em vez de distribuir renda. Ou traz grandes fortunas aos que se destacam no esporte ou nas modas. Assim, um jovem bem pobre, que joga futebol na rua, tendo talento como poucos, atinge rapidamente os grandes clubes. Sem um suporte psicológico e nem mesmo ético, passa ao mundo das riquezas. Casa-se com uma modelo famosa, de modo a parecer que não quer dividir sua fortuna com uma mulher pobre. O casamento dura pouco. Casa-se com outra modelo famosa e mais outra. A esposa é apenas a oficial. Tem várias amantes ou contrata prostitutas de luxo. Mas seu desejo de prazer é insaciável. Nunca está satisfeito. Tenta se relacionar sexualmente com várias ao mesmo tempo. Não é suficiente. Tenta com homem. Experimenta drogas. Continua sempre vazio, insatisfeito. Torna-se mais violento. É mostrado pela traiçoeira mídia envolvida em escândalos. Diz a algum jornalista que está solitário, não tem amigos, e que as pessoas só se aproximam dele por interesse financeiro. Em certos casos, perde toda a sua fortuna, passando-a para as mãos dos ricos. Que aventura infeliz! Volta à miséria sem ter partilhado nada com os pobres.           
        O caminho da felicidade não é esse, mas aquele ensinado pela oração: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ofensa que eu leve o perdão. Onde houver discórdia que eu leve a união. Onde houver tristeza que eu leve a alegria. Onde houver desespero que eu leve a esperança (...). Pois é dando que se recebe (...). E é morrendo que se vive (...)”.

Sermão para o 23° Domingo Comum, Ano A

Postado em 26/7/2011 em 05:36 PM
Sermão para o 23° Domingo Comum, Ano A                 
   (Ez. 33,7-9 / Rm. 13,8-10 / Mt. 18,15-20)
 
 
      A liturgia da palavra de hoje trata do tema da correção fraterna. A primeira leitura, de Ezequiel, mostra Deus estabelecendo o profeta como vigia. O povo de Israel era visto no Antigo Testamento como povo régio, nação santa, raça escolhida. Mas entre ele estariam os ímpios retardando a caminhada para esse ideal. O que fazer? Se o ímpio morrer, que seja por própria culpa e não seja por falta da advertência do profeta.
      No Novo Testamento, com o ideal de salvação sendo ampliado pela fé no Deus Trindade, com o ensinamento de Jesus Cristo, com a universalização da pregação, o povo escolhido eram as comunidades cristãs, entre elas as fundadas pelo apóstolo Paulo. Na Carta aos Romanos ele transmite o princípio da vivência do amor como cumprimento perfeito da Lei.
      Conforme o Evangelho de hoje, se duas pessoas estiverem reunidas em nome de Jesus Cristo Ele já estará aí, no meio deles. Pela presença de Jesus Ressuscitado eles estarão em comum com todos os outros cristãos e terão a chave para ligar e desligar a terra ao céu, dada por Jesus não somente a Pedro, mas a todos os seus discípulos. Mas o que fazer se o irmão estiver pecando (“contra ti” diz Mt. 18,45)?
      O trecho de Mateus usado para a celebração de hoje, apresenta Jesus falando a seus discípulos. Serão só os doze? Sabe-se que Jesus teve mais discípulos (e discípulas) além dos doze. Mas como no versículo 17 aparece a palavra Igreja, supõe-se que o texto surgiu de um problema posterior a ressurreição de Jesus, nas comunidades mais estabelecidas. O paralelo em Lucas diz apenas: “Se teu irmão pecar, repreende-o e se ele se arrepender, perdoa-lhe” (Lc. 17,3). Na continuação, em Mateus, Jesus diz que se deve perdoar setenta vezes sete vezes. Em Lucas Jesus diz que se deve perdoar sete vezes por dia se o irmão estiver arrependido. Mas aí parece que se trata menos de um problema interno e mais da relação do cristão com a sociedade, a exemplo do que fez Jesus com os considerados impuros em sua época.
      Voltando à pergunta, se o irmão estiver pecando deve-se falar com ele primeiro em particular, a sós, com caridade, tentando ganhá-lo. Só depois, se necessário, com mais uma ou duas pessoas ou até com a comunidade toda. Se, contudo, ele não der ouvido não seja ele reconhecido como membro da comunidade cristã.

            Na idade média papas e bispos utilizaram esse texto para justificar a excomunhão. Mas a excomunhão era a exclusão não só da Igreja como também da sociedade. E muitas vezes era feita de modo arbitrário e injusto. Hoje não vamos defender esse método medieval equivocado. Mas também não vamos ser indiferentes a atitude de gente que se diz cristã e contradiz os ensinamentos de Jesus Cristo. Isso destrói a necessária eclesialidade. Nenhuma pessoa é cristã sozinha. Todos somos membros de uma única comunidade. E quem insiste em viver no pecado não a representa.

 

Sermão para o 26º Domingo Comum, Ano A

Postado em 26/7/2011 em 05:33 PM
Sermão para o 26° Domingo Comum, Ano A
 
(Ez 18, 25-28 / Fl 2, 1-11 / Sl 24 (25) / Mt 21, 28-32)
 
 
Desta vez, no Evangelho de hoje, Jesus não está falando aos seus discípulos e nem à multidão de pobres. Ele está já em Jerusalém, enfrentando o duro processo de oposição a ele. Ele fala com os sumos sacerdotes (v. 31). Quem eram? O sumo sacerdote era autoridade máxima, depois do procurador romano (no caso, Pilatos, na Judéia e Samaria e Herodes Antipas, na Galiléia). Por ser a sociedade judaica tão religiosa e ter a Bíblia (Antigo Testamento) como constituição, o sumo sacerdócio era a autoridade mais respeitada pelo povo. Houve até épocas em que os judeus não tiveram reis e nem governadores ou prefeitos, mas apenas sumo sacerdotes. Por isso o sumo sacerdócio, na época de Jesus, era cargo de confiança de Roma e o sumo sacerdote não era escolhido pelos judeus. Mas tinha sempre a fama de ser muito religioso. Os anciãos do povo eram senhores de famílias ricas e membros do sinédrio. Portanto Jesus está falando com as maiores autoridades constituídas de Jerusalém. Para se defender das acusações de transgredir as leis religiosas judaicas, das críticas por andar com pecadores, das acusações de ser impuro, ele faz a seguinte comparação: Um pai pediu a um de seus filhos que fosse ajudá-lo na vinha. Ele disse que iria, mas não foi. Pediu a outro e o outro disse que não iria, mas foi. Qual dos dois fez a vontade desse pai? Certamente aquele que disse que não iria, mas foi. É claro que melhor ainda seria dizer sim e ir mesmo. Mas entre um e outro é preferível o segundo. Poderíamos hoje acrescentar a seguinte comparação: Um homem diz que é cristão, católico, é muito religioso, devoto dos santos, participante dos ofícios religiosos, rezas do terço, etc. Mas sem razão alguma, por omissão, se nega a ajudar alguém que precisa dele. Outro se diz ateu, diz que não gosta de Igreja e não segue religião alguma. Mas ajuda prontamente e gratuitamente o próximo que precisa dele. Qual dos dois agrada mais a Deus?
            Jesus diz aos sumo sacerdotes e anciãos do povo (ambos tão religiosos e acima de qualquer suspeita): “As prostitutas precedem vocês no Reino de Deus”.
            Há uma história recente em que uma mulher, de uma pequena cidade, que era muito religiosa, ia à missa todos os dias, andava sempre com véu na cabeça e terço nas mãos. Um dia achou uma carteira e não a devolveu. Disse que “achado não é roubado” e não se importou com o sofrimento do outro. Se fosse uma prostituta que tivesse achado a carteira talvez a tivesse devolvido. A “santa” não devolveu.
            Se uma prostituta fizer o mal não será de se estranhar, pois ela já tem mesmo fama de ser ruim. Dizem até que ela não vale nada. E muitas vezes homens que dizem que ela não vale nada, pagam para fazer programa com ela.
            O que Jesus fez foi desmascarar aqueles que tinham fama de santidade, mas estavam longe do Reino de Deus. E tratar os considerados impuros com a mesma consideração normalmente dispensada aos “puros” e dignos. Assim ele alterava um esquema injusto e opressor.

Sermão para o 27° Domingo Comum, Ano A

Postado em 26/7/2011 em 05:32 PM
Sermão para o 27º Domingo Comum, Ano A
(Is. 5,1-7 / Fl. 4, 6-9 / Mt. 21, 33-43)
 
 
 
      Na primeira leitura de hoje, do profeta Isaías, o autor fala da vinha de um amigo seu. Ele dedicou a essa vinha todos os cuidados, fez tudo o que podia fazer por ela. No entanto ela só produziu uvas selvagens. Pede então aos habitantes de Jerusalém e cidadãos de Judá que façam um julgamento. E depois de dizer como essa vinha será abandonada e destruída, ele compara a vinha com a casa de Israel e do povo de Judá. Deus escolheu esse povo, muito o amou, e esperava deles frutos de justiça e obras de bondade. No entanto ele produziu uvas azedas, frutos ruins: opressões, injustiças, miséria, fome, doenças, idolatria. Isaías explica assim os motivos da decadência de Judá e Israel sobre o qual se perguntava: se é o povo escolhido por Deus, porque então foi derrotado?
      O Evangelho de hoje apresenta Jesus contando uma parábola que tem semelhanças com a estória de Isaías. O proprietário de uma vinha dedicou a ela todos os cuidados. Fez nela os investimentos necessários. Depois a arrendou a vinhateiros e viajou para o estrangeiro. De lá enviou empregados para receber os frutos. Os vinhateiros, porém, como resposta aos enviados do dono da vinha, agarraram, espancaram, mataram, apedrejaram. O proprietário mandou outros empregados em maior número do que os primeiros. Mas eles o trataram da mesma forma. Finalmente o proprietário mandou o próprio filho. Mas dizendo “este é o herdeiro” os vinhateiros o mataram para tomar posse da herança.
      Encontrei duas versões da parábola, as duas válidas, mas cada uma em seu contexto e em relação à sua finalidade específica.
      A primeira é mais original, mais relacionada ao contexto sócio econômico palestinense e, segundo ela, a parábola contada por Jesus não foi como está nos Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas, onde a parábola seria uma adaptação posterior alegorizada. A situação econômica injusta, absurda, de um estado opressor facilitava para que os pequenos proprietários de terra fossem obrigados a vender a terra a preço baixo para os ricos proprietários, latifundiários, que organizavam vinhas, iam morar na cidade, onde viviam no “bem-bom” e só mandavam empregados para buscar os frutos resultantes do trabalho dos vinhateiros explorados. A partir desse entendimento chamaríamos de perverso o proprietário e não os vinhateiros. Os vinhateiros matam o filho do proprietário, o herdeiro, para acabar com o modelo econômico em vigor e voltar ao esquema antigo, acabar com a exploração, os impostos, e deixar a terra pertencer a quem nela trabalha. O objetivo de Jesus ao contar a parábola teria sido questionar o senso comum em relação à economia vigente, mostrando as contradições e os conflitos existentes por causa de um modelo econômico que não traz o bem nem para os empregados, nem para o “proprietário” que acaba tendo o filho morto por culpa de sua ambição.
      Mas vamos aqui utilizar mais a outra versão, mais própria dos relatos dos Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas. Eles colocam Jesus no final de sua caminhada, já em Jerusalém, enfrentando a oposição das autoridades políticas e religiosas de então.
      O Evangelho de marcos, no trecho correspondente, não especifica os personagens a quem e com quem Jesus fala. Mas no capítulo anterior havia citado os chefes dos sacerdotes, escribas e anciãos do povo. Lucas diz que Jesus contou a parábola ao povo e apresenta os escribas e chefes dos sacerdotes reagindo a fala de Jesus. O Evangelho de Mateus diz que Jesus contou a parábola aos anciãos do povo e aos sumos sacerdotes.
      Dentre as diferenças de um Evangelho para o outro, Mateus faz Jesus perguntar aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos do povo o que fará o dono da vinha com os vinhateiros, assemelhando o seu relato com o Isaías, que pede ao povo que julgue. E há também semelhanças. Mateus, Marcos e Lucas citam as palavras do Salmo 118, 22: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. E dizem que os escribas e chefes dos sacerdotes (em Lucas), chefes dos sacerdotes, escribas e anciãos (em Marcos), chefes dos sacerdotes e anciãos do povo (em Mateus) perceberam que Jesus se referia a eles. Em Mateus Jesus diz a esses homens: “O Reino de Deus será tirado de vocês”. Em Marcos Jesus não diz isso, só dá a entender. Em Lucas, sem que Jesus diga diretamente, eles respondem “Que isso não aconteça!” E Jesus, em Lucas, acrescenta: “Aquele que cair sobre essa pedra vai se quebrar todo e aquele sobre quem ela cair, ela o esmagará”.
      No contexto dessa parábola, que é uma criação do evangelista após a morte e ressurreição de Jesus, podemos dizer que a vinha é o país de Israel, o dono da vinha é Deus. Há quem diga que o “viajou para o estrangeiro” seja uma referência ao exílio da Babilônia. Os empregados enviados pelo dono da vinha são os profetas (que sofreram rejeição). O filho do dono é Jesus, que foi a Jerusalém para cobrar os frutos do “Reino”. Os que matam os enviados e o filho do dono da vinha são os chefes políticos e religiosos. Não querem dividir a herança. Querem manter seus privilégios e deixar muitos à margem.
      Poderíamos olhar o mundo inteiro, mas especialmente o nosso país, como uma grande vinha. Diz uma canção que ele é “um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”. No entanto, por causa de políticas erradas, essa vinha produz frutos selvagens, ruins. Um deles eu pude ver ontem, véspera deste dia de eleições. Ao cair uma forte chuva eu olhei pela janela. Vi a enxurrada descendo e fiquei indignado porque descia mais papel do que água. E ainda está passando uma novela em que os personagens principais são donos de uma grande fábrica de papel, falam que o papel é um bem, que não fazem mal algum e que as terras são reflorestadas. Muitas terras onde se plantou eucaliptos, esgotadas, tornaram-se deserto. E isso para, em fábricas muito poluentes, produzir papel que é usado para quê? A maior parte para o desperdício! Alunos nas escolas usam papel para fazer aviãozinho, para amassar folhas e jogar nos colegas. E quando a gente vai votar vem um cabo eleitoral em cada metro quadrado, entrega a cada um, não um panfleto, mas dez. Porque dez panfletos se vou votar uma vez só? É para acabar logo! Mas não acaba logo porque o candidato tem patrocinadores para o seu desperdício. Então os jovens jogam montes de “santinhos” na cara de cada um que passa. A gente nem vê o chão, que fica forrado de papeis. E eles nem servirão para reciclagem porque vem a chuva e leva os papéis para entupir os bueiros. É a oportunidade de muita gente fazer um “bico”, ganhar um trocado. Passadas as eleições, os comitês serão fechados, aparecerá melhor o desempregado como um dos frutos ruins de uma vinha que está nas mãos dos que não usam a política para promover o bem comum. Mas que deve ser tirada deles e entregue a um povo que produza bons frutos.

Sermão para o 29º Domingo Comum, Ano A

Postado em 26/7/2011 em 05:31 PM
Sermão para o 29° Domingo Comum, Ano A
(Is. 45,1. 4-6 / Mt. 22,15-21)
 
 
      O capítulo 45 do livro de Isaías (o segundo Isaías) fala de Ciro, rei da Pérsia, que conquistou a Babilônia, onde estavam os judeus exilados e permitiu que estes voltassem a Jerusalém. Isaías chama o rei Ciro de “ungido de Javé” e “servo de Javé”, títulos que até então só haviam sido dados a reis de Israel. Agora, na visão do profeta Isaías Segundo, um pagão era escolhido por Deus para dobrar o orgulho dos opressores, libertar os cativos e restabelecer a justiça. A visão de Isaías foi limitada. Na verdade Ciro não foi tão bonzinho assim, pois ele permitiu que os judeus voltassem à sua terra, mas exigiu o pagamento de tributos.
      O v.5 do capítulo 45 de Isaías tem muito a ver com o Evangelho de hoje. Diz ele: “Eu sou o Senhor, não existe outro: fora de mim não há Deus”. E o v.6 diz: “Todos saibam, do oriente ao ocidente, que além de mim não existe nenhum outro deus”. Os judeus mais fiéis à tradição mantiveram a idéia de um estado teocrático, governado pelo próprio Deus, orientados por um sumo sacerdote. Por volta do ano 400 antes de Cristo a Judéia chegou a ter moeda própria. Mais tarde os Macabeus lideraram uma guerra para impedir que um deus estrangeiro fosse lá adorado e se destruísse as suas tradições religiosas.
      No Evangelho de hoje os fariseus mandaram seus discípulos se unirem a seus inimigos herodianos para confundir Jesus. Estes perguntam a Jesus se deviam pagar imposto a César ou não. Pergunta embaraçosa. Se ele respondesse sim estaria traindo os judeus que, em nome de sua história e tradição, queriam autonomia política e religiosa. Se dissesse não seria visto como subversivo e agitador político e os herodianos tratariam de denunciá-lo para que fosse preso. Uma armadilha. Jesus pediu que lhe mostrassem a moeda do imposto. Nela estava a figura de Tibério César e a inscrição “Divino Pontífice Máximo”. E Jesus diz simplesmente: “Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Também se diz que a melhor tradução seja “Devolvei à César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. O que é de César e o que é de Deus? De César é essa porcaria dessa moeda. O povo é de Deus. Israel estava se descuidando da consciência de ser povo de Deus e se deixando instrumentalizar por um rei, um imperador que fazia tudo para ser adorado como Deus. E os chefes judaicos que faziam oposição a Jesus estavam acomodados a essa situação. Para eles era mais interessante manter as coisas como estavam deixando o povo na miséria para, assim, manter os seus privilégios. A imagem do imperador na moeda, com o título de divino, inclusive, era uma contradição ao primeiro mandamento da lei judaica. Está em Ex. 20,4: “Não façam ídolos” e em Dt. 6,4: “Javé é o único Deus”.
      Depois de Jesus, líderes do Cristianismo no primeiro século, como o apóstolo Paulo, parecem ter amenizado a crítica de Jesus para adaptar a mensagem do Evangelho a novos contextos. Diz a carta aos romanos em 13,1-3: “Todo homem se submeta às autoridades constituídas, pois não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus. De modo que aquele que se revolta contra a autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus. Os que governam incutem medo quando se pratica o mal, não quando se faz o bem”. E diz ainda em 13,6-7: “É também por isso que pagais impostos, pois os que governam são seguidores de Deus. Dai a cada um o que lhe é devido: o imposto a quem é devido; a taxa a quem é devida; a reverência a quem é devida; a honra a quem é devida”. (Discurso semelhante é o que está em 1° Pedro 2,13-15). Para Paulo o meio de transformar o sistema (no contexto das pessoas a quem ele pregou) é uma conduta alternativa às futilidades deste mundo. Dá para se notar uma diferença no teor crítico entre o discurso de Jesus que aparece nos Evangelhos Canônicos e o de Paulo em suas cartas.
      Mas, ainda que pareça, Paulo não faz um discurso que agradaria ao imperador ou às autoridades imperiais. Esses iriam gostar dessa ordem de obedecer ao governo, mas não iriam gostar de ouvir que os poderes que existem são ordenados por Deus, entendendo que esse deus é o de Jesus Cristo. Se a autoridade máxima é um deus próprio de uma comunidade particular, a dos cristãos, e não o próprio imperador (ou uma divindade que ele apresente ou reconheça), esse deus que num dia diz que se deve obedecer ao governo pode em outro ordenar que se desobedeça. De fato, se Paulo diz que o imperador é instrumento de Deus, o Apocalipse diz que César Nero (o que tem o número 666) é o próprio demônio. E mesmo dificilmente um imperador como Tibério ou Nero se sentiria elogiado ao ouvir que era instrumento de um deus que é Jesus Cristo, o pobre nazareno que Pilatos mandou crucificar.
      Justino, líder cristão de Roma (um dos chamados “santos padres”), desde sua conversão no ano 132 até ser decapitado no ano 165, que muito insistiu em defender o fim da perseguição aos cristãos, em seu livro “Apologia II” dirige-se a Antonio Pio, Marco Aurélio e ao senado dizendo que “nos cristãos o imperador teria os melhores colaboradores, pois aprendem a dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus e não esperam por um reino deste mundo”. Num comentário a essa citação que está no volume III da Coleção Patrística, Editora Paulus, 1995, 2ª Edição, o autor diz que assim “Justino apresenta a religião cristã como estrutura que ajuda a manter a ordem social e nisso faz o cristianismo perder sua força questionadora das estruturas dominantes e opressoras”.
      Mas ainda que a força questionadora do cristianismo tenha sido amenizada por líderes cristãos dos séculos I e II, sobretudo na tentativa de fazer cessar a dura perseguição, o cristianismo nunca se submeteu a ideologia dos imperadores que queriam não só que se desse a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, mas queriam ser reconhecidos como deuses. Muitos dos primeiros cristãos morreram por não aceitar isso e por não terem os costumes que a aristocracia romana exaltava e apresentava como sendo os maiores valores. Para além da religião, os cristãos se constituíam numa força política transformadora ao sugerir a igualdade numa sociedade de política aristocrática.
      Tal caráter do cristianismo se perdeu em grande parte quando, após a oficialização do cristianismo, no século IV, muitos dos líderes dos cristãos foram agraciados com títulos, honras e riquezas, tornando-se semelhantes aos chefes políticos e fazendo o cristianismo perder o seu caráter democrático, participativo, ministerial, concentrando neles as decisões e a representatividade.
      Lembrando o Evangelho que diz “a Deus o que é de Deus”, ou seja, “o povo é de Deus”, podemos hoje criticar atitudes da maioria da população que se diz povo de Deus, mas adora o dinheiro, sonha em ganhar na loteria para viver à semelhança daqueles que, por suas propriedades, beleza física e fama, a televisão apresenta como as mais felizes quando verdadeiramente a felicidade vem não do acúmulo, mas sim da partilha.
 

Sermão para o 5º Domingo Comum, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 05:30 PM
Sermão para o 5º Domingo Comum, Ano B.
 
 
 A liturgia da Palavra do 5º domingo do tempo comum, ano B, nos coloca diante do problema do sofrimento e da doença e da solução que é a cura, mas é importante ir além da cura ou entendê-la num sentido bem amplo.
 O personagem Jó vive num intenso sofrimento. De dia anseia pela noite e de noite pergunta quando chegará o dia. E o alívio não vem. Por quê?
 Para entender um trecho como o que está em Jó 7, 1-7 é necessário entender um pouco do livro todo. O livro Jó foi produzido em duas partes, a que está em prosa e a que está em versos. A primeira parte, em prosa, diz que o sofrimento vem de Deus. A segunda parte, escrita mais de 100 anos depois da primeira, lá pelo ano 400 a. C., diz que o sofrimento não vem de Deus. A primeira parte mostra um Jó paciente e a segunda parte mostra um Jó impaciente, brigando com Deus. Três amigos de Jó explicam o sofrimento da doença de Jó. “Sofrimento na pele do outro é refresco”, diz o ditado. No final da narrativa, Deus não se volta contra Jó por causa de suas contestações.
 No tempo de Jesus Cristo também havia homens, autoridades religiosas, que “explicavam” o sofrimento. Jesus vai além do discurso e realiza curas. No texto de Mc 1, 29-39 Jesus começa na sinagoga, mas depois continua seu ministério na casa (da sogra de Pedro) e em outros lugares públicos não oficiais de ensino.
 Os três versículos sobre a cura da sogra de Pedro merecem destaque e até dariam um texto à parte. Ela estava doente, acamada. Por que ela estava doente? O texto não diz, mas não é demais perguntar. Sabe-se que muitas doenças são somáticas, psicológicas, surgidas por não se conseguir dar um sentido para a vida ou construir uma interpretação da realidade social. As lideranças das CEBs falam de um engajamento que chamam de “caminhada”. A sogra de Pedro encontrou em Jesus um caminho. Assumiu um ministério (ou diaconia). O que evidencia isso é o gesto de Jesus de pegar em sua mão e levantá-la. Parece ser um gesto ritual e a afirmação “ela começou a servi-los” pode ser mais do que um serviço momentâneo.
 A seguir Jesus curou muitos doentes e expulsou muitos maus espíritos (doenças desconhecidas na época) que sacudiam os doentes e diziam a Jesus: “Eu sei quem tu és”. E Jesus não queria que dissessem quem ele era. Por quê? O interessante é que o Evangelho de Marcos foi escrito para mostrar quem é Jesus. Mas quem é que estava à altura de entender a identidade de Jesus? “Todos estão te procurando!” dizem os discípulos. “Então vamos embora” responde Jesus. Ele não quis criar dependência, não quis ser rei da maneira conhecida.
 Como Jesus também nós devemos trabalhar a cura. A prática da alimentação alternativa e medicina alternativa é um dos meios. Mas além de tratar da cura do indivíduo devemos ter uma visão de conjunto. O planeta Terra está doente por causa do descuido para com a natureza. E quando o planeta adoece também os seus habitantes tendem a adoecer.
 Mudemos a cultura do descartável e do desperdício e ensinemos isso às crianças. Grande parte do que aparece nas listas de material escolar vai ser desperdiçado. A maioria das professoras já se acostumou com isso e pede aos pais muitos materiais sem se importar depois em como ele será gasto.
 Certa vez uma editora fez a doação de uma grande quantidade de panfletos com convites para um evento festivo de uma diocese. Como não houve tempo suficiente para a distribuição, mais da metade sobrou e foi para o lixo. Alguém justificou dizendo: “Tudo bem, foi doado mesmo!” Ora, parece não ter tido custo nenhum. Mas teve para todos o custo de uma árvore a mais que foi destruída à toa.
 Nas comunidades onde eu tenho celebrado, movimentos populares têm deixado em muitas ocasiões, panfletos para ser distribuídos, o que é bom. Mas onde o público não alcança cem pessoas, deixam trezentos panfletos e dois terços vão para o lixo.
 Esses pequenos exemplos se somam a grandes exemplos de destruição da natureza que fazem parte de uma cultura que deve ser mudada pela consciência do cuidado, da preservação, da partilha, da socialização dos bens. Essa mudança começou a acontecer e, embora lenta, está se intensificando.
 Peçamos ajuda a Deus para agirmos contra todo o tipo de doença, especialmente aquela que leva ao consumismo, ao desperdício, ao acúmulo de bens não colocados a serviço dos outros.

Sermão para o 6º Domingo Comum, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 05:29 PM

 

Sermão para o 6º Domingo Comum, Ano B
(Lv 13, 1-2, 44-46 / 1 Cor 10, 31-11, 1 / Mc 1, 40-45)
 
 
            Celebramos no dia 11 de fevereiro o dia mundial do enfermo. E vimos nos Evangelhos das celebrações próximas a essa data Jesus curando doentes. E lembramos a recomendação de Jesus aos discípulos para que em todas as cidades em que entrassem curassem os doentes que nelas houvesse (Cf. Mt 10, 8). De fato, ainda hoje a saúde é a principal preocupação do povo e geralmente o primeiro assunto das conversas. Por isso muitos dizem “Deus dando saúde, o resto a gente faz” ou “saúde é o que interessa, o resto não tem pressa”.
            No Evangelho de hoje vemos Jesus curando mais um doente, no caso, um leproso. Mas para realizar essa cura ele tem que, de certo modo, contradizer o que está escrito em Lv 13, 1-2. 44-46, que é a primeira leitura de hoje. Esse trecho do livro bíblico chamado Levítico diz que se um homem estivesse leproso deveria ser declarado impuro pelo sacerdote e, a partir de então, andar com as vestes rasgadas, os cabelos em desordem e a barba coberta. Deveria andar gritando “sou impuro” e viver isolado. Chegaram os leprosos à época de Jesus (e muito além dela) como segregados, que viviam numa situação pavorosa. Ver um grupo de leprosos era como atualmente ver uma cena de um filme de terror. O texto de hoje diz que Jesus teve compaixão. Em outras passagens se diz que Jesus teve misericórdia. Não diz que ele teve zelo para com a lei ou a tradição. De certo modo teve, pois ele viveu de modo consciente e engajado no contexto de busca da autonomia judaica, frente à dominação estrangeira. Mas ele não se apegou à letra da lei como faziam os fariseus. Se assim fosse ele não teria se aproximado do leproso, o que era proibido. O texto mostra Jesus se aproximando do leproso e tocando nele, contrariando assim as leis da época, depois de o leproso, ao ver Jesus, ter contrariado primeiramente essa lei. E aqui podemos lembrar da distinção entre moral e ética. Moral é o conjunto de regras de uma sociedade. Por isso se pode falar em “moral burguesa” e até em “moral dos bandidos”. Moral é o conjunto dos costumes que são aceitos tradicionalmente em uma sociedade. O que não é considerado aceitável é chamado imoral. Andar nu publicamente é imoral e também ilegal e é punido com a prisão em nossa sociedade (antes de vir os atenuantes de cada caso). A pornografia não é punida do mesmo modo, mas é considerada imoral. A moral visa regrar e regulamentar o agir. Já a ética é uma reflexão sobre o agir. Para ser moral é necessário conhecer as regras morais e cumpri-las. Já para ser ético é necessário desenvolver a reflexão crítica sobre o agir. A moral diz que não se deve roubar. A ética diz que, dependendo do caso, pode não ser errado roubar, por exemplo, no caso de se roubar o que está sobrando de um rico para dar a alguém que está morrendo de fome. A moral diz que não se deve mentir. A ética diz que pode não ser errado mentir, por exemplo, se for para salvar a vida de um inocente. Jesus foi muito mais um homem ético do que um homem da moral vigente.
            O leproso diz a Jesus: “se queres tens o poder de curar-me”. E Jesus responde “eu quero”. Por que essa referência do Evangelho ao querer? As autoridades religiosas oficiais não queriam, na verdade, que o leproso fosse curado. Para os que seguiam a ideologia religiosa dominante na época a doença, a deformidade física, e mesmo a pobreza era uma punição divina contra algum pecado individual ou da família. Isso tem semelhança com o que hoje chamamos “idéia de retribuição”, e que se verifica nas igrejas neopentecostais, nas quais se considera a riqueza como benção de Deus (quando conquistada com Jesus, dizem eles) e a pobreza e a doença como sendo a falta dessa benção. É também a chamada “teologia da prosperidade”. Dizem que quem dá o dízimo corretamente recebe a retribuição de Deus, é abençoado e prospera sempre mais.
            É importante considerar que a cura de Jesus, mais do que a eliminação de um sofrimento no nível individual, é um elemento de mudança social porque tem o objetivo de integrar na sociedade o que está excluído, fazendo-o igual a todos os outros em direitos e dignidade.
            Examinemos ainda mais alguns detalhes do Evangelho de hoje. Se o leproso diz a Jesus “tens o poder de curar-me”, em outras passagens Jesus vai dizer “tua fé te salvou” ou “quem crê fará as obras que eu faço”. Em outros relatos de cura também se diz que Jesus ficou admirado com a fé da pessoa curada. Lembro-me de uma canção sertaneja que tocava no rádio quando eu era criança. Dizia que um menino paralítico reclamou com sua mãe e ela lhe disse para rezar pedindo a Jesus que viesse lhe curar. Num dia em que ele estava sozinho em casa, chegou um ladrão barbudo. Ele disse ao ladrão que sabia de sua vinda, pois sua mãe lhe falou para rezar que Jesus viria. Então o homem, comovido, lhe tocou e ele saiu andando sem saber que aquele foi o milagre de um ladrão. Não só Jesus tem o poder de curar, como diz o leproso, mas cada pessoa tem o poder de se curar. Mas se cada um tem o poder de se curar, também tem o poder de se adoentar. Pode atrair doenças para si ou paralisias. Existem as chamadas doenças somáticas ou histéricas. Numa selva de pedra massificante, como esta em que estamos, a mais comum delas é a depressão.
            Outro detalhe do Evangelho de hoje é Jesus pedir para o leproso ir se apresentar ao sacerdote. O Levítico diz para ir se apresentar ao sacerdote quando se estivesse leproso. Agora Jesus diz para se apresentar ao sacerdote já sem a lepra. Há também um ritual para o leproso curado, que está descrito no capítulo 14 do Levítico. Jesus diz para se apresentar ao sacerdote “como prova para eles”. E pede para não divulgar o fato. A divulgação do fato da cura, como aconteceu, trouxe a perseguição que impedia Jesus de entrar publicamente numa cidade.
            Na segunda leitura de hoje, da primeira Epístola aos Coríntios, Paulo afirma mais uma vez sua não distinção entre judeus e gregos.
            Saibamos nós, no mundo de hoje, agir superando preconceitos, barreiras, exclusões. Pois como dizia Irineu de Lion, no século II, “a glória de Deus é o homem vivo”.
 

Sermão para o 11º Domingo Comum, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 05:26 PM
Sermão para o 11º Domingo Comum, Ano B
 
                             
 
          Em certa ocasião o rei teve um sonho. E esse sonho o deixou perturbado a ponto de ele perder o sono. Naquela época o sonho era tido comumente como uma mensagem divina. Convocou ele então todos os adivinhos, magos e encantadores. “Conte-nos o sonho e nós daremos a interpretação”, disseram eles depois das usuais reverências. Nada disso! Vocês não são adivinhos? Não têm poderes sobrenaturais? Então vão ter que adivinhar o que eu sonhei e depois interpretar. E tem mais: todos os que não conseguirem contar o sonho serão mortos. Morreram todos, diz a Bíblia, exceto um daqueles quatro jovens hebreus, chamado Daniel. Ele contou o sonho ao rei e o interpretou. Nabucodonosor deu-lhe glórias, presentes e um cargo de chefia. Algum tempo depois o rei chamou Daniel para interpretar outro sonho que teve. Ao ouvir o sonho Daniel ficou tão perturbado que o rei procurou acalmá-lo dizendo “não te perturbe o sonho e nem a sua interpretação”. Daniel respondeu: “esse sonho, ó rei, não é para ti mas para os que te odeiam e a sua interpretação é para os teus adversários”. O rei havia sonhado que tinha uma grande árvore no centro da terra cheia de frutas e as aves vinham fazer ninho em seus galhos. Um anjo tirou um ramo da árvore e plantou-o sobre uma montanha. Então a árvore foi secando. Caíram as folhas, os frutos, os galhos. Só sobrou um toco da árvore e as raízes. O ramo que foi plantado tornou-se uma grande árvore. Daniel explicou ao rei que a árvore que iria secar era ele. O toco que sobrou com as raízes significava que ela poderia se recuperar se ele “reparasse os seus pecados pela obras de justiça e as suas iniqüidades pela prática da misericórdia para com os pobres”.
     A descrição e interpretação da árvore que está em Ezequiel, e que é a primeira leitura de hoje é bem parecida com a de Daniel. Ezequiel diz que Deus “abaixa a árvore alta e eleva a árvore baixa”. Esse profeta exerceu sua atividade no exílio da Babilônia, 600 anos antes de Cristo, e procurou animar o seu povo anunciando a volta para a sua terra e a reconstrução de Jerusalém. E o livro de Ezequiel foi escrito nessa época. Já o livro de Daniel foi escrito bem depois, 160 anos antes de Cristo, na época da guerra dos Macabeus.
     O Evangelho de hoje usa o símbolo da árvore e também o da semente. O agricultor planta a semente, mas não é ele que faz a semente brotar e a planta crescer e se desenvolver até dar frutos. Sua função é semear. Assim é a evangelização. Na época dos primeiros cristãos, quando foi escrito esse evangelho, haviam os que desanimavam por causa da rejeição a Jesus Cristo, da lentidão em se instaurar o Reino de Jesus. Hoje também há muitos que reclamam porque é tão difícil evangelizar; tão poucos acolhem o Evangelho. A semente do mal sim, essa brota e frutifica logo e o que se ensina de mal se multiplica logo. A parábola da semente nos ensina a não ficar conferindo tanto os resultados do que fazemos. Nossa missão é semear. A segunda parábola do evangelho de hoje ensina que uma semente tão pequena como a de mostarda, que são os cristãos, produz uma árvore que é a maior das hortaliças e os pássaros vem fazer ninho em seus ramos. Os pássaros representam as outras pessoas, que aderem à comunhão que pregamos.
     Mas há uma outra interpretação. É de estudiosos da Bíblia que consideram a interpretação mais comum como sendo também válida dizendo que as parábolas que Jesus contou foram adaptadas pelos escritores dos Evangelhos canômicos a novas situações. Mas procuram uma interpretação mais original. Lembram que a árvore que aparece no Evangelho, o pé de mostarda, é apenas um arbusto, uma hortaliça, de modo que fica estranho equipará-la com as grandes árvores de Ezequiel e Daniel. A semente de mostarda, lembram eles, é uma pequenina semente que o vento leva e que nasce sem ser semeada. E depois que nasce é difícil se livrar dela. E os pássaros não são bem vindos na horta. Eles se parecem com os pobres que seguiam Jesus e aderiam a sua proposta. Assim é o Reino de Deus, no ensinamento de Jesus. É uma invasão de pobres que tomaram consciência de seu valor e ocupam lugar na sociedade, superando a exclusão. Ao perdoar os pecadores e curar os doentes Jesus chama-os para o convívio social com a consciência de serem iguais aos outros em dignidade.
     Bem podemos notar em nossa sociedade atual. Os ricos parecem preferir que os pobres sejam doentes, ignorantes, divididos e controlados. E distante deles. No meio deles só alguns pobres bem discretos e nada parecidos com a mostarda. Basta observar como a mídia ou a grande imprensa mostra os pobres. Quando mostra. Não é raro ver programas que exaltam astros e estrelas em salões onde só entra quem é bonito e se veste com roupas caras.
     Juntamente com essa desvalorização dos pobres vem uma tremenda exaltação ao dinheiro. E o dinheiro fica cada vez mais concentrado. E quem mais tem é quem menos investe. E em função de se aumentar os lucros sacrifica-se o ser humano e o meio ambiente.
     Somos chamados a construir uma nova cultura. Uma cultura da paz que é fruto da justiça.
 
 
 

Sermão para o 12º Domingo Comum, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 05:25 PM
Sermão para o 12º Dom do Tempo Comum, Ano B
 
            Há uma pequena história que não está na Bíblia, mas em outra fonte de sabedoria e que pode ser muito válida também para nós. Certa vez um discípulo perguntou a um sábio chamado Sidharta Gautama, que ficou conhecido como Buda: “Mestre, qual é a verdade sobre o céu e a terra?” Buda então respondeu com um exemplo e outra pergunta: “Se um homem for atingido por uma flecha envenenada, qual será sua maior necessidade?” “Que alguém lhe extraia o veneno e cure a ferida” respondeu o discípulo. E disse Buda: “Essa é a verdade sobre o céu e a terra”. Para ele, a verdade era algo bem concreto e bem próximo.
            O trecho do livro de Jó utilizado na liturgia da palavra deste 12º domingo do tempo comum, ano B, (Jó 38,1.8-11) apresenta Deus como o poderoso que domina os mares. Mas se lermos todo o livro veremos que Jó não se intimida com a grandiosidade de Deus. Ele briga com Deus, discute com Deus. E o tema central do livro de Jó não é o problema do mal, nem a doença, nem a paciência de Jó. É a relação com Deus. Jó discute essa relação. E no final não é condenado por esse Deus que acaba se apresentando democrático e solidário.
            O texto do Evangelho de hoje, Mc 4,35-41, que termina apresentando Jesus como o Deus a quem o vento e o mar obedecem, antes apresenta Jesus dormindo na barca que está no meio de terrível tempestade. Como pode Jesus dormir numa situação dessas? “Mestre, tu não te impostas que pereçamos?”
            O texto é simbólico e o mar é o símbolo de todos os males.
            Há entre nós quem já se sentiu no meio de uma tempestade e teve a sensação de que Deus estava ausente, como que dormindo e talvez até tenha dito “Deus, onde estás que não respondes?”
            Podemos talvez imaginar Jesus, acordado pelos discípulos, repreendendo-os: “Ah! Tudo eu? Porque não acalmam o mar vocês mesmos? Será que vocês não têm fé?” Aí está a democracia de Deus-Pai em Jesus Cristo. O poder de acalmar o vento e o mar é transferido para nós.
            Dizia o poeta: “O homem sonha monumentos, mas só ruínas semeia para a pousada dos ventos” ou “Quem semeia ventos colhe tempestade”. Mas para além da tempestade, em Jesus, comunitariamente, vencendo o medo, tendo fé, podemos acalmar o mar.

Sermão para o 14º Domingo Comum, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 05:22 PM
Sermão para o 14º Domingo Comum, Ano B
(Ez 2,25/ Sl 122/ Mc 6,1-6 / 2 Cor 12,7-10)
 
 
     O salmo que rezamos hoje, que é o salmo 122, fala do escárnio dos ricaços e do desprezo dos soberbos. Poderíamos falar dos “ricaços soberbos”. E dizer que eles desprezavam a mensagem dos profetas porque eram insensíveis aos sofrimentos da maioria e não se interessavam em mudanças já que a vida estava cômoda pra eles.
     Esse desprezo à palavra de Deus também podemos notá-lo na primeira leitura de hoje, de Ezequiel. Ela começa dizendo que entrou no profeta um espírito que o pôs em pé. Este estava caído no chão por ter visto a glória de Javé, conforme diz o capítulo 1, mas essa prostração coincide com a situação de seu povo que, entre os anos 593 e 571 a.C estava exilado na Babilônia, prostrado, entregue. Por isso, diz Deus ao profeta no versículo 3: “eles e seus pais se revoltaram contra mim até o dia de hoje”. Numa situação como essa a tendência é o povo ir abandonando seus princípios e tradições e adotando todos os costumes ruins dos dominadores. O profeta age contra isso em meio a muitas hostilidades. Deus chama os israelitas a quem envia Ezequiel de “filhos de cabeça dura e coração de pedra” e “bando de rebeldes” e diz que eles, escutando ou não, ficarão sabendo que houve entre eles um profeta. Assim, o que o profeta encontra é sobretudo muita rejeição.
     Pelo evangelho de hoje vemos que Jesus também sofreu muita rejeição. Por quê? Vejamos. Jesus foi (com seus discípulos) a Nazaré, a terra em que se tinha criado. No sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os que o viam e escutavam ficavam admirados com sua sabedoria e seus milagres. Mas essa admiração não os levou à fé e sim à rejeição. Ficaram até escandalizados. Diziam: “Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Seus irmãos não moram aqui conosco?” (v.3). Interessante que não aparece nesse evangelho o nome de José e Jesus é chamado carpinteiro e não filho do carpinteiro. E é chamado filho de Maria quando o costume era identificar a pessoa pelo pai. Alguns dirão que José poderia já ter morrido nessa ocasião. Vejamos os outros evangelhos canônicos. O paralelo é: Mc 6,1-6/Mt 13,53-58/ Lc 4,16-30/ Jo 4,43-45. Em Mateus, depois de dizer também que as pessoas que estavam na sinagoga ficaram admiradas, cita as mesmas pessoas, inclusive a mãe Maria, só com a diferença de, em vez de carpinteiro, dizer filho do carpinteiro. Depois diz, como em Marcos, que as pessoas ficaram escandalizadas. E diz que lá Jesus, por causa da falta de fé deles, não fez muitos milagres. Marcos diz que Jesus não fez nenhum milagre, mas apenas curou alguns doentes impondo-lhes as mãos. E aqui podemos dizer algo sobre esses milagres. Há uma distinção entre cura e milagre. O milagre parece ser algo mais extraordinário, mas o conceito de milagre não era o mesmo que se tem hoje de separação entre o natural e o sobrenatural. Eram sinais de que o novo reino estava acontecendo em Jesus. Em Lucas se chama Jesus de “filho de José” e não aparece outros nomes de familiares de Jesus. Mas em Lucas aparecem outros elementos porque o texto pego de Marcos foi unido à descrição do programa de Jesus, que lembra o profeta Isaías e onde Jesus diz que nele se cumpre a profecia de Isaías. E nesse texto de Lucas se diz que todos na sinagoga ficaram furiosos, expulsaram-no da cidade e até tentaram lançá-lo do precipício. O texto de João tem apenas três versículos. Como os outros, repete o dito “um profeta não é bem recebido em sua própria terra”. Nele não aparece o nome da cidade “Nazaré”, mas apenas da região “Galiléia” e diz que lá Jesus foi bem recebido porque tinham visto tudo o que Jesus havia feito em Jerusalém.
     Numa análise mais científica, procurando o Jesus histórico, há quem diga que não teria havido essa movimentação toda em Nazaré que, na época de Jesus, não tinha nem 300 habitantes e provavelmente não possuía uma sinagoga, já que nunca se encontrou nenhum indício de que lá houve uma sinagoga. Os evangelhos são construções literárias feitas com elementos e situações da época em que foram escritos mais do que da época da pregação do próprio Jesus.
     John Dominic Crossan analisa essas passagens em seu livro “Jesus uma biografia revolucionária” (Ed. Imago, 1995) nas páginas 39 a 43. Diz que os textos de Mateus e de Lucas são dependentes de Marcos. Diz que pouca diferença fazia chamar Jesus de carpinteiro ou filho do carpinteiro num mundo em que os filhos geralmente seguiam as profissões dos pais. E lembra o texto supostamente independente de João que diz em Jo 6,42: “Este não é Jesus, o filho de José cujo pai e mãe conhecemos? Como diz agora: ‘Eu desci do céu’?!”. E procura demonstrar que o carpinteiro pertencia a uma classe social bem desprestigiada.
     Voltemos à pergunta: Por que Jesus foi rejeitado? Porque era filho de Maria. Porque era filho de José. Porque era carpinteiro. Porque era de Nazaré. Ou digamos pelo negativo: Porque não era de Jerusalém. Porque não era da Judéia. Porque não era doutor da lei. Porque não era fariseu e nem filho de fariseu. Porque não era escriba. Não tinha um estudo reconhecido e não era de uma família de prestígio. Além do mais, diziam, “O Messias quando vier, ninguém saberá de onde ele vem” (Jo 7,27).
     Essa atitude preconceituosa é bem semelhante às de hoje em nossa sociedade. Em uma paróquia que tinha várias CEBs, em que se faziam celebrações dominicais sem padre (o padre ia uma vez ao mês) presididas por ministros leigos e leigas, um homem foi até uma delas e voltou revoltado dizendo que “quem estava celebrando era o seu Miguel, que nem estudo tem”. Esse seu Miguel era um homem muito sábio e era eloqüente, mas era um pedreiro, visto sempre andando a pé pelo bairro (imagine-se então se fosse uma mulher). Assim também a grande dificuldade em aceitar o Lula na política simplesmente por ele ser um metalúrgico e sem faculdade. Por mais que ele mostre sabedoria e conhecimentos continuam muitos a dizer que ele é analfabeto e que não tem capacidade para governar.
     Na segunda leitura, da 2ª carta de Paulo aos Coríntios, aparece uma questão semelhante. Paulo diz ter um “espinho na carne” que dificultava seu trabalho. Em outra passagem diz até que havia quem se envergonhasse dele. Não se consegue saber o que era esse espinho na carne, mas parece algo que prejudicava sua aparência ou, talvez, alguma doença que o enfraquecia. Três vezes ele pede a Deus que o livre desse problema e Deus responde: “Basta-te a minha graça. Pois é na fraqueza que a força se manifesta”.
     Assim também não sigamos os critérios deste mundo, como aqueles que são bem percebidos na maioria dos programas da televisão. Deus não escolhe pela aparência.
    

Sermão para o 15º Domingo Comum, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 05:20 PM
Sermão para o 15º Domingo Comum, Ano B
(Am 7,12-15/ Mc 6,7-13/ Ef 1,3-10)
 
 
 
     A liturgia da palavra de hoje nos diz algo sobre como deve ser o profeta e a profecia, o evangelizador e a evangelização.
     O profeta Amós viveu por volta do ano 760 antes de Cristo, no tempo de Jeroboão II, que reinou em Israel entre os anos 783 e 743 a.C. Já fazia uns 150 anos que o filho de Salomão, Roboão, com seu autoritarismo, com sua política desastrosa, havia provocado a divisão do reino (em 931 a.C). Jeroboão I aproveitara a fraqueza do reino para dividir o território, criando um novo reino, do qual se tornou rei. Assim, a terra do povo de Deus ficou dividida entre Reino de Judá (ou do sul) e Reino de Israel (ou do norte). Jeroboão I estabeleceu Betel (Betel significa, em hebraíco, casa de Deus, mas essa seria mais a casa do rei e de sua corte parasita) como capital e nela, além de seu palácio, construiu um santuário para assim evitar que a população do norte fosse para o templo de Jerusalém. No tempo do profeta Amós quem reinava era Jeroboão II. Amós era do sul, de Judá, mas foi profetizar em Israel, no norte. O chefe dos sacerdotes do santuário de Betel disse então a Amós: “Ô vidente! Vaza! Caia fora daqui! Você vem profetizar logo aqui onde fica o santuário do rei e a corte do reino?!” (estou adaptando o palavreado). Diz o v.12: “Sai e procura refúgio em Judá, onde possas ganhar teu pão e exercer a profecia”. Alguns preferem traduzir assim: “... onde possas ganhar teu pão com tua profecia”. Ele é confundido com os profetas oficiais, os profetas do rei, que profetizavam para ganhar dinheiro. Amós responde: “Não sou profeta e nem filho de profeta”. Quer dizer, ele não pertence a uma corporação profética mantida pelo Estado. E continua: “Sou pastor de gado e cultivo sicômoros (figo selvagem que servia para alimentar o gado)”. Ele tinha a sua profissão. Profetizava não em função de si, como meio de vida, mas pelo bem do povo. E não sendo profeta oficial do rei, podia falar o que quisesse, ou seja, o que Deus mandasse.
     É nesse estilo que Jesus orienta os discípulos que enviou pra a missão, conforme o evangelho de hoje. Ele diz para levarem um cajado e ter sandálias aos pés, o que significa que a jornada é longa e difícil. Fora isso, que não levem nem comida, nem sacola, nem bolsa, nem dinheiro, nem duas túnicas. Podemos perguntar: Se não levam roupa, nem comida e nem dinheiro, o que farão quando necessitarem comer e se vestir? Receberão comida e roupa das pessoas a quem evangelizam. Assim serão identificados com os pobres comendo o que eles comem e vestindo o que eles vestem, misturando-se com eles. Não eram como os essênios que se isolavam em comunidades à parte e nem como os fariseus, que não se misturavam com o povo, falavam à distância para não se contaminar e não se tornarem impuros. A própria palavra “fariseu” significa “separado”. Ainda hoje podemos ver como o pobre fica honrado quando o missionário (ou missionária) dorme em sua casa e come a sua comida. Bem diferente seria se os discípulos de Jesus, depois de curar e ensinar, fossem a um lugar especial para dormir, comprar roupa e comida. Um dos motivos pelos quais Jesus “falava com autoridade” era o seu modo de vida simples e despojado. Não levar bolsa e sacola significa também não usar a religião como meio de lucro. É bem conhecida hoje a expressão irônica e sarcástica “Façam correr as sacolinhas” para criticar a religião.
     Outro dado que aparece no evangelho de hoje: sacudir a poeira das sandálias ao sair do lugar onde não se foi bem acolhido. Era um costume dos israelitas sacudir a poeira dos pés ao regressar em sua terra santa depois de ter estado em terra estrangeira, em território pagão. Agora Jesus pede para sacudir a poeira da própria terra santa, que não será superior e nem santa se não acolher bem a Jesus ou os seus enviados. De fato, depois da ressurreição de Jesus, como lemos em “Atos dos Apóstolos” os pregadores cristãos diversas vezes foram rejeitados por judeus e bem acolhidos por pagãos.
     É importante ainda destacar sobre esse evangelho de hoje que Jesus envia os discípulos para fazer o mesmo que ele fazia. Não há diferenciação entre a missão dos cristãos e a do próprio Jesus Cristo. Em outra passagem ele diz: “Quem crê em mim fará as obras que eu faço”. Hoje também as devemos fazer adaptadas ao modo atual. Por exemplo, certas doenças hoje bem identificadas eram naquela época chamadas de possessão do demônio ou espíritos maus. Há até naturalistas que identificam vírus e bactérias causadores de doenças como demônios. Mas o mais importante não é denominar ou explicar e sim curar. Temos métodos atualizados para livrar pessoas sofredoras de seus sofrimentos.
     Podemos ainda falar mais sobre esse trecho do Evangelho de Marcos. Por exemplo, para analisar a historicidade de diversos cristianismos do primeiro século estudiosos do cristianismo primitivo tomam dados desse evangelho como características de uma corrente do movimento de Jesus que deu origem ao Evangelho de Marcos, próprias de uma comunidade de caráter camponês. Há outros estilos também válidos, como o do apóstolo Paulo, que adaptou a mensagem de Jesus à evangelização de grandes cidades.
     Mas todos têm em comum a gratuidade da evangelização e a atitude de não viver só em função de si ou da própria família, mas de todos. Somos felizes quando fazemos os outros felizes. Ganhamos quando partilhamos e não quando acumulamos.
     Jesus quer enviar também a nós para converter um mundo tão marcado por atitudes egoístas e ambiciosas. Elas escravizam. O evangelho liberta. Sejamos todos discípulos e missionários com esse evangelho libertador.

Sermão para o 16° Domingo Comum, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 05:15 PM
Sermão para o 16º Domingo Comum, Ano B
(Jr 23,1-6/Sl 22/ Mc 6,30-34/Ef 2,13-18)
 
 
 
     Antes de fazer uma homilia, um sermão, dar uma palestra, procuro mais detalhes sobre alguns elementos da temática em questão que me parecem merecer destaque. Pesquiso em livros, revistas, na internet... Mas sobre certas realidades prefiro perguntar a determinadas pessoas com quem convivo. Já perguntei, por exemplo, sobre a criação de ovelhas. Os jovens geralmente mal sabem o que é uma ovelha. Mas muitos dos adultos daqui já viveram no campo e conhecem a cultura rural. Falaram-me muito sobre ovelhas, com falas às vezes até agradavelmente engraçadas. Parece que a tal da ovelha é um bicho, assim, abestalhado. Digamos que ela seja um animal vulnerável, que se torna presa fácil das feras. É muito dependente do pastor até, por exemplo, para comer ou para voltar ao lugar de onde saiu. Na seca não acha o que comer sem ajuda do pastor. Na estação das chuvas, come demais e depois não consegue caminhar. E para matá-la, então? É muito fácil. Acontece que se o pastor não é preparado e dedicado as ovelhas se perdem.
     Muitas passagens da Bíblia comparam as ovelhas com o povo, como faz Jeremias na primeira leitura de hoje em relação ao povo de Israel e de Judá. Ele fala de pastores que deixaram perder-se e dispersar-se o rebanho. São os líderes do povo, que se ocupavam mais com suas vaidades, ambições, explorando o povo e também o jogando nas mãos de dominadores estrangeiros.
     Jeremias viveu na época do rei Sedecias, que governou Judá provavelmente entre 597 a 586 a.C. Nessa época o rei da Babilônia, Nabucodonosor, entrou em Jerusalém, prendeu o rei Joaquin, mandou-o para o exílio e em seu lugar colocou Sedecias. O nome Sedecias significa “Javé é minha justiça”. Mas as atitudes desse rei não correspondem ao significado de seu nome. Por isso, Jeremias, ironicamente, no v.6, diz que o novo rei fará valer a justiça e se chamará “Senhor nossa justiça”. Jeremias, com uma ideologia de renovação da monarquia (que não é uma uniformidade entre os profetas do Antigo Testamento) anuncia o surgimento de um novo rei, descendente de Davi, sábio, justo e que salvará Israel.
     O Novo Testamento vê em Jesus a realização dessa profecia.
     Na época de Jesus o povo não estava em situação melhor do que na época de Jeremias. Por isso tantos procuravam Jesus e seus discípulos, sobretudo para serem curados de suas enfermidades. Era gente que não tinha a quem recorrer. De tal modo que Jesus e seus discípulos não tinham tempo nem para comer. Então Jesus decide ir com os discípulos para um lugar deserto e afastado para descansar um pouco. Mas as pessoas descobrem e quando Jesus chega ao local uma multidão já o está esperando. O Evangelho de Marcos diz que Jesus viu uma numerosa multidão e sentiu compaixão porque eram como ovelhas sem pastor. Poderíamos dizer hoje, uma multidão de gente estropiada.
     Façamos aqui um parêntese para comentar alguns detalhes. Aparece nesse texto a palavra deserto, que lembra o deserto de Moisés e dos profetas perseguidos ou o “êxodo”. Com Jesus acontece um novo êxodo e ele é o novo Moisés e o novo Elias.
     Outro dado: Há nessa perícope de Marcos um contraste entre as palavras pouco e muito. Precisam descansar um pouco. No entanto os que os procuram são muitos, vindos de todas as cidades, numerosa multidão. Jesus ensina então muitas coisas.
     Outro detalhe é estranho e curioso. Como pode a multidão, indo a pé, chegar antes deles? Há algumas hipóteses. Uma delas é que o texto é resultante de uma compilação. A junção de vários textos em um deixou dados estranhos assim. Mas esse dado histórico não é o mais importante, mas sim a teologia ou a cristologia de Marcos, que apresenta Jesus entre a multidão de gente sofrida.
     Vejamos que a resposta de Jesus à situação da multidão sofrida e abandonada não é apenas curar (ou dar de comer, como nos versículos 35 a 44 do mesmo capítulo). Ele ensina. Quando se trata de ovelhas não adianta ensinar que elas não aprendem e serão sempre vulneráveis e dependentes. Mas o ser humano pode ter autonomia e aprender a não ser vítima de falsos líderes. Por isso Jesus ensinou e nós hoje devemos ensinar.
     A segunda leitura, da Epístola aos Efésios (que não é uma das sete do próprio Paulo, mas conserva um dos seus ensinamentos mais insistentes, o da não distinção entre judeus e gentios) diz que Jesus destruiu o muro de separação e fez uma unidade. Isso lembra o templo de Jerusalém, onde havia um átrio para os judeus e outro para os gentios, pois os judeus consideravam-se superiores e mais puros que os gentios (e até judeu-cristãos, como Tiago, continuaram, até certo ponto, pensando assim, e não entenderam Paulo). Diz essa segunda leitura de hoje que Jesus “aboliu a lei com seus mandamentos” e “criou um só homem novo” (Ef 2,15).
     Que ensino recebemos de Jesus e de Paulo? Freqüentemente pessoas nos perguntam sobre o que podemos ou não fazer, sobre o que nos é permitido e o que nos é proibido. Perguntaram pra mim: “Padre pode beber, pode namorar, pode ir a balada?” Respondi: “Pode também matar e roubar, pois ninguém está impedindo”. Pode “beber, cair e levantar” como diz a canção popular. E pode ir ao lugar onde há sete mulheres para cada homem e dizer que foi pescar como diz a outra canção. Mas eu não faço isso. Não o faço não porque seja proibido, porque alguém esteja me vigiando ou por medo de ser castigado aqui ou na vida eterna. Mas porque eu mesmo, de livre vontade, prefiro assim. Jesus Cristo não manda em nós. Ele nos conquista os corações pelo amor. E nós, inspirados nele, amamos também. “Somos gente nova vivendo o amor, somos comunidade, povo do Senhor” diz uma canção de CEBs. E o somos livremente e alegremente. E para nós seguir Jesus não é um peso e um sacrifício. É um privilégio e um prazer.

Sermão para o 17º Domingo Comum, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 05:14 PM
Sermão para o 17° Domingo Comum, Ano B

(2 Rs 4,42-44/Sl 144/ Ef 4,1-6/Jo 6,1-15)

 
 
     Vamos olhar para a Palavra de Deus através da liturgia da palavra de hoje e ao mesmo tempo olhar para a realidade social atual. Vocês devem ter ouvido falar da crise do capitalismo que surgiu neste ano de 2009. Qual a causa dessa crise? O problema é bem amplo e complexo e não somos economistas, mas eu acho que posso falar que a causa principal é o individualismo. Cada um que acumulou dinheiro procurou investi-lo da forma que desse maior rentabilidade. Afinal, diz o ditado “dinheiro gera dinheiro”. Em geral os investidores não se importam com a questão de se o investimento vai ser um bem para a sociedade, se vai gerar emprego... O capitalismo (que um colega meu chamava de “capetalismo”, dizendo ser esse o sistema do capeta) acomodou as pessoas a sacrificar tudo e todos em função do lucro. Importa ter mais lucro mesmo que obtê-lo sacrifique o meio ambiente, mesmo que sacrifique a saúde das pessoas...Mas não é o governo que deve cuidar disso conforme a legislação? Sim, mas neste sistema neoliberal o governo fica cada vez mais fraco e fiscaliza cada vez menos.
      Um dos exemplos que temos dado é o dos “transgênicos”. Um alimento transgênico pode ser um bem. Mas antes que se tenha certeza disso ele já está, apressadamente, no mercado, e as pessoas que o consomem são então usadas como cobaias.
     Gosto de usar um outro exemplo, que envolve a minha terra de origem lá no centro do Estado de São Paulo. Numa terra muito boa onde antes se plantava de tudo, agora só se planta cana. É a maléfica monocultura. Um primo meu ficou, de teimoso, nos 20 hectares que pertenceram ao meu avô. Em 90% da pequena propriedade de terra ele planta cana, que é o que dá mais lucro. Não dá mais para plantar frutas. Os insetos invadem as frutas, coisa que antes não acontecia. É o desequilíbrio ecológico. Como os insetos não têm mais mato, pois só há canaviais, atacam as frutas. E toda essa mudança para que? Para produzir açúcar. Não faz bem nenhum à saúde! A quantidade de açúcar que o nosso organismo necessita já está nas frutas e legumes. O melhor é acostumar-se com o mínimo de açúcar. É só questão de costume. Tem gente que bebe café com o mínimo de açúcar ou até sem açúcar e diz que assim fica mais saboroso. Mas a propaganda faz parecer o contrário. E a população se deixa levar. Quando, nas igrejas, se faz arrecadação de alimento para os pobres, o que mais se doa é açúcar. Como se quisessem acabar de matar os pobres. Ou manter as farmácias lotadas. Esse grande consumo de açúcar não favorece a saúde da população, mas o lucro dos poucos que são os donos da produção. Esses não se importam também com o meio ambiente. Por exemplo, a descarga do vinhoto nos rios polui a água. Não se importam com a justiça social. A monocultura gera desemprego. E quando aperfeiçoam a técnica (por exemplo, uma máquina de colher cana substitui 80 homens) não compensam o desfalque com outra forma de distribuição de renda.
     Junto com a crise financeira há uma crise política, uma crise moral, uma crise cultural. Diz uma cartilha de conscientização política popular para grupos de base: “A natureza da atual crise não é apenas do modo capitalista de organizar a produção, mas ela está afetando os recursos naturais (...) É uma crise política, que desmoralizou os organismos internacionais em vigor (...) Gera falsas necessidades humanas, falsos valores de convivência, agora fundados no egoísmo, individualismo e consumismo”.
     Um dos grandes sinais desse desencaminhamento é o desperdício de alimentos. Uma recente reportagem na televisão mostrava que no Brasil se desperdiça quase a metade dos alimentos que são produzidos. E a população se acostumou com o desperdício. Até em retiros e encontros de igreja se vê na hora da refeição o quanto se joga no lixo. Em vez de pegar um pouco e depois repetir, muitos lotam o prato e depois jogam no lixo o que sobrou. Outro exemplo: o caderno que o garoto leva para a escola. Metade dele é para escrever; a outra metade é para arrancar as folhas, amassar e jogar nos colegas na hora da farra. Sem saber o quanto isso é prejudicial ao meio ambiente. 
     Agora vamos olhar para a Bíblia utilizando as leituras da missa de hoje. Primeiro vem o exemplo do profeta Eliseu. Ele viveu por volta do ano 840 a.C. Em época de penúria, a solução que ele encontrou para o seu povo foi partilhar o pouco que se tem. Nesse caso é válida a afirmação “O pouco com Deus se torna muito”. Várias vezes ele repete: “Comerão e ainda sobrará”. Desta vez ele está diante de cem pessoas com fome. Recebe vinte pequenos pães. Mas o que é isso, diz-lhe o servo, para cem pessoas? Dá ao povo, insiste ele, para que coma. Ele poderia ter guardado os pães só para si pensando: “não vai resolver o problema mesmo”. Mas se todos pensarem assim ninguém fará nada. Ele deixa uma lição que continua a ter efeito no futuro e chega a época do apóstolo Paulo atualizando-se com as palavras “há um só corpo e um só espírito” ( Ef 4,4). E hoje? Às vezes a gente ouve pessoas dizendo: “Se eu fosse rico eu ajudaria”. Mas os exemplos de partilha, de solidariedade, vêm quase todos dos pobres. Os mais ricos concentram renda e não dividem. Em geral até se casam entre eles para dobrar a fortuna. É impressionante o quanto a riqueza domina e escraviza o individuo. É mesmo um “capeta-ísmo”, uma doença do capeta. A verdadeira liberdade faz partilhar e não concentrar.
     Se Eliseu alimentou cem homens com vinte pães, Jesus, que é muito maior que Eliseu, alimentou cinco mil    homens
 (e suas mulheres e crianças) com cinco pães e dois peixes. Cinco mais dois é igual a sete, o número bíblico que significa infinitude. Essa infinitude vem do amor. Diz uma canção de CEBs: “Bastariam cinco pães e dois peixes e o milagre do amor, prá acabar com tanta fome, prá acabar com tanta dor.”
     O texto do evangelho de hoje pode ser analisado em vários aspectos. Quero tratar especialmente do aspecto catequético, em seu ensinamento sobre a partilha e, depois, do aspecto litúrgico.
     Analisemos alguns elementos simbólicos, mas antes vejamos o paralelismo nos quatro evangelhos canônicos para assim recolher mais elementos. A sinopse dele é Mt 14,13-21/Mc 6,30-44/Lc 9,10-17/Jo 6,1-15. O capítulo 5 de João apresenta Jesus em Jerusalém. Lá ele sofre oposição e rejeição por parte das autoridades dos judeus. Então, exatamente o templo de Jerusalém, o lugar mais sagrado dos judeus, o povo escolhido e libertado por Deus, tornou-se o antigo Egito, como o da escravidão do faraó opressor. Jesus faz o êxodo para a Galiléia. As informações desse evangelho não são de caráter geográfico e cronológico, de lugar e tempo. Têm sentido simbólico. O Evangelho de João quer dizer que Jesus inaugura o novo êxodo. A travessia do mar da Galiléia recorda a passagem do mar Vermelho. A subida ao monte recorda Moisés no Sinai. E o pão que Jesus distribui recorda o maná no deserto. Se isso tudo é simbólico então, perguntarão hoje, o que de fato aconteceu, o que é histórico. Os historiadores teológicos chamam o fato acontecido de “fato bruto”. Esse fato originário foi descrito de modo a servir para uma catequese e assim entrou nos Evangelhos. Outros elementos simbólicos bem ilustrativos podemos encontrar. Bem no meio do evangelho de hoje, v.10, Jesus diz “Fazei sentar as pessoas”. Com Jesus acontece o descanso. Esse é o povo livre, libertado por Jesus. O templo escravizava e cansava. Jesus liberta e dá descanso. Jesus faz com que as pessoas se sentem para comer. Naquela época os escravos, que era mais da metade da população, nem se sentava para comer. E as autoridades judaicas não estavam sendo menos opressoras. Os discípulos sugerem a Jesus despedir as pessoas para elas poderem ir comprar comida. Jesus substitui a palavra despedir por acolher, ir por vir e comprar por dar. Ao dizer aos discípulos “Dai-lhes vós mesmos de comer”, Jesus ensina que a solução está nos pequenos. João reforça isso dizendo que os cinco pães e dois peixes foram doados por um menino. E quem comunica isso é “André”, o que tem um nome que significa “humano”. Jesus diz aos discípulos que recolham as sobras para que nada se perca. Das sobras recolhem doze cestos cheios. O número doze significa totalidade. Há comida para todos. E recolher as sobras é um gesto contra o desperdício do qual aqui falamos.
     Esse é também um texto litúrgico. Recorda a bênção, a ação de graças (eucaristia) que rendia o pai de família a Deus na hora da ceia e que foi renovada por Jesus.
     Hoje recordamos a ceia de Jesus cada vez que celebramos a eucaristia. Mas essa celebração eucarística não pode ser apenas um rito e sim a expressão de uma vivência. Quem comunga o pão e o vinho consagrados na missa deve comungar com a vida do irmão. Na medida em que isso for feito se superará as carências e as dores. O pão distribuído na eucaristia é o próprio Jesus. E quem o recebe deve fazer como Jesus. Fazer a vontade de Deus. Esse é o pão que não é de momento, que não é irrisório, que não se acaba. A abundância do pão material não é o mais importante. É apenas uma conseqüência de se ter esse pão que é viver verdadeiramente em Jesus. Se isso fizermos então “comeremos e ainda sobrará”.

Sermão para o 18º Domingo Comum, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 05:13 PM
Sermão para o 18º Domingo Comum, Ano B
(Ex 16,2-4.12-15/Sl 77/Ef 4,17. 20-24/Jo 6,24-35)
 
 
     Vou seguir novamente o esquema de olhar primeiro para a realidade social atual e depois para as leituras da liturgia da palavra de hoje. “Um olho na Bíblia e outro na vida” diz o ditado do estudo bíblico popular. Começo lembrando uma pesquisa que ouvi dizer que foi feita sobre qual a palavra que mais está sendo pronunciada no mundo. É a palavra “eu”. Um estudo sobre a cultura chinesa diz que o chinês, tradicionalmente, ao ser perguntado sobre o que é bom ou ruim pensava antes no coletivo. Bom é o que é bom para a sociedade e ruim é o que é ruim para a sociedade. O neoliberalismo foi mudando isso. Entre nós também se tem acentuado o individualismo. Um pequeno exemplo: na escola pública em que eu leciono. Chegamos para uma questão de acerto de horários e fomos comunicados de que o recesso seria prorrogado. Por causa do perigo da nova gripe as aulas só começariam duas semanas mais tarde. O primeiro professor disse “Que bom! Agora eu poderei viajar”. O segundo disse “Que bom! Assim eu poderei terminar tal coisa”. Enfim todos disseram que a mudança era boa porque “assim eu poderei tal coisa”. Ninguém questionou se tal decisão seria boa ou ruim para a sociedade. Se for bom para mim então é bom. É assim que estamos sendo acostumados.É o chamado “imediatismo”.Egoísmo, individualismo, imediatismo. “Ismo” significa mania, obsessão, doença. É um mau.
     Olhemos agora para a Bíblia. O que vemos na primeira leitura, do Êxodo? O povo que seguia Moisés, na hora da fome, do medo, da crise, por falta da fé, começou a elogiar o Egito, a terra da escravidão. Só porque lá havia comida. E até exageraram na descrição. Não seria preferível morrer no deserto com o verdadeiro Deus, lutando, inconformado com o erro, do que submisso conformado com a escravidão da tirania do faraó? Há hoje quem diz: “Prefiro ser um covarde vivo do que um herói morto”. Será que não é melhor ser um herói morto do que um covarde vivo? Mas Moisés não conduzia o povo bestamente. Havia um projeto. O Êxodo não foi uma simples fuga desesperada em que Moisés não sabia o que estava fazendo. Deus enviou, diz a leitura bíblica, o maná e codornizes para o povo no deserto.
     No evangelho vemos Jesus proporcionando pão e peixe para o povo no novo Êxodo. Porém, o que é mais importante, aquele pão era apenas um sinal de um alimento muito maior a ser buscado. A gente não deve viver para sobreviver. A multidão, conforme o evangelho de hoje, parou no imediatismo. Foram buscar Jesus só porque receberam aquele pão, que não era a finalidade.
     Acomodaram-se e queriam fazer de Jesus um rei. Mas Jesus não era um líder populista e assistencialista desses que acomodam a população.
     Quando Jesus diz aos que o procuraram que se esforçassem não por um alimento que se perde, mas que permanece até a vida eterna, eles perguntam o que devem fazer. Talvez o que o Evangelho de João queira dizer é que não se consegue esse pão em troca de um ritualismo. Não é questão de fazer, mas de ser. A segunda leitura de hoje, da carta aos Efésios diz: “Não sejam como aqueles cuja inteligência leva ao nada (...) Despojai-vos do homem velho, renovai o vosso espírito e a vossa mentalidade. Revesti-vos do homem novo”. Quando Jesus diz que o verdadeiro pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo eles pedem a Jesus que lhes dê sempre desse pão. Então Jesus diz que esse pão é ele mesmo. Aí lhes pareceu demais. Será que Jesus era maior do que Moisés, que deu a seus antepassados o maná? Que sinal daria disso? “Não foi Moisés quem vos deu o pão que veio do céu”. Foi Deus. E agora Deus dá a si próprio em Jesus.
     Hoje comungamos com o pão e o vinho consagrados na celebração eucarística. Que sentido tem isso? Quem comunga com esse pão e vinho deve tornar-se como Jesus e comungar com a vida do próximo. Na medida em que isso for feito se superará as carências e as dores. Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça e tudo o mais vos será acrescentado.
 

Sermão para o 24° Domingo Comum, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 05:11 PM
Sermão para o 24º Domingo Comum, Ano B
(Is 50,5-9/Tg 2,14-18/Mc 8,27-35)
 
 
     O Evangelho de hoje, Mc 8,27-35, é conhecido como o da profissão de fé de Pedro. Tem seu correspondente em Mt 16,13-28 e Lc 9,18-27. Nele consta que depois de Pedro ter dito “Tu és o Messias” (v.29) “Jesus proibiu severamente de falar a alguém a seu respeito”. Isso no início pode nos parecer muito estranho. Por que Jesus proíbe falar dele? Não deveria ser o contrário? O Evangelho de Marcos, o primeiro a ser escrito dos quatro evangelhos canônicos, teve o objetivo de mostrar quem é Jesus. Os discípulos estão ainda no início da caminhada com Jesus e não sabem bem quem ele é. Como poderiam falar do que não conhecem? Chegaria o momento de falar de Jesus abertamente, aos quatro cantos do mundo. Os discípulos (e discípulas) não fizeram um curso antes de seguirem a Jesus na missão de evangelizar. Aprendem já participando da missão. Estão indo para os povoados de Cesaréia de Filipe, região paganizada, lugar prioritário da missão. No caminho Jesus pergunta aos discípulos quem o povo diz que ele é. Uns dizem que ele é João Batista, outros que é Elias (que teria voltado), outros ainda que é um dos profetas. Em outras passagens se verá que também havia os que afirmavam ser Jesus um comilão e beberrão, amigo dos publicanos e prostitutas, transgressor da lei e até agente do demônio. Agora Jesus quer saber o que pensam dele os discípulos. (E há teólogos que afirmam que Jesus também perguntava a si próprio quem ele era até chegar ao julgamento e cruz com grande convicção de ser o Messias, mas sem saber como se revelaria esse messianismo). Pedro responde: “Tu és o messias” (v.29). Em Mateus (16,16) Pedro diz “Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo”. E em Lucas (9,20) Pedro diz “O Cristo de Deus”. Em Mateus Jesus faz grandes elogios a Pedro dizendo: “Bem aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne ou sangue que te revelaram isso, e sim o meu Pai que está nos céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja (...)” e “Eu te darei as chaves do Reino dos céus (...)” (16,17-19), o que não aparece em Marcos. Mas Pedro ainda não sabe que tipo de Messias é Jesus e depois de tão grandes elogios recebe uma severa bronca. É que quando Jesus disse que iria sofrer muito, ser rejeitado pelas autoridades estabelecidas (anciãos, sumos sacerdotes e doutores da lei) e iria ser morto antes de ressuscitar, Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo. Mateus coloca também as palavras de Pedro: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!” (16,22). Então Jesus diz “Vai para longe de mim, satanás!”. Ele expulsa a mentalidade de Pedro como se expulsa um demônio. E diz “Tu não pensas como Deus e sim como os homens”.
     Então Jesus chama tanto os discípulos como a multidão (Em Mateus, “os discípulos”. Em Lucas, “a todos”) e faz o que geralmente não se vê numa propaganda. Fala não só do que vão ganhar seguindo-o, mas primeiramente do que vão perder: “Se alguém me que seguir renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la, mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho vai salvá-la”.
 
(Sugestão: Reler Sermão para 22º Domingo Comum, Ano A)
 

Sermão para o 25º Domingo Comum, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 05:09 PM
Sermão para o 25° Domingo Comum, Ano B
(Sb 2,12. 17-20/Tg 3,16-4,3/Mc 9,30-37)
 
 
     Estamos no 25° domingo comum. Neste ano litúrgico B utilizamos o Evangelho de Marcos. O texto da leitura principal de hoje, Mc 9,30-37, é continuação daquele do domingo passado. Para melhor entendê-lo, contextualizá-lo é necessário ler os dois.O Evangelho de Marcos foi dos quatro Evangelhos Canônicos, o primeiro a ser escrito. E foi escrito a partir de duas perguntas: “Quem é Jesus?” e “Como deve ser o discípulo ou discípula de Jesus?”.
     Jesus não deu um curso de teologia aos seus discípulos antes de levá-los para a missão. Ensinou-os na própria missão. O v.30 do Evangelho de hoje diz que Jesus “não queria que ninguém soubesse (que estavam lá), pois estava ensinando a seus discípulos”. Esse ensino merece momentos reservados, muito especiais. O aprendizado é lento, pois os discípulos estão ainda acostumados a pensar como os homens e não como Deus (Mc 16,23). Por isso ainda não sabem quem é Jesus. Jesus até “exorciza” um pensamento errado da cabeça de Pedro (Mc 16,22) que, mesmo tendo dito que Jesus é o messias (e no Evangelho de Mateus ele é elogiado pelo Mestre por isso) ainda não entende bem o messianismo de Jesus. E é também por isso que Jesus pede insistentemente para não falarem dele, o que ele é, o que ele fez. Ao pensar não como os homens, mas como Deus, Jesus, no Evangelho de domingo passado, ensinou que é perdendo que se ganha, e no de hoje que o maior, o primeiro é aquele que se coloca como o último de todos e o que serve a todos. Tomou como exemplo uma criança, atitude, naquele contexto, surpreendente, assustadora, desconcertante. Servir a uma criança não dava nenhum prestígio.
     Para seguir a Jesus é necessário também estar disposto à perseguição. Perseguição que não é novidade e já aparece descrita na primeira leitura de hoje, do livro da Sabedoria. Diz ela: Os ímpios dizem: “Armemos ciladas ao justo, porque sua presença nos incomoda: ele se opõe ao nosso modo de agir, repreende em nós as transgressões da lei e nos reprova as faltas contra a nossa disciplina. Vejamos, pois, se é verdade o que ele diz, e comprovemos o que vai acontecer com ele. Se, de fato, o justo é ‘filho de Deus’, Deus o defenderá e o livrará das mãos dos seus inimigos. Vamos pô-lo à prova com ofensas e torturas, para ver a sua serenidade e provar a sua paciência; vamos condená-lo à morte vergonhosa, porque, de acordo com suas palavras, virá alguém em seu socorro”. (Sb 2, 12.17-20).
     Vemos nela a atitude do ímpio de colocar o justo à prova, debochar dele, e até torturá-lo e matá-lo. Isso me lembra o delegado Sérgio Fleury, que comandou as operações de tortura em São Paulo na época da ditadura militar. Ele vestia-se de bispo e colocava na boca dos seus opositores aprisionados que eram cristãos católicos uma hóstia ligada a um fio elétrico. O castigo que aquele ímpio construiu para si mesmo foi o seguinte. Depois do final da ditadura militar, um grupo de seus “amigos”, numa churrascada, resolveu “batizá-lo”. Jogaram-no bêbado na água, onde ele morreu afogado. Era queima de arquivo. Ele morreu sem ter vivido, isto é, sem amar e ser amado. Perdeu a vida.
     Estejamos nós com Jesus ganhando a vida no serviço e na partilha.

Sermão para o 26º Domingo Comum, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 05:06 PM
Sermão para o 26º Domingo Comum, Ano B
(Nm 11,25-29/Tg 5,1-6/Mc 9,38-43.45.47-48)
 
 
     Estamos agora no 26° domingo do tempo comum do ano B, já próximos do final do ano litúrgico, que tem 33 domingos comuns. Nesta data a Igreja no Brasil também celebra o dia Nacional da Bíblia, que foi criado em 1947 para ser celebrado no último domingo de setembro, próximo da festa de São Jerônimo, 30 de setembro. Jerônimo viveu entre os anos 342 a 420 e foi o primeiro a traduzir a Bíblia. Até então esta só existia em grego e hebraico e ele a passou para o latim. Foi um grande estudioso da Bíblia e sempre interessado em partilhar esse estudo. Diante de suspeitas por muito conversar com nobres damas romanas ele responde: “Eu falaria menos às mulheres se os homens me interrogassem sobre a escritura”. No ano de 1971, 24 anos depois de ter sido fixado o dia da Bíblia, decidiu-se fazer de setembro inteiro o mês da Bíblia. Com que finalidade? Colocar a Bíblia nas mãos do povo. Estimular a leitura da Bíblia, que até então só era lida por bem pouca gente além do clero e membros de congregações religiosas. Incentivar a leitura orante da Bíblia, seu uso nos momentos devocionais e também o estudo da Bíblia. No Evangelho de Marcos, que estamos utilizando neste ano litúrgico B vemos que Jesus reservava momentos para ensinar os discípulos (Mc 9,30). Também nós hoje devemos reservar momentos para o estudo. Para corresponder a isso temos o mês da Bíblia, no qual muitas comunidades realizam a semana bíblica, com um programa comum a toda Igreja Católica no Brasil, com orientações e bons materiais de apoio.
     Jesus não deu um curso de teologia aos seus discípulos antes de levá-los para a missão. Ensinou-os na própria missão, no caminho para os povoados e cidades. O aprendizado dos discípulos foi lento, difícil e conflituoso, pois estavam acostumados a pensar como os homens e não como Deus (Mt 16,23). Rejeitaram a idéia da perseguição (Mt 16,22), discutiram sobre qual deles seria maior (Mc 9,34), quiseram um reino à moda conhecida e, no Evangelho de hoje, tentaram monopolizar a atividade de cura que chamavam de “expulsar demônios”. Jesus lembra que se fará necessário estar disposto à perseguição, ensina a perder para ganhar (Mc 8,34). Colocando uma criança no meio dos discípulos diz que o maior é quem serve ao menor, aos pequenos. Ouvimos falar hoje que, nas empresas, repartições públicas, os chefes, gerentes, encarregados, vivem cercados de “puxa-sacos”, bajuladores. Quem é que vai querer puxar saco, bajular a faxineira? Pois Jesus ensina a servir aos que não dão prestígio, aos que não têm como retribuir.
     Vejamos os ensinamentos do Evangelho de hoje. Um dos discípulos diz a Jesus que viram um homem expulsar demônios e o proibiram porque não era do grupo deles. Jesus não aprovou essa atitude, como também fizera Moisés, conforme a primeira leitura de hoje, do Livro dos Números, que fala da organização e marcha do povo de Deus, rumo à terra prometida. Comentando esse dado diz José Bortolini nos seus roteiros homiléticos em Vida Pastoral set/out, 2009, Ed. Paulus (também em www.paulus.com.br) usando as palavras do Missal Dominical: “Deus é essencialmente livre ao conceder seus dons. Age diferentemente dos esquemas mentais usuais e das estruturas consagradas, concedendo a ‘profecia’ também aos que estão fora da tenda (I leitura). É esta também a atitude de Jesus (evangelho). Convida ao respeito e à confiante expectativa, e a perceber nos  que ‘não são dos nossos’ não um inimigo em potencial ou um concorrente, mas uma sintonia interior, que pode terminar sendo a de um ‘companheiro de fé’. As instituições podem provir da iniciativa de Deus; mas o que importa é o uso que delas fazem as pessoas. Os profetas não cessam de lembrá-lo: Javé é o soberanamente livre! Jesus assume as estruturas e instituições do seu povo com toda a liberdade, sem nunca se deixar escravizar por elas. O Espírito sopra onde quer e não está preso a nenhuma estrutura humana. As instituições são feitas para as pessoas e não as pessoas para as instituições” (Missal Dominical – Missal da Assembléia Cristã, Paulus, São Paulo, p. 1.031).
     E diz ainda: Javé não pode ser monopolizado por uma instituição, por mais perfeita que pareça ser. De fato, dois dos representantes não foram à assembléia na tenda da reunião e, mesmo assim, profetizavam no acampamento (v.26), isto é, no meio do povo. O espírito age também neles, independentemente de estarem ligados a uma instituição ou não. É o profetismo fora da instituição. Alguns gostariam que isso não acontecesse: Josué, futuro sucessor de Moisés na liderança do povo, toma medidas para impedir que a profecia se manifeste no acampamento, querendo encurralá-la para dentro da tenda: “Moisés, meu senhor! Manda que eles se calem” (v.28). Moisés reconhece o profetismo fora da instituição: “Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta, e o Senhor lhe concedesse seu espírito” (v.29). O desejo de Moisés é que todo o povo participe, pelo discernimento, das decisões que visam proporcionar terra e vida para o povo. Indo além, podemos afirmar que ele espera o dia em que profetas e mediadores não sejam mais necessários, sendo o próprio povo senhor de seu destino e construtor de sua história. De fato, se todo o povo é profeta, que necessidade tem ele de profetas?
Jesus diz que o Pai considera a atitude de quem dá um copo d’água ao próximo (Mc 9,41). Parece fácil. Quem é que não tem um copo de água (ou um cafezinho) para dar? No entanto, para dar um copo d’água é necessário, muitas vezes, quebrar barreiras de preconceitos e divisões. Na época de Jesus, na Palestina, havia os judeus, os samaritanos e os galileus (hoje tem os cristãos católicos e não católicos, os muçulmanos e os judeus). Um não se dava com o outro. Havia os fariseus. E o nome “fariseu” significa “separado”. Havia os ricos e os pobres (não havia classe média na época). Para ir a Jerusalém ou para a Galiléia muitos davam uma volta enorme só para desviar dos samaritanos, aquela “gentalha”, diriam. Hoje também a população está dividida pela raça, pela religião, pelas classes sociais. Para um rico, em muitos casos, é mais fácil mandar um caminhão de água a uma favela do que ir pessoalmente levar um copo de água.
     A seguir Jesus fala duramente contra a atitude que escandaliza os pequeninos e os põe a perder. É preferível perder a si próprio a um desses pequenos. O que é que escandaliza os pequenos? É assumir o comportamento dos que querem concentrar poder e riqueza. É aproveitar-se da pobreza do outro para se promover e assim fazer com que o outro se perca. Vemos hoje como tem gente que aproveita o desemprego para ganhar dinheiro. Prometendo emprego fácil para quem fizer um curso aproveitam-se do desespero alheio. Ou religiosos que, prometendo prosperidade a quem seguir certa religião, recolhe o pouco dinheiro do pobre desesperado. Isso é escandaloso!
     O Evangelho de hoje usa o simbolismo “arrancar o olho”, “cortar a mão ou o pé” (Mc 9,45). É uma força de expressão para dizer que essas coisas nada valem se são usadas para prejudicar o outro ou não são usadas para fazer o bem, sobretudo aos pequenos. Os pequenos são aqueles que, na ceia de ano novo (como em Belo Horizonte em 2008), de repente vêem uma forte chuva chegar e inundar sua casa, arrastando tudo (talvez porque os ricos desviaram verbas que seriam destinadas a contenção de enchentes). Ou que vêem sua casa indo para os ares junto com uma fábrica de fogos de artifício que explode (como em Santo André em setembro de 2009). Se acontecer isso ao rico ele tem outra casa, conta bancária, seguros, propriedades. O pobre nada disso tem. Que tenha ao menos a solidariedade dos outros, que devem colocar as mãos, os pés, os olhos, e tudo o mais a serviço do próximo e não de si mesmo ou de sua família. Quando você trata de socorrer alguém, logo aparece uma pessoa que pergunta se é seu parente, se é de sua família. É claro que é! Deus é Pai de todos e todas devem ser tratados como irmãos. Jesus ensinou a superar o individualismo, as divisões em família ou grupos sociais.
     Devemos valorizar não a riqueza, o acúmulo, mas a partilha. As palavras de Jesus aos ricos são bem duras. Como as de Tiago na segunda leitura de hoje, falando dos ricos que se enriquecem às custas dos sofrimentos dos pobres.
     O Evangelho de hoje termina falando do inferno e do fogo que nunca se apaga. Sobre isso diz José Bortolini no referido roteiro homilético: O inferno (literalmente: geena) era um vale situado a oeste de Jerusalém em que se ofereciam crianças a Moloc (2Rs 23,10). O rei Josias profanou esse lugar, que acabou sendo usado como lixão da cidade, no qual o fogo “ardia sem parar”. O v.48 afirma que, aí “o verme deles não morre e o fogo não se apaga”. É uma alusão a Is 64,24, denotando símbolo freqüente de destruição. Com base nisso, a geena passou a simbolizar o castigo futuro. Seu contraste com a vida é evidente.
     Não é ao inferno, à geena que somos chamados, mas à vida eterna. E essa vida eterna começa aqui quando nos solidarizamos, partilhamos e servimos.

Sermão para o 27º Domingo Comum, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 04:58 PM
Sermão para o 27º Domingo Comum, Ano B
(Gn 2,18-24/ Sl 127/ Hb 2,9-11/ Mc 10,2-16)
 
 
     Estamos aqui celebrando a comunhão. Mas devemos, para que esta celebração tenha sentido, estar sempre em comunhão. Com Deus e com tudo o que Ele criou. Em comunhão, respeitamos e amamos toda a criação de Deus, sobretudo o que, mais do que criatura, é filho ou filha de Deus, o ser humano, homem ou mulher. A comunhão só será verdadeira se acontecer no amor, com igualdade, sem opressão e sem exclusão.
     A primeira leitura de hoje é da parte do livro chamado Gênesis que os estudiosos dizem ser originária da fonte javista, a mais antiga, do século X antes de Cristo. Fala da criação de Deus. O que devemos buscar no relato bíblico da criação? Penso que devemos buscar a valorização do ser humano, colaborador íntimo do Criador, dentro de um gênero literário que faz o autor falar de acordo com sua própria cultura e na linguagem de seu tempo. O texto bíblico não fornece data da criação, dados científicos comprovados, prova nenhuma em favor de uma teoria criacionista ou que deva servir contra alguma teoria evolucionista, contra as teorias de Darwin.... É bobagem ficar brigando com cientistas a partir da bíblia e mesmo diferenciar teoria criacionista de teoria evolucionista. Isso é coisa de fundamentalista tonto que não estuda direito a bíblia. Deixemos os cientistas fazerem o trabalho deles. Deve-se ter, como diz um ditado, “fé na ciência e ciência em fé”. Podemos tirar do texto bíblico conteúdo melhor do que esses elementos tolos de hostilidades.
     O trecho da narrativa da criação que serve como primeira leitura de hoje diz que Deus criou todos os animais selvagens e aves do céu e trouxe-os para Adão. Depois diz que Adão deu nome a todos os animais domésticos, a todas as aves do céu e todos os animais selvagens (Se esse fosse um texto científico algum crítico poderia dizer que não existe animal doméstico que não tenha sido antes domesticado). Dar nomes aos animais significa ter poder sobre eles, ser senhor das coisas criadas. Com tristeza vemos hoje uma inversão: cachorro tendo vida de gente e gente tendo vida de cachorro. Empregados contratados para cuidar do animal de estimação do rico são humilhados e mal remunerados enquanto o animal tem todos os refinamentos e regalias.
     Diz também a primeira leitura que Adão não encontrou entre os animais um auxiliar semelhante a ele. O homem se distingue dos animais, sendo superior a eles. Porém, mesmo sendo senhor de todas as coisas criadas, ele é incompleto. Diz ainda que Deus fez cair um sono profundo sobre Adão. Este detalhe quer mostrar que a mulher é dom gratuito de Deus, que a dá ao homem enquanto ele dorme. O texto também demonstra certa igualdade entre homem e mulher. Algum crítico poderia denunciar o fato de o escritor bíblico colocar que o homem foi criado primeiro e a mulher tirada dele para ser sua auxiliar. De fato quem escreveu foi homem numa sociedade patriarcal. Mas no relato, que traz um grande avanço para a época, a mulher é tirada da costela de Adão, do seu lado e não do seu pé, o que denota igualdade. Alguns apontam ainda o v.24 que diz: “O homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher” dizendo que ele faz entender que é a mulher que acolhe o homem.
     Tem também o sentido de unidade. O v.23 diz: “É osso dos meus ossos e carne da minha carne”. Em hebraico homem é ’ish e mulher é ’ishah. O v.24 diz que “eles serão uma só carne”. O importante não é a superioridade de uma pessoa sobre a outra, mas a comunhão entre elas. Podemos questionar os casamentos hoje. Quantos casais não vivem em comunhão! Diz uma música de Chico Buarque: “Você ri quando eu choro e chora quando eu choro de rir”. Não partilham sentimentos, sonhos, afazeres do dia a dia. É bonito quando um pergunta ao outro: “Como foi o seu dia?” Há em muitos casais uma solidão a dois. Que pena!
     O livro da Bíblia chamado Cântico dos Cânticos exalta a beleza do relacionamento amoroso de um casal. Há também fora da bíblia, na cultura pagã, um mito que pode ser aproveitado como metáfora, como alegoria. É o mito das metades. Diz que os deuses ficaram com ciúme do poder e força dos homens e então tiveram uma resolução: cortar cada um dos homens em duas partes e misturar as metades. Cada metade que encontrar a outra metade certa voltará a ter o poder que tinha antes. É por isso que existe a palavra sexo, que significa seção, parte. De fato, como a metade que não encontrou a sua outra metade, há pessoas que, depois de causar aborrecimentos, são taxadas de “solteironas amarguradas”. E quanto aos celibatários por opção? Jesus, em Mt 19,10-12 não prega o celibato ou a sua abolição, mas faz uma distinção: há celibatários que são assim por uma deformidade fisiológica; há outros que assim se fizeram para servir ao rei, já que o rei exigia que fossem eunucos os homens que cuidassem de suas esposas; e há celibatários que assim se fizeram por amor ao Reino de Deus. Porém o celibatário deverá ser bem integrado afetivamente para não ser um ou uma “de mal com a vida” ou “solteirão amargurado”.
     Há quem questione o raciocínio que traz a idéia do “dois numa só carne”, “alma gêmea” ou “cara metade” dizendo que o ser humano é sempre incompleto, estará, em certos aspectos, sempre só e tem de aprender a estar bem sozinho sem criar dependência afetiva. A preocupação em ser realista pode nos ajudar. Mas o ideal, ser dois numa só carne, ajuda a fortalecer o real.
     Olhemos agora para o Evangelho de hoje lembrando que o ensino de Jesus sobre o casamento ou matrimônio está dentro do senso da justiça do Reino de Deus. Se a nossa justiça não superar a dos fariseus não entraremos no Reino. Alguns fariseus se aproximaram de Jesus e, para pô-lo a prova, perguntaram se era permitido ao homem divorciar-se de sua mulher. Diz José Bortolini em Vida Pastoral, Ed. Paulus, set/out 2009, p. 48: “O texto adota o esquema dos diálogos didáticos: 1. Interpela-se o mestre com uma pergunta difícil (v.2); 2. O mestre responde perguntando (v.3); 3. Os interlocutores se sentem obrigados a responder, revelando seus pontos fracos (v.4); 4. O mestre corrige a resposta dos interlocutores, apresentando a novidade (v.5-9)”. Os fariseus respondem a Jesus que Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio e despedir a mulher. Basearam-se eles em Dt 24, 1-2 que diz: “Quando um homem tiver tomado uma mulher e consumado o matrimônio, mas este logo depois não encontra mais graça a seus olhos, porque viu nela algo de inconveniente, ele lhe escreverá então uma ata de divórcio e a entregará, deixando-a sair de sua casa em liberdade”. Jesus então diz por que Moisés escreveu este mandamento: “Foi por causa da dureza do vosso coração” (v.5). O mandamento de Deuteronômio visava proteger a mulher do abuso machista. Recebendo o documento ela estaria livre para casar com outro homem sem ser acusada de adultério. Depois Jesus retoma citações do Gênesis e coloca homem e mulher em condições de igualdade.
     A cena seguinte do Evangelho de hoje, em que pessoas trazem crianças para serem tocadas por Jesus e os discípulos as repreendem, segue o mesmo esquema de valorização dos que são inferiorizados. Tal como a mulher era inferiorizada e vítima do abuso do marido e Jesus a defende utilizando o ideal do Gênesis, difícil de ser entendido por homens frios, fundamentalistas e duros de coração como os fariseus, as crianças eram consideradas impuras e inferiores. O que irrita Jesus não é a interrupção das crianças, mas a exclusão. “Deixai vir a mim as crianças”, diz Jesus. Talvez possamos ainda perguntar: quais crianças? Lembro-me de uma festinha preparada numa escola pública, ao lado de uma favela, para as crianças da catequese da paróquia. A escola era cercada por grades e não muros e os doces e salgados ficavam bem visíveis às crianças de fora que só olhavam, até que conseguiram invadir o local e se misturar com as crianças da catequese diante do olhar espantado das catequistas. E eu até me diverti com a cena.
     E Jesus então ensina que o Reino de Deus é de quem o recebe como uma criança. Como uma criança e não como um fariseu arrogante que se acha o dono da verdade. Saibamos humildemente nos colocar como aprendizes do Reino de Deus.
 
Anexos - Textos Complementares
 
Adaptado de “Cântico dos Cânticos” por Maria do Carmo Ekman.
Ct 3,1-4     Em meu leito, pela noite,/Procurei o amado da minha alma/Procurei-o e não o encontrei!/Vou levantar-me,/Vou rondar pela cidade,/Pelas ruas, pelas praças/Procurando o amado da minha alma.../Procurei-o e não o encontrei!/Encontraram-me os guardas/Que rondavam s cidade:/Vistes o amado da minha alma?/Vistes o amado da minha alma?/Passando por eles, contudo,/Encontrei o amado da minha alma/O amado da minha alma./Agarrei-o e não vou, não vou soltá-lo/Até, até levá-lo à casa da minha mãe,/Ao quarto da que me levou/Em seu seio,/Abro ao meu amado/Mas meu amado se foi.../Procuro-o e não o encontro/Chamo-o e não me responde.../Encontraram-me os guardas/Que rondavam a cidade/Bateram-me, feriram-me,/Tomaram-me o manto/As sentinelas das muralhas!/Filhas de Jerusalém,/Eu vos conjuro:/Se encontrardes meu amado,/ Que lhe direis?/Filhas de Jerusalém,/Eu vos conjuro:/Se encontrardes meu amado, dizei/Dizei que estou doente de amor!
Que é teu amado mais que os outros,/Ò mais bela, Ó mais bela das mulheres?/Que é teu amado mais que os outros/Para assim, para assim nos conjurares?/Se não o sabes, ó mais bela das mulheres,/Segue o rastro, segue, o rastro das ovelhas.
Ct 1,5-11     Eu sou negra, e formosa,/Ó filhas de Jerusalém/Como as tendas de Cedar,/e os pavilhões de Salma./Não olheis por ser eu negra:/foi o sol que me queimou;/Os filhos da minha mãe/se voltaram contra mim,/Fazendo-me guardar as vinhas,/E a minha vinha, a minha.../Eu a não pude guardar./Avisa-me, amado de minha alma,/Onde apascentas, onde descansas/O rebanho ao meio dia,/Para que eu não vague perdida/Entre os rebanhos dos teus companheiros.
Ct 2,9-13 Ei-lo postando-se/Atrás da nossa parede/Espiando pelas grades/Espreitando da janela/Fala o meu amado, e me diz:/“Levanta-te”, Levanta-te minha amada,/Formosa, formosa minha,/vem a mim./Vê o inverno já passou/Olha a chuva: já se foi!/As flores florescem na terra,/O tempo da poda vem vindo,/E o canto da rola/Está-se ouvindo em nosso campo./Despontam figos na figueira/E a vinha florida exala perfume/Levanta minha amada,/Formosa, formosa minha, vem a mim!
 
ABRE A JANELA, MEU BEM           L&M: Zé Vicente
Abre a janela, meu bem/Vem ver o dia que vem/Deixa o sol entrar e o vento falar/Que eu te quero bem
     Deixa a brisa da manhã te abraçar/Ver a rosa no canteiro a te sorrir/Vou pedir galo-campina pra cantar/Vou mandar te dar bom-dia o bem-te-vi./Essa vida só é vida com amor/Acordado é o melhor jeito de sonhar/Que o carinho seja sempre o bom sabor/ E a razão prá toda hora começar./Se a saudade ou o cansaço te bater/Busque a força no segredo da paixão/Não me esqueça, que eu não vou te esquecer/Somos um neste país que é o coração.
 
COMPANHEIRA        L&M: Babi Fonteles
     Ah, companheira, me dá as tuas mãos/Eu necessito do amor que tu me dás/Tua presença me anima a lutar/O teu abraço refresca o calor/Dessa jornada em busca do lugar/Onde seremos uma só Nação./Ah, companheiro, te dou as minhas mãos/Te dou meu peito, em mim vem repousar/Vem ser a chama que acende o coração/O meu desejo, a vida que virá/Felicidade enfim vai florescer/E amaremos sobre o nosso chão./Que venham as lutas, a dor e a solidão/Os passos lentos do Povo a caminhar/O nosso amor é fonte no jardim/ Prá saciar a sede de quem vem/Pra perfumar a estrada de quem vai/Pra festejar o dia do amor.
 
XOTE DA SAUDADE           L&M: Babi Fonteles
     Baticundum/Meu coração deu uma saudade/Dos teus abraços se encontrando com os meus/Tu me animavas, descansava meu cansaço/Acolhia os desabafos/Me fazia ser mais eu (Bis)/Baticundum/É tanta coisa na lembrança/Foi pouco tempo, é sempre pouco/quero mais/Quero tuas mãos junto com as minhas se apertando/Nossas vidas se cruzando/Nossos passos indo iguais (Bis)/ Sina tirana te sentir só na vontade/Felicidade foi quem fez essa invenção:/Gravou no peito a melodia da saudade,/Um pipocar de baticuns no coração (Bis).
 
MISTÉRIOS          L&M: Zé Vicente
     Todas as coisas são mistérios (Bis)./O que me faz viver, o que me faz te amar/Nem sequer por que eu penso em você/Não consigo explicar/ O vento que sopra na rosa/A luz que brilha em teu olhar/O que ferve aqui, dentro do peito/Ao te beijar./Por que tanta dor pela rua?/Por que tanta morte no ar?/Por que os homens promovem a guerra/Em nome da Paz?/Por que o cientista não mostra/Um jeito bem feito afinal/Que seja vacina do amor contra o vírus do mal?/Aquele encontro surpresa/Aquela emoção ao te ver/Não me peça qualquer explicação/Eu não posso dizer/O que há de segredo amanhã?/O que vai ser do meu coração?/Te procuro, amor, por favor/Nesse instante o que vale é a canção!
 

Sermão para o 28º Domingo Comum, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 04:56 PM
Sermão para o 28º Domingo Comum, Ano B
(Sb 7,7-11/Hb 4,12-13/Mc 10,17-30)
 
 
     A liturgia da palavra de hoje nos fala da sabedoria que vem de Deus, que vale mais do que todo o dinheiro do mundo (1° leitura), da importância da Palavra de Deus (2° leitura) e da opção que se há de fazer entre o mundo das riquezas e o Reino de Deus (Evangelho).
     A primeira leitura é do livro da Sabedoria. Esse livro surgiu no 1° século a.C., em Alexandria, no Egito, onde os judeus tinham uma comunidade. Diz José Bortolini em seus roteiros homiléticos de Vida Pastoral (Ed. Paulus), set/out 2009, p.51:“Envolvidos pela civilização grega, os judeus arriscavam perder a própria identidade e se entregar à busca do poder, das riquezas e do ideal estético como requisitos últimos para alguém ser feliz”.
     Diz o v.7 dessa leitura: “Orei, e foi-me dada a prudência; supliquei, e veio a mim o espírito de sabedoria”. E diz o v.8: “Eu a preferi aos cetros e tronos, e avaliei a riqueza como um nada ao lado da sabedoria”. Esse texto se inspira em 1 Rs 3,7-12, que fala de uma oração de Salomão em que ele pede a Deus não longa vida, nem riqueza, nem a morte dos inimigos, mas sim sabedoria.
     Quem é que prefere a sabedoria à riqueza? Os meios de comunicação de massa exaltam muito mais do que a sabedoria, a riqueza material, a fama, a beleza física, a concentração do poder. Idolatram o mercado, o dinheiro. Há um apresentador de programa televisivo de auditório que joga dinheiro para cima e pergunta “Quem quer dinheiro?”. Ele não pergunta quem quer sabedoria.
     A verdadeira sabedoria leva a rejeitar essa idolatria ao mercado, ao dinheiro, ao poder. Penso que também faz parte da sabedoria utilizar-se de determinados instrumentos de organização para a ação sócio-transformadora. No tempo de Jesus não havia certos instrumentos políticos que temos hoje como meio de construção de autonomia e superação da opressão. A alternativa encontrada por Jesus parece ter sido, conforme mostram pesquisas de alguns estudiosos do cristianismo no primeiro século, a formação de uma comunidade missionária de partilha de vida na qual cada um encontrava cem vezes mais do que aquilo que deixou, embora com perseguições. Tal comunidade superava, inclusive, a família, tornando-se uma família maior. Foi a comunidade que deu origem à chamada “fonte Q”, na qual se baseou o Evangelho de Marcos. Essa comunidade é embrião de uma nova sociedade e sinal do que Jesus chama de Reino de Deus. Nela não há senhores e servos. E ela era intolerável para os ricos numa sociedade em que as relações de dominação, opressão e submissão regulavam a vida social.
     Eis que vem correndo até Jesus um homem muito rico. Encara-o de frente e pergunta o que fazer para ganhar a vida eterna. Jesus recorda os principais mandamentos e ele responde: “Tudo isso já venho observando desde a minha juventude” (v.20). Poderíamos perguntar: Então por que foi se meter com Jesus? Poderia ter consultado um fariseu e um mestre da lei e estes diriam que não lhe faltava nada. Mas ele foi procurar Jesus. Por que não ficou quieto no seu canto? Jesus era radical e pegava pesado. Ah! A lei não é suficiente? Então falta só uma coisa. Falta deixar tudo e seguir Jesus. A comunidade de Jesus era alternativa. Se nela houvesse um rico ela não o seria, pois estaria repetindo o sistema estabelecido.
     Depois que o homem rico vai embora, Jesus fala aos discípulos de como é difícil um rico entrar no Reino de Deus. Hoje vemos bem isso na política. Como é difícil um rico apoiar um projeto que favoreça os pobres e faça os ricos perderem alguma coisa! Aliás os ricos costumam comprar os políticos, o governo, os juízes. Um pobre rouba um quilo de feijão e passa anos na cadeia. Um rico mata a noiva, passa só uma noite na prisão e em cela especial e depois cumpre a pena em liberdade. É muito mais cômodo para o rico ficar fora do Reino de Deus e alheio à sua justiça. A televisão noticiou que o MTS invadiu uma fazenda produtiva, explorando bem as imagens gravadas. Mas pouco se considerou que a fazenda havia sido invadida antes pelos ricos, que se apossaram de terras do governo federal. Por que o pobre é chamado de invasor e o rico não?
     No Evangelho de hoje, quando Jesus fala de como é difícil o rico entrar no Reino de Deus, os discípulos ficam admirados e até espantados. É que eles haviam aprendido que riqueza é benção divina. Ainda hoje a idéia de retribuição divina prevalece em certas igrejas, sobretudo nas mega igrejas pentecostais. Elas dão a entender que o rico foi abençoado por seu próprio esforço ou por ter sido generoso em suas doações à igreja, já que Deus retribui. O pobre é aquele que não mereceu ou não tomou posse da bênção. Não colocam a culpa no sistema. Há pobres que sofrem mais ainda com essa mentalidade. Além de serem pobres tomam sobre si a culpa por não terem saído da pobreza.
     Na seqüência do Evangelho, Pedro diz a Jesus: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos” (v.28). Jesus responde que quem deixou casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos por causa dele e do Evangelho, receberá cem vezes mais já durante esta vida.
     Às vezes eu sinto que tenho cem casas. Sobretudo quando alguém que me recebe em visita ou até me hospeda me diz “a casa é sua”. Às vezes sentimos ter irmãos, irmãs e mães fora da família convencional. O cristianismo, para ser verdadeiro, para não ser apenas uma fachada, deve reforçar esse estilo original.
     Será que hoje deveríamos dizer que o rico, para entrar no Reino de Deus, deveria vender todos os seus bens e dar aos pobres? Esse Evangelho de que falamos tem o seu contexto. Mas devemos superar a mentalidade que legitima a riqueza e justifica a pobreza e a exploração. Helder Câmara, quando arcebispo de Olinda e Recife, dizia que os ricos o admiravam quando ele dava pão aos pobres, mas não quando ele perguntava por que existem pobres. Não é com assistencialismos que vamos fazer valer a justiça do Reino de Deus, mas com a superação dos esquemas de opressão.
 
         

Sermão para o 29º Domingo Comum, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 04:48 PM
Sermão para o 29º Domingo Comum, Ano B
(Is 53,10-11/Hb 4,14-16/Mc 10,35-45)
 
 
     Estamos no 29° domingo do tempo comum. Para marcar o período comum utilizamos a cor verde. O branco é para festas, a cor roxa para a quaresma e o advento. Vermelho é para as celebrações dos mártires. O tempo comum tem 33 domingos. Depois vem o advento, que começa um novo ano litúrgico. São três os anos litúrgicos: Ano A, B e C. No ano A utilizamos o Evangelho de Mateus, no B o de Marcos e no C o de Lucas. O de João é distribuído entre os três anos.
     Neste ano litúrgico B utilizamos o Evangelho de Marcos. Esse Evangelho, que serviu como catequese para os primeiros cristãos foi escrito a partir de duas perguntas. A primeira: Quem é Jesus? A segunda: Como deve ser o discípulo ou discípula de Jesus? No Evangelho do 24° domingo Jesus pergunta sobre quem dizem que ele é. Uns diziam que ele era um profeta; outros Elias que voltou (pois havia uma crença de que o profeta Elias voltaria antes do Messias); outros diziam que ele era João Batista. E para vocês, pergunta Jesus, quem sou eu? Pedro diz que ele é o messias. Mas quando Jesus diz que sofreria rejeição, perseguição e morte antes de ressuscitar Pedro lhe diz que isso não iria acontecer. Jesus então diz a Pedro que ele não pensa como Deus, mas como os homens. Em cada Evangelho dos domingos seguintes vemos os discípulos pensando como os homens e Jesus corrigindo-os conforme o pensamento de Deus ou conforme a justiça do Reino de Deus.
     Desta vez o pensar como os homens e não como Deus aparece na atitude dos discípulos Tiago e João. Enquanto estavam no caminho, subindo para Jerusalém, com Jesus à frente deles (conforme o v.32 do trecho do capítulo 10 que antecede a leitura de hoje), Tiago e João tem um “particular” com Jesus e fazem um pedido: “Deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda, quando estiveres na tua glória!” (v.37). No paralelo em Mateus (20,20-23) é a mãe dos filhos de Zebedeu (Tiago e João) que faz o pedido a Jesus (Talvez seja Salomé). Tanto em Marcos como em Mateus Jesus responde que eles não sabem o que estão pedindo e pergunta se eles podem “beber o cálice que ele ia beber” e “ser batizado com o mesmo batismo que ele”. De onde vêm essas expressões? No Antigo Testamento o cálice era passado em situações diferentes, tendo o gesto diversas denominações: o cálice da consolação, da salvação, da paixão. Bebê-lo até a borra, como diz em Sl 75,9, significa suportar os mais terríveis sofrimentos. O cálice que Jesus diz que vai beber é o cálice de sofrimento. E o batismo com que ele ia ser batizado é a morte, é o imergir, afogar-se. Também se tem chamado o martírio de batismo de sangue.
     Historicamente o fato pode não ter acontecido dessa maneira, pois o Evangelho é uma construção literária e não tem o estilo jornalístico. O porquê dos nomes Tiago e João não fica muito claro, mas sabe-se que João teve lugar de destaque na comunidade primitiva e Tiago de Zebedeu (que não é o Tiago menor, chamado “o justo” e “o irmão do Senhor”) sofreu o martírio logo em 44, sob Herodes Agripa I (Atos 12,2). Há também uma teoria que diz ter João morrido cedo como mártir e o seu nome depois sido confundido com outros Joãos, como por exemplo, o João Presbítero, que escreveu o Apocalipse. Mas o que mais vem ao caso é que senão João, pelo menos Tiago bebeu do mesmo cálice de sofrimento e morte de Jesus e foi batizado com o mesmo batismo de Jesus, mas não assumiu um dos primeiros lugares ao lado de Jesus conforme o esquema deste mundo.
     Na segunda parte do Evangelho de hoje, Mc 10,41-45, que tem o paralelo em Mt 20,24-28 e Lc 22,24-27, Jesus ensina que “Os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam” (v.42). Lucas acrescenta que tais tiranos são chamados Benfeitores (Lc 22,25). E depois acrescenta: “Entre vós não será assim” e “Quem quiser ser grande (ou o primeiro) seja o servidor de todos”. Baseado nos textos dos domingos anteriores poderíamos também dizer: “Quem quiser ser o primeiro, seja o servidor dos últimos, dos pequenos, dos menores, dos que não têm como retribuir, que não dão prestígio”.
     Chegou-me pela internet a narração de um fato engraçado. Um grupo de uma empresa fez um “bolão” na loteria. Por um engano, uma anotação errada, tais pessoas pensaram que haviam ganho, que estavam então ricas. Começaram a jogar papel para cima, a virar as mesas... Alguns foram até o chefe da empresa e o esculhambaram. Falaram desrespeitosamente de sua mãe e esposa. Foram demitidos depois. O que o chefe percebeu foi que aqueles que sempre o bajularam, elogiaram, quando pensavam estar ricos, demonstraram o contrário disso. Vivemos, pelos esquemas deste mundo, em meio a muita falsidade.
     Dizem que os chefes vivem rodeados de bajuladores, de “puxa-sacos”. Quem é que bajula ou “puxa o saco” da faxineira, por mais que ela faça bem o seu serviço?
     No Evangelho de hoje os outros dez discípulos ficam indignados com Tiago e João, não porque agiram errado, mas porque foram mais corajosos em pedir o que eles também desejavam. Todos eles têm em comum a ambição por privilégios. E isso gera conflito.
     Por causa da busca do poder ou exercício do poder não como serviço mais como glória pessoal, nosso mundo é marcado por mentiras. Termino com uma poesia de Afonso Romano de Santana chamada “A Implosão da Mentira”:
     Mentiram-me. Mentiram-me ontem./ E hoje mentem novamente./Mentem de corpo e alma, completamente./E mentem de maneira tão pungente./Que acho que mentem sinceramente./Mentem, sobretudo, impunemente./Não mentem tristes./Alegremente mentem./Mentem tão nacionalmente/Que acham que mentindo história afora/Vão enganar a morte eternamente./Mentem. Mentem e calam./Mas suas frases falam./E desfilam de tal modo nuas/Que mesmo um cego pode ver/ A verdade em trapos pelas ruas./ Sei que a verdade é difícil/E para alguns é cara e escura/Mas não se chega à verdade pela mentira/Nem a democracia pela ditadura./
     Evidentemente a crer nos que me mentem/Uma flor nasceu em Hiroshima/E em Auschwitz havia um circo permanente./Mentem, mentem caricaturalmente./Mentem como a careca mente ao pente./Mentem como a dentadura mente ao dente./Como a carroça à besta em frente./Como a doença ao doente./Mentem claramente./Como o espelho transparente./Mentem desvaladamente/Como nenhuma lavadeira mente/Ao ver a nódoa sobre o linho/Mentem com a cara limpa/E nas mãos o sangue quente./Mentem ardentemente/Como um doente nos seus instantes de febre/Mentem fabulosamente,/Como o caçador que quer passar gato por lebre./E nessa trilha da armadilha/A caça é que caça o caçador com a armadilha.
     E assim cada qual/Mente industrialmente/Mente partidariamente/Mente tropicalmente/Mente, mente, mente. /E de tanto mentir tão bravamente/Constroem um país de mentira diariamente./Mentem no passado./E no presente passam a mentira a limpo./E no futuro mentem novamente./Mentem fazendo o sol girar em torno da terra medievalmente./Por isso desta vez não é Galileu que mente./Mas o tribunal que julga heregemente./Mentem como se Colombo,/Partindo do Ocidente para o Oriente/Pudesse descobrir de mentira um continente./Mentem desde Cabral em calmaria/Viajando pelo avesso/Iludindo a correnteza em curso/Transformando a história do país/Num acidente de percurso.
     Tanta mentira assim industriada/Me faz partir para o deserto penitentemente,/Ou me exilar com Mozart musicalmente/Penso nos animais que nunca mentem./Mesmo se têm um caçador em frente./Penso nos pássaros/Cuja verdade do canto/Nos toca matinalmente./Penso nas flores/Cuja verdade das cores/Escorre o mel silvestremente./Penso no sol que morre diariamente jorrando luz/Embora tenha a noite pela frente./Página branca onde escrevo,/Único espaço de verdade que me resta/Onde transcrevo o arroubo, a esperança,/E onde tarde ou cedo/Deposito meu espanto e medo./Para tanta mentira/Só mesmo um poema explosivo-conotativo/Onde o adversário e o adjetivo/Não mentem ao substantivo./E a rima rebenta a frase/Numa explosão de verdade./E a mentira repulsiva/Se não explode prá fora/Prá dentro explode implosiva.
    Por que as pessoas mentem até descaradamente e esfarrapadamente? Para não admitir publicamente suas reais intenções, que são ambiciosas.
     Entre nós não seja assim. Sejamos como a natureza em que o poeta diz encontrar a verdade.

Sermão para o 30º Domingo Comum, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 04:37 PM
Sermão para o 30º Domingo Comum, Ano B
(Jr 31,7-9/Sl 125/Hb 5,1-6/Mc 10,46-52)
 
 
 
     Um dos objetivos do discurso de Jesus, conforme os Evangelhos é descrever o chamado “Reino de Deus”.
     O que é o Reino de Deus? As leituras bíblicas de hoje, como tantas outras, respondem um pouco a essa pergunta. Mas para ilustrar mais vou contar uma história recorrendo ao livro bíblico de Daniel. Contarei resumidamente e do meu jeito o que está entre os capítulos 1 a 6 do livro de Daniel.
     Por volta do ano 600 antes de Cristo, um rei tirano e opressor, chamado Nabucodonosor, querendo um reino universal, ou seja, querendo ser rei do mundo inteiro, aproveitou-se das fraquezas do povo de Judá, de suas infidelidades, de sua desunião, para invadir seu território e dominá-lo, submetê-lo. Venceu-o na guerra, destruiu Jerusalém, e levou grande parte de sua população para a Babilônia.
     Conta a Bíblia que esse rei mandou que escolhessem os cinco jovens mais bonitos dentre os judeus para servirem no palácio. Um deles era Daniel, que tinha o dom de interpretar sonhos. Numa ocasião, o rei teve um sonho que o deixou muito perturbado. Chamou então todos os magos, adivinhos e encantadores. Esses, diante do imponente rei, depois de reverências e bajulações; disseram: “Narra o sonho a teus servos, ó rei, e nós daremos a interpretação”. “Nada disso!” disse o rei. “Assim fica fácil demais! Vocês não são adivinhos, sábios? Terão que dizer o que eu sonhei e depois interpretar. E tem mais. Todos que não conseguirem fazer isso serão mortos”. Foi o fim da linha para todos eles, exceto para Daniel, que contou o sonho direitinho. E foi premiado pelo rei com uma promoção, um cargo alto na administração do reino. Algum tempo depois o rei teve outro sonho. Sonhou que havia uma grande árvore no centro da terra. Era bonita e cheia de muitas folhas e frutos. Veio um anjo, tirou um ramo da árvore e plantou-o sobre um monte. Então a árvore secou. Caíram-lhe as folhas e os frutos. Sobrou só um toco da árvore e as raízes. Chamou Daniel, que ficou perplexo e respondeu perturbado: “Esse sonho, ó rei, não é para ti, mas para os teus inimigos. E sua interpretação não é para os que te amam, mas para os que te odeiam”. Explicou que a árvore significava o reino de Nabucodonosor e ele próprio, que iria ser derrotado e decair. Mas que o toco que sobrou poderia se recuperar se ele “reparasse os seus pecados pelas obras de justiça e suas iniqüidades pela prática da misericórdia para com os pobres”. O ramo plantado sobre a montanha significava Jerusalém, cidade sobre o monte, capital dos hebreus, o povo de Israel e Judá.
     De fato, Nabucodonosor foi derrotado por Ciro, rei da Pérsia (atual Irã), que permitiu aos hebreus voltar à terra de origem. Voltaram com o ideal de reconstruir o que era representado por aquela árvore plantada sobre a montanha, um novo reino que lideraria todas as nações e no qual o rei seria o próprio Deus. Esse ideal foi sempre alimentado por profetas antes, durante e depois do exílio frente às infidelidades do chamado “povo escolhido”.
     Jeremias, do qual temos a primeira leitura de hoje exerceu a sua função profética antes dessa volta do exílio.
     Depois de tanto sofrimento vendo o seu povo se arruinar ele coloca suas esperanças no que chama de “resto de Israel”.
     Comentando a primeira leitura de hoje diz José Bortolini em Roteiros Homiléticos de Vida Pastoral, Ed Paulus, set/out 2009, p. 61 e 62: 
 
      Os capítulos 30-31 de Jeremias formam uma seção chamada “livro da consolação”. Seu tema é a esperança e restauração do povo. Nesse período, Judá caminha rapidamente para a ruína, e Israel está exilado na Assíria há um século, desde 722 a.C. Não é fácil descobrir quais tenham sido os motivos que levaram Jeremias a pronunciar essas mensagens de esperança. Talvez tenha sido a reforma político-religiosa empreendida pelo rei Josias (622 a.C.) ou queda de Nínive, em 612 a.C. Certo é que o profeta, com os oráculos dos capítulos 30-31, quis reerguer as esperanças do povo sofrido, mostrando-lhe a proximidade e predileção que Deus tem para com ele: cegos e aleijados, mulheres grávidas e as que dão à luz formam a família de Javé.   Jeremias desenvolveu sua atividade profética em Judá a partir do ano 627 a.C. Quase um século atrás, os habitantes do Reino do Norte (Israel) viviam como escravos na Assíria, sem que Judá levasse a sério o sofrimento de seus irmãos. Por isso o profeta, aproveitando um acontecimento promissor, proclama que chegou o tempo de libertação para Israel. E Judá é convidado a fazer festa por causa dos irmãos prestes a ser libertados: “Gritem de alegria por Jacó, exultem pela nação-líder! Proclamem-no exultantes e digam: O Senhor seu povo, o resto de Israel” (v.7).
     O próprio Deus se encarrega de reunir e organizar o povo sofrido, trazendo-o de volta à sua pátria. Quem ele reúne, organiza e reconduz? Aqueles que estão na miséria, sofredores e fracos, marginalizados e indefesos, porque estes é que são o povo de Deus, os que ele privilegia e liberta: “Entre eles há cegos e aleijados, mulheres grávidas e que dão à luz” (v.8b). No meio de toda a multidão que retorna, esses são os únicos lembrados. Eles sintetizam os sofredores e marginalizados do povo (cegos e aleijados), os que estão indefesos e precisam de amparo (mulheres grávidas e que dão à luz), mas são as sementes da esperança no meio da dor: apesar do sofrimento, há claros sinais de vida nas mulheres grávidas e nas que já estão amamentando seus filhos. Do sofrimento nasce a alegria; da dor brota a fecundidade.
     O carinho de Deus para com os sofredores e indefesos se manifesta no modo pelo qual ele os conduz: “eu os levo aos cursos de água, por estrada plana, onde não tropeçam” (v.9b). O retorno dos exilados supera a antiga vitória sobre a opressão no Egito, pois Deus é como o pastor que conduz com cuidado seu rebanho (cf. Sl 23). Mas ele não somente é pastor que conduz: é pai dos sofredores e indefesos, e estes formam sua família: “Eu sou um pai para Israel, e Efraim é meu primogênito” (v.9c).
Aí está a opção de Deus. Aos ouvidos dos rebeldes habitantes de Judá, o fato de Deus escolher Efraim (o Reino do Norte) como seu primogênito devia ser um alerta à conversão. De fato, o Senhor transtorna os esquemas fixos de Judá, que se julga primogênito e protegido, assim como outrora o patriarca Jacó, ao pôr Efraim à frente de Manassés (cf. Gn 48,8-20), confundiria os planos de José. Isso porque Javé é o Deus dos sofredores e indefesos. Seu compromisso é com eles, e os deserdados são seu filho primogênito, com o qual ele se comprometeu e a quem está reservada a herança: “Assim dirás ao faraó: ‘Israel é o meu filho primogênito’” (Ex 4,22).
 
     O salmo 125, que é utilizado na liturgia da palavra de hoje tem semelhanças com mensagens de Jeremias. Ele é pós-exílico. Retrata a volta do exílio. Para a missa de hoje ele está sintetizado assim:
 
     Quando o Senhor reconduziu nossos cativos, parecíamos sonhar; encheu-se de sorriso nossa boca, nossos lábios, de canções. Entre os gentios se dizia: “Maravilhas fez com eles o Senhor!” Sim, maravilhas fez conosco o Senhor: exultemos de alegria! Mudai a nossa sorte, ó Senhor, como torrentes no deserto. Os que lançam as sementes entre lágrimas ceifarão com alegria.   Chorando de tristeza sairão, espalhando suas sementes; cantando de alegria voltarão, carregando os seus feixes!
 
Esse salmo contrasta com o salmo 137 que diz:
 
     “A beira dos rios da Babilônia nos sentamos, e choramos com saudades de Sião; nas árvores que ali estavam penduramos nossas harpas. Lá, os que nos exilaram pediam canções, nossos raptores queriam alegria: ‘Cantai-nos um canto de Sião!’ Como poderíamos cantar numa terra estrangeira?”
 
     Como o livro de Jeremias, o livro dos Salmos tem mensagens de lamentação e de consolação, retratando tristezas e alegrias.
     Até podemos compará-las com mensagens que falam do nosso povo brasileiro, especialmente dos nordestinos “exilados” no sudeste por causa da seca e da cerca, do desemprego e da falta de investimento no nordeste que favoreçam os pobres. Tem aquela música cantada por Luís Gonzaga que diz:
 
     “Quando olhei a terra ardendo/Qual fogueira de São João/Eu perguntei ai meu Deus do céu ai/Por que tamanha judiação/Que braseiro! Que fornalha/Nem um pé de plantação/Por falta d’água perdi meu gado/Morreu de sede meu alazão/Até mesmo asa branca bateu asas do sertão/ Então eu disse adeus Rosinha/Guarda contigo meu coração”.
 
     E tem aquela outra que diz:
 
     “Já faz três noites que pro norte relampeia/E asa branca ouvindo o ronco do trovão/Já bateu asas e voltou pro meu sertão/Ai ai eu vou-me embora/Vou cuidar da plantação/A seca fez eu desertar da minha terra/Mas felizmente Deus agora se lembrou/De mandar chuva prá esse povo sofredor/Sertão de mulher séria, de homem trabalhador/Rios correndo, as cachoeiras estão zoando/Terra molhada, mato verde, que beleza!/E asa branca tarde canta, que beleza!/Ai, ai o povo alegre e mais alegre a natureza./Sentindo a chuva eu me lembro de Rosinha/A linda flor deste sertão pernambucano/E se a safra não atrapalhar meus planos/Vou falar com o vigário e casar no fim do ano”.
 
     Podemos observar as semelhanças de detalhes entre a leitura de Jeremias, os dois salmos citados e as duas canções brasileiras. Por exemplo, diz Jr 31,9: “Eu os conduzirei por torrentes de água”. Diz em Sl 125,4: “Como torrentes pelo Negueb”, referindo a torrentes que, quase sempre secas, se enchem bruscamente no inverno e fertilizam a terra. E diz a canção Asa Branca: “Rios correndo, as cachoeiras tão zoando”.
     Assim como Jeremias, ao falar do povo reunido por Deus, diz que entre eles há cegos e aleijados (Jr 31,8), Jesus apresenta como característica básica do Reino de Deus a inclusão dos marginalizados. O marginalizado é o que foi posto à margem. O Evangelho de hoje diz que o cego mendigo estava sentado à beira do caminho.
     O paralelismo ao evangelho de hoje, Mc 10,46-52, encontra-se em Mt 20,29-34 e em Lc 18,35-43. O texto de Mateus é mais curto e em vez de um cego diz que eram dois. É característica de Mateus apresentar sempre dois onde Marcos diz que é um, assemelhando o seu relato, nesse detalhe, ao que se fazia nos tribunais exigindo-se o testemunho de duas pessoas. O texto de Lucas tem o mesmo tamanho, mas com algumas diferenças.
     Diferentemente de em Mateus e Lucas, em Marcos o personagem tem nome, e é parte de uma descendência. É Bartimeu, filho de Timeu. Não é um anônimo.
     O fato ocorre em Jericó, onde a terra é muito fértil, o que lembra a abundância. Mas no meio dessa abundância, que no Antigo Testamento fora conquistada por Josué para expulsar a Cidade-Estado tributária opressora e estabelecer um novo reino, há um cego mendigo. É isso que irritaria Jesus e não o barulho que o cego faz. Jericó fica a 24 km de Jerusalém. É a última etapa antes de Jesus expressar o seu messianismo em Jerusalém. Como o Evangelho de Marcos é didático, catequético, quer mostrar que todo o ensinamento de Jesus culmina na libertação do pobre e sua inclusão na comunidade.
     O cego grita e perturba. Que as pessoas marginalizadas incomodam não é novidade para ninguém. A novidade deve ser a inclusão que exige mudanças radicais. Lembro-me da história de um candidato a prefeito que disse que, se ganhasse as eleições, faria desaparecer a favela. Depois de eleito, mandou construir um grande muro, isolando a favela. O grito do pobre denuncia o erro estrutural do sistema estabelecido que o marginalizou. Diz o versículo 48 que muitos o repreendiam para que se calasse, mas ele gritava mais ainda. O que diz o cego em seu grito? “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” É uma profissão de fé semelhante à de Pedro. Enquanto os fariseus e doutores da lei não reconhecem Jesus, o cego reconhece. Em sua arrogância, são mais cegos que o cego, pois o pior cego é aquele que não quer ver. O cego não só vai ser curado e ver, mas vai ver Jesus, que ele já reconhece antes de ver. São felizes os que crêem sem ver.
     É verdade que Jesus não é bem o “filho de Davi”. Esse título está dentro de uma concepção de messianismo que depois será superada. Aliás, Jesus não cabe em nenhum título. Está acima de todos.
     O v.50 diz que o cego jogou o manto. O manto servia para que nele se jogassem esmolas. Representa aí o rompimento com a vida velha de mendigo. Agora ele quer ver. Quem não vê, não tem consciência, submete-se à doença e aos preconceitos, conforma-se em viver de esmolas, como mendigo. O cego encontrou alternativa. Segue Jesus. E na comunidade de Jesus ele não é marginalizado. Diz o v.50 que Bartimeu deu um pulo. Podemos dizer que ele pulou da vida de marginalizado para dentro da comunidade de Jesus. Pulou da vida de subserviência ao que é mau para uma situação de nova vida. Isso graças a sua fé. Diz-lhe Jesus: “A tua fé te curou” (v.52). Não diz “A minha fé te curou”. Porém, mais do que enxergar, ele enxergou Jesus. Mais do que ser curado ele seguiu Jesus.
     Os primeiros cristãos, os primeiros leitores do Evangelho de Marcos podiam dizer: “Agora temos Jesus”. Passam do sistema estabelecido, que marginaliza e escraviza, para uma realidade que liberta e integra. O paralelo em Lucas acrescenta um tom festivo ao final da perícope. Diz que o cego curado seguia a Jesus, glorificando a Deus. E que, vendo o acontecido, todo o povo celebrou os louvores de Deus.
     Essa nova realidade, a comunhão com Jesus e em Jesus, e a nova vida que dela decorre, também pode ser percebida na segunda leitura de hoje, onde se mostra que Jesus é o novo sumo sacerdote, que substitui o sacerdócio antigo e faz de todos nós participantes do seu sacerdócio.
     Oremos: Senhor, dai-nos orar sem cessar com um só coração e uma só alma para que os oprimidos sejam libertados e que todo ser humano seja tratado com dignidade. E que para isso, alimentados com vossa palavra e na eucaristia, sejamos instrumentos em vossas mãos.
 
 
 
Sermão para o 30º Domingo Comum, Ano B
 
O Cego Bartimeu
 
           Começo este comentário da liturgia da Palavra do 30º domingo do tempo comum, ano B, refletindo sobre a palavra “marginalização”. A pessoa marginalizada é aquela que está à margem, excluída, posta à beira do caminho, fora do convívio social. Vemos muita gente marginalizada tanto nas páginas da Bíblia como em nossa realidade atual.
      O profeta Jeremias, em Jr 31,7-9, fala de uma reunião de pessoas havendo entre elas cegos e aleijados, que seriam conduzidas para uma situação de mais vida e liberdade. O salmo 126 fala da alegria de um povo marginalizado e exilado que voltou para a própria terra.
      Jesus, em Mc 10,46-52, encontra o cego Bartimeu (chamado Bartimeu e não ‘um cego’), que “estava sentado à beira do caminho”, isto é, marginalizado. O cego grita, incomoda e muitos pedem que ele se cale. Mas ele grita mais ainda. Só deixa de incomodar depois de ser curado por Jesus. Ele joga o manto, o que significa o abandono da vida velha de marginalizado. Depois de recuperar a vista ele segue Jesus pelo caminho. Deixa de ficar à margem e é inserido por Jesus na caminhada.
      Que as pessoas marginalizadas incomodam não é novidade para ninguém. A novidade deve ser a inclusão que exige mudanças radicais. Lembro-me da história de um candidato a prefeito que disse que, se ganhasse as eleições, faria desaparecer a favela. Depois de eleito, mandou construir um grande muro, isolando a favela.
      Quando chega o dia de eleição todos vamos votar. Comentaristas da televisão dizem que aconteceu a festa da democracia. De fato, todos poderão votar independente do sexo, raça e classe social a que pertença e o voto de todos terá igual valor. Mas essa democracia é só no voto. Amanhã, o pobre que roubar um pote de margarina ficará três meses na prisão e o rico que assassinar a noiva não será nem preso.
      Que o exemplo do Jesus que inclui o cego em seu grupo nos ajude a superar as desigualdades e a construir a verdadeira democracia, que é muito mais do que votar de vez em quando.
 

Sermão para o 32º Domingo Comum, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 04:35 PM

Sermão para o 32º Domingo Comum, Ano B

(1 Rs 17,10-16/Hb 9,24-28/Mc 12,38-44/ Sl 145)

 

 

     Nada mais ambíguo do que a religião. A mesma que serve para libertar pode facilmente servir para oprimir, escravizar. A mesma que pode fazer a vida mais feliz pode torná-la infeliz. Lembro-me do filme “A Festa de Babette”, que mostra pessoas muito religiosas negando-se à beleza, ao prazer de viver, presas à obscuridade, enxergando pecado, trevas e maldade onde não deviam enxergar isso.

     Atualmente a religiosidade é objeto de muitas pesquisas e muitos debates. Verifica-se que é entre os pobres, a maioria, que se encontra maior religiosidade. Entre os menos pobres se verifica o que chamamos “secularização”, menos religiosidade. Os mais pobres são mais religiosos. Porém é uma religião muitas vezes alienante.

     O que dizer da religião no contexto da Bíblia, especialmente das leituras deste domingo? Podemos pensar no tipo de religião que está por trás dos versículos 17 e 18 do capítulo 17 do primeiro livro dos Reis. Uma viúva que tem o seu filho morto diz ao profeta Elias: “Vieste à minha casa para reavivar a lembrança de minhas faltas e causar a morte de meu filho!” Mas não. Não era essa a religião de Elias e por isso ele faz o filho da viúva reviver; devolve-lhe o ânimo, a alegria, a esperança; o arrimo, a descendência, a dignidade.

     Quem foi Elias, o profeta do qual fala a primeira leitura de hoje? Comecemos pelo significado de seu nome. “El” em hebraico significa Deus. “Ia” vem de Iahweh. El+Ia = Deus é Javé. Elias procurava mostrar que Deus é Javé e não Baal. Esse profeta viveu por volta do ano 850 antes de Cristo. Sobre ele escreve José Bortolini em seus Roteiros Homiléticos de Vida Pastoral, Ed. Paulus, Nov/dez 2000, p. 33 e 34:

 

     1Rs 17 é o início daquilo que se costumou  chamar “ciclo de Elias”. Esse profeta, cujo nome é seu próprio programa de vida (Elias significa “Meu Deus é Javé”), aparece no reino do Norte em tempo de seca. A falta da chuva é vista como ausência do próprio Deus. A terra ressequida serve de modelo para mostrar o que está acontecendo em Israel: casando-se com Jezebel, o rei Acab permitiu que sua esposa introduzisse no reino do Norte o culto a Baal, deus cananeu ao qual se atribuía o dom da chuva e da fertilidade da terra. Conseqüentemente, Baal era também aquele que providenciava o alimento (pão e azeite, no caso da viúva). Na perspectiva de Elias, contudo, a seca é sinônimo de abandono do Deus vivo e verdadeiro, aquele mesmo Deus que libertou seu povo da escravidão egípcia.

     Como vive o profeta nessas situações? Num primeiro momento, é sustentado pelos corvos que, por ordem de Deus, lhe providenciam alimento pela manhã e pela tarde (17,6). Numa segunda etapa, Javé lhe ordena migrar para Sarepta, na região de Sidônia, de onde veio Jezabel. Baal é o deus dessa região. Aí o profeta inicia o seu aprendizado e a realidade que lhe serve de escola é a mais desastrosa possível: “Ao chegar à porta da cidade, viu uma viúva apanhando lenha... Ela respondeu: Juro que não tenho pão, mas somente um punhado de farinha e um pouco de óleo na jarra. Estou ajuntando uns gravetos, e vou preparar um pãozinho para mim e meu filho; vamos comer e depois esperar a morte” (vv.10ª. 12b).

     Elias reconhece que Baal não é Deus, pois essa pobre viúva e seu filho são como “terra seca”. Estão à espera da morte. Eles lembram de perto a situação de muita gente, ontem e hoje. E faz pensar também nos ídolos que geram a morte do povo em todos os tempos.

     Qual a solução para que o povo não morra de fome? Elias descobre que, a partir dos pobres, sem nome e sem futuro, é possível reconstruir a vida com alegria e esperança. E o texto aponta como solução, a confiança no Deus da vida que fala por meio dos profetas e a partilha do pouco que se tem: “Não se preocupe! Vá e faça como você disse, mas antes prepare um pãozinho e traga-o para mim! Depois pode preparar alguma coisa para você e seu filho” (v.13).

 

     Avaliemos a seguinte situação: Um pastor neopentecostal de hoje utiliza esse texto para dizer aos que o estão ouvindo: “Assim como a viúva de Sarepta deu ao profeta tudo o que tinha para sobreviver, deu tudo o que tinha porque confiou e por isso não lhe faltou alimento, Deus está lhe chamando para dar tudo o que você tem. Não dê esmola, o que lhe sobra. Dê com confiança porque Deus vai retribuir com abundância. Um homem desempregado dá a essa igreja metade do que recebeu de indenização pela perda do emprego esperando com isso conseguir um novo emprego. Não conseguindo o emprego, ele volta e dá a outra metade. E novamente não consegue emprego. Ele está arruinado. Bem dizia Jesus sobre os doutores da Lei: “Tomai cuidado com os doutores da lei” (Mc 12,38). “Eles devoram as casas das viúvas” (Mc 12,40).

     O Evangelho de hoje fala da oferta de uma viúva pobre. No cofre das ofertas, enquanto os ricos ofereciam grandes quantias, “chegou uma pobre viúva que deu duas pequenas moedas, que quase nada valiam. Jesus chamou os discípulos e disse Em verdade vos digo, esta pobre viúva deu mais do que todos os outros (...) Todos deram do que tinham de sobra, enquanto ela, na sua pobreza, ofereceu, tudo aquilo que possuía para viver (Mc 12,42-43).

     José Bortolini, no referido roteiro homilético em Vida Pastoral, p.34, escreve:

 

     Jesus está em Jerusalém e, mais exatamente, no Templo, centro religioso, político, econômico e ideológico da época. Aí ele se defronta com os que pretendem perpetuar os tempos de dominação e exploração do povo (Cf., por contraste, 1,15). No texto de hoje ele se defronta com os doutores da Lei (vv.38-40), anunciando sua condenação. Eles representam o centro ideológico de Israel, pois sendo peritos na Bíblia, são também especialistas no Direito, sabendo burlar as leis em seu benefício, explorando conseqüentemente os que não têm amparo legal.

     Vamos dividir a perícope deste domingo em dois momentos, vv.38-40 e vv.41-44. À primeira vista, parecem dois textos desligados um do outro. Contudo, examinando bem, podemos perceber algumas ligações, pois a viúva que aparece nos vv.41-44 pertence justamente ao grupo social mais explorado pelos doutores da Lei (cf.v.40). Entre ela e os primeiros há um contraste gritante: eles são ostensivos, “teólogos”, arrogantes, ricos e exploradores; ela se apresenta na veste esfarrapada de viúva, vive a teologia do pobre, passa despercebida aos olhos dos grandes, é explorada. Aos primeiros está reservada a pior condenação, ao passo que o gesto da viúva é a única coisa boa que Jesus vê em Jerusalém.

     Jesus está cercado pela massa do povo e ensina (v.38a). Desde o início do evangelho de Marcos, o povo descobriu que o ensinamento de Jesus contrasta com o dos doutores da Lei (cf. 1,22). Agora é o momento do confronto final. Jesus pede que a massa do povo se afaste deles. E as principais razões são estas: 1. “Eles gostam de andar com roupas vistosas”. O fato se refere, provavelmente, ao modo como os doutores da Lei se vestiam no dia de sábado. Eles eram diferentes do povo e, por isso, autênticos. Queriam se impor pelo aparato externo (o que dizer dos “distintivos”, hábitos e condenações de hoje?). 2. “Gostam de ser cumprimentados nas praças públicas”, ou seja, queriam ser os primeiros a receber o reconhecimento do povo, pois se consideravam os mais importantes. 3. “Gostam das primeiras cadeiras nas sinagogas”. Ocupavam as poltronas diante do cofre que guardava os livros sagrados. Essas situavam-se num lugar elevado, à vista de todos, de modo que o povo os identificava imediatamente como mestres. 4. “Gostam dos melhores lugares nos banquetes”. Ocupavam os lugares perto do festejado, onde havia confortáveis almofadas. Pura ostentação.

     A essas alturas podemos intuir o contraste com o episódio da viúva. Ela se vestia como pobre, não era reconhecida nas praças senão por sua pobreza e abandono, não tinha cadeira cativa nas sinagogas, nem era convidada aos banquetes, e o que tinha para sobreviver era muito pouco ou quase nada (cf. I leitura).

     O mais grave de tudo isso é que, em nome da religião, os doutores da Lei exploravam as viúvas e os pobres. De fato, era tarefa deles servir de apoio legal às  viúvas. Porém, faziam isso “piedosamente”, exigindo pela prestação de serviço um pagamento tal que as viúvas, muitas vezes, tinham que ceder-lhes a propriedade. É o próprio Jesus quem afirma: “Exploram as viúvas e roubam suas casas, e para disfarçar fazem longas orações” (v.40a).

 

    Muitas vezes se fez pensar que esse texto do Evangelho de hoje trata de um elogio de Jesus à viúva por sua generosidade. Tal interpretação é discutível. Alguns exegetas discordam dela com base, sobretudo, nas críticas que Jesus faz ao templo. Em Marcos 13,1-2 um dos discípulos elogia a beleza do templo e Jesus responde que o templo seria destruído e não sobraria pedra sobre pedra. Após o paralelo do Evangelho de hoje, Lucas 20,45 até 21,4, o mesmo elogio ao templo e a mesma resposta de Jesus aparece logo em seguida, em Lc 21,5-6. Concluem então que Jesus não quis elogiar a viúva por ter dado ao templo tudo o que possuía para viver. O que ele quis, dizem eles, foi denunciar a iniqüidade de um sistema religioso explorador da viúva.

     Podemos comparar essa viúva do Evangelho com a viúva se Sarepta. Esta última deu ao profeta Elias tudo o que possuía, isto é, um punhado de farinha e um pouco de azeite. Como resultado dessa oferta não lhe faltou pão. Pão que foi partilhado junto com o profeta. Já a oferta da viúva no templo não vai para as mãos de gente como o profeta Elias, mas para os que devoram as casas das viúvas. O templo deveria atualizar a ação de Elias, mas ele transformou-se num “covil de ladrões”.

     O primeiro livro de Macabeus, em seu capítulo 4, mostra a importância que os judeus que resistiram heroicamente na guerra macabaica deram à reconstrução do templo e a sua reconsagração. Mas o templo que Jesus vê é um centro de exploração e enganação. Interessante notar que Jesus, após anunciar a destruição do templo, não diz que depois deveriam reconstruí-lo. O novo templo é o próprio Jesus, que tomará o lugar do templo. E após sua morte e ressurreição, o culto ganha uma nova configuração, conforme mostra a segunda leitura de hoje, da Carta aos Hebreus.

     Voltemos ao Evangelho de hoje, para comentar mais um detalhe. Diz ainda José Bortolini em seu Roteiro Homilético, p.34:

 

     Jesus está no Templo e observa como a multidão deposita moedas no cofre. Marcos observa que muitos ricos davam muito (v.41b). As ofertas serviam, provavelmente, para o culto. Os especialistas dizem que um sacerdote de plantão acolhia essas ofertas e proclamava a quantia que cada um depositava. Nesse momento, o ego dos ricos atingia picos elevados de exaltação. Além disso, crendo que a abundância de bens era sinal da bênção divina, sentiam-se privilegiados.

 

     Fato tão antigo e tão semelhante ao que acontece hoje. O pastor pergunta: “Quem pode dar mil?” E alguém dá esse valor (Às vezes é até combinado). “Agora quem pode dar quinhentos venha até aqui”. “E quem pode dar trezentos?” E vai abaixando o valor e intimidando os presentes. É lamentável!

     Para terminar, permito-me voltar ao profeta Elias. Ele pede a viúva de Sarepta para lhe dar o pouquinho de farinha e azeite que lhe restava para esperar a morte. Ela deu. Passou no teste. E veio a solução. E tirar a seguinte lição. Hoje, se cada pobre se fechar com sua miséria, será a ruína. Mas se cada um pensar no outro, colocar em comum o que possui, trabalhar junto com os outros pela sobrevivência na seca (ou talvez enchentes), pela superação da fome, da miséria, da violência, do desemprego, da doença, numa economia solidária, então tudo se resolverá.

Sermão para o 2° Domingo Comum, Ano C

Postado em 26/7/2011 em 04:35 PM

Sermão para o 2º Domingo Comum, Ano C

(Is 62,1-5/Sl 95/ 1 Cor 12,4-11/ Jo 2,1-11)

 

 

     Quando preparávamos a celebração de hoje sugeri colocar em lugar bem visível algo que sirva como símbolo da temática da liturgia da palavra de hoje. Sugeriram usar duas argolas representando a aliança, semelhantes às que se usa nos casamentos, mas em tamanho maior. Impressionou-me que gente de bem menos estudo bíblico que eu tenha acertado tão bem nessa escolha. De fato a primeira leitura de hoje, que é do profeta anônimo chamado Terceiro Isaías, descreve a chegada de um novo tempo, que seria de justiça e salvação, usando imagens de um casamento. Diz, por exemplo, que assim como a noiva é a alegria do noivo, o povo seria a alegria de Deus (v.5). Diz que a cidade de Jerusalém, que ele trata como uma noiva está “abandonada” (v.3) e “desamparada” (v.12). Era o início do período chamado pós-exílico, isto é, logo depois que o povo voltou do exílio da Babilônia. O rei Nabucodonosor, antes de levar a população para o cativeiro, havia destruído a cidade. O profeta sente que Jerusalém e toda a Judéia estão desamparadas. Perguntava-se se Deus havia anulado a aliança com seu povo. Isaías responde que não. Diz José Bortolini em seus roteiros homiléticos em Vida Pastoral, jan/fev. 1995, p. 40-43: “Há um Deus que faz justiça e se posiciona ao lado dos sofredores, libertando-os, amando-os e protegendo-os como o esposo ama e zela por sua esposa”. E diz ainda “A noiva de Javé é a comunidade dos sofredores. Deus optou por eles para mudar-lhes a sorte, transformando o desamparo e abandono em predileção particular (“Minha querida”), unindo-se para sempre com eles de modo original e único (“Desposada”, v.4). O profeta da esperança e da reconstrução, para marcar a opção de Deus pelos enfraquecidos e explorados, não encontrou termo de comparação mais forte que o do noivado e casamento entre Deus e seus aliados. Javé é o Deus que faz justiça, e esta não tarda a chegar, pois já desponta como a aurora. A ação de justiça divina é como o casamento de Deus com o seu povo: “O Senhor se agradou de ti, e tua terra há de ter o seu esposo” (v.4b).  Realizado o casamento, vem a lua-de-mel e, com ela, iniciam os sinais de vida nova: “Como um jovem que desposa a bem-amada, teu Construtor, assim também, vai desposar-te; como a esposa é a alegria do marido, serás assim, a alegria do teu Deus” (v.5). O profeta da esperança e da reconstrução não se contenta em afirmar que a aliança entre Deus e o povo sofrido é o reatar relações rompidas pelo pecado e abandono da comunidade. Para ele o amor divino é sempre novo, como o primeiro amor de um jovem por sua amada. A comunidade, apesar de suas infidelidades, é jovem cheia do fogo do amor primeiro. As ruínas do passado não são mais recordadas, pois o esposo reconstrói completamente a comunidade, sentindo por ela o mesmo prazer, alegria e felicidade de dois apaixonados que, finalmente, se encontraram na doação plena”.

     Analisemos agora o Evangelho de hoje, que também corresponde ao texto de Isaías. Costumo sempre fazer a sinopse do texto, isto é, ver os paralelos dele nos outros Evangelhos canônicos. Em geral as sinopses colocam esse texto de João sem paralelo nos outros. Mas há os que vêem certo paralelismo em Mc 2,18-22:

     Estando os discípulos de João e os fariseus a jejuar, foram dizer-lhe: Por que, enquanto os discípulos de João e os discípulos dos fariseus jejuam, os teus não jejuam? Jesus lhes respondeu: Acaso convém aos convidados para um casamento jejuar enquanto o esposo está com eles? Enquanto o esposo está com eles, não lhes convém jejuar. Mas virá o tempo em que lhes será tirado o esposo. Naquele dia, então, jejuarão.  Ninguém costura um remendo novo em roupa velha; do contrário, o remendo novo, encolhendo rasga a roupa velha, e o rompimento fica ainda pior. Ninguém põe vinho novo em odores velhos; do contrário, o vinho rompe os odres e tanto os odres como o vinho se perdem. Mas a vinho novo, odores novos!

     Depois costumo decodificar os símbolos que aparecem no texto.

     Digamos que esse texto do Evangelho de hoje, chamado Bodas de Caná, é litúrgico e catequético. Litúrgico porque inspirado no contexto de celebração. Se ele diz que a mãe de Jesus estava lá e que Jesus e seus discípulos estavam lá, podemos também dizer que hoje eles estão aqui.

     É catequético pelo que nos ensina. Ensina que a imagem de Jesus é a abundância. Abundância de pão, de peixes, agora de vinho. O pão e o vinho são Jesus. O vinho que vem depois é melhor. O amor de Jesus (o vinho) suplanta a lei antiga (as talhas de pedra vazias).

     Mas examinamos melhor cada detalhe, antes lembrando que só entendemos bem o texto se levarmos em conta o gênero literário chamado “midráxico” (retomada) ou o que alguns exegetas chamam de “profecia historicizada”. O Evangelho de hoje retoma o capítulo 1 do livro Gênesis, onde a humanidade foi criada no sexto dia. No sétimo dia Deus conclui a criação e então descansa. Agora, com Jesus, acontece uma nova criação e uma nova aliança. As seis talhas de pedra de que fala o Evangelho lembram os seis dias da semana. A sétima talha é Jesus. É nele que está a conclusão, o descanso. Ele é o noivo. É ele o motivo da festa, como diz Lc 18,22.

     Com freqüência no Antigo Testamento a aliança com Deus é comparada a um casamento. O Evangelho de hoje trata de um casamento onde falta vinho. É um casamento sem alegria. Por quê? Porque ainda não se reconhece o verdadeiro noivo. É interessante que em todo o texto desse Evangelho nada se fala diretamente do noivo e da noiva. Esse detalhe quer mostrar que o noivo é Jesus e a noiva são todos os convidados. E somos também nós. Não havia vinho na festa. O que havia eram seis talhas vazias para o rito de purificação que os judeus costumavam fazer. O que sustentava a antiga aliança eram os ritos de purificação. A religião judaica era ritualista. A antiga aliança faliu, caducou. A religião judaica era como um casamento sem vinho. Com Jesus é que viria o vinho. E da melhor qualidade.

     Quem provoca a busca de solução é uma mulher, Maria, a mãe de Jesus. O Evangelho de João é mais ministerial. É uma mulher que tem a iniciativa. Mas por que, pergunta-se muito, Jesus chama sua mãe de “mulher”? O evangelista escreveu assim para lembrar Gn 3,15, onde Eva é chamada mulher. Maria é a nova mulher, é a nova Eva.

     A resposta de Jesus é ríspida: “Mulher, por que dizes isto a mim?” (Jo 2,4). Como também é ríspida a resposta de Jesus em Lc 2,49: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo estar na casa de meu pai? E Lc 11,28, onde alguém diz a Jesus que é feliz quem o gerou e amamentou e ele respondeu: “Felizes, antes, os que ouvem a palavra de Deus e a observam”. É como hoje quando, diante de uma afirmação própria do senso comum, pedimos a busca de um pensamento mais profundo. E quando Jesus diz “Minha hora ainda

 

não chegou”(v.4) ele se refere a sua glorificação. Em Jo 19,25-27 se dirá que a partir daquela hora o discípulo amado recebeu Maria em sua casa. Aqui Maria faz antecipar a glorificação. Em Jo 19,25-27 se dirá que a partir daquela hora o discípulo amado recebeu Maria em sua casa. Aqui Maria faz antecipar a glorificação de Jesus.

     A resposta ríspida de Jesus a Maria talvez pudesse ser interpretada assim: “Não estou me importando com essa festa”. Tal festa simboliza a religião antiga. Jesus não veio para remendar a lei antiga. Como se diz em Mc 2,21: “Não se põe remendo de pano novo em roupa velha e nem vinho novo em barris velhos. Como diz José Bortolini no roteiro homilético já referido: “O vinho novo não provém das talhas de pedra (que representam a antiga Lei), mas é transformado longe delas (v.9). Jesus põe a graça no lugar da Lei. “Inaugura o novo relacionamento entre Deus e a humanidade”.

     A segunda leitura, da primeira Carta de Paulo aos Coríntios também pode ser entendida a partir desse critério. A comunidade de Corinto não havia assimilado bem a vida nova que vem de Jesus. Reproduzia internamente os erros da corrompida cidade de Corinto. Havia os que se deixavam levar pela vaidade no exercício de seus carismas. Paulo ensina a corrigir esse equívoco.

     Desses textos bíblicos, que mensagens podemos tirar para hoje? Será que a nossa religiosidade não é ritualista e caduca? Ela se baseia no amor? Colocamos a graça acima da letra? O nosso relacionamento com Deus e com o próximo faz nossa fé ser atraente? Reproduzimos o sistema ou somos gente nova, novas criaturas que se alimentam com o vinho novo que é Jesus? Numa sociedade tão marcada pelo individualismo e egoísmo, pela massificação e banalização, saibamos transmitir aos outros uma comunhão de vida no verdadeiro amor.

 

 

 

Sermão para o 3º Domingo Comum, Ano C

Postado em 26/7/2011 em 04:31 PM
Sermão para o 3° Domingo Comum, Ano C
(1Cor 12,12 – 14,27 / Lc 4,14-21)
 
     Enquanto eu refletia a partir das leituras bíblicas de hoje, lembrei-me de um padre que conheci, que trabalhou como missionário entre os índios. Contou ele que, num dos lugares onde atuou, sua equipe resolveu ensinar os índios a jogar futebol. Quando terminou o segundo tempo, e o juiz apitou, eles não aceitaram parar porque a contagem dos gols estava em 4 a 3. Continuaram jogando até dar 4 a 4 e então pararam. Foi aí que os missionários perceberam que, naquela comunidade onde tudo foi sempre dividido igualmente, também o resultado de um jogo tinha que ser assim. Continuaram a jogar futebol, mas o jogo sempre terminava empatado. Não quero dizer que nós tenhamos que ser exatamente desse modo. Mas poderíamos aprender um pouco mais com aquela gente. Nossa sociedade está muito competitiva. O programa de televisão com mais audiência atualmente é aquele em que se pergunta: Quem será eliminado? Imaginem se nesta celebração fossemos eliminando um por um os participantes até sobrar só o mais bonito. Mas o nosso método é de acolhida e inclusão sem discriminação.
     Na segunda leitura de hoje, vemos em 1Cor 12,13: “Todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito”.
     Na primeira leitura, Ne 8,2-10, vemos Esdras e Neemias animando o povo que voltou do exílio para um projeto de reconstrução.
     Mas é, sobretudo, em Isaias que Jesus encontra inspiração para o seu programa de vida. Diz que o espírito do Senhor o enviou para favorecer os pobres, os cegos, os cativos, os oprimidos e, finalmente, para proclamar o ano da graça do Senhor. Esse ano, segundo a tradição, aconteceria depois de cada sete vezes sete anos como ano jubilar e nele seriam perdoadas as dividas e devolvidas as propriedades perdidas por dividas. Esse ano da graça nunca foi colocado em prática pelo povo da Bíblia, mas permanece até hoje como ideal.
    Tão distante desse ideal é o modelo do atual sistema em nosso país, reforçado pela mídia. Uma modelo brasileira, só porque é bonita ou tida como tal, acumulou uma fortuna de 150 milhões de reais. O prêmio da loteria está acumulado em 52 milhões de reais. Por que tanto dinheiro para um só? A renda deve ser distribuída e não concentrada.

Sermão para o 5º Domingo Comum, Ano C

Postado em 26/7/2011 em 04:22 PM
Sermão para o 5º Domingo Comum, Ano C
(Is 6,1-2a.3-8 / 1 Cor 15,3-8.11 / Lc 5,1-11)
 
 
     Jesus não trabalhou sozinho. Formou uma equipe, uma comunidade de gente que ficou conhecida como “os discípulos de Jesus”. Pela tradição das doze tribos de Israel, os autores dos Evangelhos Canônicos, Marcos, Mateus, Lucas e João, deram destaque a doze desses discípulos. Vemos por esses evangelhos que Jesus não escolheu seus discípulos dentre os doutores da lei, escribas, saduceus ou fariseus. Não os escolheu dentre os considerados sábios e entendidos. Diz um ditado que Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos. O Evangelho de hoje, de Lucas, denomina três desses discípulos: Simão (chamado de Simão no início da perícope e, depois Simão Pedro), Tiago e João, numa pesca da qual parecem participar mais gente, pois o versículo 9 diz que “o espanto se apoderara de Simão e de todos os seus companheiros”. O v.10 diz que “Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão, também ficaram espantados”. Estabelece-se como sinopse Mt 4,18-22 / Mc 1,16-20 / Lc 5,1-11 / Jo 21,1-23. Os quatro têm consideráveis diferenças um do outro. O texto de Mateus, com apenas cinco versículos, denomina “Simão, chamado Pedro, e seu irmão André” (Mt 4,18). E o v. 21 diz: “Continuando a caminhar viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, no barco com o pai Zebedeu”. O texto de Marcos, também de apenas cinco versículos, diz que Jesus, “Junto ao mar da Galiléia viu Simão e André” (Mc 1,16). O texto de João é bem mais longo que os outros três e coloca o episódio depois da ressurreição e no final do Evangelho, o que poderia parecer estranho se não soubéssemos que o texto é uma construção literária, pois se esses homens deixaram os barcos logo que começaram a seguir Jesus, como os teriam depois da ressurreição de Jesus? Esse texto denomina mais pessoas. Diz ele que “Estavam juntos Simão Pedro e Tomé (...), Natanael (...), os filhos de Zebedeu e dois outros de seusdiscípulos” (Jo 21,2). O Evangelho de João também faz uma referência ao número de peixes que apanharam: cento e cinqüenta e três peixes grandes, uma referência a todas as nações conhecidas.
      Mas voltemos ao texto do Evangelho de hoje, Lucas, e falemos de Pedro, Tiago e João como pescadores ainda de peixes e não ainda de gente. Não deve ter sido fácil para eles adquirir barcos e formar uma cooperativa de pesca. Eram gente pobre, da Galiléia, da periferia. Não tinham grande coisa. O que podiam fazer? As terras boas de cultivo ficaram nas mãos dos ricos. Trabalhar na terra seria uma opção pior, pois essas terras ficaram nas mãos dos ricos, exploradores. Simão, Tiago e João eram homens de um povo que se considerava nação santa, povo escolhido. Mas naquelas alturas, depois de tantas derrotas, com o império romano no auge, só restava alguma esperança num messias que viria. Um novo Davi? Um salvador da pátria? Viria mesmo? Quando viria? Vários já haviam dito ser o messias e não levaram a nada. Melhor mesmo era cuidar da vida. Vamos pescar que a gente ganha mais. No final de uma noite em que eles nada haviam pescado, em que o mar não estava para peixe, de madrugada, apareceu Jesus. Imagino que ele tenha convidado a muitos para segui-lo e muitos disseram não acreditar nele. Esse aí é o filho de José, o carpinteiro. Conhecemos sua mãe e seus irmãos. O verdadeiro messias, quando vier, ninguém saberá de onde veio, diziam. Dirigindo-se a Simão, depois de ter falado às multidões, ensinando-as, diz-lhe Jesus: “Avança para águas mais profundas e lançai vossas redes para pesca” (v.4). Ou conforme a tradução da Bíblia de Jerusalém: “Faze-te ao largo”. Referindo-se à pesca de peixes esse talvez não fosse um bom conselho, visto os perigos das águas profundas, e fosse mais aconselhável voltar para casa sem peixes e tentar novamente em outro dia, mas aqui já se quer representar a pesca de pessoas. Nela é necessário um aprofundamento.
     Ao lecionar filosofia dizemos aos alunos: “Avencem para além do senso comum”, “abram horizontes”, ou “sejam críticos”. Lembro uma canção que se tornou muito popular. É de um cantor e      134 compositor que pode não ter sido bom exemplo em tudo e até morreu dependente de drogas. Mas essa canção diz muito:
 
 Maluco Beleza – Raul Seixas - Enquanto você se esforça prá ser/ Um sujeito normal/ E fazer tudo igual/ Eu do meu lado aprendendo a ser louco/ Maluco total/ Na loucura real/ Controlando minha maluques/ Misturado com minha lucidez/ Vou ficar/ Ficar com certeza maluco-beleza/ Eu vou ficar/ Esse caminho que eu mesmo escolhi/ É tão fácil seguir/ Por não ter onde ir/ Ficar com certeza...
 
     E pergunto: O que significa ser normal? Ser normal é ficar num barzinho barulhento, conformado, ouvindo cantar “Sete mulheres prá cada homem”, “Beber-cair-levantar”, “Eguinha pocotó”, “Créu, creu, creu”? Pois me pareceu banal esse ambiente onde dizem haver sete mulheres para cada homem. Um parente meu que bebia, caia e levantava, bebeu, caiu e não levantou mais. E questionei se o “créu” não seria entendido mais apropriadamente como o ato sexual do animal uma vez que a sexualidade humana pode se ligar ao amor sublime. Se ser normal é conformar-se em respirar um ar cada vez mais poluído, ajustar-se a uma economia que transforma o mundo num grande cassino, assistir passivamente à destruição das riquezas naturais, então prefiro ser louco.
          Jesus convidou aqueles homens para deixar de serem normais, pescar, e fazer uma loucura, ou seja, fazer o que era loucura aos olhos dos homens. Ser pescadores de gente. Antes havia dito para pescar em águas mais profundas. Podemos dizer que para pescar gente é necessário avançar para as águas profundas. Os fariseus pescavam gente com as caduquices da lei. Os discípulos de Jesus devem agir como eles? Não! Avancem para águas mais profundas! Eles tiveram motivo para deixar a profissão de pescadores. Encontraram o Filho de Deus. Isso aconteceu e acontece na madrugada da vida. Por mais escuro que seja a noite, depois dela vem a madrugada. Por mais difícil que seja a vida social, vem Jesus Cristo, na madrugada da ressurreição. Ele vem como o salvador da humanidade e nós, que nos alimentamos dele, devemos fazer o que ele fez. “Em resposta à Palavra de Jesus, lançaremos as redes”.
 
 

Sermão para o 6º Domingo Comum, Ano C

Postado em 26/7/2011 em 04:19 PM
Sermão para o 6º Domingo Comum, Ano C
(Jr 17,5-8/Sl 1/Lc 6,17.20-26/1 Cor15,12.16-20)
 
     Com a equipe de liturgia de minha comunidade, preparando a celebração do 6° domingo do tempo comum, pensamos nalguma coisa que servisse de símbolo para essa missa. Inspirados na leitura de Jeremias (17,5-8) e no evangelho das bem-aventuranças e maldições pensamos num pequeno cenário representativo. De um lado uma fruta partida em duas partes e um pão fatiado. De outro lado cartões de crédito, talões de cheque, cédulas de dinheiro e objetos dourados. Se a primeira leitura diz que é infeliz quem confia no homem e feliz quem confia em Deus quisemos nós, traduzindo, dizer com a imagem que é infeliz quem confia no capital e feliz quem confia na partilha ou, poderíamos também dizer, numa concepção de Deus que favorece a partilha.
     E antes de comentar o salmo do dia, o salmo 1, que foi inspirado em Jr 17, 5-8, lembrei-me de um outro salmo, o 127, aquele que diz: “Se o Senhor não construir a casa, em vão trabalham os que a constroem. Se o Senhor não guarda a cidade, em vão vigiam os sentinelas”. Depois de estudá-lo com explicações de Carlos Mesters, eu o traduzi da seguinte forma:
     “Se não é Deus que constrói a sociedade/em vão trabalham os seus construtores. Se não é Deus que guarda a cidade/ em vão vigiam os guardas/ Levantamos de madrugada e vamos deitar tarde/ para comer o pão sofrido. Se formos todos verdadeiros amigos de Deus/ Ele nos dará o pão até enquanto estivermos dormindo/ Não precisaremos poupar ou fazer investimentos financeiros./ Pois a segurança estará nos filhos”.
     O trecho de Jeremias (Jr. 17,5-8) que serve como primeira leitura de hoje é, segundo José Bortolini, em Vida Pastoral, jan/fev 1995, Ed. Paulus, Roteiros homiléticos, p. 57, um acréscimo ao livro, pois está deslocado. Diz ele ainda que foi colocado aí porque “Jeremias é um dos profetas que mais desmascara as falsas seguranças pessoais e sociais. Nesse sentido, a inserção desses versículos, que inspiraram o salmo 1 é uma crítica das tentativas de aliança de Judá com as grandes potências internacionais da época e de todos os tempos”.
     A dependência de poderes militares, alianças políticas, reis, governantes ou, diríamos hoje, sistemas econômicos, bancos, “marketing” é uma ilusão. Há só uma dependência que promove a vida, a dependência de Deus. Quem “confia” em Deus, diz o salmo 1, “é como uma árvore plantada junto de um rio” (Sl 1,3), cujas raízes se alimentam dessa água corrente. E “essa árvore não tem medo do colar e sua folhagem continua sempre viçosa. Mesmo em tempo de seca não se preocupa nem para de dar frutos” (Jr 17,8). O verbo confiar (fiar com) tem o significado de lançar o fundamento para um bom convívio social. Quanto ao que põe sua confiança em outro homem e não em Deus, a primeira leitura de hoje começa chamando de “infeliz” em algumas traduções bíblicas e, em outras, de “maldito”. Ou, talvez, “desgraçado”.
     Voltando ao salmo 127, aqui citado, ele diz que a quem nele confia Deus lhe dá o pão enquanto ele dorme e que sua segurança está nos filhos. Costumo dizer que muitas vezes se procura a ajuda de um banco porque a família ou nunca foi verdadeiramente unida ou foi destruída pelo individualismo e ganância. Quem dera fosse a sociedade ou o governo (que talvez pudesse ser chamado socialista) que evitasse se ter de recorrer aos bancos (já que o sistema bancário capitalista é impiedoso, sem coração). Conheço famílias em que um irmão ajuda financeiramente o outro emprestando sem cobrar juros e sem ser intolerante e nenhum recorre a bancos.
     Cartões de crédito, cheques, seguros, ouro, limites de crédito, investimentos financeiros... O sistema leva muitos a depender disso, em muitos casos até com aberrantes exageros. Leva muitos a comprar, a gastar antes de ter o dinheiro, a fazer crediários, a ser consumista e não ter um comportamento ecologicamente correto, a fazer demasiada questão de marca, estilo, aparência. Se eu puder me colocar como exemplo, direi que não uso cheque e nem cartão de crédito; quando não uso roupas da marca “semedão”, compro-as nos “brechós”. Um conhecido meu brincava (talvez com exagero) dizendo que sua roupa não lhe era tão ajustada porque “o defunto (do qual ele a pegou) era maior (do que ele)”. São ditos de oposição ao consumismo. Uma vez uma camisa nova e ainda na embalagem original foi colocada num bazar beneficente a um real e ninguém a comprou. Muitos compraram no “Shopping Center” a mesma camisa a uns vinte ou trinta reais. Eu tenho um cartão que utilizo para retirar, no banco, meu salário de professor. A atendente estranhou o fato de eu ter pedido para não ter limite (de crédito). Expliquei que, tendo o limite, se eu for apanhado num seqüestro relâmpago, ou tiver o cartão clonado, roubarão o que eu tenho e também o que eu não tenho. Até mudei de banco (do Santander–Banespa para a Nossa Caixa) porque o primeiro me ligava muito fazendo propaganda, ao ponto de que, quando me disseram que eu era cliente exemplar e que fui escolhido para indicar três pessoas para abrir conta lá, irritado, indiquei Jorge Bush, Saddan Houssein e Osama Bin Laden.
     O evangelho de hoje usa o termo “bem aventurado”. Algumas bíblias trazem a palavra feliz. Quem é feliz ou bem aventurado para Jesus? Antes de responder a essa pergunta, vamos analisar o texto fazendo a sinopse.
     O Evangelho de hoje, conhecido como o “das bem aventuranças” está em Lc 6,17.20-26 e tem seu correspondente em Mt 5,1-11. Está em Mateus e em Lucas com consideráveis diferenças entre um e outro. O de Mateus é o que pode ser chamado “sermão da montanha” e o de Lucas “sermão da planície”, já que o de Mateus diz em 5,1: “Vendo Jesus as multidões, subiu à montanha” e o de Lucas diz “Jesus parou num lugar plano (6,17) levantou os olhos para os discípulos e disse (6,20)”. Outras diferenças são apontadas por José Luiz Gonzaga do Prado em Roteiros Homiléticos, Vida Pastoral, Ed. Paulus, jan/fev 2010, p.58 e 59 (na internet está em www.paulus.com.br):
     Diferentemente do de Mateus, o Evangelho segundo Lucas tem bênçãos e também maldições. Em Mateus são oito bênçãos; aqui, são quatro bênçãos e quatro maldições. Em Mateus, as bênçãos são atribuídas a todos os que praticam o objeto da bênção; aqui as bênçãos de Jesus se dirigem diretamente aos discípulos e aos sofredores que lhes estão próximos.
     Em comum com Mateus, a bênção dos pobres, em Lucas, diz que deles é o reino de Deus (“é”, no presente), enquanto os que choram e os que passam fome, no futuro, serão saciados e consolados. A bênção dos perseguidos, em Mateus, é a mesma dos pobres (o reino de Deus no presente), mas, em Lucas, dirigida diretamente aos discípulos, ela lhes promete apenas a recompensa eterna dos verdadeiros profetas.
     Que significado tem o fato de a bênção dos pobres ser o reino de Deus já no presente? (...) que significado tem o fato de o reinado de Deus pertencer ao pobre (Lc) ou ao pobre por espírito (Mt)?(...)
     O resultado aparece no futuro: “Vocês dessas multidões que passam fome (realidade tão presente no tempo de Jesus) poderão se saciar; vocês que vivem chorando poderão rir”. O reinado de Deus vai chegar e os pobres é que vão realizar esse mundo diferente; deles “é” o reinado de Deus. Os próprios sofredores serão os sujeitos da transformação, os promotores do reinado de Deus.
     Lucas acrescenta também as maldições, no sentido oposto ao das bênçãos: ai dos ricos, dos fartos, dos que vivvem rindo, dos aplaudidos por todos. Ai dos vencidos (vae victis), dizia o general vitorioso; ai dos incompetentes, faz eco o deus Mercado. Ai dos competentes, dos que se dão bem neste mundo, desde os ricos até os aplaudidos por todos, diz Jesus.
     Vocês ricos, diz Jesus, já receberam seu conforto; agora – parece dizer – nada mais têm a esperar. Vocês que estão fartos vão passar fome; vocês que vivem rindo vão chorar; vocês, aplaudidos por todos, são falsos profetas.
     Tudo leva a pensar na recompensa escatológica, a que vem depois desta vida. Mas a referência aos falsos profetas aponta para uma razão mais profunda: o contraste entre o reinado de Deus e o outro reinado. Foi para o reinado deste mundo que o falso profeta contribuiu; por isso é elogiado por todos; por isso Jesus o chama de infeliz.
     Do meio dos pobres, Jesus chama discípulos e discípulas. Sobre esses pobres escreve José Luiz Gonzaga no mesmo texto citado:
     Na montanha ele passou a noite em oração e, ao clarear do dia, escolheu os doze apóstolos; agora ao descer para a planície, encontra os outros discípulos e multidões de sofredores vindas de todas as partes.
     O versículo 17, início do texto deste domingo, fala desses outros discípulos e das multidões de israelitas (da Judéia e de Jerusalém) e de não israelitas (de Tiro e Sidônia). Os versículos omitidos (18 e 19) caracterizam melhor quem são essas multidões: doentes e atormentados por espíritos impuros, que procuravam cura.
     Essas doenças e tormentos de espíritos impuros (doenças mal conhecidas ou de ordem psicológica) eram conseqüências da situação miserável em que a maioria da população vivia; da fome, das dívidas e das situações sem perspectiva que atormentavam a quase todos.
     A atração exercida por Jesus, a esperança que ele transmitia eram tais, que todos queriam pelo menos tocar nele. As multidões sofredoras procuram em Jesus uma saída, uma esperança, uma perspectiva melhor para suas vidas (...)
     Muitas mensagens transmitidas pela televisão em propagandas comerciais, programas de auditórios, etc. fazem parecer que é mais feliz quem é mais bonito fisicamente ou tem o padrão de beleza estabelecido, quem tem mais fama, poder, dinheiro... Não é isso que leva à verdadeira felicidade. Às vezes se tem a notícia de alguma pessoa bonita, famosa e rica que se suicidou ou que está envolvida com drogas. E Jesus não disse bem aventurados os mais bonitos, famosos, ricos, poderosos. Aquelas pessoas que se tornaram discípulas de Jesus não tinham nada dos bens deste mundo, mas estavam com Ele. E receberam as chaves do Reino Deus, a única fonte da verdadeira felicidade. Assim na terra como no céu vem nós o Reino de Deus por meio dos pobres. Aprendemos com a necessária teologia da libertação a ver o pobre não apenas como categoria sociológica, mas como realidade teológica. Deus fala através dos pobres que vivem os valores da teologal esperança. Ricos rejeitaram Jesus, iludidos pelo seu dinheiro. Pobres o acolheram e se identificaram com ele. Sejamos felizes lançando nossas raízes em Jesus como a árvore plantada junto a um rio lança suas raízes nas águas correntes e inesgotáveis.

 

Sermão para o 7° Domingo Comum, Ano C

Postado em 26/7/2011 em 04:17 PM
Sermão para o 7º Domingo Comum, Ano C
 
 
 
      Houve na história da filosofia os que afirmaram como Jean Jacques Rousseau, que o homem é naturalmente bom e os que afirmaram, como Thomas Hobbes, que o homem é naturalmente mau. Tomamos o cuidado de não cair no erro dos “cristãos” fundamentalistas que apressadamente utilizam trechos descontextualizados da Bíblia para responder a questões filosóficas e sociológicas. Mas uma afirmação da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios nos parece fundamental: “O primeiro homem, Adão, foi um ser vivo. O segundo Adão é um espírito vivificante. Veio primeiro o homem natural; depois é que veio o homem espiritual” (1 Cor 15, 45-46). O homem não é por natureza o que Paulo chama de espiritual. Se considerarmos que a base dessa espiritualidade é o amor, a nova Lei instituída por Jesus, diremos que é principalmente o amor que não é natural. O amor é um aprendizado longo, constante, difícil, que vai além da naturalidade. É natural sentir raiva dos que praticam a violência. É natural odiar os ladrões, os estupradores, os assassinos. Não nos parece nada natural fazer o que manda o Evangelho de Jesus Cristo: “Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam (...) Se alguém te bater numa face, oferece também a outra” (Lc 6, 27).
      Essa máxima de Jesus de oferecer a outra face muitas vezes tem sido interpretada com passividade e resignação. Mas tal não foi o comportamento de Jesus. O seu perdão foi transformador. No contexto da estrutura da sociedade em que ele viveu o seu amor ao inimigo foi altamente subversivo. A sua atitude de oferecer a outra face foi uma arma contra um sistema que oprime e corrompe. A atitude pregada no Evangelho de Jesus de oferecer a outra face é, não uma passividade, mas uma atitude contra o pecado do pecador, contra a agressão do agressor. Quem devolvesse uma bofetada recebida estaria aprovando tal atitude; estaria consagrando esse método. Porém não devolver a bofetada recebida é só a metade da resposta. Qual seria a outra metade?
      O autor bíblico do capítulo 26 do Primeiro Livro de Samuel deixou um exemplo bem ilustrativo. Saul, rei opressor e impopular, perseguia o novo líder, Davi, com três mil soldados escolhidos. Davi e seu ajudante penetram à noite no acampamento onde Saul dorme, bem como todos os seus soldados e tem sua lança à cabeceira, fincada no chão. Davi não permite que o ajudante crave Saul em terra com uma lançada, mas leva sua lança e depois avisa a Saul para mandar alguém buscá-la. Essa é a sabedoria da história: não matar o inimigo, mas desarmá-lo. E assim desmascará-lo. Ele não tinha o poder que julgava ter.
      Não é sabia a atitude atual dos que, em nossa sociedade tão violenta, incitados pelas sensacionalistas reportagens policiais de televisão, defendem a pena de morte e, sem reflexão, condenam os chamados “defensores dos direitos humanos dos bandidos” tidos erroneamente como defensores da impunidade e até como defensores do crime. Nisto consiste a atitude dessas pessoas: odiar os que amam. Esses, os que amam, não querem matar os inimigos, mas desarmá-los. Desarmar num sentido bem amplo e desarmar, sobretudo, os “amigos” que alimentam um sistema que gera os “inimigos”.
      Diante de todas as formas de discriminação, racismo e violência, o que significa oferecer a outra face?
      Uma pessoa que tão bem interpretou e aplicou esse ensinamento nem foi exatamente “cristão”. Foi o indiano Mahatma Gandhi. Ele pregou um método ao qual chamou “satyagraha”, que entre nós tem sido chamado “não-violência-ativa”. Seu método incluía a desobediência civil, a denúncia permanente junto aos meios de comunicação e o exemplo da própria conduta.
      Gandhi percebeu que, em certas situações, apanhar dá mais resultado que bater. Imagino-o, já na África do Sul, diante de uma praça onde só podia passar quem era branco ele, que era moreno e considerado negro, dialogando com um amigo: “O que acontecerá se eu por ali andar?” O amigo responde: “Vai apanhar do guarda”. Ele acrescenta: “E se eu passar, mesmo apanhando? E se mais alguém fazer o mesmo junto comigo? Se muitos resolverem ter junto a mesma atitude, será que não conseguiremos mudar a lei?”.
      De fato, Gandhi conseguiu grandes conquistas com manifestações que seriam fracassadas se um só dos participantes atirasse uma pedra.
      Mas, para não aparentar a pretensão de esgotar o assunto, voltemos à questão inicial: O homem é naturalmente bom ou é naturalmente mau? E ajuntemos outras perguntas: Ser violento significa ser mau e não ser violento significa ser bom? A violência é natural? Se é, como administrar essa naturalidade? O que significa oferecer a outra face? Lembremos que Mahatma Gandhi nunca atirou alguma pedra uma vidraça e nunca deu um soco em alguém, mas comandou publicamente a queima de roupas estrangeiras e disse que assim estava transferindo para as coisas o rancor para com os homens. E que Jesus Cristo não se esquivou da cruz deixando de falar duro com os opositores para poupar o seu povo de assistir uma cena desagradável.
 
 

Sermão para o 11° Domingo Comum, Ano C

Postado em 26/7/2011 em 04:16 PM
Sermão para o 11° Domingo Comum, Ano C
 
( 2Sm 12,7-10.13/Sl 31/Lc 7,36-50/ Gl 2,16-19-21 )
 
 
 
 
Começo a reflexão de hoje recordando alguns fatos a partir de um artigo de Hélio e Selam Amorim, publicado na revista “Fato e Razão” em maio de 2006. Com ele pretendo mostrar como é, no Brasil, a diferença de tratamento entre ricos e pobres.
Jornalista emérito. Sexagenário. Brigou com a namorada jovem. Decide matá-la. Planeja. Arma-se. Prepara a emboscada. Escolhe o haras e hora para a espera certa. Ela não sabe. Chega como sempre. Amante de cavalos. Confronto cara a cara. Surpresa! Ameaça. Arma apontada. Fuga desesperada. Dois tiros pelas costas. Vítima no chão de sangue. Tiro de misericórdia a 35 centímetros da cabeça. Testemunhas assustadas. Socorro inútil. Arma no bolso. Volta ao carro. Frieza. Arranque , marcha engrenada, acelerador, volante girado para a fuga. Sem pressa. Serviço perfeito. Volta ao lar. Assassino confessa. Impossível negar. Crime hediondo. Motivo torpe. Vítima indefesa. Tiros pelas costas. Confiança na justiça injusta. Advogados hábeis. Família vitimada emocionalmente destroçada. Lesões psicológicas irrecuperáveis. Inquérito sobre o óbvio. 5 anos, 8 meses, 14 dias de espera. Inquérito sobre evidencias. Evidências são evidencias. Não reclamam meia década de perguntas óbvias para resposta óbvias. Advogados ativos. Caros. Despesas visíveis e invisíveis. Principalmente invisíveis. Finalmente o tempo tardio. O dia chega. Tribunal de Júri. Julgamento. Batalha verbal. Promotor e Defesa. Três dias, 34 horas. Tensão. Multidão na rua. Na espera. Jurados reunidos. “Culpados”. Goleada esperada. Sete a zero. Sentença esperada. 19 anos, 2 meses 12 dias.
Desfecho surpresa. Juiz decide:” Já para a casa”. Sem algemas. Sem escolta policial. Longe das grades. Carros esperando. Volta ao lar. Cabe recursos contra a goleada. Mais um ano de liberdade garantida. Suficiente para chegar a idade do privilégio.
Septuagenário. Direito a redução de pena.Atestados médicos reclamarão prisão domiciliar. Mais confortável. Grades estão reservadas. Exclusivas para pobres.
Furtaram pote de manteiga. Afanaram xampu em supermercado. Cadeia neles!
São Paulo 2006. Dia das mães. Os bandidos atacam a policia. Matam e são mortos. Em 48 horas, 70 vítimas fatais e dezenas de feridos. 41 policiais e muitos civis assassinados. Um bombeiro, há dez anos dedicado a salvar vidas, jaz estupidamente assassinado em frente do quartel. Rebeliões explodem ao mesmo tempo em dezenas de penitenciárias do Estado. Tudo coordenado.
A polícia perde o controle da situação. Dias seguintes, prossegue a guerra. Chegam a centenas de mortos. Dezena de ônibus incendiados. O Iraque é ali. As cenas são tragicamente cinematográficas.
Reação policial vem feroz. Numa madrugada 33 pretensos bandidos mortos. O quarto dia, o coronel garante: “Vamos matar de 10 a 15 bandidos por dia, dentro da lei”. Cumpre. No sexto dia, já são 107 bandidos mortos. Ninguém entende como é possível planejar um extermínio legal.
A população está apavorada. Pede mais polícia. Quer exército nas ruas. Os ânimos estão exaltados, querem enfrentamento. O governador diz que está tudo sobre controle. Revela-se que houve um acordo com os bandidos presos, que comandam as ações com celulares de dentro da cadeia. As rebeliões param ao mesmo tempo, comprovando o acordo.
 Os presos rebelados têm advogados. Ele diz: Basta parar os maus tratos, a super-lotação nas celas, comida comível, garantia de que as famílias estão bem, com as crianças na escola e a saúde atendida. Só querem isso. E televisão para assistir à Copa.
Autoridades explicam: para abrigar os 370 mil presos do país falta construir 130 grandes penitenciárias. Quando?
Fotografias de prisões apinhadas de presos amontoados são publicadas há anos. Parecem animais em agradados a caminho do matadouro. Confinamento durante meses e anos nessas condições, os ódios se acumulam. Homens que já não eram exemplos de cordialidade ao chegar vão-se transformando em monstros. Basta pensar três minutos para se ter a certeza de tratar-se de um barril de pólvora. Estamos sentados em cima.
Deixamos o tempo passar. Quando explode, a falta surpresa. Surpresa de fato seria não acontecer.
O que ficou provado: o crime organizado tem um potencial e comando capaz de parar a maior cidade do Brasil, já que não foi desmantelado. O governo é obrigado a fazer acordo com bandidos para que as rebeliões e guerrilha não aconteçam. Trata-se de uma rendição.
 O enfrentamento da lei contra o crime se impõe. Definir quem governa. Mas o enfrentamento das causas da baderna é tão urgente quanto.
Então, decidir: queremos confinar criminosos em usinas de monstros que mais cedo ou mais tarde saíram libertos carregados de ódio, sem chances de ressocialização? Ou acreditamos na possibilidade e recuperação de presos, construindo penitenciárias seguras em que os detentos possam estudar trabalhar e viver como gente, para voltar a sociedade em condições de reintegrar-se à vida cidadã, depois de purgadas suas culpas?
 
Recordo agora um pequeno fato, até corriqueiro que presenciei e comentei, na ocasião, com algumas pessoas que encontrei. Estava eu próximo ao Parque do Carmo, São Paulo. Em pleno dia, garotas de programa ofereciam “serviços sexuais”.
Fiquei indignado com a atitude de homens machista que passavam de carro pelo local e gritavam gracejos desrespeitosos. Conversando com alguém nesse dia eu disse haver homens que dizem que essas mulheres não valem nada mas pagam para fazer programa com elas. Se nada valem, então por que pagam? È hipocrisia! E lembrei da história de uma mulher que sustentava a família pobre que estava no sertão do nordeste com dinheiro ganho na prostituição. Devemos não julgar ninguém. E não pensar que os que não estão aparente imoralidade, os “bons”, os puros, os legais são melhores que os outros. Reza o dito popular que ao apontar o dedo para o outro a gente aponta três para si mesmo.
Agora recordo dois fatos do passado. O primeiro é da época em que foram escritos os evangelhos canônicos. Muitos judeus piedosos, religiosos, observantes das tradições, estavam desprezando o Evangelho pregado pelos primeiros cristãos e negando que Jesus ressuscitou, enquanto entre os pagãos estava havendo muito mais aceitação do Evangelho e adesão a Jesus. O segundo fato é da época de Jesus: a existência dos fariseus. Quem eram os fariseus? Eram membros de um partido político-religioso que surgira na época da guerra dos Macabeus contra a dominação dos gregos pela preservação de sua própria religião e modo de viver. Mas que foram se tornando cada vez mais legalistas e fundamentalistas e fizeram muita oposição à prática libertadora de Jesus. Eram bem considerados e estimados pela maioria da população por serem observantes das prescrições religiosas, tido como praticantes da “tora”, a Lei judaica. Jesus os desmascarava.
Agora, antes de falar das leituras da missa do dia, comento símbolo e gesto que usamos no início desta celebração. Como a mulher pecadora ungiu Jesus com perfumes, ungimos com perfume cada um que chegou aqui, já que cada um deve ser visto como um outro cristo ou imagem de Deus. E lembramos o que diz Paulo em 2 Cor 2,14-15: “Deus nos manifesta o aroma do seu conhecimento. E para Deus somos o bom perfume de Cristo em vista da salvação”.Queremos acolher bem a todos os que aqui chegam, sem desprezo ou discriminação. Mas será que perfumaríamos, sem dificuldades a todos que aqui entrassem. É muito difícil perdoar.
O tema central da liturgia da palavra de hoje é o perdão e a misericórdia.
A primeira leitura de hoje, do segundo livro de Samuel, mostra a atuação do profeta Natã e o perdão de Deus a Davi.
José Bortolini, em Roteiros Homiléticos, Vida Pastoral, Editora Paulus, maio-junho de 1995, p. 59, assim a explica:
 
Antes de se tornar rei de Israel, Davi liderou um grupo de pessoas que passavam dificuldades, endividadas e descontentes com a política de Saul, primeiro monarca (cf. 1Sm 22,2). Perseguindo sempre o ideal da justiça para todos, conseguiu unir ao redor de sua pessoa todas as tribos, consolidando assim o império e tornando-se rei sobre todo o Israel (2Sm 5,3).
 Chefe guerreiro e suporte da justiça, tornou-se também o chefe da linhagem messiânica: ele seria o ancestral do messias que deveria vir. Davi foi, ao longo de toda a história de Israel, o símbolo do rei que promoveu a justiça e a paz. De fato, as principais tarefas da autoridade política consistiam na defesa contra as agressões externas (e para tanto o rei devia sair à guerra contra os inimigos do povo) e na promoção e preservação da justiça dentro do país.
 Depois que consolidou o império, Davi deixou que o poder lhe fizesse a cabeça. Em 2Sm 11 se diz que ele não mais vai à guerra para defender o povo, mas fica em casa gozando as mordomias do poder. E o que acontece quando uma autoridade deixa de lado os interesses do povo? Fatalmente essa pessoa usará o poder em proveito próprio. Foi o que aconteceu com Davi. Em vez de ir à guerra para defender o povo, serve-se dele. Torna-se adúltero, violento, hipócrita e assassino (cf. 2Sm 11).
 O trecho deste domingo faz parte dos acontecimentos posteriores ao adultério de Davi, sua hipocrisia e abuso do poder, matando Urias para lhe roubar a esposa. O profeta Natan conta ao rei uma estorinha comovente. Este, sentindo-se responsável pela manutenção da justiça no país e pensando que o transgressor seja outra pessoa, dá a sentença: "Esse homem merece a morte!" Dada a sentença, o profeta revela quem é o réu: "Você é esse homem!" (cf. 12,7).
 Por que Davi é réu de morte? Porque pagou com a injustiça os favores de Deus. Os vv. 7-8 enumeram cinco desses favores: "Eu te ungi rei de Israel, eu te salvei das mãos de Saul, eu te dei a casa do teu senhor, eu coloquei suas mulheres em teus braços, eu te dei a casa de Israel e de Judá, e se isso te parece pouco, vou acrescentar outros favores". As injustiças cometidas contra as pessoas são crimes contra Deus, pois ele é o defensor dos fracos e das vítimas dos abusos do poder.
Davi reconhece que, adulterando com a mulher de Urias, tentando hipocritamente esconder o fato e, por fim, mandando matar Urias, pecou contra o Deus de Israel, que é o Deus da justiça. E Deus, por meio de seus profetas, vai à raiz da injustiça, desmascarando o mandante do crime, e não tanto seus executores.
Quais as conseqüências da ganância de Davi? "Tu feriste com a espada Urias, o hitita… por isso, a espada nunca mais se afastará de tua casa" (vv. 9-10). A ganância de Davi levou três de seus filhos à morte violenta: Amnon, Absalão e Adonias. Os três foram violentos e abusaram do poder. Desse modo o trecho de hoje mostra que, cedo ou tarde, a violência se volta contra o violento.
 A palavra profética desnuda a arrogância do poder que explora e mata o povo. Davi reconhece seu pecado: "Pequei contra o Senhor". Deus, que é proposta de salvação sempre aberta, perdoa os que se arrependem, por maior que tenha sido seu pecado: "O Senhor perdoou o teu pecado, de modo que não morrerás!" (v. 13).
 
Também comenta essa leitura, esse trecho de 2° Samuel, Celso Loraschi, em Roteiros Homíleticos de Vida Pastoral. Ed. Paulus, maio-junho 2010, p. 57, com o seguinte texto:
Davi foi ungido para governar o povo de Israel. Deus o abençoou e o defendeu das armadilhas dos inimigos. Como escolhido de Iahweh, deveria agir exemplarmente e seguir os mandamentos. No ápice de seu poder, porém, Davi esquece-se de servir a Deus e abnegar-se em favor do povo. Enquanto seus soldados estão em batalha, Davi permanece tranquilamente em seu palácio, usufruindo de uma vida mansa e descomprometida. Deixa-se conduzir pela luxúria e comete a primeira violação grave: adultério com Betsabeia, a mulher de Urias, general de seu exército. Ao constatar que ela engravidara, o rei deixa-se conduzir pelo orgulho e comete a segunda violação grave: assassinato. Manda que posicionem Urias no lugar mais perigoso numa guerra contra os amonitas, a fim de que fosse ferido e morresse. O desrespeito a esses dois mandamentos da Lei de Deus lhe valeria a morte (cf. Lv 20,10 e 24,17).
Davi parece não dar-se conta da gravidade de seus pecados. O poder obscureceu a sua consciência. Deus, porém, que perscruta os corações, envia o profeta Natã, que, ao apresentar-se ao rei, lhe conta uma história de dois homens: um rico que retira de um pobre o único bem que este possuía (cf. 2Sm 12,1-4). Davi, na sua pretensão de justo, mostra-se indignado contra tal explorador. Natã, então, aponta o culpado: “Esse homem és tu!”. Lembra-lhe toda a trajetória da sua vida e como Deus lhe manifestou o seu amor. Os pecados de Davi não consistiram numa traição somente a Urias, mas a todo o povo de Israel e ao próprio Deus.
A intervenção do profeta Natã acorda a consciência adormecida de Davi, que reconhece seu pecado e se arrepende com sinceridade. Deus lhe perdoa e o livra da morte. Porém não o livra das conseqüências provenientes de suas faltas.
 
O Novo Testamento atualiza a mensagem do perdão a partir da prática de Jesus. O perdão de Jesus se estende aos que são as maiores vítimas da impiedade, da intolerância, do preconceito, da discriminação em sua época. Jesus, no Evangelho de hoje, é convidado por um fariseu para uma refeição em sua casa. Sabe-se do significado da refeição na tradição judaica. Sabe-se que um judeu tradicional não convida para a mesa alguém que não fosse observante das prescrições da religião judaica. Jamais convidaria uma prostituta. Mas uma mulher conhecida na cidade como pecadora invade a casa do fariseu para lavar os pés de Jesus e ungi-lo com perfume. O fariseu, cheio de ironia, pensa consigo: “Se este homem fosse um profeta saberia que tipo de mulher está tocando nele” (v.39). Jesus então dialoga com o fariseu usando uma parábola e convidando-o a observar os gestos daquela mulher. Mesmo honrando Jesus com um convite para a sua mesa, o fariseu não foi além disso. A mulher pecadora tem para com ele maior consideração. Escrito esse texto no contexto de rejeição do Evangelho pelos mais religiosos judeus e melhor aceitação entre os pagãos essa comparação ganha um grande significado.
Vejamos agora como explicam o Evangelho de hoje os autores aqui citados. José Bortolini escreve (na mesma revista Vida Pastoral aqui citada):
 
O episódio da pecadora perdoada, que só se encontra no evangelho de Lucas (7,36-50), sempre inquietou os estudiosos: os gestos da prostituta (v. 38) provocaram o perdão de Jesus, ou são sinais de gratidão pelo perdão recebido?   A maioria dos estudiosos crê que a pecadora agiu assim porque percebeu em Jesus a misericórdia do Deus que perdoa. De fato, o amor de Deus precede o amor humano. Deus ama e, por isso, perdoa. Nós, porque nos sentimos perdoados, respondemos com gestos de amor e gratidão.
De fato, o programa libertador de Jesus consiste, entre outras coisas, em proclamar “o ano de graça do Senhor” (cf. 4,19) para os pobres e marginalizados.Além disso, a misericórdia é a síntese do “sermão da planície” (6,20-49). Em Lc 7,34 Jesus é acusado de ser comilão e beberrão, amigo dos cobradores de impostos e dos pecadores. Em base a esses dados, podemos crer que a prostituta sentiu que algo de novo estava acontecendo em sua vida, por causa da prática de Jesus.
O fariseu que convida Jesus para uma refeição é uma pessoa influente na cidade. Por ser fariseu (palavra que significa “separado”), adquiriu status de piedoso e cumpridor da Lei.   Em circunstâncias normais, jamais teria admitido a presença de uma prostituta dentro do seu lar, pois ela é pessoa ritualmente impura. É, portanto, hóspede indesejado.
O hóspede desejado é Jesus. Mas o fariseu se escandaliza pelo fato de o Mestre se deixar tocar, perfumar e beijar por quem fazia dessa “arte” seu ganha-pão. Para o fariseu, Jesus estaria aceitando o jogo perigoso da prostituta, entendendo os gestos dela como sedução descarada.   Dois hóspedes haviam entrado em sua casa, cada qual com sua fama: um era o profeta; o outro, a prostituta; ele, convidado; ela, nem sequer tolerada, mas “convidada”, pela prática de Jesus, a experimentar o amor do Pai.
Naquele tempo, era costume, durante os banquetes, propor enigmas para distração dos convidados e das pessoas que, embora não fossem convidadas, apareciam para “apreciar” o grande acontecimento. Coisa de orientais.Jesus tomou a iniciativa, mostrando que está bem à vontade, e provoca a “piedade” de Simão com uma questão em forma de historieta (vv. 40-43).   A conclusão é muito evidente, apesar da cautela do fariseu: aquele ao qual foi perdoado mais demonstrará maior gratidão.  
O fariseu se descuidara dos principais gestos de acolhida: oferecer água para lavar os pés, o beijo de boas-vindas, o óleo derramado sobre a cabeça do hóspede (vv. 44-46).   A prostituta fez tudo isso porque “acolheu” em sua vida aquele que manifesta a misericórdia de Deus e não discrimina as pessoas.   O que ela está fazendo são gestos de gratidão pelo fato de Jesus ter-se solidarizado com os marginalizados e pecadores, convivendo com eles (cf. 7,34).
Mas o pecado de Simão não consiste em ter esquecido as regras de bem acolher as pessoas. É mais grave. Ele não é capaz de acolher Jesus enquanto revelação da misericórdia de Deus para com os marginalizados. Ele se julga “separado” e “piedoso”. Mas sua piedade não condiz com a proposta de Jesus. Crê não precisar do perdão de Deus. E por assim crer, não o obtém.   Por isso, a expressão: “A quem se perdoa pouco também mostra pouco amor” (v. 47b), soa desta forma: “Quem não sente necessidade de ser perdoado, não é perdoado, e se torna exemplo clássico de ingratidão e fechamento ao amor de Deus”.   Nesse sentido, todos são, perante Deus, igualmente devedores de uma dívida impagável. Mas o que é impossível do ponto de vista humano, é possível por causa do amor gratuito de Deus. E a resposta das pessoas só pode ser a gratidão que responde ao amor gratuito.
A exclamação dos convidados revela quem é Jesus: “Quem é este que até perdoa pecados?” (v. 49). Jesus é aquele que veio inaugurar o “ano de graça do Senhor” (4,19), e, a partir desse fato, todos são convidados. Os que se consideram “separados”, “justos” ou “piedosos” se auto-excluem da salvação e do perdão gratuitos de Deus (cf. a parábola do fariseu e do publicano, Lc 18,9-14).
O início do cap. 8 está ligado ao episódio que acabamos de ver. A prostituta - à qual Jesus diz: “Seus pecados estão perdoados… Sua fé a salvou. Vá em paz!” (7,48.50) — é símbolo de todos os marginalizados que, com ele, constroem a nova sociedade.
Para a mentalidade daqueles tempos (e quem sabe para a nossa também), era escandaloso um mestre ser auxiliado por mulheres — e que tipo de mulheres! — no anúncio de suas propostas. A proposta de Jesus é a Boa Nova do Reino de Deus nas cidades e nos campos, ou seja, para todos (8,1).   As mulheres que ajudam Jesus são pessoas reintegradas em sua dignidade (“… haviam sido curadas de maus espíritos e doenças”, v. 2) e, sobretudo, mulheres nas quais Jesus descobriu grandes potencialidades em vista do Reino de Deus.  
 
Celso Loraschi (no mesmo Roteiro Homilético aqui citado) escreve:
 
O Evangelho de Lucas aprofunda, de maneira especial, o tema da misericórdia. É o caminho que proporciona a inclusão de todas as pessoas na proposta de amor e salvação revelada em Jesus. A casa de Simão, o fariseu, serve de cenário para a mensagem a ser assimilada e jamais esquecida pelas comunidades cristãs. O fariseu convida Jesus para comer com ele, em sua casa. Casa e comida são dois elementos que apontam para o projeto de “comunhão de mesa”. As comunidades primitivas reuniam-se nas casas para atualizar a memória de Jesus, a oração, a partilha da comida e a ceia…
Sentar-se à mesma mesa representava a determinação de relacionar-se na igualdade e na fraternidade, sem discriminação de raça, sexo ou classe social, expressando as mesmas convicções religiosas. Este projeto, porém, não foi tão tranquilo. A dificuldade maior se deu na relação entre cristãos de origem judaica e cristãos gentios. Além disso, na época da redação do Evangelho de Lucas, percebe-se forte tendência de discriminar as mulheres, abafando o seu protagonismo na animação das comunidades cristãs.
O fato de Jesus aceitar o convite do fariseu demonstra que o mestre não faz acepção de pessoas. Sente-se livre em qualquer ambiente. É portador do amor de Deus que se estende a todos, sem discriminação. Na mesa há outros convivas. Entre eles dificilmente estariam também mulheres. Decerto seriam os amigos de Simão, pertencentes ao mesmo partido farisaico. Estariam, quem sabe, também os apóstolos?
A narrativa apresenta uma mulher que aparece de repente e se coloca aos pés de Jesus. Ela é da cidade, sem nome e conhecida como pecadora. Trouxe um frasco de perfume precioso e, entre lágrimas, unge os pés de Jesus, beija-os e enxuga-os com os cabelos. Os detalhes da ação da mulher revelam profundo sentimento de amor e gratidão. Simão, diante do que está vendo, não ousa criticar abertamente a atitude de Jesus, mas em seu coração põe em dúvida a sua qualidade de profeta, pois está acolhendo uma pecadora.
A parábola que Jesus conta tem por finalidade desmascarar a atitude de superioridade e arrogância da parte dos que se consideravam justos diante de Deus. Tem endereço certo. A concepção farisaica de justiça divina relacionava-se com o cumprimento das leis. O perdão dos pecados e a salvação estariam condicionados pela observância legalista. Essa segurança que o sistema religioso lhe dava impedia o fariseu de entender e acolher a gratuidade do perdão e da salvação. Somente quem deve muito, isto é, quem tem consciência profunda de seus pecados conseguirá fazer a experiência do amor sem limites de Deus.
A mulher pecadora irrompe, sem pedir permissão, naquele ambiente fechado e excludente. Sua atitude faz abrir os olhos para enxergar a presença de Jesus, o Filho de Deus, que vem trazer o perdão e a paz sem atrelamento ao sistema legalista do Templo. Na pessoa e na proposta de Jesus, a mulher se sente contemplada. É acolhida como sua discípula; pode comungar da mesma mesa da Palavra e do Pão; pode fazer parte da mesma Igreja, o Corpo de Jesus.
Não é difícil perceber que a narrativa tem uma função de denúncia da exclusão de mulheres que, com muita probabilidade, está em processo na época da redação do evangelho, pelo final do primeiro século. O texto exerce também a função de atualização da proposta de Jesus, que inclui no seu seguimento tanto os homens – os Doze – como as mulheres: Maria Madalena, Joana, Susana e várias outras. Diz delas o que não diz dos Doze: serviam a Jesus com seus bens (cf. 8,1-3).
 
No Evangelho de hoje vemos um fariseu observante da lei de Moisés honrando e reconhecendo quem é Jesus menos do que a mulher conhecida como pecadora. Na segunda leitura de hoje, da Carta aos Gálatas, diz que ninguém é justificado por observar a Lei de Moisés, mas pela fé em Jesus. Na Carta aos Gálatas, Paulo critica o mal do fundamentalismo. O fundamentalismo é muito forte também hoje e é necessário aprender a ser livre para se livrar dele.
Na verdadeira liberdade dos filhos de Deus, saibamos perdoar, usar de misericórdia, reconciliar, recuperar, e superar as desigualdades sócias.
 
 

Sermão para o 16º Domingo Comum Ano C

Postado em 26/7/2011 em 04:15 PM
Sermão para o 16° Domingo Comum, Ano C
 
(Gn. 18, 1-10 / Cl 1, 24-28 / Lc. 10, 38-42)
 
                Certa mulher desejava muito encontrar Jesus, vê-lo, falar com ele, tocá-lo. Dizia que gostaria de ter vivido há dois mil anos atrás e ter visto Jesus. Numa noite, Jesus lhe apareceu em sonho e disse que a visitaria no dia seguinte. Pôs-se ela então a arrumar a casa, ornamentando-a com o melhor tapete, as melhores cortinas, as melhores toalhas... Às 10:00 h, apareceu um idoso, seu vizinho, para falar com ela. Ela nem quis ouvi-lo. Estava muito ocupada, pois receberia uma pessoa muito importante e dispensou-lo logo. Às 10:40 h, apareceu uma criança, às 11:10 h um doente, às 13:20 h uma amiga... A todos dispensou rapidamente sem sequer ouvi-los, pois nesse dia estava muito ocupada já que receberia uma pessoa muito importante.
            Esperou a tarde toda e a noite toda e nada de Jesus aparecer. À meia noite foi dormir. Jesus apareceu novamente em sonho e ela perguntou desapontada porque ele não veio visitá-la. Ele respondeu que veio às 10:00 h, às 10:40 h, às 11:10 h, às 13:20 h. Então ela entendeu. Jesus é cada pessoa que aparece diante de mim e tudo o que eu fizer a cada um estarei fazendo ao próprio Jesus.
            Na segunda leitura deste domingo, o apóstolo Paulo fala do mistério da presença de Cristo nos irmãos.
            Na primeira leitura de hoje, de Gênesis, temos algo bem curioso. Diz que “naqueles dias o Senhor apareceu a Abraão. Levantando os olhos ele viu três homens...” Poderíamos perguntar: quem apareceu a Abraão foi Deus ou foram três homens? Mesmo considerando o valor que possa ter a teologia dos que vêem nos três homens uma prefiguração da Santíssima Trindade e para quem diz que são três anjos na forma de homens, vale lembrar que eles comeram com Abraão.
            Abraão foi da melhor hospitalidade; deu aos três tudo o que pode dar. Nesse caso não há distinção entre a visita do hóspede e a visita de Deus.
            No Evangelho hoje vemos Deus ou Jesus visitando duas mulheres: Marta e Maria. Maria está os pés de Jesus ouvindo sua palavra. Marta estava ocupada com muitos afazeres. Ela aproxima-se e pede a Jesus que mande Maria ajudá-la. Quer dizer talvez que as duas se poriam na preparação do jantar e deixariam Jesus sozinho, olhando para o teto, sem transmitir a palavra. Seguindo a ideologia dominante, Marta talvez tenha sido levada a pensar que conversar era perda de tempo, mesmo tratando-se da conversa profunda de Jesus; que não se tivesse mais nada a aprender, ainda mais sendo mulher, pois o importante é trabalhar e trabalho é o que se faz com as mãos.
            Marta se preocupava e andava agitada por muitas coisas, desconsiderando o mais importante. Assim está hoje a nossa sociedade: muitas pessoas andam agitadas, num ritmo de vida frenético e não reservam tempo para a oração, para o diálogo, para a contemplação. Dizem que tempo é dinheiro. Surgiu uma ideologia, reforçada na industrialização, de caráter capitalista, que levou a pensar que tudo o que não é trabalho (dentro de uma certa concepção de trabalho) é perda de tempo. Foi aí que caiu bem a historinha de Fontaine, da cigarra e as formigas. Enquanto as formigas trabalhavam, a cigarra ficava cantando. No inverno a cigarra ganhou o castigo de ficar no frio e sem comida. O que significaria essa historinha contada a um músico? Que ele é vagabundo e não trabalha? Bem dizia aquela canção: “A gente fria desta terra sem poesia não faz caso desta lua nem se importa com o luar”. Vale lembrar que esta terra sem poesia está cheia de gente deprimida.
            É compreensível que alguém que é pobre acumule trabalho para ter o mínimo necessário. Mas alguém que já tem o suficiente para uma vida confortável assumir mais trabalho para ganhar mais dinheiro não significa repetir o erro daquela pessoa que, no final da vida, lamentava dizendo que viveu pobre e morreu rica?
            Duas atitudes que ainda não se tornaram comuns em nossa sociedade são: o diálogo profundo e a oração. Note-se que, no centro da sala principal de cada residência está o televisor, e é ele que fala quase todo o tempo. Note-se como geralmente as pessoas fogem do silêncio, sendo que o silêncio, tão benéfico, propicia a reflexão, a contemplação, a oração.
            Para a pessoa que vive inconformada com isso a perícope de Marta e Maria tem grande significado. Há quem se apóie nesse texto para dizer que a vida contemplativa tem tanta importância quanto a vida ativa. Penso contudo que não há vocação para a vida ativa para uns e contemplativa para outros. Todos devemos ser contemplativos e ativos.
            Portanto não caiamos no ativismo que poderia nos levar a deixar Jesus falando sozinho.

Sermão para o 18º Domingo Comum, Ano C

Postado em 26/7/2011 em 04:14 PM
Sermão para o 18º Domingo Comum Ano C
(Ecl. 1, 2;2, 21-23 – Cl. 3,1-5. 9-11 / Lc. 12, 13-21)
 
 
                Há uma canção popular de CEBs que diz: “Somos gente nova vivendo a união, somos povo semente de uma nova nação. Somos gente nova vivendo o amor, somos comunidade, povo do Senhor”. Esse pensamento está semelhante a algo que diz a segunda leitura de hoje: “Já vos despojastes do homem velho e de sua maneira de agir e vos revestistes do homem novo, que se renova segundo a imagem do seu criador.”
            Será que somos mesmo gente nova? Ou somos como alguém que veste uma roupa limpa por cima de uma roupa suja? Ser gente nova significa rejeitar a maioria dos pensamentos e dos costumes incentivados pela mídia que, em certos programas, supervaloriza o dinheiro, a beleza física, a fama, o poder. Significa não se deixar levar pelo consumismo por ela reforçado.
            A primeira leitura de hoje é de um livro bíblico chamado Eclesiastes. Ele é também chamado Coelét, segundo a língua hebraica, na qual foi escrito. Em grego se diz Eclesiastes, nome que vem de ekklesia, assembléia, Igreja. É atribuído a Salomão, mas não foi escrito por Salomão, pois Salomão viveu lá pelo ano 800 a.C. e o Eclesiastes foi escrito lá pelo ano 300 a.C. Ele começa dizendo assim: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. Em grego se diz “mataiotas mataiotés, panta mataiotas”. Normalmente se traduz usando a palavra vaidade, mas eu gosto mais do uso da palavra “ilusão”. “Ilusão das ilusões, tudo é ilusão”. Esse livro vai mostrando que tudo o que a gente tem e em que tantos se apegam é ilusão. Por exemplo, diz em 2, 21: “Um homem que trabalhou com inteligência, competência e sucesso, vê-se obrigado a deixar tudo em herança a outro em que nada colaborou”.
            Muitas famílias têm briga por causa de herança. Por causa de um dinheiro até irrisório destrói-se a harmonia da família que vale muito mais do que a herança.
            A televisão exalta o dinheiro, a riqueza material. No entanto, vemos gente rica deprimida, se drogando e até se suicidando. Exalta a beleza física e essa beleza acaba logo mesmo em quem faz operação plástica.
            Eu tinha um topetezinho no lado esquerdo que fez grande sucesso nos anos 80. Agora ele já caiu.
            O livro do Eclesiastes não nega a felicidade. Só mostra que a felicidade está em, na simplicidade, aproveitar os benefícios das pequenas coisas. Diz em 9, 7-9: “Vai, come teu pão com alegria e bebe gostosamente o teu vinho, pois Deus já aceitou tuas obras. Vista roupa de festa todo tempo e nunca falte perfume sobre tua cabeça. Desfrute a vida com a mulher amada em todos os dias da vida que Deus te conceber”.
            No Evangelho de hoje vemos alguém dizendo a Jesus que peça ao seu irmão para dividir a herança com ele. No tempo de Jesus a herança ficava com o filho mais velho. Era um modo de preservar a propriedade. Havia quem quisesse mudar isso. Mas essa não era a função de Jesus. E ele conta a parábola do homem que acumula muitos bens e diz a si mesmo para descansar por muitos anos. Mas naquela mesma noite ele morre. E vale lembrar que aquilo que ele acumulou foi tirado dos pobres.
            Jesus alerta a tomar cuidado contra todo tipo de ganância. Vemos hoje gente dizendo que, se ganhasse na loteria não trabalharia mais. Ficaria só desfrutando do luxo e do conforto. Que triste afirmação! Ilusão e vaidade! O que traz a felicidade não é viver no luxo. Só o que traz a verdadeira felicidade é servir e partilhar. E o que significa não trabalhar mais? Ser vagabundo?
            Tem gente que não desfruta as pequenas maravilhas gratuitas da vida porque vive correndo atrás de ter mais dinheiro. E diz que o tempo é dinheiro. Vive pobre para morrer rica. E tem rico que vai à praia levando a calculadora para fazer contas de seus investimentos. Em vez de pensar na beleza do mar pensa em números. Não dorme direito à noite preocupado com os seus negócios. A vida passa rapidamente e ele nem aproveita. Bem dizia aquela canção: “A gente fria desta terra sem poesia não faz caso dessa lua nem se importa com o luar”.

Sermão para o 21º Domingo Comum, ano C

Postado em 26/7/2011 em 04:13 PM
Sermão para o 21º Domingo Comum, Ano C
(Is 66,18-21/Hb 12,5-7.11-13/Lc 13,22-30)
 
 
 
      Em breve estaremos no mês de setembro, que vai se tornando conhecido na Igreja do Brasil como mês da Bíblia. Seguindo um programa comum a toda a Igreja no Brasil, muitas comunidades realizam a “Semana Bíblica”. Foi numa delas que eu ouvi uma afirmação da qual muito gostei: “A Bíblia fala de gente fraca que se tornou forte por causa de Deus”.
      Foi por um grande ideal que essa gente dedicou a vida. Assim Abraão, que partiu de sua terra de origem com um sonho de um povo numeroso e feliz. Assim Moisés, que deixou o palácio do faraó para libertar o seu povo escravizado. Assim cada um dos profetas que aparecem na Bíblia. O profeta que nos fala hoje na primeira leitura é o Isaías Terceiro, ou Terceiro Isaías. Ele viu o seu povo disperso (pelas guerras, sobretudo). E anunciou o seu grande sonho: “reunir todos os povos” (v.18). Diz que Deus enviaria mensageiros para vários povos (v.19) e “de toda a parte reconduzirá as pessoas até Jerusalém como oferenda ao Senhor” (v.20).
      No Novo Testamento o principal mensageiro enviado por Deus Pai é Jesus Cristo, o próprio Deus (Deus Filho encarnado). Diz o Evangelho de hoje (Lc 13,22) que “Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo o caminho para Jerusalém”.
      Nessa caminhada para Jerusalém, que não será tanto a Jerusalém geográfica, mas a comunhão em Jesus, alguém faz ao mestre uma pergunta: “É verdade que são poucos os que se salvam?” (v.23). No tempo de Jesus essa pergunta estava muito em discussão. Alguns afirmavam que, por ser a raça escolhida, todo o povo judeu se salvaria. Outros sustentavam que só os praticantes da Torá (Lei) se salvariam. Jesus não responde diretamente a pergunta, mas ensina que o caminho da salvação é uma “porta estreita”. Depois se verá que essa porta estreita não é a Lei, mas a “justiça do Reino de Deus” que inclui a misericórdia que os fariseus não praticavam. Esses radicais praticantes da letra da Lei achavam que tinham a salvação garantida por direito. Jesus compara a salvação com uma festa onde os que se consideram os mais chegados e privilegiados, os que teriam “carta branca” são barrados na porta e não são reconhecidos pelo dono da festa. E diz o Evangelho, v.29, que “virão pessoas do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa do Reino de Deus”, pois “há últimos que serão primeiros e primeiros que serão últimos” (v.30).
      Traduzindo, eu diria, usando como referência Mt 25,34-36: “Recebam como herança o Reino (...) pois eu estava com fome e me destes de comer (...)” que Deus não reconhece esses legalistas e ritualistas presunçosos porque ele está, sobretudo, na pessoa dos mais sofridos e rejeitados a quem os tais, sem piedade e misericórdia, não serviram.
      Saibamos nós hoje seguir o caminho de Jesus para a Nova Jerusalém e entrar pela porta estreita que não é a porta por onde está entrando a maioria, incentivada tantas vezes pela mídia que promove a banalização, o consumismo, o individualismo, a ambição. Seja o nosso caminho o serviço gratuito de amor incondicional, sobretudo aos mais pobres e desprezados. Sejamos solidários e amorosos uns para com os outros, superando competições individualizantes e promovendo a solidariedade, a partilha do que temos e somos.
 

Sermão para o 22º Domingo Comum, Ano C

Postado em 26/7/2011 em 04:11 PM
Sermão para o 22º Domingo Comum, ano C
( Eclo 3,19-21.30-31/Hb 12,18-19.22-24/Lc 14,1.7-14/Sl 67)
 
 
Se eu tivesse que dar um título à liturgia da Palavra de hoje, usaria nele a palavra humildade. É uma palavra de origem latina, vem de “humos”, isto é, da terra. O humilde é aquele que é realista, tem os pés no chão, sabe de sua condição material, limitada. O orgulhoso, que não é humilde, se mitifica, ignora sua condição de simplicidade e limitação. Humilhar significa jogar por terra, desmascarar, colocar a nu essa condição. Também existe a palavra humor. O humorista é o que ri da condição humana.
A primeira leitura de hoje, do livro Eclesiástico, diz: “na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade” (v.20); “É aos humildes que Deus revela seus mistérios” (v.20); “ Deus é glorificado pelos humildes” (v.21); “ O orgulhoso tem uma planta de pecado enraizada nele e ele não compreende” (v.30).
Lembro-me de uma ocasião em que eu, quando jovem, acompanhando um pedreiro até a casa de um interessado em seus serviços, vi este perguntar: “Você é pedreiro?” Respondeu que sim. “Mas você é bom mesmo?” Respondeu que não: “Bom mesmo é quem fez o sol, o mar e as estrelas”.
E me vem à lembrança o que li sobre um filósofo da Grécia antiga, chamado Sócrates. Diante dos chamados “sábios” ou “sofistas”, ele se dizia ignorante. “Só sei que não sei” dizia ele. Mas buscava saber e, nos seus diálogos, com sua arte de interrogar chamada “ironia”, demonstrava aos chamados “sábios” que na verdade eles ignoravam o que acreditavam saber.
No Evangelho de hoje Jesus vai comer na casa de um dos chefes dos fariseus. Os fariseus tinham fama de serem puros e fiéis observantes da Lei. Eram arrogantes e presunçosos, orgulhosos e sem misericórdia. Observavam Jesus (Lc 14,1) para ver se este se comportava seguindo os rituais prescritos. Jesus, conforme o Evangelho de hoje, notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então ensinou: se chegar “alguém mais importante que tu, e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: ‘Dá o lugar a ele’, você ficará envergonhado e irá ocupar o último lugar” (Lc 14,8-9). Ensina a fazer o contrário: ocupar o último lugar e assim “quem te convidou, te dirá ‘amigo, vem mais para cima’. E isso vai ser uma honra para ti. Porque quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado” (Lc 14,10-11).
Quem é que já não observou como uma pessoa famosa, que ocupa um cargo de destaque, é invejada? Porque é que ninguém tem inveja de uma pessoa santa? Pois é na santidade que está a verdadeira felicidade.

Sermão para o 23º Domingo Comum, Ano C

Postado em 26/7/2011 em 04:10 PM

Sermão para o 25º Domingo Comum, Ano C

Postado em 26/7/2011 em 04:09 PM

Sermão para o 27º Domingo Comum, Ano C

Postado em 26/7/2011 em 04:01 PM

Sermão para o 31º Domingo Comum, Ano C

Postado em 26/7/2011 em 03:56 PM

Sermão para a Solenidade de Todos os Santos

Postado em 26/7/2011 em 03:51 PM
Sermão para a Solenidade de Todos os Santos, Ano B
(Ap 7,2-4.9-14/Sl23/1Jo3,1-3/Mt5,1-12)
 
 
     Celebramos hoje a festa de todos os santos. Pedimos a todos os santos e santas de Deus que estejam conosco nesta celebração. Pedimos a todos os santos e santas que intercedam por nós. Nós chamamos os santos para estarem conosco e eles nos chamam para a santidade. Mas o que é a santidade? O que é ser santo? Os santos foram pessoas que passaram por este mundo, tiveram dificuldades, dúvidas e limitações como nós temos, mas as superaram graças ao amor a Deus e ao próximo, expressos pela oração e pela caridade. Há os que a Igreja canonizou, isto é, declarou santos, declarou que alcançaram a salvação, reconheceu como santos. Hoje veneramos, reverenciamos, comungamos com todos eles.
     O que é ser santo? O que fazer para ser santo? Alguém poderá pensar que para ser santo é necessário privar-se de tantas experiências como namorar, casar, se divertir, etc., viver com o rosto sério o tempo todo, ou passar a maior parte do tempo em oração. Para ser santo é necessário só uma coisa: amar.
     O santo é também chamado de “beato”, o que significa “feliz” ou de “bem-aventurado”, que significa “feliz”. Ser santo é ser feliz. E o que Deus mais quer para cada um de nós é que sejamos felizes. Mas o que faz a gente ser feliz?
     Vários programas de televisão dizem ou dão a entender que é feliz quem tem mais dinheiro, quem tem mais fama, quem é mais bonito fisicamente (de acordo com o padrão de beleza que é assumido pela maioria), quem tem mais poder. O Evangelho de hoje diz quem é feliz na concepção de Jesus: os pobres em espírito, os mansos, os que buscam a justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacificadores e até os aflitos e perseguidos por causa de Jesus.
      Esse Evangelho de hoje está em Mateus e tem seu correspondente apenas em Lucas (Lc 6,17-18.20-23). Está em Mateus e Lucas, mas com consideráveis diferenças. Um fundamentalista, que lê a Bíblia ao pé da letra, teria dificuldade em explicar porque o de Mateus é o que pode ser chamado “sermão da montanha” e o de Lucas “sermão da planície”, já que o de Mateus diz em 5,1: “Vendo Jesus as multidões, subiu à montanha” e o de Lucas diz “Jesus parou num lugar plano (6,17) levantou os olhos para os discípulos e disse (6,20)”.
     Ainda como diferença, o de Lucas acrescenta ao discurso em que diz bem-aventurados os pobres porque isso e porque aquilo, uma continuação, o que é muito interessante, em que diz “Ai de vós ricos porque isto e porque aquilo”. E depois volta a falar aos pobres ensinando a gratuidade nas relações.
     Comentando esse Evangelho de hoje diz José Bortolini em Vida Pastoral, Ed Paulus, Nov/dez 2000, p. 29 (www.paulus.com.br).
     Vendo as multidões, Jesus sobe à montanha que, simbolicamente, é o lugar de Deus e do encontro com ele. A montanha recorda o Sinai, o monte onde foi selada a aliança com o povo hebreu que saiu da escravidão egípcia. Foi aí que Moisés recebeu as tábuas da Lei (Decálogo), a constituição do povo de Deus.
     Jesus, portanto, está para promulgar a nova constituição do povo de Deus, um povo sem fronteiras e sem discriminações; ele vai inaugurar a Nova Aliança com os pobres e marginalizados do mundo inteiro, revelando que Deus se solidarizou com eles a ponto de confiar-lhes o Reino. O clima dessa Nova Aliança é o da confiança ilimitada que circula entre Deus e seu povo. De fato, no tempo do deserto, o povo hebreu devia permanecer longe do monte Sinai, sem se aproximar. E Deus falava ao povo por meio de Moisés. Aqui, os discípulos se aproximam do Mestre na montanha, e Deus lhes fala em Jesus – o Emanuel – que, sentado, ensina como Mestre que tem autoridade.
     As bem-aventuranças são propostas de felicidade. A constituição do povo de Deus não impõe leis. Jesus simplesmente constata a situação do povo que o segue (pobres, afligidos, despossuídos [= mansos], famintos); percebe o esforço que fazem para mudar a situação (misericórdia/solidariedade, pureza de coração, promoção da paz); conhece as dificuldades e perseguições que enfrentam para criar a nova sociedade, e os proclama felizes, herdeiros do projeto de Deus. A constituição que Jesus promulga no Sermão da Montanha nasce da constatação das lutas do povo sofrido. Deus se solidarizou com ele, confiando-lhe o Reino.
     Recentemente um conhecido meu me disse assim: “O médico falou para mim que, por causa de problema no coração, só terei mais dois anos de vida. Então vou aproveitar bem esses dois anos: vou beber todoas, ir em todas as baladas, aprontar de tudo, vou botar prá quebrar, pois não tenho mesmo mais nada a perder nem a ganhar”. Respondi que além de ele não ter certeza de que vai viver só dois anos mesmo, fazendo assim ele não vai aproveitar a vida e ser feliz. O que torna a pessoa feliz é viver com simplicidade e serenidade aproveitando bem as pequenas coisas da vida com auto-controle. Se beber uma cerveja me ajuda a ser feliz, eu não vou ser mais feliz bebendo dez cervejas. Muito pelo contrário. O que torna a pessoa feliz é sobretudo amar a tudo e a todos. É antecipar o reino definitivo. Perguntaram certa vez a um sábio o que ele faria se soubesse que iria morrer amanhã. Ele respondeu que faria a mesma coisa que estava fazendo.
     Busquemos a verdadeira felicidade: aquela que Jesus nos ensinou.

Sermão para 2 de Novembro

Postado em 26/7/2011 em 03:50 PM
Sermão para o dia 2 de Novembro
 
 
     Celebramos ontem a solenidade de todos os santos. Hoje lembramos todos os que foram chamados à santidade e morreram tendo respondido mais ou menos a esse chamado. Diz-se que é a comemoração de todos os fiéis defuntos. Este dia é mais comumente chamado “dia de finados”. Talvez esse nome não seja adequado. Como cristãos devemos dizer que não existem finados porque a vida não tem fim. Talvez também não seja correto dizer “esta vida e a outra vida” ou “este mundo e o outro mundo”. A pessoa verdadeiramente cristã antecipa o Reino Definitivo e o que acontece depois da morte biológica é uma plenificação da salvação, tornando a vida total, perfeita e eterna, como é o próprio Deus.
     Este dia é propício para recordar as pessoas falecidas como memória e se colocar em comunhão com elas. Evitemos a idéia de alma penada dependendo de nossas orações para se salvar. Mas é também um momento propício para pensarmos e repensarmos nessa realidade que chamamos morte:
     Uma realidade própria de nosso pensamento é a dúvida. Podemos duvidar de tudo. Até mesmo da existência de Deus, da qual não há prova que tenha convencido a todos. Mas há uma coisa da qual ninguém duvida: somos todos mortais. A morte existe. Por isso alguns chamam a morte de “nossa única certeza”.
     Entretanto as pessoas vivem como se a morte não existisse. Negam-se a refletir sobre a morte. Vivemos numa cultura que esconde a morte. Nota-se isso, por exemplo, quando não se diz a uma criança que a vovó morreu, mas que ela foi viajar. E não se permite que ela olhe a pessoa falecida. Tal não acontece nos morros e favelas, onde as crianças vêem freqüentemente pessoas morrendo e com isso ganham experiência e talvez força para enfrentar a dureza da vida. Entre os menos pobres a morte é mais escondida. Quando uma pessoa é vitimada por uma doença incurável geralmente não pode dizer a ela a verdade para evitar que se desespere e morra mais depressa. Com isso também se foge da responsabilidade de consolar o doente e chorar com ele. Estamos inclusive numa cultura onde se diz que homem não chora e se nega a muitos o direito de chorar. A morte é tão escondida que a própria celebração de corpo presente é chamada de “velório”, palavra que vem de velar, esconder.
     Mas quando menos esperamos somos surpreendidos pela morte de um ente querido. Há quem, não tendo se preparado para esse momento, caia no desespero e na revolta. Outros se mostram fatalistas dizendo “Deus quis assim” ou “chegou a hora desse pessoa”.
     Tais respostas não são do verdadeiro cristianismo. Nosso Deus é o Deus da liberdade e não marca hora para ninguém morrer. Há inclusive mortes que são conseqüência de políticas erradas. Colocando a culpa em Deus, tira-se a culpa dos homens, dos verdadeiros culpados.
     Qual deve ser nosso comportamento e nossa reflexão perante o falecimento de um ente querido ou ante a evidência de nosso própria morte?
     Um filósofo da Grécia antiga, chamado Epicuro, dizia que a morte nada é para nós, pois enquanto vivemos a morte está ausente; quando ela for presente nós não o seremos mais. Jamais, dizia ele, nos encontraremos com a morte. Para Epicuro a morte nada tem a ver conosco porque todo bem e todo mal reside na sensação e a morte nos priva da sensação. E dizia que a consciência de que a morte nada é para nós pode eliminar todo temor e toda angústia.
     Há muitas afirmações a respeito da morte que se aproximam mais ou se aproximam menos de nossas concepções cristãs. Queremos privilegiar uma de São Francisco de Assis que dizia “A morte é nossa irmã”.
     Que proveito posso tirar da irmã morte? Dizia o escritor Valter Luís Lara em artigo na revista Revés do Avesso, Editora do CEPE, maio de 1996, p.45:
     Ela não me salva apenas no sentido religioso, para depois dela. Ela me salva também para entes de sua chegada. Na medida em que eu tomo consciência da condição de profunda igualdade que nos iguala a todos, começo a me libertar dos males que fecham o caminho da felicidade. A morte me salva da prepotência, do orgulho, da vaidade, do egocentrismo, da auto-suficiência. Se alguém me perguntar: “Você sabe com quem está falando?” eu responderei: “com alguém que é igual a mim e que um dia vai morrer”.
     Há casos de políticos desonestos que, com dinheiro, venceram todas as disputas e quando gravemente enfermos, se angustiaram profundamente por não terem chegado ao posto maior. A morte acabou com a prepotência deles.
     Interessante notar que há pessoas com tanto medo da morte, medo até obsessivo, mas que não têm medo de matar a vida aos poucos, desperdiçando-a com futilidades.
     Costuma-se cantar desejando “muitas felicidades e muitos anos de vida”. Para o cristão o que importa, sobretudo, é a qualidade da vida e não o viver muito. Aliás, ninguém vive muito, pois como diz o salmo “A nossa vida é semelhante a um sopro e nós passamos num instante. A vida é como a flor que de manhã no campo cresce e logo à tarde já não há mais nem sinal dela”. O que mais importa é viver bem e viver bem é viver amando, servindo. “Quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por causa do Evangelho vai salvá-la” (Mc 8,35). Só vive de verdade quem vive amando, quem vive servindo, quem vive partilhando. A fé no Cristo Ressuscitado nos faz viver vida nova, evitando desespero, superando obstáculos e formando comunidade.
      Essa realidade, a morte como única certeza, e da qual ninguém escapa bem está retratada no livro bíblico Jó (3,13-19): “dormiria tranqüilo, com os reis e os ministros da terra, com os nobres que amontoam ouro e prata em seus mausoléus... Ali acaba o tumulto dos ímpios, ali repousam os que estão esgotados. Com eles descansam os prisioneiros, sem ouvir a voz do capataz. Confundem-se pequenos e grandes e o escravo livra-se de seu senhor”.
     Normalmente se pensa a morte como uma realidade para o futuro, algo que vai acontecer; um dia vamos morrer. Mas a morte está presente em cada momento de nossa vida; estamos sempre morrendo. Por isso diz o cantor popular nordestino Pingo de Fortaleza: “A dor do tempo é correr junto da morte”. Nossa vida é uma vida mortal. Mas a nossa morte pode ser morte vital. Há poucos dias eu olhei uma fotografia minha de vinte anos atrás e disse que eu era bem menos feio. Mas também eu era bem mais bobo. Fazia muito mais bobagens. Perdi de um lado e ganhei de outro. Como o ouro que passa pelo fogo para se purificar, ou seja, pelo crisol para se acrisolar, passamos por crises para nos aperfeiçoar. Isso se soubermos tirar proveito das crises. A morte é a última das crises. É a isso que chamamos purgatório; algo que se dá na morte e que pode ser visto não como castigo, mas como graça.
     O dois de Novembro é também o dia de afirmarmos a nossa fé na ressurreição. Recordemos o personagem Jó. Do meio de seu sofrimento, rejeitando resignar-se à doença, questionando a moral vigente, questionando concepções fatalistas e o como deve ser a relação com Deus, explode em uma profunda profissão de fé dizendo:
     “Gostaria que minhas palavras fossem escritas e gravadas numa inscrição com ponteiro de ferro e com chumbo, cravadas na rocha para sempre! Eu sei que o meu redentor está vivo e que, por último, se levantará sobre o pó; e depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne, verei a Deus. Eu mesmo verei, meus olhos o contemplarão, e não os olhos de outro”.

Sermão para a Festa de Exaltação da Cruz

Postado em 26/7/2011 em 03:47 PM
Sermão para a Festa da Exaltação da Santa Cruz
(Nm 21,4-9 / Fl 2,6-11 / Jo 3,13-17 – Ano A)
 
 
 
Neste dia da solenidade da exaltação da Santa Cruz vemos em destaque esse símbolo tão utilizado e tão conhecido que é a cruz. Mas há outro símbolo que bem pode ser aproveitado para ilustrar esta celebração. Ele tem sido usado na medicina. Podemos vê-lo em receita médica, cartão de dentista, farmácia e laboratório médico. É a imagem ou desenho de uma haste exibindo uma serpente. De onde vem esse símbolo? A Bíblia, no livro chamado Números, diz que o povo de Israel, seguindo Moisés, no caminho que leva ao mar Vermelho, foi vitimado por muitas serpentes venenosas que fizeram morrer muita gente. Interpretou o fato como castigo por ter se voltado contra Deus e contra Moisés. Então pediu a Moisés que rogasse ao Senhor para livrá-lo desse mal. Este intercedeu pelo povo e Deus o mandou fazer uma serpente de bronze e colocá-la sobre uma haste. Aqueles que eram mordidas e olhavam para essa serpente não morriam. Alguém poderia estranhar. Se a serpente é o mal, por que olhar para ela? É um modo de encarar o problema colocando-se sobre ele. Muitos sabem que o remédio para curar mordida de cobra é feito com veneno de cobra. O mesmo veneno que é o problema é a solução. Aliás, diga-se de passagem, estuda-se atualmente um remédio contra a dor, um analgésico feito com o veneno da cascavel, que substituiria a morfina. Pois o veneno da cascavel tem um poder analgésico 600 vezes maior que a morfina. Enquanto uma dose de morfina faz efeito por uma hora e cria dependência, esta tem efeito por 120 horas sem criar dependência.
Ou a solução contra a mordida de cobra é saber conviver com as cobras. A atitude mais conhecida é a de matar as cobras. E existe até o ditado “matar cobra é mostrar o pau”. Quem mata a cobra e mostra o pau é o mentiroso. O que é sincero mostra não o pau, mas a cobra morta, pois o pau não prova a existência da cobra. O que bem se aconselha é capturar a cobra viva e não matá-la. Sobretudo devemos saber que a cobra venenosa não ataca senão quando está com medo. Ela não corre atrás como faz a cobra não venenosa. É por isso que os ecologistas chamam mordida de cobra de acidente. E tem até uma cobra que dá um aviso antes de morder: é a cascavel, que tem um guizo, um sininho que faz barulho. Por esse chocalho que a denuncia ela é morta com mais facilidade. Ultimamente os cientistas observaram que essas cobras têm ficado mais silenciosas. É a seleção natural das variedades mais silenciosas, conforme a teoria de Darwin. Se dando o sinal e as morrem então elas param de dar esse sinal. Há quem diga que o homem é o bicho mais ruim que tem e que também muitas vezes é o mais burro. Ele desequilibra a natureza.
O Evangelho de hoje diz que do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim era necessário que Jesus fosse levantado na cruz. Podemos dizer então que assim como as pessoas que olharam para a serpente de Moisés não morreram, quem olhar para o Cristo crucificado, entender sua mensagem, viver seu amor, não morrerá e terá a vida eterna, pois Deus enviou Jesus não para condenar o mundo mas para salvá-lo. Assim como a serpente que matava serviu para salvar, assim como hoje o veneno de cobra, que mata, serve como remédio, a cruz, que era símbolo de fracasso, de condenação, com Jesus tornou-se símbolo de salvação.
Antes de Jesus a cruz não era senão um instrumento de tortura. E o mais cruel de todos, reservado no império romano para os que se voltavam contra o rei ou o imperador, para os subversivos, agitadores, messias, todos os que colocassem em risco o poder estabelecido. O filme “Spartacus” mostra isso. Espártaco era um escravo, um gladiador que tinha por função lutar no circo para divertir a platéia. Por volta do ano 60 a.C. rebelou-se e foi seguido por muitos escravos que formaram um exército para se defenderem dos romanos. Depois de vencidos, 6.472 seguidores de Espártaco foram crucificados e expostos à beira de uma estrada romana, a via Ápia. Alguns agonizavam até quatro dias morrendo aos poucos. Assim é o terrível sofrimento na cruz: se o crucificado solta o corpo para apoiar os pés ele perde a respiração. Se ele puxa o corpo para cima para respirar, doem os pulsos. A barbaridade dos que condenavam alguém à maldita cruz era demoníaca. Para servir de exemplo os corpos lá ficavam até apodrecerem ou serem devorados pelas aves e pelas feras. Muitos outros foram crucificados inclusive na Judéia e Galiléia a mando de Herodes e Pilatos. Em Roma o imperador exigia ser adorado como deus e lá se dizia que, aos romanos, pelos deuses, foi dada a soberania do universo. A humilhação dos opositores seria um sinal disso. Roma queria impor certos costumes ao mundo inteiro. Quanto aos judeus, respeitava-lhes a religião, mas com estreitos limites.
Reconhecendo as devidas diferenças, podemos comparar Jesus Cristo com Espártaco. Este último foi um escravo revoltoso que acabou humilhado na cruz. Jesus, no dizer de Paulo aos filipenses, sendo Deus, esvaziou-se de si mesmo e assumiu não só a condição de homem, mas também a de escravo. Humilhou-se a si mesmo e suportou a morte na cruz. E por isso o Pai do céu o exaltou (Fl 2,6-11). (Esse trecho de Filipenses tem que ser bem contextualizado para se entender sua teologia acima do aspecto puramente histórico, tarefa para outro momento com quem queira aprofundar mais o tema).
Uma diferença entre a morte de Jesus e a de outros líderes crucificados é que os seguidores de Jesus deram um significado à derrota. Deram à aparente derrota um sentido de vitória. A vitória de Jesus não veio como era esperada segundo a tradição judaica. E ele, ressuscitado, não saiu desfilando pelas ruas mostrando-se aos opositores. O Cristo Ressuscitado foi visto num contexto de fé; não apareceu a todos. Mas os seus seguidores não voltaram para casa decepcionados, entregues, derrotados. Não reconheceram como deus ou semideus o imperador romano, com toda a sua aparência de poder. E reconheceram como deus aquele que morreu humilhado, como escravo. E nem os imperadores, nem os chefes judaicos conseguiram acabar com o cristianismo. Isso graças à compreensão do imenso amor de Deus em Jesus expresso na cruz, mas, sobretudo na ressurreição que está além da morte e da cruz. Só com essa compreensão a cruz pode ser símbolo do cristianismo.
Se, como se tem dito, o símbolo da Coca-Cola, em termos de estatística, é mais conhecido que o da cruz e o Pelé é mais conhecido no mundo do que Jesus Cristo, trata-se, no caso Coca-Cola e Pelé, de um conhecimento superficial e banal e no outro caso de um conhecimento profundo para os que verdadeiramente são cristãos.
Contudo, é necessário dizer, a exaltação da cruz não deve ser uma exaltação do sofrimento por si mesmo. Jesus Cristo morreu na cruz em conseqüência de sua ação e não como sacrifício expiatório, como se Deus-Pai quisesse descarregar sua raiva contra os pecados do mundo sobre um inocente. Jesus não foi bode expiatório e o popular exemplo do boi-de-piranha nem sempre tem sido bem aplicado. Jesus sofreu contra o sofrimento e morreu contra a morte. Está sendo superada a idéia de caráter sacrificial de que é necessário maltratar o corpo para purificar a alma. O nosso sofrimento só terá sentido quando ele existir em função da diminuição do sofrimento do outro, especialmente quando for conseqüência de um engajamento sócio-transformador.
 
Complemento – A Cruz
 
            A palavra cruz é uma das mais usadas em nossa linguagem comum. Para dizer “faça um xis” muitos dizem “faça uma cruz”. O encontro de duas estradas é chamado encruzilhada. Ou simplesmente dois riscos num papel sendo um na horizontal e outro na vertical já formam a figura que é chamada de cruz. Assim, há cruzes por todos os lados. Mas quando é que a cruz é vista como símbolo? Geralmente quando é vista num templo, numa sepultura, numa ambulância, num cordão trazido ao pescoço de uma pessoa, etc. E quando é que a cruz se tornou um símbolo sagrado? Ainda hoje num país de cultura religiosa budista como a China ou em um de cultura religiosa muçulmana esse símbolo não é reconhecido por muita gente. Em nosso território ocidental, na atualidade, bem poucas pessoas iriam estranhar, demonstrar surpresa, duvidar ou questionar vendo esse símbolo relacionado a Jesus Cristo e ouvir que Jesus Cristo foi homem e é Deus (para os espíritas ele é um espírito evoluído) ou que foi crucificado e ressuscitou. Na Europa tal questionamento é menos raro. Lá é mais forte o que se chama “secularização”. De qualquer modo, em muitos países, a cruz é um símbolo sagrado.
            Mas não foi sempre assim. Na antiguidade a cruz ou nada significava, ou lembrava um instrumento de tortura. Para os judeus era um símbolo de uma maldição. Diz Dt 21,23: “O que for suspenso é maldito”.
            Os Evangelhos apresentam Jesus dizendo “Tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24). Esse é um escrito pós-pascal. Historicamente Jesus disse “Siga-me”, mas certamente não disse “tome a sua cruz”. Não teria na ocasião nenhum sentido e não seria entendido por ninguém. Somente depois da morte e ressurreição de Jesus é que a cruz se tornou um símbolo sagrado. E isso foi sendo entendido aos poucos. O apóstolo Paulo, em sua Epístola aos coríntios, insiste na vitória e na glória que vem pela cruz.
1º- Em Jesus Cristo, Deus não só assumiu a condição humana, mas assumiu a condição dos humanos pobres, humilhados e perseguidos. E não só passou pela morte, mas passou pela morte mais dolorosa e humilhante. Diz Paulo em Gl 3,13: “Está escrito: maldito todo aquele que é suspenso no madeiro. Mas Cristo tornou-se maldição por nós para nos remir da maldição da Lei”.
2º- A crucifixão não deixava dúvida: Os romanos eram vitoriosos. Os romanos eram invencíveis. Os rebeldes foram derrotados. Mas a crucifixão de Jesus foi um golpe certeiro contra a dominação. Um corretivo de muito significado. Quem poderia esperar que, depois de crucificado, os seguidores de alguém pudessem bendizer a cruz, dar um sentido e um significado a ela, fazendo da derrota um símbolo de vitória? Alguns até, ao serem condenados à pena semelhante, surpreenderam os algozes ao mostrarem-se alegres por terem sido feitos dignos de glorificar a Deus imitando o mestre e assim colaborando com a ação salvífica de Deus. De fato, enquanto o cristianismo só cresceu (o sangue dos mártires é semente de cristãos, diria Tertuliano) o Império Romano foi decaindo cada vez mais. O imperador Constantino usou a cruz como símbolo seu e conseguiu reerguê-lo um pouco, mas depois ele voltou a decair até que se extinguiu.

Sermão para o 1º Domingo da Quaresma, Ano A

Postado em 26/7/2011 em 03:42 PM
Sermão para o 1º Domingo da Quaresma Ano A
 
 
Quaresma, o que é?
      A palavra Quaresma vem do número 40, pois a quaresma dura 40 dias. Por quê? O número 40, na numerologia hebraica indica a duração de uma geração e é muito utilizado. Por exemplo:
A chuva que causou o dilúvio durou 40 dias e 40 noites (Gn 7,12.17)
Isaac casou-se aos 40 anos ( Gn 25,20)
A terra descansou por 40 dias (Jz 5,32;8,28)
Moisés jejuou 40 dias e 40 noites sobre o Monte Sinai (Ex 24,18)
A exploração da terra a ser conquista pelos judeus durou 40 dias (Nm 13,25; 14,34)
A viagem de Elias para o monte Horeb durou 40 dias e 40 noites (1Rs 19,8)
Jonas pregou em Nínive durante 40 dias (Jn 3,4)
Jesus jejuou durante 40 dias e 40 noites no deserto (Mt 4,2) e apareceu aos discípulos e com eles ficou por 40 dias.
      E há dezenas de outros textos. Esses exemplos não especificam tempo cronológico, mas espaço de tempo mais ou menos longo. O número 40, portanto é simbólico.
      Essa simbologia tem seu centro na caminhada do povo pelo deserto após a experiência do Êxodo. O deserto é um tempo de crise, de opção, pois é o lugar onde Deus se revela.
      Oséias vê no deserto o tempo do primeiro amor, quando Israel, esposa de Javé, correspondia ao amor de Deus (Os 2,17; 11,1). É para lá que Deus manda Israel quando este quebra a Aliança.
      Jeremias usa o tema do deserto como referência teológica na sua fala profética (Jr 2,2ss), assim como Isaías (Is 63,11-13). Os Salmos também utilizam muito o tema do deserto (Sl 77,20ss; 78,52ss; 105,38-41 etc.).
      A vivência da celebração da quaresma também para nós é uma passagem pelo deserto. Costumamos cantar: “Também sou teu povo, Senhor, e estou nessa estrada”. É uma caminhada de conversão pessoal e social que fortalece a fraternidade. Por isso realizamos, durante a quaresma, a “Campanha da Fraternidade”. 
       Mas essa caminhada também é constante. É um esforço de toda a vida para superar as situações de morte e promover a vida em abundância. Esse é o sentido da Páscoa.
 
 
A Tentação de Jesus no Deserto
 
            Era o século IV antes de Cristo e um poderoso rei chamado Alexandre Magno havia conquistado quase todo o mundo conhecido. Soube da fama de um sábio, um filósofo chamado Diógenes e resolveu ir até ele. Aproximando-se do filósofo disse-lhe: “Eu sou Alexandre, o Grande. Peça-me o que quiser e eu lhe darei”. Ao que respondeu Diógenes: “Eu só peço que você não me tire aquilo que você não pode me dar”. Resposta inteligente do filósofo, pois Alexandre, ao se postar em sua frente com sua sombra, tirava-lhe o sol.
            Lição semelhante está no poema “Operário em Construção”, de Vinícius de Moraes:
 
“Sentindo que a violência / Não dobraria o operário / Um dia tentou o patrão / Dobrá-lo de modo vário / De sorte que o foi levando / Ao alto da construção / E num momento de tempo / Mostrou-lhe toda a região / E apontando-a ao operário / Fez-lhe esta declaração: / Dar-te-ei todo esse poder /E a sua satisfação / Porque a mim me foi entregue /E dou-o a quem quiser / Dou-te tempo de lazer / Dou-te tempo de mulher / Portanto, tudo o que vês / Será teu se me adorares 
E ainda mais se abandonares / O que te faz dizer não / (...) E o operário disse não. / Loucura, gritou o patrão / Não vês o que te dou eu?/ Mentira, disse o operário / Não podes dar-me o que já é meu”.
 
            O texto bíblico que está em Mt 4, 1-11 é uma bela construção literária que coloca Jesus diante do diabo enfrentando as tentações do ser, do ter e do poder. Primeiro o diabo pede milagre “Transforme as pedras em pães”. Depois ele oferece os benefícios dos reinos da terra em troca de ser adorado. O diabo apresentou-se a Jesus como dono e todos os reinos. Mas ele é mentiroso.
            O diabo, o “Capeta Lismo”, o mercado quer ser adorado. Por isso ilude, enfeitiça. Utilizando a maioria dos programas de televisão ele apresenta como sendo mais felizes as pessoas que são ricas e famosas. Associa objetos à venda com o universo das riquezas. E as pessoas que não podem comprar a mansão, o carro do ano e a mulher sensual, comprando objetos associados a isso, sentem-se participantes do mundo das riquezas.
 
Complemento – Anexo
 
Não aos reinos e à sua glória (Folhetos Quaresma 1 – Campanha da Fraternidade 2005. Conselho Nacional de Igrejas Cristãs)
Mt 4, 1-11
 
            O diabo promete exatamente o que não tem. Faz promessas com bens alheios. Confunde. Aliás, este é o sentido de seu nome: o que mescla e confunde.
            Ora, pelo que se saiba, ele não é nem dono de reinos e nem de sua glória (v. 8-10). Ele acha que é seu dono. E não sem certa razão. Afinal, estes reis e suas glórias não deixam de ser dúbios. Seus reinos são constituídos à base de espadas e exércitos. Eles assenhoram-se de bens alheios por meio de saques e assaltos. Promovem negócios internacionais, em que sempre levam vantagens. Arrastam suas glórias para seus palácios depois de rapinarem e assaltarem, por perto e à distância. Assim foi por séculos e séculos na América Latina, nestas nossas terras roubadas e saqueadas em tudo que os navios pudessem transportar para as matrizes européias.
            Não é bom receber sob promessa “a todos os reinos do mundo e a glória deles” (v. 8). Desejá-los seria ansiar por sua iniqüidade, por seus delírios de exploração. Desejá-los seria sonhar com seus delírios de glória e senhorio.
            Por isso Jesus é de poucas palavras para tamanha tolice prometida por satanás. “Retira-te”, ordena Ele, pois a adoração única há de ser dirigida ao “Senhor, teu Deus” (v. 10). Nem vale a pena debater com satanás para fazê-lo entender que ele nem mesmo tem o poder que imagina ter. Não, satanás não merece argumento! Há que enjeitá-lo: “Retira-te”.
            Afinal, o diabo não tem noção nem da fé e nem da vida real (v. 3-4). Por isso propõe transformar “pedras em pães” (v. 3). Ele, o tentador, está a confundir milagre com espetáculo, sabedoria do mundo com o escândalo da cruz, como expressa o apóstolo Paulo (1 Cor 1, 18-25). Uma questão é o milagre, outra o espetáculo.
            Enfim, é o tentador quem incita à violência. Pos ele confunde. Quer que Jesus salte do alto do templo. Seria esse um estupendo espetáculo, mas que não significaria serviço, amor, solidariedade.
            Deus, em sua maravilhosa sabedoria, criou o mundo com terras e terras para o plantio. Nós, no Brasil, podemos dizer que Ele fez aqui as terras de plantio sem fim. Logo, não precisaria haver falta de pão; “em plantando dá”, usando as palavras de Pero Vaz de Caminha. Este é, pois, o “grande espetáculo” que Deus nos dá, possibilidades “sem fim” para plantar alimento e para fazer o pão. E tudo isso Deus faz com nossa participação (Gn 2, 15). Esse é o jeito maravilhoso de Deus transformar pedras em pão. Eis seu milagre mundo afora.
            Por isso é que Jesus, em sua resposta (v. 4), aponta para a palavra. O que o diabo não entende é a palavra de Deus! Ela deixa-o zonzo. A palavra nos abre por dentro, traz novas palavras e pensamentos à participação. Ele, o diabo, não conta com a capacidade que Deus nos deu por meio das mãos, no trabalho, e das idéias no discernimento.

Sermão para o 1º Domingo da Quaresma, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 03:39 PM
Sermão para o 1º Domingo da Quaresma, Ano B
(Gn 9,8-15 / 1 Pd 3,18-22 / Mc 1,12-15)
 
 
      Imaginei que viesse para cada um aquele tal gênio da lâmpada mágica que, conforme a lenda, dá a quem o encontra o direito de fazer três pedidos a serem atendidos. Mas desta vez, conforme a minha imaginação, o gênio daria a cada um a possibilidade de ter atendido um pedido só dentre dois que ele colocaria como alternativa: o primeiro, ter muito dinheiro; o segundo, ter muita sabedoria. E sem a chance de misturar os dois, tipo meia a meia, como a pizza. Quem é que escolheria a sabedoria em vez do dinheiro? Falar é fácil, dizem, mas ao ver o dinheiro muitos mudam de idéia. Há mesmo quem acredita que ninguém seja capaz de renunciar ao dinheiro. Passando em frente a um bar ouvi alguém cantar dizendo “dinheiro e mulher, quanto mais o homem tem tanto mais o homem quer”. Mas temos exemplos para mostrar que nem todos são assim.
      O Evangelho de hoje fala que Jesus esteve quarenta dias no deserto, sendo tentado por satanás. Em nota, a Bíblia de Jerusalém observa que “Marcos omite ou ignora o pormenor das três tentações, que Mateus e Lucas colheram em alguma outra fonte”. As três tentações são as do ser, do ter e do poder.
      Já contamos aqui a história do rei e do filósofo. Alexandre Magno (o grande) aproxima-se de Diógenes e, para dar mostras de seu grande poder, diz ao filósofo para lhe pedir o que quiser. Diógenes responde que só pedia que não lhe tirasse o que não lhe podia dar. Isso porque estava Diógenes tomando sol e Alexandre, ao se postar em sua frente, fazia-lhe sombra. Quer dizer, se o rei Alexandre fosse mesmo grande, dar-lhe-ia o sol. Mas isso Diógenes já tinha de graça. As maiores riquezas são aquelas que não se pode vender e comprar e que não são dadas por nenhum ser humano.
      A primeira leitura de hoje, de Gênesis, fala da aliança feita com Deus após o dilúvio. E a segunda leitura, da 1ª Pedro, diz que o que corresponde ao dilúvio é o batismo. A pessoa que é batizada,entende e assume esse batismo, torna-se nova criatura. E não busca as riquezas deste mundo. Ora, muitos programas da mídia mostram como sendo mais felizes as pessoas mais bonitas e que têm mais bens materiais. Mas quem vive verdadeiramente em Jesus Cristo sabe que a felicidade não vem por esses meios.
 
 
 

Sermão para o 2º Domingo da Quaresma, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 03:36 PM
Sermão para o 2º Domingo da Quaresma, Ano B
(Gn. 22,1-2. 9-13. 15-18 / Rm 8,31-34 / Mc 9,2-10)
 
A Transfiguração do Senhor, nossa transfiguração
 
 
 
      Estive numa igreja do centro da cidade para uma missa especial presidida pelo arcebispo. Ao me aproximar da entrada que dá para a sacristia, uma senhora como muitas das antigas e antipáticas secretárias paróquias me perguntou: “Você é o quê? Respondi: “Sou gente...Não parece?” Mas ela tinha ordem para só deixar entrar clérigos e alguns leigos autorizados. Expliquei então que sou padre mas que só o fato de ser considerado gente já me deixa bem contente. Imagine então se eu for considerado filho de Deus?
      Ocorre que muita gente leva vida de cachorro enquanto muitos cachorros levam vida de gente e até vida de príncipe. Acho que a minha resposta àquela senhora, sem querer ser uma grosseria, foi uma tentativa de evangelizar procurando mostrar que mais importante que identificar ou distinguir a aparência do clero é lembrar a aparência dos “desfigurados” e procurar mudar tal realidade.
      O livro de Isaías descreve o chamado “servo sofredor”: “Ele não tinha beleza nem esplendor que pudesse atrair o nosso olhar, nem formosura capaz de nos deleitar. Era desprezado e abandonado pelos homens, um homem sujeito à dor, familiarizado com a enfermidade, como uma pessoa de quem todos escondem o rosto; desprezado, não fazíamos caso nenhum dele” (Is 53,2-3). E diz Jeremias 11,19: “Seu nome não será mais lembrado”. Diz ainda o Salmo 22: “Sou um verme e não homem; riso dos homens e desprezo do povo” (Sl 22,7). Jesus passou por essa situação de humilhação. Em Jesus, Deus não só assumiu a condição humana, mas assumiu a condição de pobre, de perseguido, de derrotado, de humilhado ao extremo. Representa-se hoje o Jesus crucificado de modo amenizado, com pouco realismo. A crucificação era a morte mais dolorosa e humilhante. E os corpos dos crucificados eram devorados pelos animais selvagens, ficando sem sepultura. Era tão abominável que os governos gregos nem a permitiram. Jesus passou por isso porque se quis acabar com ele e com qualquer movimento dos seguidores dele.
      Mas a imagem que prevalece nos relatos dos Evangelhos não é sobretudo a do Cristo desfigurado e sim de um Cristo “transfigurado” como no evangelho de hoje.
      A primeira leitura deste 2º domingo da quaresma, ano B, fala do sacrifício de Abraão. Abraão ia imolar seu filho único, Isaac, por uma ordem religiosa, mas Deus o poupou; resgatou Isaac. Já no caso de Jesus, diz a segunda leitura de hoje (em Rm 8,32), Deus não poupou seu próprio filho, mas o entregou. Nem nisso Deus (em Jesus) deixou de passar pela condição humana dos outros crucificados. Foi até o fim. E há quem diga que Jesus (Deus Filho) não entendeu o Pai e por isso gritou dizendo: “Porque me abandonaste?” Depois da morte de Jesus é que veio o que hoje professamos a respeito dele.
      O Evangelho de hoje apresenta Jesus com três de seus discípulos sobre uma alta montanha. A montanha simboliza a oração, a maior proximidade com Deus. Foi ali que Jesus transfigurou-se, isto é, foi além da figura humana. No Antigo Testamento, Moisés, sobre a montanha, recebeu a lei. Agora Jesus ocupa o lugar de Moisés. E por ele vem a nova lei. No versículo 4 aparecem Moisés e Elias. Moisés representa a lei e Elias o profetismo. As duas realidades estão com Jesus. Pedro diz que é bom estarem lá e sugere fazer três tendas, isto é, três lugares de adoração. Poder-se-ia perguntara a Pedro: por que não um só, se Jesus não é apenas um a mais e sim ocupa o lugar de todas as referências, uma vez que ele é o próprio Deus? O versículo 7 diz que desceu uma nuvem e que da nuvem saiu uma voz. Essa voz diz que Jesus é o filho amado e que deviam escutar o que ele diz. O Antigo Testamento fala de uma nuvem que acompanhava o povo no deserto. Orígenes, teólogo do século III, fala da “diferença entre uma leitura puramente histórica e o ensinamento do apóstolo Paulo” e diz “No que eles acreditavam ser uma nuvem, Paulo vê o Espírito Santo” (Cf “Os Padres da Igreja”, Volume 1, Jacques Liébaert, Ed. Loyola, 2ª Edição, 2004, p 100). No versículo 8 eles não vêem mais ninguém a não ser somente Jesus com eles.
      No versículo 9 eles descem da montanha. Descer da montanha significa assumir a missão, olhar para o horizonte. Horizonte,  poderíamos dizer, onde estão os desfigurados. A oração não deve ser um meio de fugir do mundo, mas de fortalecer-se para encontrá-lo, conforme o exemplo de Jesus.
      Por isso, durante o período da quaresma, a Igreja Católica, no Brasil, realiza a Campanha da Fraternidade, neste ano de 2009 falando que a paz é fruto da justiça. Temos a missão de fazer valer a justiça para fortalecer a fraternidade que supera toda a desfiguração. E fazemos isso inspirando-nos no Jesus Cristo transfigurado.

Sermão para o 4º Domingo da Quaresma, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 03:33 PM
Sermão para o 4º Domingo da Quaresma, Ano B
(2 Cr 36,14-16.19-23 / Ef 2.4-10 / Jo 3,14-21)
 
 
            Conforme lembra o escritor Rubem Alves em um de seus artigos “o computador salva”. Ele tem um recurso para salvar que impede que se perca todo o texto digitalizado no caso de uma falha na eletricidade ou de um mau contato nas instalações. No caso da história do povo de Deus, conforme está na Bíblia acontece grandes erros por parte desse povo. O que impede que ele perca toda a caminhada? O recurso de salvação de Deus é o seu amor para com a humanidade. O Antigo Testamento mostra em muitas passagens o povo traindo a aliança e ele dando nova chance, como na primeira leitura de hoje.
            A expressão maior desse amor de Deus é a sua encarnação em Jesus Cristo. Tanto Deus amou o mundo, diz João em 3,16, “que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna”. No v. 14 diz que “assim como Moisés levantou a serpente no deserto é necessário que o filho do homem seja levantado”. A citação refere-se ao fato que está no livro bíblico chamado Números, em 21,4-9, onde se conta que quando o povo atravessava o deserto, numa das paradas, muitos morreram vitimados por serpentes. Então, Moisés levantou uma serpente de bronze numa haste e quem olhava para a imagem não morria. Falamos disso no sermão para a exaltação da cruz lembrando que o remédio para curar a mordida de cobra é feito com o próprio veneno da cobra, de sorte que a imagem da serpente na haste se tornou símbolo da medicina e da farmácia. Assim, a morte de Jesus na cruz, bem entendida, se torna remédio contra a morte. A morte de Jesus na cruz (pois ele assumiu totalmente a condição humana) é expressão do amor divino que nos traz a salvação.
            Na segunda leitura de hoje, em Ef 2,9, se diz que essa salvação vem pela graça, mediante a fé. E que não vem das obras para que ninguém se orgulhe. Ninguém pode dizer que é merecedor da salvação, alegando os próprios feitos e virtudes.
            Deus nos ama muito mais do que nós o amamos. É esse amor que devemos transmitir aos outros e que deverá ser a solução para os problemas da violência e da insegurança apontados pelo texto-base da Campanha da Fraternidade de 2009.

Sermão para o 5º Domingo da Quaresma, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 03:29 PM
Sermão para o 5º Domingo da Quaresma, Ano B.
Jr 31,31-34 / Hb 5,7-9 / Jo 12,20-33
 
 
Para dados introdutórios: Roteiros Homiléticos extraídos da revista Vida Pastoral, Editora Paulus, José Bortolini.
 
Jr 31,31-34
      Os capítulos 30-31 de Jeremias são chamados de “Livro da Consolação de Israel”. A característica principal desse capítulo é a esperança de reconstrução da vida nacional do povo de Deus. Jeremias fez uma experiência ímpar de Deus em sua vida: raptado por Deus e por ele conquistado desde o ventre materno viveu sozinho e só para Deus, conhecendo-o a partir do sofrimento, solidão e rejeição social. Os versículos que compõe esta leitura, um dos pontos altos de todo o Antigo Testamento, só poderiam nascer do coração de um profeta como Jeremias.
      O texto fala de nova aliança, diferente da que Deus concluiu com o povo quando o tirou da escravidão egípcia (vv. 31-32). Ela é nova por duas razões: não se trata mais de uma aliança externa, ritual e jurídica, e não precisará mais de mediações (vv. 33-34).
      A aliança do Sinai era externa. O contrato fora registrado em pedras e possuía caráter jurídico. Jeremias percebeu a caducidade de tais leis, seja porque não respondiam ao anseio profundo do ser humano, seja porque as mediações (sacerdócio, templo, sacrifícios, lideranças político-religiosas) transformaram a experiência pessoal do Deus libertador num código frio de leis.
      A nova aliança é interna, gravada no fundo do ser e no coração de cada pessoa (v.33), e dispensa as mediações (v. 34), pois é capaz de gerar uma experiência pessoal e insubstituível do Deus da vida.
 
Jo 12,20-33
      O texto de hoje inicia afirmando que “havia alguns gregos entre os que tinham ido à festa para adorar a Deus” (v.20). Aqui, os gregos representam todos os que não são judeus. Para o evangelista, é um momento em que começa a se realizar o que Jesus dissera em 10,16: “Tenho também outras ovelhas que não são desse curral. Também a elas eu devo conduzir, elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor”. Os “gregos” são essas ovelhas que Jesus vai conduzir. Eles vão ao templo, mas, em vez de entrar nele, vão a Jesus: “Eles se aproximaram de Felipe, que era de Betsaida da Galiléia, e disseram: ‘Senhor, queremos ver Jesus’”(v.21)
      Jesus em vez de falar com os “gregos”, dirige-se aos discípulos, afirmando que, “chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado”. Esse detalhe é importante, pois caberá à comunidade abrir novos horizontes, levando a humanidade inteira a fazer a experiência de Jesus. Foi o que fez a comunidade do Discípulo Amado, da qual nasceu o Evangelho de João, pois parte de seus membros era de origem pagã.
      É chegada a “hora” de Jesus anunciada em 2,4. O evangelho de João, desde o início, aponta para o momento culminante da hora, isto é, a glorificação de Jesus e do Pai ao mesmo tempo. A glória é a manifestação do amor fiel de Deus, concretizado em Jesus que entrega sua vida. Jesus é a teofania de Deus, o templo de Deus que reúne todos para a comunhão e a vida.
      Os versículos seguintes desenvolvem esse tema. Em primeiro lugar, Jesus é o grão de trigo que cai na terra e morre para produzir fruto. (v.24). Ele optou por desaparecer, ser esquecido, morrer. A morte é a condição para que o grão libere a capacidade de vida que possui. Se não morre, também não gera vida. Se morre, de um só grão nascem muitos.
      A maioria de nós, ao contrario de Jesus, tem medo de morrer. O evangelho nos diz que a vida fica frustrada quando temos medo da morte (v.25), pois o amor é verdadeiro somente quando está disposto a doar-se totalmente, desaparecendo, sendo esquecido, morrendo...É próprio dos regimes de força incutir medo nas pessoas, e o medo maior é o de ter de morrer de forma violenta, como tem acontecido em muitos casos em nosso país e na América do Latina. Os regimes de força se fortalecem quando temos medo de entregar a vida por aquilo que acreditamos. Jesus não tem medo de morrer, embora sinta fortemente a carga psicológica que isso implica (cf. v. 27: “Agora me sinto angustiado”). Qual é a força que anima os cristãos diante disso? “Quem ama sua vida, a perde; e quem despreza sua vida neste mundo, a conserva para a vida eterna. Se alguém quer me servir, que me siga; e onde eu estiver, estará também o meu servo. Se alguém me serve, o Pai o honrará” (vv. 25-26). A expressão “onde eu estiver” recorda a morte, mas também a ressurreição,honra que o Pai confere a quem segue os passos de Jesus.
      Jesus não foge do confronto: “Foi precisamente para esta hora que eu vim” (v.27b). Sua firme decisão é comprovada pelo Pai. É dele a voz quem vem do céu (cf. v. 28b), embora os presentes a interpretem como um trovão ou como um anjo que acabou de falar com Jesus (v. 29). Para João, trata-se de uma teofania (manifestação de Deus) que aprova as opções de Jesus e conforma o caminho de seus seguidores: “Esta voz que vocês ouviram não foi por causa de mim, mas por causa de vocês” (v.30)
      Com sua morte Jesus sela a aliança de Deus com a humanidade, mas ao mesmo tempo, provoca a sociedade para um confronto ou julgamento (v. 31). Sua hora é, ao mesmo tempo, a revelação do amor fiel, a glorificação do Pai e do Filho, e o desmascaramento da sociedade injusta e infiel que patrocina a morte. O “chefe deste mundo” (v.31b) é o sistema que matou Jesus, o “pecado” que o Cordeiro veio tirar do nosso meio (cf.1,29).
      O tema julgamento é muito importante no evangelho de João. Jesus não veio para condenar o mundo, mas para salvar (cf. 3,17).
     
 
      José Bortolini tem escrito roteiros homiléticos que, publicados na Revista Vida Pastoral, Editora Paulus, já foram utilizados por muitos agentes de pastoral. Comentando as leituras bíblicas de hoje ele destaca, da leitura de Jeremias, sobre a aliança entre Deus e o povo, a novidade que está no discurso de Jeremias sobre a aliança. Diz que “a aliança do Sinai era externa. O contrato fora registrado em pedras e possuía caráter jurídico. Jeremias percebeu a caducidade de tais leis, seja porque não respondiam ao anseio profundo do ser humano, seja porque as mediações (sacerdócio, templo, sacrifícios, lideranças político-religiosos) transformaram a experiência pessoal do Deus libertador num código frio de leis”. Jeremias fala de uma nova aliança, não mais uma aliança externa, ritual e jurídica. Diz Bortolini: “A nova aliança é interna, gravada no fundo do ser e no coração de cada pessoa (v. 33), e dispensa as mediações (v. 34), pois é capaz de gerar uma experiência pessoal e insubstituível do Deus da vida”.
      No Novo Testamento a novidade da aliança é a pessoa de Jesus, como é mostrado no Evangelho de hoje: Jo 12,20-33. Esse texto não tem paralelo nos Evangelhos chamados sinóticos (Mt, Mc e Lc), de sorte que se possa fazer uma equiparação. Mas o que se diz no v. 25 é muito semelhante ao que se encontra em Mt 16,25, Mc 8,35 e Lc 9,24. Só essa parte a “Bíblia de Jerusalém” indica como paralelismo.     Outro versículo tem apenas uma vaga semelhança com passagens dos sinódicos.
      Os gregos dos quais o evangelho de hoje começa falando, que representam a universalidade da mensagem de Jesus e da salvação, vão ao templo, mas estão interessados em ver Jesus. O templo só teria sentido se levasse a Jesus. No entanto, é no templo que Jesus é mais rejeitado. Por isso, em outra passagem, Jesus mandará destruir o templo. O novo templo é ele. No entanto, esse novo templo que é o próprio Jesus não será glorificado sem passar antes pela paixão, sofrimento, humilhação, morte violenta na cruz pelas autoridades da época. Para justificar, Jesus usa a imagem da semente de trigo, que só dará muitos frutos se morrer. E diz o que também aparece nos outros evangelhos canônicos: quem quiser ganhar a sua vida vai perde-la.
      Vou contar agora três breves histórias para ilustrar esse tema.
      A primeira é mais adaptada para crianças, mas serve também para adultos. É a história de um sabonete que não queria ser usado. Era tão bonito e perfumado e não queria ser gasto. Por isso, escondia-se a cada vez que alguém se aproximava. Quando, em certa ocasião, depois de muito se esconder, viu a porta aberta, escorregou-se e foi para a rua. Estava livre, pensou. Mas veio a chuva e ele derreteu-se todo na enxurrada, sem lavar e perfumar ninguém. Assim é a nossa vida. Não podemos evitar de envelhecer e morrer. Mas seremos felizes se gastarmos a vida fazendo o bem ao próximo.
      A segunda é de um homem que recebeu um bom dinheiro. Colocou-o no banco para que rendesse juros. Quando foi buscá-lo, o gerente da agência aconselhou-o a não retira-lo. A época era boa para o investimento. Nenhuma crise financeira era prevista. As perspectivas eram boas. Iria obter muito mais se deixasse o dinheiro lá. Ficou convencido e deixou o dinheiro lá ainda por muito tempo. E a família, pobre, só esperando. Depois de muito tempo foi buscar o dinheiro. Mas as perspectivas eram ainda melhores e o gerente convenceu-o a não retirar o dinheiro. Voltou para casa não com dinheiro, mas com números, contas. Mostrou aqueles números impressionantes e os familiares se conformaram. Depois de um novo período, na véspera de ir buscar novamente o dinheiro, ele morreu. Morreu sem aproveitar nada daquele valor a que tinha direito, sem ver os familiares desfrutando daquilo. Viveu pobre para morrer rico.
      A terceira história é de uma família em que cada irmão se casou e adquiriu a sua casinha. Restou apenas uma irmã na antiga casa cuidando da mãe doente. A mãe faleceu. E então, o que fazer com a casa? A filha, que já estava na casa, disse que o imóvel deveria ficar para ela, por ela ter cuidado da mãe enferma por tanto tempo. Um irmão disse que, pelo contrário, ela morou na casa aquele tempo todo sem pagar aluguel e que então não devia ter direito a nada, o que a deixou ofendida e ressentida. Um irmão disse que deveria ter uma parte maior no valor resultante da venda da casa porque sempre fez os reparos de instalações elétricas e encanamentos. O outro irmão lembrou uma reforma que ele bancou sozinho. Uma irmã disse que devia ficar com a parte maior porque ela se casou bem cedo e quase nada aproveitou daquela casa. Foi uma tremenda briga. Os irmãos passaram a se odiar, nunca mais olharam um para o outro, a casa ficou lá abandonada, se deteriorando, sem ninguém pagar suas contas e cuidar de sua manutenção. Deus, quanta insensatez! Por causa de uma misera propriedade. Valia mais uma visita agradável a um irmão, uma brincadeira com os sobrinhos do que aquela casa. Valia mais um almoço no domingo, com todos os irmãos se dando bem do que aquela casa. Valia mais uma noite de sono do que aquela casa. Procurando ter um pouco mais daquele jeito, perderam tanto!
      Os maiores bens são aqueles que já temos gratuitamente, como o brilho do sol, a brisa suave, a beleza dos pássaros e das flores. E o bem que se faz ao próximo, que tanto enriquece o doador. Quem procura ganhar a vida para si, perde-a. Em Jesus, Deus se doou inteiramente a nós e nisso pode estar a nossa maior inspiração.

Sermãoa para o 2º Domingo da Quaresma, Ano C

Postado em 26/7/2011 em 03:27 PM
Sermão para o 2° Domingo da Quaresma, Ano C
(Gn 15,5-12.17-18/ Fl 3,17-4,1/ Lc 9, 28-36)
 
(Reler o texto anterior “Sermão para o 2° Domingo da Quaresma Ano B”)
 
 
     Antes de comentar mais sobre o evangelho de hoje, podemos procurar alguma semelhança entre a mensagem da transfiguração, do Evangelho, e a mensagem do Antigo Testamento envolvendo a figura de Abraão, de quem fala a primeira leitura de hoje, e, talvez, ver uma certa transfiguração envolvendo esse personagem. Diz ela que Abraão faz uma aliança com Deus marcando-a com um sacrifício em que ele partiu animais ao meio e um braseiro fumegante com uma tocha apareceram e passaram por entre os animais.
     Analiso a figura de Abraão a partir de um versículo da primeira leitura de domingo passado que diz: “meu pai era um arameu errante que andava pelo deserto” (Dt 26,5). José Bortolini é dos estudiosos da Bíblia que vêem Abraão como pobre. Diz ele em Vida Pastoral, Roteiros Homiléticos, Ed. Paulus, mar/abril 1995, p. 36 e 37:
 
     Abraão é figura desses pobres, cuja riqueza única é a fé no Deus que pode reverter os rumos da história. De fato, ele é velho e sua esposa é estéril. Para o povo da Bíblia, não ter filhos era uma desgraça. Além disso, Abraão é um retirante sem terra. Para ele a vida se traduz num descendente e num pedaço de terra de onde tirar sustento. Faltando esses dois elementos, falta-lhe a vida, e ele mergulha na noite escura.
     Deus vai ao encontro dos anseios do pobre por vida e liberdade, fazendo brilhar, na noite escura, sinais de esperança e rumos novos (...) Os vv. 9-12.17 mostram um antigo rito de aliança. As pessoas que contraíam um pacto agiam da seguinte forma: dividiam pelo meio alguns animais (cf. v. 9), colocando as partes umas em frente às outras (v. 10). A seguir, passavam no meio dos animais divididos, proclamando fidelidade ao contrato. Caso um deles fosse infiel ao pacto, deveria ser despedaçado como os animais.
     Abraão se enche de grande e misterioso terror (v. 12b), sendo novamente invadido pela escuridão da noite. Mas Deus faz brilhar, na noite escura de Abraão, a promessa de que ele será sempre seu fiel aliado: “Depois que o sol se pôs e escureceu, apareceu um brasileiro fumegante e uma tocha de fogo, que passaram por entre as partes dos animais divididos” (v. 17).
 
     E escreve José Luiz Gonzaga do Prado em Vida Pastoral, Roteiros homiléticos, jan/fev 2010. Ed. Paulus, p. 44 e 45 (também na internet em www.paulus.com.br):
 
     Abraão está velho e sem filhos. Deus dá-lhe a esperança de tornar-se pai de enorme multidão. O fogo que passa entre as metades de animais sacrificados simboliza que Deus está firmando um compromisso com Abraão.
     Abraão é modelo do patriarca ou pai grandioso, lembrado por inúmeras gerações. Ele, porém, não é pai grandioso (o significado do seu nome) por causa de seu vigor físico – já estava velho e debilitado, quando Javé lhe prometeu grande descendência. Deus é que fez dele o pai da multidão (significado do nome Abraão). Para tanto, bastou-lhe acreditar na promessa de Deus. Sua fé fê-lo merecer, fez que o cumprimento da promessa lhe fosse de justiça.
     Javé prometeu-lhe também que seria proprietário da terra onde estava. Para garantir isso a Abraão, fez com ele uma aliança.
     As alianças ou contratos antigos eram firmados com um rito de sangue. O mais comum era as partes contratantes passarem entre metades de animais sacrificados, pronunciando imprecações ou “rogando pragas”, como se dissessem: “Aconteça-me o mesmo que a estes animais se eu não cumprir o que foi contratado”.
 
     Um detalhe da primeira leitura de hoje que não está explicado nos roteiros desses dois autores citados não passou despercebido a um amigo que participou de uma celebração que eu presidi. Perguntou-me ele porque Abraão, como diz Gn 15,10, dividiu ao meio uma novilha, uma cabra e um carneiro, mas não dividiu ao meio a rola e a pombinha. Respondi que talvez seja porque os antigos costumavam ler a sorte nas entranhas de animais pequenos e o autor de Gênesis quis distinguir Abraão de tais pessoas.
     Antes de comentar o Evangelho de hoje vamos fazer a sinopse dele. Aparece ele nos quatro Evangelhos Canônicos: Mt 17,1-13/ Mc 9,2-13/ Lc 9,28-36/ Jo 12,28-36. Há poucas diferenças entre Mt, Mc e Lc. E muita diferenças entre esses três e o de João, que não é chamado sinótico. No texto de Lucas não aparece a palavra transfiguração. Explica José Bortolini no roteiro homiléticos aqui citado que “Lucas evita falar de transfiguração porque o evangelho que ele escreveu se dirigia a pessoas vindas do paganismo. Elas poderiam confundir o episódio com uma metamorfose das divindades pagãs”.
     O Evangelho de hoje apresenta Jesus com três de seus discípulos sobre uma alta montanha. A montanha simboliza a oração, a maior proximidade com Deus. Foi ali que Jesus transfigurou-se, isto é, foi além da figura humana. No Antigo Testamento, Moisés, sobre a montanha, recebeu a lei. Agora Jesus ocupa o lugar de Moisés. E por ele vem a nova lei. No versículo 4 aparecem Moisés e Elias. Moisés representa a lei e Elias o profetismo. As duas realidades estão com Jesus. Pedro diz que é bom estarem lá e sugere fazer três tendas, isto é, três lugares de adoração. Poder-se-ia perguntar a Pedro: por que não um só, se Jesus não é apenas um a mais e sim ocupa o lugar de todas as referências, uma vez que ele é o próprio Deus? O versículo 7 diz que desceu uma nuvem e que da nuvem saiu uma voz. Essa voz diz que Jesus é o filho amado e que deviam escutar o que ele diz. O Antigo Testamento fala de uma nuvem que acompanhava o povo no deserto. Era sinal da presença de Deus. Agora a presença de Deus (Deus Pai) está especialmente em Jesus. Os discípulos entram na nuvem (v. 34), isto é, fazem a experiência de Deus. Mas ficam com medo. Devem superar esse medo. Há outro detalhe que merece ser comentado. Enquanto Mateus e Marcos situam o episódio no sexto dia, Lucas diz “mais ou menos oito dias depois” (v. 28). O sexto dia de Marcos, repetido por Mateus, lembra o dia da criação do homem e quer ensinar que Jesus cria uma nova humanidade. O autor de Lucas conhecia o texto de Marcos. Por isso diz “mais ou menos”. Mas situa o episódio no oitavo dia para lembrar o começo da nova criação do universo. Depois do descanso do sétimo dia, é novamente o primeiro dia, o dia da ressurreição de Jesus. Que significado tem isso para nós? A nossa oração nos aliena, fazendo-nos fugir do mundo, ou nos leva a participar concretamente dessa recriação, transformando a sociedade em favor da justiça e fraternidade como nos pede a Campanha da Fraternidade realizada no Brasil em 2009?

Sermão para o 3º Domingo da Quaresma, Ano C

Postado em 26/7/2011 em 03:25 PM
Sermão para o 3º Domingo da Quaresma, Ano C
( Ex 3,1-8.13-15/ 1 Cor 10,1-6.10-12/ Lc 13,1-9)
 
 
     Utilizamos como símbolo para essa missa uma figueira plantada ainda em vaso; pequena, mas já com alguns frutos bem vistosos. É uma planta bem conhecida no Brasil ainda que comumente não se vejam muitas delas. Suas frutas (que são classificados cientificamente como flores) são muito saborosas. Suas folhas aromáticas servem para fazer licor. Uma senhora de origem italiana lembrou que essa planta é bem mais comum na Itália do que aqui. Mas antes de falar desse símbolo, a figueira, vamos dar uma olhada no Antigo Testamento a partir da primeira leitura de hoje.
     Ela inicia mostrando-nos Moisés apascentando o rebanho do Jetro, seu sogro. O que vem antes disso? Vou recordar usando trechos de textos de um autor chamado Dimas Kunsh, que, há uns dez anos atrás escrevia em algumas revistas, usando muita imaginação e um pouco de seus conhecimentos em história e exegese bíblica. Depois de falar daquele menino, filho de escravos hebreus no Egito, que foi salvo de uma matança de meninos ordenada pelo faraó, pois a filha do faraó, ao encontrá-lo na beira do rio, se encantou com ele e levou-o para viver no palácio, disse ele: 
 A princesa adotou o pequeno e o chamou de Moisés. O nome significa “retirado das águas”. Da casa de escravos para o palácio do rei! Da pobreza para o conforto, o luxo e a riqueza (...). Podia aprender a se comportar como um verdadeiro nobre do Egito. Quem sabe chegaria a ministro?! Ou administrador? Ou capataz dos escravos?Aliás, o faraó tinha mesmo esse costume, naquela época: ele pegava um ou outro rapaz dos escravos, ou de um povo qualquer, dominado por ele e mandava estudar nas escolas do Egito. Uma idéia genial. Porque os rapazes, mais tarde, iriam defender os interesses do faraó. Ajudariam o faraó a dominar ainda mais o povo de onde eles tinham saído. Assim, Moisés virou gente fina. Roupa bonita, gestos delicados. Nada a ver com os escravos! Nem com as empregadas do faraó!
    A aparência de Moisés não enganava: se parecia demais com muitas das empregadas do faraó. E também com os escravos que davam duro nas construções, apanhavam dos capatazes, sofriam o diabo. É claro! Moisés era hebreu como os escravos. Um dia, conta a bíblia, Moisés deixou o palácio e saiu para ver sua gente. E não gostou nada do que viu. Ele, rico, bem vestido, morando no palácio do faraó. O seu povo, ali na mais dura escravidão. Trabalhando e apanhando. Sendo perseguido. Morando, só Deus sabe em que condições!“Isso não está certo”, pensou Moisés. E começou a perceber que as coisas precisavam ser mudadas. Precisava fazer alguma coisa. Ele, Moisés, ia dar um jeito naquilo! Quando viu um hebreu sendo maltratado por um egípcio, talvez um trabalhador escravo apanhando do capataz, Moisés ficou irritado. O sangue lhe subiu a cabeça. Olhou para um lado, olhou para outro. Não viu ninguém. Comprou briga. Matou o egípcio e o enterrou na areia.
     Pobre Moisés! Pensava que podia, ele sozinho, resolver o problema do povo... No dia seguinte, deixou novamente o palácio para dar uma volta. De repente, viu dois hebreus brigando. “Como pode uma coisa dessas?”, perguntou-se. Esse povo! Quando Moisés chamou a atenção do agressor, este lhe disse: “Quem você acha que é? Tá querendo ser nosso chefe? Sai pra lá, cara!” Acho que o moço não gostou do tipo do Moisés. Logo se via que não era gente igual a ele. E ainda disse mais: “Você ta querendo me matar, como matou o egípcio, ontem?” Por essa Moisés não esperava. Então, tinha gente sabendo! Ficou com medo. Tratou de fugir. A essa altura, o faraó já o estava procurando pra acabar com ele. Por isso, Moisés se mandou para bem longe, lá para as terras de Madiã. Ali ficou muitos anos, na casa de um tal de Jetro.O que será de Moisés? Tinha pensado em ajudar a sua gente! Não deu certo... (...)
     Ah, como é bela a vida! A Zefa, que esposa maravilhosa! E o Gersinho, um moleque cheio de saúde, que vive correndo pra lá e pra cá o tempo todo... É a cara do pai.
     E que beleza conversar com o sogro, o Jetro, um homem cheio de sabedoria!
     Moisés estava numa boa, contente e feliz, lá nas terras de Madiã. Tinha tudo o que queria: casa pra morar, uma esposa, um filho, trabalho, comida... Nem pensar em voltar para o Egito, de onde tinha fugido! se fosse pra morar no palácio do faraó, o rei do Egito, até que seria outra coisa. Mas isso já não era mais possível. Tinha saído corrido de lá, quando o faraó o procurava para matá-lo. Muito melhor ficar em Madiã, cuidando das suas ovelhas. Vida tranqüila, graças a Deus!
     E lá no Egito, como é que andavam as coisas? Bem, Moisés estava desligado. Nem notícias tinha. Não lembrava que seu povo continuava sofrendo o diabo nas unhas do faraó. Mas, porque se preocupar? Bem que ele tinha tentado fazer alguma coisa, quando estava lá. Não tinha dado certo. Paciência! Melhor ficar em Madiã com sua família, seus novos parentes, suas ovelhas. Egito? É coisa do passado... Mas aí aconteceu o seguinte: Deus apareceu a Moisés e teve uma conversa muito séria com ele. É o que conta o povo da Bíblia, muito tempo depois, relembrando os acontecimentos do seu passado distante. (...)
 
    Moisés indaga pelo nome de Deus. Se os israelitas o perguntassem, o que ele iria dizer? “Eu sou o que sou” é a nossa tradução. Procurei a versão em hebraico:
     A tradução é difícil. E a pronúncia também. Até porque esse nome foi escrito para não ser pronunciado. Essa forma de denominação tem semelhança com “Iahweh” e “Adonai”. Deus é também chamado, na Bíblia, de “El Shadadai”, deus da montanha; deus de um povo marginalizado, de gente que vivia nas montanhas, sem possuir terra fértil. Por vezes, para fugir da pesada tributação das Cidades-Estados. Também se fala em Deus de Abraão, de Isaac e Jacó. É a concepção de um deus comunitário, encontrado no próprio chão, e não um deus importado, de cima para baixo, imposto por uma cultura dominante.
     Iahwch (Javé), “aquele que é e está” ou “presença libertadora”, aquele que se apresenta no acontecimento, na historia, na revelação. Não é deus manipulado. É Palavra-Acontecimento. O que ele é se dirá na ação.
     Sobre isso escreve Aila Luzia Pinheiro Andrade em seus “Roteiros Homiléticos, Vida Pastoral, Ed. Paulus, março-abril 2010, p.48 e49 (ou WWW.paulus.com.br)”:
 
     Depois de saber do propósito de Deus, Moisés tem uma pergunta, que não deriva de abstrações filosóficas, mas tem cunho prático e pastoral: se o povo me perguntar qual é o seu nome, o que direi?
(v. 13).
     Nas antigas civilizações, o nome significava a própria pessoa, seu caráter, seus atributos, seu ser... A preocupação de Moises é como é Deus, qual a atividade dele, qual é sua ação.
     Deus responde a Moisés com o verbo hebraico “ser/estar”. Como se encontra em uma ação incompleta, devemos traduzi-lo por “era”, “sou”, “serei”, “estava”, “estou”, “estarei”. O Deus sempre presente e acolhedor do ser humano envia mensageiros para que a sua presença possa ser efetiva nos que estão em situação de escravidão, para os que têm a dignidade negada. Deus é o existente e a fonte da existência de todos os seres. Seu nome significa que ele é um mistério e só pode ser visto por meio do ser humano, sua imagem. Por isso qualquer tipo de escravidão é uma ofensa a Deus, pois a imagem de Deus é roubada do ser humano quando a dignidade deste é negada.
     O “nome” também significa que Deus será conhecido por meio daquilo que faz, ou seja, de sua ação na criação e na história. Ele já agiu em favor dos patriarcas, e seu nome enfatiza a presença ativa do Senhor no passado, no presente e no futuro.
 
     Vale recordar os verbos que aparecem nos versículos 7 e 8. Deus diz: Eu vi, eu ouvi e eu desci. É um Deus muito próximo, que tem tudo a ver com a situação material desse povo. Não é um deus a mais para iludir a população e justificar a ideologia dos opressores. E ele quer tirar esse povo da escravidão. E faz um pacto com esse povo.
     Mas, na época de Jesus, como estava esse povo que, historicamente, fez aliança com Deus para viver como nação e povo escolhido?
     Algumas pessoas, conforme o Evangelho de hoje, vieram a Jesus trazendo notícias sobre uma tragédia. Jesus lembra ainda outra tragédia e diz que as pessoas que foram mortas não eram mais pecadoras do que os outros Galileus. Sobre isso escreveu José Bartolini em Vida Pastoral, Roteiros Homiléticos, Ed Paulus, março-abril de 1995, p 40 a 42:
 
     Na mentalidade do tempo, baseada na doutrina da retribuição, supunha-se que as catástrofes fossem castigo que deus envia aos culpados: pecou, pagou! A tragédia do v. 1 talvez se refira ao seguinte fato: Pilatos, querendo construir um aqueduto, decidira utilizar o tesouro do Templo como verba para a construção. Isso provocou a resistência de um grupo de galileus, assassinados enquanto ofereciam sacrifícios no Templo. A outra tragédia ( v.4), de difícil identificação histórica, relata a queda da torre de Siloé, matando dezoito pessoas.
 
     A seguir Jesus conta a parábola da figueira estéril. Assim a explica José Bartolini no texto referido acima:
 
     A parábola da figueira é uma amostra de como Deus é radicalmente solidário e paciente. A figueira é uma das árvores mais comuns e generosas da Palestina. Geralmente plantada em meio a vinhas – que são o símbolo mais eloquente de Israel- chega a produzir frutos por dez meses, ininterruptamente. Por essas razões, também a figueira representa o povo eleito.
     É evidente que, na parábola, a figueira é o povo ao qual Jesus pertence e, por extensão, todos os que ouviram sua palavra e passam a fazer parte da vinha, o povo de Deus. Quem plantou a figueira e vai procurar frutos é Deus. O agricultor é Jesus. Os três anos podem ser o período da pregação de Jesus, depois do qual esperar-se-iam frutos abundantes.
     A sentença do patrão, ao não encontrar frutos, é severa: visto que Israel é uma figueira ociosa, não tem sentido que continue a viver. Talvez Lucas esteja retratando a rejeição sistemática que o Evangelho encontrou por parte das lideranças político-religiosas daquele tempo (cf. Atos dos Apóstolos).
     A grande novidade vem através do agricultor: ele vai adubar a figueira, ou seja, a solidariedade de deus atinge as raias do absurdo. Plantada entre vinhas – certamente produtivas – a figueira é objeto de cuidado especial. Os camponeses daquele tempo sabiam muito bem que não era necessário adubar figueiras. Pois bem: Jesus ultrapassa as expectativas. Aposta nas pessoas além daquilo que possa parecer absurdo. A solidariedade de Deus é assim!
 
     É comum na Bíblia o uso da imagem da figueira estéril para indicar o comportamento infiel do povo. Diz Jr 8,13: “Não mais uvas na videira, não mais figos na figueira, a folhagem está seca”. E diz Mq 7,1: “Não há cacho sequer para comer, nem um figo temporão que eu desejo”. O Evangelho de hoje, em nenhuma de suas partes tem paralelo nos outros Evangelhos. Mas há dois textos, um em Mateus e outro em Marcos, semelhante a Lc 13,6-9.
     Diz Mt 21,18-22: “ Na manhã seguinte, voltando para a cidade, Jesus ficou com fome. Viu uma figueira perto do caminho, foi até lá, mas não achou nada, a não se folhas. Então Jesus disse à figueira: “Que você nunca mais dê frutos. E no mesmo instante a figueira secou”
     Mc 11,12-14.20-24 conta a parábola quase do mesmo modo. Mas insere no meio da parábola o episódio em que Jesus expulsa os vendedores do templo.
     Comentando a segunda leitura de hoje, 1 Cor 10,1-6.10.12, escreve Aila Luzia Pinheiro Andrade no texto acima referido:
     Á maneira dos mestres judeus, Paulo resume e interpreta os acontecimentos da saída do Egito e da peregrinação no deserto. Os principais elementos literários e teológicos são: a nuvem, o mar, o maná e a rocha da qual saiu água (Ex 13-17; Nm 20,7-13). Há um vínculo entre a experiência de Deus que os cristãos têm no presente e a experiência de fé vivida pelos hebreus no passado. Os eventos do passado eram prefigurações do que viria em plenitude com Jesus Cristo. O êxodo do Egito foi o ato salvífico do Antigo testamento, e a morte e ressurreição de Jesus são o evento salvífico por excelência. Esses acontecimentos não estão desvinculados. A obra redentora de Jesus Cristo é a obra do Pai.
     Antes de entrar na terra prometida, Israel enfrentou vários desafios no deserto que mostraram a fragilidade de sua fé, e agora a Igreja deve mostrar a consistência de sua fé. Portanto a Igreja tem muito que aprender com a história de Israel.
      Usando um antigo método judaico de interpretação, Paulo afirma a respeito dos hebreus que saíram do Egito: “todos foram batizados”, “todos comeram”, “todos beberam”, “todos foram batizados”: ou seja, por meio de Moisés, o libertador enviado por Deus, os hebreus receberam vida nova, deixaram de ser escravos e fizeram uma aliança com Deus. Alguns textos bíblicos aludem ao maná como “o pão do céu” (Sl 105,40). De igual forma, a água que brotou da rocha era um dom de Deus. O maná e a água são descritos como alimentos espirituais porque não eram produtos de Moisés, mas, sim, de Deus.
     E, como a água brotada da rocha é mencionada no início (Ex 17,1-7) e no fim (Nm 20,2-13) da peregrinação no deserto, os mestres judeus forjaram a interpretação de uma rocha ambulante que acompanhou o povo por 40 anos. Isso não é um absurdo, mas um simbolismo profundamente teológico, visto que em várias passagens Deus é chamado de “rocha” (Dt 32,4ss). Paulo utiliza a teologia dos mestres judeus para afirmar que a rocha era Cristo.
     Os hebreus receberam os benefícios da presença divina, mas nem todos assumiram a responsabilidade com o compromisso da aliança. Seu pecado foi duplo (Nm 13-14): 1) duvidar da presença salvadora, murmurando contra Moisés; 2) confiar nas próprias forças. Paulo usa a narrativa sobre o deserto como uma advertência aos coríntios: o mesmo pode acontecer com eles.
     O fato de terem participado do “batismo” em Moisés e provado da comida e bebida espirituais no deserto não garantiu aos hebreus a entrada na terra prometida. Tampouco uma participação mecânica da Igreja, sem um seguimento genuíno de Cristo, será garantia de bem-estar nesta vida e de salvação eterna.
    A presunção dos coríntios lhe fez crer que a participação regular nos sacramentos lhe era garantia de ser verdadeiros cristãos. Mas, com uma leitura acurada dos eventos do passado, Paulo procura conscientizá-los desse engano. Os sacramentos revelam a presença de Deus entre nós e questionam sobre o tipo de vida cristã que estamos assumindo. Eles não nos foram dados para o conformismo e para a presunção, mas como fonte, cume e critério da práxis cristã.
 

Sermão para a Quinta Feira Santa, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 03:22 PM
Sermão para a Quinta-Feira Santa, Ano B
 
 
      Para dados introdutórios: Roteiros Homiléticos extraídos da revista Vida Pastoral, Editora Paulus, março-abril de 1994, p. 46 a 48, José Bortolini.
 
1. I leitura (Ex 12,1-8.11-14): Vida em meio à morte

A Páscoa era originariamente uma festa de pastores que celebravam, na primavera, o nascimento das ovelhas. Nessa festa, os pastores derramavam sangue de cordeiros em torno do acampamento a fim de espantar os espíritos que poderiam prejudicar a fecundidade do rebanho.
Quando saiu do Egito, Israel adaptou a festa às condições de um povo sedentário. Ela se torna a celebração do êxodo, traduzida em forma de refeição. Foi associada à festa dos Ázimos, que era uma festa agrícola. A festa dos Ázimos, porém, só começou a ser celebrada em Israel quando este tomou posse da Terra Prometida. E só foi associada à festa da Páscoa depois da reforma de Josias (ano 622 a.C.). Como, então, essas duas festas aparecem juntas num relato de acontecimentos tão anteriores como os do êxodo, cerca de 600 anos antes?
O texto que relata a Páscoa dos judeus (Ex 12,1-13,16) foi posto por escrito bem mais tarde, num contexto de opressão para Israel, semelhante ao primeiro, ou seja, durante o exílio na Babilônia, alguns séculos depois. Na ocasião, as festas da Páscoa e dos Ázimos já eram celebradas juntas. O redator da escola sacerdotal coletou informações das fontes javista e eloísta, elaborando o texto final, para que viesse a responder aos anseios do povo oprimido no exílio da Babilônia, reevocando assim a libertação do Egito.
Ex 12,1-14 fala do ritual da Páscoa. Mas o texto não deve ser lido na ótica de quem quer saber como celebrá-la. Trata-se de um memorial, ou seja, a atualização da libertação de Javé em favor do seu povo. O texto devia falar ao coração dos novos exilados e suscitar neles a memória dos feitos de Deus. O texto deve ser lido, pois, na ótica do por que celebrar a Páscoa.
Nesse sentido, o texto oferece algumas indicações preciosas: a Páscoa marca o início de uma nova era, o tempo da libertação: “Este mês será para vocês o começo dos meses, será o primeiro mês do ano” (v. 2). Inicia-se vida nova. Chegou a libertação. A festa vai determinar o futuro do povo: será um povo para a libertação. É o início da vitória do povo sobre as estruturas de poder opressoras (do Egito, da Babilônia, dos nossos dias…).
Para a inauguração dessa nova era requer-se partilha, de modo que ninguém tenha demais e a ninguém falte o que comer: “Se a família for pequena demais para um animal, convidará também o vizinho mais próximo, de acordo com o número de pessoas” (v. 4). O que sobrar, o fogo o devorará (v. 10).
É uma festa que visa à preservação da vida: o sangue não mais afugentará os maus espíritos, mas servirá de sinal para a preservação de Israel enquanto povo, ameaçado de desaparecer pela política de morte dos poderes opressores: o Faraó que controla os nascimentos (Ex 1,15-16) e todo e qualquer sistema impositivo que controla a origem da vida.
É uma festa da memória histórica, lembrando o passado desastroso (ervas amargas). É celebrada às pressas (pães sem fermento). Os que dela tomam parte devem estar preparados para longa viagem (v. 11) que os leve para fora do sistema opressor, introduzindo-os numa sociedade plenamente humana e fraterna, onde a história seja construída sobre os alicerces da liberdade e da comunhão.

2. Evangelho (Jo 13,1-15): O cerne do amor é o serviço

O texto de Jo 13 não fala da eucaristia como o fazem os Evangelhos sinóticos (Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,19-20). João nem sequer nomeia a Páscoa dos judeus e não a faz coincidir com a Páscoa de Jesus (13,1). Jesus não celebra a Páscoa judaica. A verdadeira Páscoa é a que Jesus celebrará com sua morte na cruz. Reforçando esse argumento, há o fato de João não mencionar Jerusalém. Jesus havia rompido definitivamente com o sistema opressor instalado na capital para inaugurar nova era de serviço e de partilha, na qual o próprio Deus toma a iniciativa, consciente de ser o grande servidor. O texto de Jo 13,1-15 pode ser dividido assim: a. Introdução (v. 1); b. O Lava-pés (vv. 2-5); c. Resistência de Pedro (vv. 6-11); d. Ensinamento de Jesus (vv. 12-15).

a. A Páscoa de Jesus (v. 1)
 
A primeira informação que o texto nos oferece é que se inaugura aqui nova era, a da Páscoa de Jesus. Ele está plenamente consciente desse momento. Isso é caracterizado, em grego, pelo verbo oida, que significa conhecimento adquirido, plena consciência do que se faz (o verbo aparece, ainda, nos vv. 3.11, referindo-se a Jesus, ao passo que Pedro não sabe, v. 7). Essa consciência está associada à hora de Jesus, que culmina com a morte na cruz. O que ele vai fazer, não o fará arrastado pelas circunstâncias, mas consciente de que abre o caminho de acesso ao Pai. Essa breve introdução fala ainda do amor de Jesus pelos seus, amor que agora se manifestará de forma perfeita: “amou-os até o fim”, até a perfeição do amor. E o que se segue pretende explicar em que consiste “amar até as últimas conseqüências”.

b. O Lava-pés (vv. 2-5): Amor é serviço
 
Tomar refeição juntos é sinal de comunhão e partilha. Jesus vive esse clima familiar com os seus, mas vai além. João salienta que a ceia já começara. Jesus teria ocupado o lugar de honra, mas vai mostrar concretamente de que honra se trata: certamente não é a mesma de Judas, no qual o diabo (= ambição, concentração de bens, espírito de não-partilha) havia entrado, tomando conta do seu coração (sede das opções de vida).
Consciente de estar realizando o projeto de Deus (v. 3), Jesus mostra como esse projeto se traduz em ações concretas que serão a norma da comunidade: despoja-se do manto (sinal de dignidade do “senhor”) e pega o avental (toalha, “ferramenta” do servo). É o Senhor que se torna servo (cf. Fl 2,6-7). Despojar-se do manto significa dar a vida sob a forma de serviço. De fato, quem devia lavar os pés eram os escravos não judeus ou as mulheres judias (filhas, esposa). Daí o escândalo de Pedro.
João não especifica quem foi o primeiro a ter os pés lavados. Com isso quer demonstrar que todos recebem o mesmo amor, sem preferências ou precedências. Jesus faz tudo sozinho: derrama água, lava, enxuga. Mais adiante (v. 12), ao retomar o manto, não se diz que ele tenha deposto o avental. Dá-se a entender que ele tenha vestido o manto por cima. Isso significa que seu serviço continuará, culminando na cruz: “Está consumado” (19,30). O Lava-pés de Jesus, portanto, prolonga-se até a cruz e nela tem seu ponto culminante.
Com esse ato consciente, sela a idéia de que Deus é o servidor da humanidade (cf. 5,17). Fazendo-se servo, torna senhores os seus, mas senhores enquanto conscientemente lavam os pés uns dos outros (v. 14).

c. Resistência de Pedro (vv. 6-11): O processo de conversão do cristão
 
Pedro vive mergulhado em categorias. Para ele, é normal que a comunidade/sociedade esteja construída sobre relações desiguais, como as de senhor–servo. Espanta-se que o Senhor lhe lave os pés (v. 6). O súdito não aceita a igualdade. É “súdito” com cabeça de “patrão”. Por isso Jesus lhe diz que não sabe nada. Contudo, mais tarde compreenderá (v. 7; veja 21,15ss). Pedro se firma na posição segundo a qual a desigualdade é legítima e até necessária para a ordem da comunidade. A resposta de Jesus é radical: se não for assim, será impossível ter parte com ele, ou seja, não pode ser seu discípulo e o projeto de Deus não se cumpre (v. 8). O processo de conversão é a adesão total ao projeto de Deus realizado em Jesus-servo.
Pedro superou a primeira fase do processo: “Senhor, lava então não só os meus pés, mas também as mãos e a cabeça” (v. 9). Mas ele ainda não aderiu ao que Jesus faz. Para se tornar verdadeiro participante do projeto, deverá sujar as mãos. É que Pedro ainda entendia o Lava-pés como um rito de purificação, ao qual, como judeu, estava tão acostumado. Lavar-se para eliminar a impureza ritual. Jesus, porém, mostra que, mesmo se purificando ritualmente, alguém pode continuar impuro. É o caso de Judas: lavados os pés, sua impureza permanece, porque aderiu ao diabo, o espírito antifraterno que leva à cobiça, e não à partilha e ao serviço (v. 11). O rito de purificação contemplava só o lavar as mãos. Ao lavar os pés dos discípulos, Jesus dá a perfeita dimensão do ser cristão: é ser servo dos outros. O cristão não se põe acima dos demais, mas a serviço deles, como Jesus. Aí está a nascente da verdadeira conversão!

d. Ensinamento de Jesus (vv. 12-15): Tal Mestre, tal discípulo
 
Jesus retoma o manto e se põe de novo à mesa, ou seja, volta à posição de homem livre (os escravos não sentavam à mesa), mas conserva a disposição de servo (não tira o avental). A cena é fortemente simbólica: ele continua sendo sempre aquele que serve. De fato, Jesus só é despojado do avental na cruz, pois é aí que conclui seu serviço.
O que segue tem valor de testamento-mandamento: “Vocês me chamam o Mestre e o Senhor”. Há diferença entre Jesus e os discípulos. Mas ele lhes recorda qual a dimensão desses títulos: ele é aquele que ensina por meio do exemplo. Os que lhe chamam Mestre devem aprender dele; os que lhe chamam Senhor devem identificar-se com ele no amor desinteressado, posto a serviço de todos, também dos que serão capazes de traições que levam à morte.

3. II leitura (1Cor 11,23-26): Eucaristia sem fraternidade é comungar a própria condenação

Estamos diante do primeiro escrito do Novo Testamento que trata da eucaristia, surgido por volta dos anos 54/55, prova de que as comunidades fundadas por Paulo já nessa ocasião celebravam a Ceia do Senhor. Esta é celebrada dentro de um contexto bem preciso: o da comunidade de Corinto, com todos os seus problemas e divisões entre ricos e pobres, fortes e fracos.
Corinto era uma metrópole com quase meio milhão de habitantes, 2/3 dos quais escravos nos campos, nos portos (Cencréia e Laqueu), nas minas de bronze e nas casas da elite.
Os cristãos dessa cidade começavam a Ceia do Senhor com uma refeição em que todos punham em comum o que cada qual trouxera (ágape). Era o momento da partilha, que precedia o grande sinal que atualizava (memorial) a partilha de vida do Senhor. Os pobres escravos, que trabalhavam até tarde, talvez não tivessem tempo para preparar algo, esperando saciar a fome com um jantar mais caprichado, comendo o que os ricos trouxessem. Estes – que ficavam sem nada fazer o dia todo –, não querendo passar o vexame de ter de comer a comida dos pobres ou partilhar com eles o próprio alimento, empanturravam-se e embebedavam-se antes que os pobres chegassem. E depois se continuava a Ceia do Senhor como se nada tivesse acontecido. Justamente aí se situa o grande dilema: é possível celebrá-la sem partilhar os bens com os que nada têm? Não seria comungar a própria condenação?

Hoje é o dia da “Celebração da Instituição Eucarística”, também chamada “Celebração do Lava-Pés”. Pedi para a equipe de liturgia colocar as pessoas que terão seus pés lavados em lugar bem visível, em destaque. E não dizer que são os doze apóstolos. Não são e nem estão representando os doze apóstolos. Estão representando elas mesmas. E nós todos. O gesto que realizaremos é sacramental. E são doze pessoas porque o número doze significa a totalidade. Todos nós devemos ser servidores uns dos outros.
      Numa mesma celebração temos a consagração e partilha do pão e do vinho e o gesto de lavar os pés. Só tem sentido comungarmos com Jesus Cristo se comungamos com a vida do irmão. E a melhor maneira de comungar com a vida do irmão é servi-lo em suas necessidades. Em que podemos servir ao próximo? São tantas as necessidades; são tantos os serviços, que não podemos atender a todos. Temos que estabelecer prioridades. Mas tomemos o cuidado de evitar essa mania tão comum de sempre jogar o serviço unicamente para outro. Se o próximo está doente logo a pessoa pergunta: “Você já foi ao médico?” e não diz mais nada. Se o próximo parece complicado emocionalmente, logo a pessoa diz: “Vá ao psicólogo!”. Não será essa uma maneira de se livrar do outro? Será que muitos não estão indo ao psicólogo porque não têm amigos? Não será cômodo e mesquinho dividir as funções tão rigidamente?
      Diante de uma pessoa gravemente doente, costuma-se esconder-lhe a doença. Não será, em muitos casos, para não ter que chorar com ela? “Não, você não tem nada” diz-se ao doente, antes de cair fora rapidinho, deixando a tarefa para o médico que, aliás, terá bem pouco tempo para ouvi-la. Ruben Alves, num de seus artigos, fala de uma mulher doente que perguntou ao médico: “Doutor, eu vou morrer?”. Se o médico disser: “Sim, provavelmente, pois o seu quadro é grave” estará sendo sincero. Mas também estará sendo cruel. O mais importante, nesse caso, não será mentir ou não. E Ruben Alves imagina uma pessoa que respondesse: “Você tem medo de morrer? Pois eu também tenho. Que tal conversarmos a respeito disso?”.
      Tenho sempre algo a dizer, mesmo não sendo profissional no assunto. Ou a não dizer, pois às vezes o melhor é escutar sem interferir. Ou ajudar o próximo com as mãos. E isso independentemente da posição social que eu tenha (Lavar os pés era serviço de escravo e Jesus lavou os pés dos discípulos. E Pedro teve tanta dificuldade em entender e aceitar isso que até pensou que fosse um gesto ritual). Costumamos dizer “tchau” e ir embora. Já lembramos aqui que “tchau” vem do italiano “tchiavo”, que originalmente significa “escravo” e daí “sou teu escravo” ou “estou aqui para lhe servir”. Que tal se disséssemos “tchiau” e ficássemos, bem disponíveis para servir o próximo gratuitamente em suas necessidades?

Lição da Paixão de Cristo

Postado em 26/7/2011 em 03:19 PM
Lição da Paixão de Cristo
 
     Dois fatos me marcaram ultimamente. O primeiro foi o conjunto das celebrações da liturgia da semana santa que presidi como ministro ordenado da Igreja Católica. O outro foi o conjunto de comentários e questionamentos que me foram dirigidos sobre o filme “Paixão de Cristo”, de Mel Gibson.
     Começamos a “Semana Santa” com a chamada Celebração de Ramos. Ela nos lembra a entrada de Jesus em Jerusalém, no final de sua “vida pública” que parece ter durado de dois a três anos. Não sei se muito devidamente, mas imagino Jesus entrando na tensa capital Jerusalém rodeado de gente “estropiada” e apesar disso sendo acolhido como rei. Digo “apesar disso” porque os reis se apresentavam ao povo rodeado de soldados, com aparência de poder. Os relatos do Evangelho de Mateus, Marcos, Lucas e João (O episódio é relatado nos quatro Evangelhos) dizem que Jesus entrou na cidade montado num jumentinho. A figura do jumentinho contrasta com o cavalo veloz dos grandes generais conquistadores, reis e imperadores. O autor do “Evangelho Segundo Mateus” (que muito provavelmente não foi o próprio Mateus) escreveu para os judeus e teve a preocupação de mostrar que Jesus foi bom judeu, cumpridor das escrituras. Demonstra ter retirado a imagem do jumento do Antigo Testamento, do Livro de Zacarias 9,9. Diz o Evangelho de Mateus que, para se cumprir o que fora dito pelo profeta, o rei de Sião vem manso e montado em um jumento (21,5). O vagaroso jumento confirma a mansidão e a simplicidade.
     Em uma exegese apurada muitos dados são discutíveis do ponto de vista histórico. Isso não é incômodo para os que compreendem que os escritores dos Evangelhos não foram jornalistas e sim teólogos. Aí valeria o dito do romancista Guimarães Rosa em “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”: “Tudo o que aqui escrevo é verdade, sem tirar e nem por, pois esta história é inventada”. Quero dizer, neste caso as verdades não são históricas e sim teológicas. Mas deve ter havido um fundo histórico. Se historicamente Jesus foi recebido na cidade como rei, parece ter sido bem outra a atitude de Pilatos. Conforme João 19,18-22 Pilatos mandou colocar no alto da cruz um letreiro que dizia “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”. Imagino que Pilatos, além de sanguinário, era gozador. Ele que detestava os judeus, teria insinuado: “O rei de vocês é esse homem ridículo”. E talvez ainda rido da cara dos judeus após insistir ironicamente: “Mas porque é que eu iria crucificar o rei de vocês?!” (Jo 19,15).
     Além da insistência de Jesus em dizer que era rei (e pouco amenizava sua situação dizer que o seu reino não é deste mundo como em Jo 18,36) a sua situação deve ter sido agravada por outra sua atitude, expressa, sobretudo, num gesto que aparece no Evangelho de João, 13,1-17. Nós o celebramos na quinta-feira santa, na missa chamada “Instituição da Eucaristia”. Comecei minha pregação perguntando aos participantes se eles conheciam o significado original de um cumprimento que usamos muito: “tchau!”. Diferentemente daqui, essa palavra em certos lugares é dita na chegada e não na despedida. É uma derivação da palavra “tchiavo”, “escravo” ou “sou teu escravo”. No Brasil tem sido costume dizer “pra lhe servir” ou “ao seu dispor”. Dirá o apóstolo Paulo “Sejam escravos uns dos outros por amor”. Na época de Jesus lavar os pés do outro era serviço dos escravos e das mulheres. Ao lavar os pés dos discípulos, Jesus se apresenta como escravo. Em João 13,9 Pedro entende o gesto de Jesus como um gesto ritual de purificação. Era difícil entender de outra maneira aquele “absurdo”. É mais: Jesus não é aquele que lava os pés dos ricos, dos que estão sempre rodeados de “puxa-sacos”. Ele é o servidor dos pobres. Sua atitude de dignificar os pobres é subversiva. Daí nasce sua aparente ruína.
     Na celebração da sexta-feira-santa ouvimos o relato da Paixão de Cristo. É mais enriquecedor ouvir essa leitura quando não se imagina ingenuamente e miticamente Jesus Cristo como um mágico, quando se sabe que os relatos dos Evangelhos não foram jornalísticos e sim teológicos, quando se conhece os estilos literários em questão, quando se valoriza a tão rica simbologia neles contida. E quando se admite que o conhecimento e os sentidos de Jesus não era uma mistura de humano com divino. Ele sentiu medo, sentiu angústia, sentiu dor. E pode, desesperado, ter gritado ao Pai: “Por que me abandonastes?” (Mt. 27,46 e Mc 15,34) sem estar entendendo o que acontecia com ele.
     O filme de Mel Gibson é tido por muitos como bem realista. De fato é mais realista do que os que têm apresentado um cenário tão amenizado. E assisti-lo pode ser proveitoso a todos. Mas será ele tão realista assim? O próprio Gibson afirmou que aquilo que o filme apresenta é o que está escrito nos Evangelhos. Aí está o seu erro. Ele faz uma interpretação literal dos Evangelhos. Nisso confirma o seu caráter de conservador que chega a ser fundamentalista.
     Ao apresentar os judeus como ferozes e Pilatos como um inocente obrigado pelos judeus e crucificar Jesus, ele parece desconhecer a teoria segundo a qual certa atitude diplomática teria levado os evangelistas a pintar Pilatos como menos ruim do que ele realmente foi. O apóstolo Paulo, por exemplo, que pode ter sido um cidadão romano, parece ter tido a crença de que converteria as autoridades romanas ao cristianismo. Por isso a diplomacia. Essa visão já não é compartilhada pelo escritor do Apocalipse, que escreve em outro momento histórico. Ou a que os escritores quiserem ressaltar e enfatizar a culpa das autoridades dos Judeus.
     Se Gibson quisesse ser ainda mais realista, colocaria o Cristo na cruz totalmente nu. E não se esqueceria de outro pequeno detalhe: colocaria os cravos nos pulsos de Jesus e não nas mãos.
     Há algo que me chama ainda mais a atenção. Se Cristo suportou tanta tortura como mostra esse filme sensacionalista, então ele não viveu a condição humana, pois um ser humano não conseguiria suportar tudo aquilo.
     Resta-me ainda dizer, acho que o filme não trabalha suficientemente esta questão: Quais os motivos econômicos e políticos que levaram Jesus à cruz?
     E para evitar o erro do anti-semitismo, basta lembrar que os brasileiros permitiram ao governo militar colocar na chefia da policia política o famigerado Sérgio Fleury, que comandou torturas tão terríveis que ninguém agüentaria ver.

Sermão para a Festa da Páscoa

Postado em 26/7/2011 em 03:18 PM
Sermão para a Festa da Páscoa
 
Um educador e líder político da república de Gana, na África Ocidental, chamado James Aggrey (falecido em 1927) contou uma história metafórica que serviu como ponto de partida para Leonardo Boff em seu livro “A Águia e a Galinha, uma metáfora da condição humana” e que também está em um outro seu livro intitulado “O Despertar da Águia”, Editora Vozes, 16ª Edição, 2001, p. 40 a 42. Vou contá-la a meu modo, sem grandes alterações. Um camponês encontrou um filhote de águia e colocou-o no galinheiro, no ninho de uma galinha. Ele cresceu junto com os filhotes da galinha, comportando-se como eles. Até que um dia um viajante naturalista que se hospedou na casa desse camponês disse a ele que aquela ave não deveria estar no galinheiro porque era uma águia. Respondeu o camponês que ela seria águia, mas que se acostumou como galinha e não voaria jamais. Respondeu o naturalista: “Vamos fazer a prova”. Levou a ave até o alto de uma montanha e jogou-a de lá. Esta ia caindo desajeitada até o momento em que viu o sol, animou-se, saiu voando, voou cada vez mais alto.
Antes de Leonardo Boff, José Fernandes de Oliveira, o famoso Padre Zezinho, utilizou-a em sua canção “Águia Pequena”:
Tu me fizeste uma das tuas criaturas / Com ânsia de amar / Águia pequena que nasceu para as alturas / Com ânsia de voar / E eu percebi que as minhas penas já cresceram / E que eu preciso abrir as asas e tentar / Se eu não tentar não saberei como se voa / Não foi a toa que eu nasci para voar. / Pequenas águias correm risco quando voam / Mas devem arriscar / Só que é preciso olhar os pais como eles voam / E aperfeiçoar / Haja mau tempo haja correntes traiçoeiras / Se já tem asas seu destino é voar / Tem que sair e regressar ao mesmo ninho / E outro dia, outra vez recomeçar. / Tu me fizeste amar o risco das alturas / Com ânsia de chegar / E embora eu seja como as outras criaturas / Não sei me rebaixar / Não vou brincar de não ter sonhos se eu os tenho / Sou da montanha e na montanha eu vou ficar / Igual meus pais vou construir também meu ninho / Mas não sou águia se lá em cima eu não morar. / Tenho uma prece que eu repito suplicante / Por mim, por meu irmão / Dá-me esta graça de viver a todo instante / A minha vocação / Eu quero amar um outro alguém do jeito certo / Não vou trair meus ideais pra ser feliz / Não vou descer nem jogar fora o meu projeto / Vou ser quem sou e sendo assim serei feliz.
Somos filhos de Deus e somos chamados para grandes ideais. Porém o sistema acostuma a maioria das pessoas a viver acomodadas, sem grandes perspectivas, horizontes, num “mundinho fechado”. O que significa ser cristão e acreditar na ressurreição?
No Evangelho de João, cap. 11, vemos Marta perante Jesus, lamentando a morte de seu irmão Lázaro. Jesus ressuscita Lázaro mas antes pede a fé. É triste ver que ainda hoje tantos lamentam a morte cronológica muito mais do que a falta de qualidade para a vida. Jesus não ressuscita Lázaro para que este acabe de morrer, para que morra novamente. Ele ressuscita para uma vida nova. Muitos hoje têm medo da morte, mas não têm medo de desperdiçar a vida em futilidades. Separam o lazer, a brincadeira, a fantasia, o sonho da realidade e assim tais coisas se tornam alienantes e mortíferas. Até usam as expressões “passar o tempo” e “matar o tempo”. Na verdade essas pessoas não matam o tempo, são mortas pelo tempo mal aproveitado. Bem diz o ditado “Os bares estão cheios de gente vazia”. É gente que nasceu para ser águia, mas se acostumou a viver como galinha.
O que significa ser cristão e acreditar na ressurreição?
Na verdade não temos uma fé inabalável. Por vezes sentimos a fé por um fio. Mas “se tiverdes fé do tamanho de uma semente de mostarda, direis a este monte arranca-te daqui e isso se fará” (Lc 17,30).
Por vezes nossa existência parece insignificante. Manifestamos inquietações existenciais. O que sou eu mais do que um número entre os seis bilhões de habitantes que estão na face da Terra? Será que a vida não é de qualquer modo banal? Vem à mente a afirmação de Sartre: “Nasci sem motivo, vivo por fraqueza, morrerei por acaso”.
Será que existe Deus? Será que a vida é mais do que um nada?
Acreditar que Jesus Cristo ressuscitou não é uma crençazinha como outra qualquer. Isso é desconcertante e se minha fé em Jesus for verdadeira ela fará grande diferença em minha vida. Não serei “meio cristão” ou “cristão não-praticante”. Dizia um filósofo cristão chamado Kierkegaard: “Só estarei afirmando como verdade o que eu estiver assumindo com absoluta paixão”.

Sermão para o 3º Domingo da Páscoa, Ano A

Postado em 26/7/2011 em 03:09 PM
Sermão para o 3º Domingo da Páscoa, Ano A
(At 2,14.22-23 / 1Pd 1,17-21 / Lc 24, 13-35)
 
 
Os relatos dos Evangelhos que temos na Bíblia, bem como os que estão no livro Atos dos Apóstolos, são escritos de caráter teológico, apologético; construções literárias em que os dados históricos são secundários. São profecias historicizadas. Pouco podemos saber com certeza do que de fato aconteceu. Mas imagino Judas Iscariotes chegando à noite com tochas iluminando imponentes soldados. Os discípulos olham espantados, mas certos de que haverá uma intervenção milagrosa. Raios cairiam derrubando os soldados. Jesus, o Messias, tomaria o poder, expulsaria os romanos e restabeleceria o trono de Israel. Não aconteceu. Então aconteceria mais tarde. Nada. Jesus terminou abandonado, humilhado na cruz, derrotado. “Esperávamos que fosse ele o libertador de Israel”(Lc 24,19). Decepção, desilusão, lamento, tristeza, desânimo. Aí aparece o “Mané”. O que é um Mané? É aquele sujeito tonto, que não sabe de nada, que está mais por fora do que semente de caju, que até atrapalha. O termo “Mané” é um modismo do linguajar popular das últimas décadas. No entanto, Mané vem de Manuel.
Manuel vem de Emanuel, que significa “Deus está conosco”. Os dois discípulos de Emaús caminhavam sem perceber que aquele “Mané”, aquele “nó cego”, aquele desinformado era o próprio Jesus no meio deles. Ressuscitado.
O texto é de caráter litúrgico e catequético. Destaco três dados desse evangelho chamado dos discípulos de Emaús:
1-      A catequese: Jesus recorda as escrituras (v.27).
2-      A ação solidária, sensível, hospitaleira: “Eles insistiram dizendo: fica conosco pois já é tarde e a noite vem chegando!”(v. 29).
3-      A celebração: “Jesus sentou-se à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía” (v.30.)
 
É o ver, o julgar, o agir e o celebrar. Só depois disso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus.
E nós? Como está nossa catequese, nosso estudo bíblico, nossa formação?
Ela está levando à ação?Estamos sendo solidários, acolhedores? Ou estamos deixando o peregrino ir adiante para ficar sozinho, abandonado no meio da noite?
E como está a nossa celebração, a nossa liturgia? Ela está realmente levando as pessoas a reconhecer o Cristo Ressuscitado?
E mais. Que efeito tem em nós a fé no Cristo Ressuscitado? O autor da Primeira Carta de Pedro, da qual temos um trecho hoje como segunda leitura diz aos seus destinatários que eles foram resgatados da vida fútil e que esse resgate foi pago não com ouro e prata, mas com o sangue de Cristo. Esse resgate leva a uma vida nova, que é a vida em Cristo, a partir da qual mensagens como a da primeira leitura de hoje são uma releitura das escrituras. Essa vida em Cristo é tão boa que deve ser transmitida aos outros. O chamado “querigma”, que traduzimos como “anúncio”, marca também da
primeira leitura de hoje, vem do entusiasmo com tanta beleza e grandeza que há nessa vida nova em Cristo.

 

Sermão para o 2º Domingo do Tempo Pascal, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 03:06 PM
Sermão para o 2º Domingo Tempo Pascal, Ano B
 
(At. 4,32-35 / 1 Jo 5,1-6 / Jo 20,19-31)
 
            No estilo bem-humorado, próprio de nosso povo, existe uma pergunta que se tornou muito conhecida: Por que o cachorro entra na igreja? Responde-se que é porque a porta estava aberta. É lógico! Entra-se quando a porta está aberta e não se entra quando a porta está fechada, já que não existe um “gasparzinho”, como aquele fantasminha do desenho animado da TV.
            A porta fechada é um limite, uma barreira, um impedimento. O evangelho de hoje diz que “estando fechadas as portas Jesus entrou”. Não diz que lhe abriram alguma porta e ele entrou. Por quê? Para dizer que Jesus, agora ressuscitado, é aquele que superou todos os limites, todas as barreiras, até o limite que é a morte. Assassinaram Jesus porque quiseram acabar não só com ele, mas com qualquer movimento de seguidores dele. Colocar um limite nisso. Mas não conseguiram.
            O evangelho de hoje é eucarístico-litúrgico e catequético. Contém vários elementos simbólicos que trazem grandes ensinamentos que constituíram a novidade dos primeiros cristãos.
            O texto começa situando a cena no primeiro dia da semana. É um novo começo, uma nova era inaugurada por Jesus, de um tempo não cronológico (que passa, que devora os filhos como no mito de Cronos), mas de um tempo kairológico (que para, antecipando a maravilha do reino definitivo). É um dia que não tem fim.
            A referência ao anoitecer do primeiro dia da semana reflete a prática dos primeiros cristãos de celebrar a eucaristia no final da tarde do domingo (o dia do Senhor). E vale aqui lembrar que o cristianismo começou com uma “comensalidade aberta”, em oposição à restrição da ceia judaica e tão diferente dos banquetes dos opressores, numa mesa que era a inversão do modo como se vivia fora dela. Esse era o caráter original da eucaristia.
            Jesus apresenta-se no meio da comunidade. O que ele disse, pergunto. “A paz esteja com vocês” respondem. Digo que não porque ele não falou em português. Parece piadinha de mau gosto. Mas o que eu quero dizer é que sempre devemos desconfiar um pouco da tradução. A palavra hebraica shalom significa mais do que aqui normalmente se entende por paz. Era a plenitude dos bens messiânicos. Significava tudo de bom.
            Jesus soprou sobre os discípulos e disse “recebam o Espírito Santo”. No livro Gênesis está escrito que Deus fez o homem de barro, soprou sobre ele e ele ganhou vida. Jesus renova esse sopro para os discípulos serem novas criaturas, ganharem nova vida a partir da experiência com o ressuscitado, autor da vida, que é o próprio Deus, um com o Pai e o Espírito Santo. A reação dos discípulos é de alegria. E essa alegria da boa nova, com muito entusiasmo será levada aos outros. “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (v. 21).
            Aí vem a cena em que Tomé duvida, que não consta nos paralelos em Marcos e Lucas (Mc 16,14-18 / Lc 24,36-48). José Bortolini (em Vida Pastoral, Ed. Paulus, Abril de 1994, p. 56) diz que “O episódio de Tomé foi lembrado pelo autor do IV Evangelho para eliminar mal-entendidos na comunidade, segundo os quais as testemunhas oculares estariam num plano superior em relação aos que viram pessoalmente o Senhor ressuscitado”.
            Como uma das conseqüências desse tornar-se nova criatura em Jesus Cristo temos experiências de socialização dos bens como a que aparece na primeira leitura de hoje. É de um relato que está mais no plano ideal do que ser uma descrição rigorosamente histórica. Mas tanto lá quanto em outros momentos da história existiram significativas experiências de partilha. E várias delas surgiram da adesão a Jesus Cristo.

Sermão para o 4º Domingo do Tempo Pascal, Ano B

Postado em 26/7/2011 em 03:04 PM
Sermão para o 4º Dom do Tempo Pascal, Ano B
 
(At 4,8-12 / 1 Jo 3,1-2 / Jo 10,11-18 / Sl 117)
 
            Dois símbolos aparecem muito fortemente na liturgia da palavra de hoje. O primeiro é o da pedra angular. Está na primeira leitura, de Atos dos Apóstolos. Pedro e João estão sendo interrogados pelo sinédrio, o mesmo que condenou Jesus à morte, no caso agora dos discípulos, por terem curado um enfermo e pelo modo como o fizeram. É que o sinédrio está preocupado não com o bem do povo, mas com o reconhecimento e esforço do seu próprio poder, ameaçado pelo poder que é o nome de Jesus Cristo. Pedro reforça esse novo poder dizendo que “em nenhum outro há salvação” (conferir o v. 12) e aí utiliza esse símbolo ao qual me refiro: Jesus é a pedra angular. A simbologia da pedra angular não foi criada por Jesus, por Pedro ou pelo autor do livro “Atos dos Apóstolos”. Está no Salmo 118, versículo 22: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. Está também em Isaías 28,16: “Eu vou assentar no monte Sião uma pedra, pedra escolhida, preciosa e bem firmada”. Referia-se ao templo de Jerusalém e essa pedra é um símbolo messiânico. O que se fez no Novo Testamento foi atribuir esse símbolo a Jesus.
            Em uma homilia numa favela, depois de dizer que usamos o nome pedreiro porque se construía com pedras, perguntei aos participantes o que eles sabiam acerca de pedra angular ou se existe um tijolo angular. Deram-me mais elementos do que eu esperava. Falaram de uma tal de “cumeeira”, que chamaram de “cunhera”, falaram de um primeiro tijolo que dá o alinhamento, que deve ficar no meio da construção, visível de todos os ângulos, de todos os lados, etc. E um dos participantes da celebração comparou esse tijolo com Jesus, sempre o centro das conversas na comunidade.
            Então perguntei sobre outro símbolo: o pastor e as ovelhas. Pensei que disso eles entendessem menos. Mas não. Dois deles haviam trabalhado com ovelhas. Disseram que ovelha é um bicho abestalhado, tonto, sem noção. Perde-se fácil, vai e não sabe voltar, é presa fácil das feras. Ela depende muito do pastor, até pra comer. E, diferente de outros animais, é bem fácil matar uma ovelha. E não tem nenhuma defesa. Nem dentes ela tem. A fama que tem o burro cabe melhor à ovelha. O que seria de ovelhas cuidadas por um mau pastor? Assim era a população na época de Jesus e é na nossa época: enganada, explorada, manipulada.
            Basta lembrar que autoridades políticas jogaram a população contra Jesus, fazendo com que pedissem sua condenação à morte. Ou como os dominadores do povo, usando os recursos da mídia, jogam os pobres uns contra os outros, fazendo com que se matem sem questionar a estrutura política.
            Também o símbolo do pastor de ovelhas é tirado do Antigo Testamento. A passagem mais lembrada é a que está no salmo 23, onde se diz que o Senhor é o pastor que conduz (as ovelhas) por verdes pastagens e águas abundantes e puras, mas vários outros livros da Bíblia utilizam a simbologia. Isaías diz em 49,9: “Apascentarão as ovelhas e elas encontrarão pastagem”. Ezequiel a utiliza em todo o capítulo 34 e nele faz uma ameaça: “Ai dos pastores de Israel que apascentam a si mesmos em vez das ovelhas”. Jeremias utiliza a simbologia do pastor em 23,1-4 e começa dizendo: “Ai dos pastores que perdem e dispersam as ovelhas do meu rebanho”. E ainda Zacarias 11 e Miquéias 2,12-13.
          José Bortolini, em seus roteiros homiléticos (Vida Pastoral, Editora Paulus, março-abril de 1994, p. 62 e 64) escreve:
 
          O contexto do capítulo 10 de João é o da festa da Dedicação do templo. Os que voltaram do exílio na Babilônia comemoraram esse acontecimento no ano 515 a.C. e Judas Macabeu criou a festa da Dedicação no ano 164 a.C. Nessa ocasião privilegiava-se a leitura do capítulo 34 de Ezequiel, que serve de pano de fundo para o capítulo 10 de João, texto fortemente polêmico em relação às instituições que massacravam o povo, sustentadas pelas lideranças político-religiosas do tempo. Assim é que chegamos à seguinte constatação: o templo é o curral de onde Jesus tira as ovelhas (povo), pois aí mandavam as lideranças injustas e exploradoras (mercenários) que mantinham a população submissa em nome de Deus. O cego de nascença do cap. 9 de João é o tipo da pessoa que ouve a voz de Jesus e o segue, deixando o curral (ele, na verdade, foi expulso pelas lideranças do povo). Assim, Jesus é a porta que conduz para fora das instituições que não promovem a vida. Por ele as ovelhas saem e encontram pastagem e vida em abundância (cf. 10,10). Jesus é porta também em outro sentido: ele é o que introduz o ser humano na vida de Deus. Entrando por Jesus-porta, as ovelhas se encontram com o Pai e seu projeto (cf. 14,6: “Eu sou o Caminho”).
Ao dizer eu sou o bom pastor, Jesus se põe em pé de igualdade com o Deus libertador do Êxodo que assim se deu a conhecer a Moisés: “Eu sou aquele que sou” (Ex 3,14) e assim quer ser lembrado de geração em geração. Jesus bom pastor é, portanto, a memória e a presença viva do Deus que conduz o povo para fora de tudo o que oprime e diminui a vida. Com ele iniciamos novo e definitivo êxodo rumo à vida em plenitude que Deus quer para todos.
Os vv. 11-13 do evangelho deste domingo opõem o pastor que é Jesus aos mercenários que são as lideranças político-religiosas do tempo e de todas as épocas. Jesus é muito severo, chamando de ladrões e assaltantes os que vieram antes dele (v. 8). Por que o mercenário é ladrão e assaltante do povo? Porque seus objetivos contrastam com os de Jesus: este dá a vida por suas ovelhas, ao passo que aqueles tiram a vida e a liberdade do povo. Quem não ama o povo até dar a vida por ele não é pastor. Quem vê o povo sendo estraçalhado pelo “lobo” e procura salvar a própria pele ou, o que é pior, tira vantagem disso não merece o nome nem a função de pastor. O povo não o ouve nem o segue (cf. v. 8). Diante de Jesus bom pastor, não há meio-termo: ou estamos a serviço do povo até o fim, dando a vida por ele, e assim nos assemelhamos a Jesus, ou somos mercenários e exploradores, ladrões e assaltantes, coniventes com as situações e estruturas que geram a morte da nossa gente.
Os vv. 14-16 desenvolvem o tema da relação pastor-ovelhas, alargando os horizontes até atingirem dimensões universais, como é próprio do Evangelho de João: “Tenho outras ovelhas que não são deste redil. Também a elas eu devo conduzir; ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor” (v. 16). A relação pastor-ovelhas é sintetizada pelo mútuo conhecimento. Conhecer Jesus e ser conhecido por ele não se reduz a simples teorias sobre ele. Para o povo da Bíblia, conhecer se traduz em experiência e presença ao mesmo tempo. Conhecê-lo, portanto, é experimentá-lo como presença que liberta e dá a vida.
Os versículos finais (17-18) falam da relação existente entre Jesus e o Pai. A vida de Jesus foi contínua manifestação da vontade e do amor de Deus para com a humanidade, e a suprema prova desse amor se deu na “hora” de Jesus (sua paixão, morte e glorificação), quando entregou a vida para retomá-la na ressurreição. “Assim como Jesus, quem se dá a si mesmo até a morte por amor não o faz com a esperança de recuperar a vida como prêmio para este sacrifício (mérito), mas com a certeza de poder tomá-la de novo pela força do próprio amor” (J. Mateos-J. Barreto).
 
          O teólogo José Comblin escreveu um texto chamado “Jesus luta contra os falsos pastores” (Ed. Paulus, 1995), que coloco a seguir.
 
          No antigo Israel foi tradicional a luta entre os verdadeiros e os falsos profetas. O episódio mais famoso foi a luta entre Elias e os seus adversários (1Rs 18,20-46). Um dos oráculos mais importantes contra os falsos pastores foi o capítulo 34 de Ezequiel. Os falsos profetas sempre concordam com as autoridades. São bajuladores natos. Sempre concordam com a política proposta pelo poder. Os verdadeiros profetas são freqüentemente levados a discutir e rejeitar a política das autoridades, já que estas consistem em entrar no jogo de potência, competindo com os grandes do tempo. Os verdadeiros profetas acham que o dever das autoridades não é buscar a potência e sim o bem do povo, dos pobres.
          No tempo de Jesus já não há mais profetas oficiais dos reis. Já não há mais profetas, nem falsos, nem verdadeiros. Contudo Jesus reassume o papel dos verdadeiros profetas em muitos aspectos. Embora não haja falsos pro­fetas no sentido próprio, há muitas pessoas com autorida­de religiosa agindo do mesmo modo como se fossem fal­sos profetas. Elas se consideram pastores do povo, mas na realidade Jesus denuncia-as como falsos pastores.
          Quem se atribui um papel de pastor no tempo de Jesus? Os escribas, os fariseus, os chefes dos sacerdotes, sobretudo.
           Os escribas porque são os intérpretes da Lei ou da Bíblia, que é a mesma coisa naquele tempo. Eles se reser­vam o direito de ensinar e explicar a Lei de Deus que envolve todos os aspectos da vida (não somente a religião, mas a vida toda).
          Os fariseus porque se acham os perfeitos e se propõe como modelos a serem imitados por todos. Dizem que aplicam perfeitamente todas as leis até às minúcias.
Os chefes dos sacerdotes porque identificam o povo Deus com o Templo e se acham os donos do Templo.
          Ora, todos esses pastores são, na mente de Jesus, os falsos pastores. Por isso, Jesus enxerga o povo de Israel um povo abandonado, sem pastor (Mt 9,36), embor­a houvesse milhares de “pastores” em Israel naquele tempo, mas Jesus não os reconhece como pastores ver­dadeiros.
          Contra os falsos pastores Jesus faz três acusações fundamentais:
1° Em lugar de cuidar dos pobres, esses falsos pastores somente sabem condená-los, acusá-los porque não observam perfeitamente as leis inventadas por eles. Desprezam-nos. Humilham-nos. (Mt 9,10-13; 12,1-8.9-21; 15,1-9).
2° Usam as leis, a sua posição social e religiosa e os seus conhecimentos superiores para as suas próprias vantagens. São pastores que se apascentam a si mesmos. Usam a sua posição de poder para tirar vantagens pessoais (Mt 6,1-18; 23,5-8; 23,16-30).
3° Usam as leis para oprimir os pobres. Exploram as leis para enganar o povo e tirar vantagens pessoais (Mt 23,14).
          Esses falsos pastores estão apegados à letra da Lei que sabem manipular para o seu próprio proveito e usar contra os pobres. Esquecem o essencial que é a justiça, a bondade (Mt 9,13; 12,7; 23,23).
          Jesus condena esses falsos pastores e adverte os seus discípulos contra eles (Mt 15,14; 16,6.11-12; 23,2-3).
           O povo fica impressionado pela ciência e pelo pres­tígio das suas autoridades. Não se atrevem a contestá­-las. Não se atrevem a emancipar-se do seu jugo. Ficam debaixo da sua dominação. Ficam de tal modo prisioneiros das autoridades que na hora de escolher entre a orientação das suas autoridades e a orientação de Jesus, vão escolher de acordo com a inspiração das autoridades: quando estas recomendam ao povo para pedir a vida de Barrabás e a morte de Jesus, seguirão a recomendação das autoridades.
Todavia Jesus, que sabe disso, pretende destruir para sempre esse prestígio falso dos falsos pastores. Quer sus­citar um povo que saiba pensar por si mesmo, criticar e permanecer livre.
Quais eram os pastores no tempo de Jesus?
Não havia mais reis em Israel: os reis que ainda reinavam foram instalados pelos romanos. Herodes, que governava quando Jesus nasceu, nem sequer judeu era e os judeus não o reconheciam como rei legítimo, mas tinham que agüentá-lo. Quando Herodes morreu, um filho sucedeu-o, mas durou pouco e os romanos puseram um interventor na Judéia: durante a missão de Jesus, cha­mava-se Pilatos. Era um oficial do exército romano. To­davia, na Galiléia, os romanos mantiveram outro filho de Herodes, que se chamava também Herodes, para reinar em nome deles. Esses reis não eram descendentes de Davi e ninguém teria tido a idéia de lhes dar o nome de pas­tores. Eram puros dominadores estrangeiros.
Também não havia mais profetas, nem verdadeiros, nem falsos. Quando apareceu João Batista, foi um grande acontecimento porque fazia séculos que não tinha apare­cido um profeta em Israel.
Nos últimos séculos, grande importância tinham tido os chefes dos sacerdotes. Alguns tinham liderado a luta de Israel contra o império dos gregos no século anterior. Houve sacerdotes que foram reis. No tempo de Jesus, os sacerdotes já não tinham o mesmo prestígio nacional, mas ainda eram importantes.
Com efeito, o Templo era de longe a instituição mais importante de Israel. Havia o Templo de Jerusalém e de­pois disso puras famílias: não havia nenhuma outra grande organização. O Templo estava sendo reconstruído por He­rodes, o Grande. No tempo de Jesus fazia 46 anos que estavam trabalhando e as obras não estavam terminadas. Milhares de pedreiros e outros artesãos trabalhavam no Templo. Quase toda a população de Jerusalém trabalhava a serviço do Templo. Jerusalém era uma cidade de pura romaria.
Os sacerdotes pertenciam a uma tribo especial. Eram membros das mesmas famílias. Eram também agriculto­res que passavam 15 dias por ano a serviço do Templo. Formavam assim 24 grupos. Eram milhares de sacerdo­tes. A maioria era bastante pobre. Não tinham nenhuma forma de instrução especial. A sua profissão era de sacris­tães ou açougueiros, já que matavam os animais e os ofereciam nos altares.
Os recursos do Templo eram grandes porque cada israelita devia pagar o imposto anual ao Templo; cada um devia oferecer animais e outras ofertas em determina­das circunstâncias e outros ofereciam voluntariamente pre­sentes. Pode-se dizer que grande parte do dinheiro cir­culando em Israel desembocava finalmente no Templo. Era o grande centro financeiro e econômico do país. Isso dava aos chefes dos sacerdotes forte poder. Pois algumas famílias tinham monopolizado todo o poder sacerdotal, todos os recursos financeiros e todo o prestígio. A família de Anás e Caifás estava no auge do poder, no tempo de Jesus. Era a família mais importante do país: com razão foi essa família que liderou a conspiração para conde­nar e mandar matar Jesus.
Falsos pastores eram com certeza essas famílias de chefes de sacerdotes. Para Caifás, Jesus não podia ser o Messias. Caifás tinha certeza de que Jesus era um men­tiroso: era um pobre, e desconfiava dos pobres. O Mes­sias tinha que submeter-se ao controle dele. Não podia ser alguém que atuava sem pedir licença ao chefe dos sacerdotes.
Ao lado do Templo, havia outra instituição impor­tante em Israel: a Bíblia, que os judeus chamavam: a Lei - porque ela continha a Lei de Deus. Junto com o Templo, a Lei era o grande sinal distintivo de Israel. O povo tinha perdido a independência, mas ainda tinha o Templo e a sua Lei. Israel não aceitava outra Lei a não ser a Bíblia. Não aceitava as leis dos romanos e os roma­nos deixavam a cada povo a sua Lei tradicional.
Mas, a Lei já não pertencia ao povo. A Lei era a propriedade dos escribas. Pouco a pouco formaram-se escribas famosos que reuniram discípulos e criaram um modelo de formação para escribas. Não era nada oficial­mente definido. Mas de fato havia escribas instalando nas suas casas grupos de alunos. Esses alunos não rece­biam diploma, mas de fato eram reconhecidos como auto­ridades. Ensinavam a Lei, isto é, a Bíblia, nas sinagogas que havia em cada povoado e em Jerusalém. As sinagogas eram capelas onde o povo se reunia para ouvir a Bíblia e rezar aos sábados.
Já que eles eram os leitores e os intérpretes oficiais da Lei, os escribas tinham grande poder. Pois a Bíblia não dava resposta para todos os casos da vida. Quando surgia um problema de aplicação da Lei, os escribas davam as suas soluções. Eram como advogados e juízes ao mesmo tempo. Poder dar a interpretação da Lei dava muita importância. Pois na prática nenhum caso de direito podia resolver-se sem consultar os escribas. Também ninguém ousava tomar iniciativas sem consultar os escribas para saber se um judeu podia tomar essa iniciativa. Dessa maneira nada se fazia em Israel sem a participação dos escribas.
Os escribas não aceitaram Jesus. Atribuíram aos demônios as obras de Jesus: assim, davam uma explicação a tudo que Jesus fazia. Diante dessas explicações, o povo ficava na dúvida e não sabia o que pensar. Parecia-lhe que os escribas deviam saber de que se tratava, já que eram os especialistas da religião (ver todo o capítulo 7 de São João).
Por isso, Jesus denuncia-os como típicos falsos pastores: guias cegos que enganam o povo em lugar de conduzi-lo pelos caminhos retos.
Quanto aos fariseus, não eram uma categoria social tão definida. Eram como irmandades, grupos de pessoas muito piedosas. Não parece que tivessem reuniões organizadas. Cada um podia ser fariseu à vontade. Tornava-se fariseu quando começava a observar com rigor todas as práticas dos fariseus e observar a Lei, até com excesso. Com certeza eles se reuniam, mas informalmente, sem formar instituições.
Os fariseus tinham autoridade pelo prestígio das suas virtudes e das suas boas obras. Tinham fama de santos. Por isso, as suas opiniões valiam muito para o povo. Quando atacaram a Jesus o povo ficou desnorteado, pois estimava muito os fariseus. Na mente de Jesus, eles, que são os mais piedosos, são também os mais perigosos: os que mais enganam o povo, porque têm todas as aparências de verdade e virtude.
Temos a impressão de que Jesus foi implacável e não perdoava nada aos falsos pastores. Ele, que perdoa tudo aos que nós chamamos de pecadores, não perdoa nada aos falsos pastores.
 
O povo de hoje está mais livre dos falsos pastores, sedo capaz de julgá-los?

Sermão para a Festa de Ascensão

Postado em 26/7/2011 em 03:01 PM
Sermão para a Festa da Ascensão de Jesus

  (At 1,1-11 / Ef 4,1-13 / Mc 16,15-20)

 
      Recentemente celebramos a festa da páscoa. E então entramos num período litúrgico que chamamos tempo pascal. Nele contemplamos o significado que teve a presença de Jesus Cristo ressuscitado na vida dos apóstolos, dos discípulos e discípulas, dos seus primeiros seguidores. Ser batizado, crer e seguir Jesus Cristo faz a pessoa ser nova criatura. A novidade, a boa nova, Cristo vive e está no meio de nós, foi tão extraordinária na vida dos seus seguidores que estes sentiram a necessidade de anunciar isso aos outros. É o que chamamos “querigma”. Anunciar o grande amor vivido e ensinado por Jesus e sua conseqüência na vida da comunidade cristã. Jesus Cristo subiu ao Pai. Passou rápido. O que ele deixou? Não deixou ouro e nem prata. Nem cargos políticos num reino restaurado em Israel. E também já não interessava mais aos discípulos o antes esperado Messias estadista, restaurador do poder estatal dos judeus. O que ele deixou, junto com a herança do amor, foi um outro modo de poder: o poder de curar doenças, expulsar demônios (certas doenças desconhecidas na época) e, na linguagem do evangelho, “pegar em serpentes e beber veneno sem ser afetado por isso”. É claro que não teremos o poder de resolver todos os problemas que nos apresentarem, de tornar a terra um céu. Mas de antecipar parcialmente o reino definitivo, que será total, perfeito e eterno. De conviver na terra com as realidades do céu. Conviveremos com adversidades da terra, tanto as naturais como as criadas pela ambição humana. Mas daremos sinais de superação. Esses sinais tornarão o cristianismo atraente.
      Costumo lembrar que os comunicadores, através do teatro, cinema televisão, muitas vezes transformam mentiras em verdade porque sabem comunicar bem. E a grande verdade que é Deus ou Jesus Cristo? Muitas vezes foi transformada em mentira. Não é verdade que Deus ou Jesus Cristo é aquilo que me mostraram quando eu era criança, numa catequese terrorista. Mas se naquela época eu freqüentava a igreja por medo, obrigação, tradição, hoje eu dela participo por convicção. Obrigaram-me a decorar os mandamentos: da lei de Deus, da lei da Igreja, etc. Hoje eu diria que não necessito de nenhum mandamento. Nada faço porque sou mandado. “A lei existe para os fracos”, dizia o apóstolo Paulo. E disse o teólogo Agostinho (no século IV): “Ama e faze o que quiseres”. Assim, seguir Jesus Cristo é uma grande graça e um privilégio.
    Pensemos no que fazer para tornar o cristianismo mais atraente e mais eficaz como vivência comunitária.
 
 
 

Sermão para a Festa de Pentecoste

Postado em 26/7/2011 em 02:59 PM
A Festa de Pentecostes
 
 
            Penta é uma palavra grega que significa “cinco vezes” e entrou em nosso vocabulário. Em música fala-se em “pentagrama”, conjunto de cinco linhas. Diz-se que o Brasil é pentacampeão de futebol, isto é, campeão cinco vezes.
            No Antigo Testamento havia a “festa da colheita”, celebrada cinqüenta dias depois da páscoa. Era uma festa alegre e de ação de graças, em que se dava graças a Deus pela colheita de trigo que, na Palestina, começava sete semanas depois que “se meteu a foice na seara”. Ofereciam-se então as primícias, isto é, os primeiros frutos da colheita.
            Sabemos que uma semana tem sete dias e até dizemos simbolicamente que Deus criou o mundo em sete dias. Sete é um número simbólico muito utilizado na Bíblia. Sete vezes sete é quarenta e nove. Depois do quarenta e nove vem o 50, o pentecostes, a colheita, a abundância. Cinqüenta, é também o número do jubileu (jubileu= alegria). Há cada 50 anos, conforme Deuteronômio 15, deveria acontecer o perdão das dívidas com uma grande confraternização em que os bens seriam redistribuídos.
            No Novo Testamento o pentecostes é uma colheita de dons do Espírito Santo cinqüenta dias depois da nova páscoa que é a ressurreição de Jesus Cristo, sua passagem da morte para a vida. O livro Atos dos Apóstolos descreve com grande beleza literária esse novo pentecostes.
José Bortolini, em seus roteiros homiléticos, na Revista Vida Pastoral, Ed. Paulus, maio de 1994, p. 43 e 44, escreve:
 
            “Páscoa e Pentecostes eram festas agrícolas muito antigas em Israel. Com o passar do tempo, transformaram-se em festas religiosas: Páscoa revivia a saída do Egito; Pentecostes recordava a Aliança no Sinai. Quando Lucas escreveu os Atos dos Apóstolos, a evangelização já havia penetrado em todas as nações até então conhecidas (os confins do mundo; cf. At 18). Isso quer dizer que os doze povos (doze é número simbólico: indica totalidade) presentes em Jerusalém já tinham recebido o anúncio de Jesus. Por que, então, Lucas recorda o evento de Pentecostes? Ele quer mostrar a universalidade do Povo de Deus e da evangelização. Isso tudo, segundo a ótica da fé, é obra do Espírito de Jesus.
             Ao descrever o episódio de Pentecostes, Lucas se serve de esquemas já presentes no Antigo Testamento. Ele coloca a vinda do Espírito Santo cinqüenta dias após a Páscoa para fazê-la coincidir com o Pentecostes judaico, no qual o povo judeu celebrava o dom da Aliança no Sinai, a entrega da Lei (Decálogo). De fato, segundo Ex 19, cinqüenta dias depois que o povo saiu do Egito, Deus fez aliança com ele no monte Sinai, entregando-lhe, por meio de Moisés, sua Lei. O fato foi acompanhado de trovões, relâmpagos e trombeta tocando. Ora, esse episódio é uma das bases sobre o qual Lucas constrói a narrativa do Pentecostes: cinqüenta dias após a Páscoa, estando os discípulos reunidos em Jerusalém, houve um barulho como o rebentar de forte ventania (At 2, 1-2). Com isso, Lucas afirma que, em Jerusalém, acontece a Nova Aliança; surge o Novo Povo de Deus; é dada a Nova Lei: o Espírito Santo! Lucas se inspira em outro texto do AT: Nm 11,10-30, onde Deus repartiu seu Espírito sobre Moisés e os setenta anciãos, para que pudessem organizar o povo. E Moisés exprimiu o desejo de que todo o povo recebesse o Espírito de Javé (Nm 11,29). Esse substrato serviu de molde para Lucas, a fim de mostrar que, finalmente, o Espírito de Deus foi derramado sobre todos no dia de Pentecostes.
           Finalmente, Lucas se serve de Gn 11, o episódio da torre de Babel, onde Deus confundiu a ambição dos homens que não se entendiam mais. Para Lucas, o Pentecostes é o oposto de Babel: aqui, “todos nós os escutamos anunciar, em nossa própria língua, as maravilhas de Deus”
 
            Hoje celebramos a festa de pentecostes cinqüenta dias depois da festa da páscoa. E o pentecostes deve ser bem celebrado. Porém deve ser mais do que uma momentânea celebração.
            Às vezes a política nos é apresentada como uma Babel. Os políticos não se entendem, agridem-se até fisicamente. Os projetos param na metade ou por falta de entendimento ou porque eram ruins mesmo. Eram enganação. Lamentavelmente, nem sempre a Igreja é tão diferente. Ás vezes prevalece nela a vaidade e as brigas pelo poder. O Novo Povo de Deus, nascido na Lei do Espírito, no qual o que importa é servir, deve ser pentecostal e não babélico.
            Devemos sim ser pentecostais, entusiasmados, carismáticos. Mas cuidado com o pentecostalismo! Pentecostalismo é a degeneração da pentecostalidade. É o fanatismo. É a religiosidade doentia. É a emoção sem razão. É um fogo de palha individualista, que não cria verdadeira comunhão.
            Livres de qualquer religiosidade alienante, de auto-ajudas superficiais, de esoterismos consumistas, sejamos agentes de transformação da sociedade em vista do bem comum.

Sermão para a Santíssima Trindade

Postado em 26/7/2011 em 02:51 PM
 
Sermão para a Festa da Santíssima Trindade, Ano B                
 
(Dt 4,32-34.39-40 / Rm 8,14-17 / Mt 28,16-20)
 
        Contaram-me uma história de um grupo de pessoas de uma mesma empresa que fizeram um “bolão” na loteria. O “boy”, que fazia o serviço de rua, trouxe o resultado, mas anotou um número errado. Os que jogaram, ao ver que a numeração batia, começaram a festejar, a gritar. Vários deles, pensando que estavam ricos, foram até o chefe e disseram para ele algumas grosserias bem desaforadas, usando palavras de baixo calão, ofendendo a mãe dele... Esse chefe, antes de demiti-los, pode perceber o que bem podia já ter imaginado: aquelas pessoas lhe demonstravam respeito, e até o bajulavam, apenas por medo de perder o emprego.
        Será que nós respeitamos a Deus por medo? E ainda maior do que o medo de perder um emprego talvez fosse o medo de perder a vida eterna. Se a primeira leitura de hoje, do Deuteronômio, fala da grandiosidade de Deus, Deus também se mostrou humilhado em Jesus Cristo. E foi desprezado, sobretudo pelas autoridades constituídas tanto judaicas quanto romanas. Mas diz Jesus em Mt 28,18: “Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra”. Esse Deus que em Jesus afirmou sua autoridade depois de ter se solidarizado com nossas humilhações é aquele que leva o apóstolo Paulo a dizer na segunda leitura de hoje, da carta aos Romanos, que “Todos aqueles que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (8,14). E diz em 8,15: “Vós não recebestes um espírito de escravos, para recairdes no medo, mas recebestes um espírito de filhos adotivos, no qual clamamos: “Abá, Ó Pai”. E vale lembrar que “abá” pode ser traduzido como “papai”. Portanto não seremos bajuladores ou “puxa-sacos” de Deus, tendo necessidade de nos apresentarmos como pessoas de fé inabalável. Dizer, se for o caso, que já duvidou ou que já “brigou com Deus” não deve escandalizar ninguém, pois Deus nos compreende e nos ama como filhos. Mas quer que, superando gradativamente nossas limitações, participemos de seu movimento de amor que é a relação entre as três pessoas da Santíssima  Trindade.
       Ao contemplar esse Deus uno e trino, a comunidade perfeita, podemos lembrar que fomos feitos à imagem de um Deus que é em si uma comunidade, uma comunhão. Mas só podemos comungar com Deus se comungarmos na vida do irmão.
 Nosso mundo tão capitalista está reforçando muito o individualismo. Observadores com olhar sociológico e ecológico estão escrevendo que o comportamento atual é inviável. Como exemplo, basta ver o que acontece no transporte: cada automóvel com uma só pessoa dentro entupindo o trânsito e tornando o ar irrespirável, já que o transporte coletivo oficial tem recebido tão insuficientes investimentos.
        Esse mundo de desenvolvimento não sustentável favorece as más atitudes daquelas pessoas que abandonam a própria vida não dando nenhum sentido a ela, sem a consciência de serem filhos de Deus. Como cristãos temos a missão de mudar esse modo de ser já que Jesus diz no Evangelho de hoje:
        “fazei discípulos meus todos os povos”.
 
 

        

Sermão para a Festa de Corpus Christi

Postado em 26/7/2011 em 02:39 PM
Sermão para a Missa de Corpus Christi - Ano C                       
(Gn 14,18-20 / 1 Cor 11,23-26 / Lc 9,11-17)
 
            Celebramos recentemente a festa da Páscoa. Vivenciamos em nossa liturgia o período que chamamos tempo pascal. Celebramos a festa de Pentecostes e da Santíssima Trindade. Hoje celebramos Corpus Christi, a festa que conquistou um feriado que é observado até hoje. É a mesma festa litúrgica da quinta-feira da semana santa quando, juntamente com o gesto do lava-pés, celebramos a instituição da eucaristia, agora revivida nesta quinta-feira após o domingo depois de Pentecostes, por se considerar que na semana santa há menos condições para se incrementar essa festa. Quem instituiu essa festa foi o papa Urbano IV, no ano de 1264.
            Exalta-se nas celebrações desse dia o que se costuma chamar de “Santíssimo”, “Santíssimo Sacramento”, “Corpo de Cristo”, “Hóstia Consagrada”, “Pão Eucarístico”. Aqui eu gostaria de lembrar que o corpo de Cristo é a hóstia consagrada, mas vai além dela.
            Inspirado na 1ª leitura de hoje eu daria a esta minha reflexão o título “O Deus Altíssimo é muito próximo”. Abraão conheceu o Deus Altíssimo, criador do céu e da terra, que lhe foi apresentado pelo rei da pequena Salém, o sacerdote Melquisedec. Mas esse Deus que é Altíssimo também se apresenta a Abraão como três homens que comem com ele na sua mesa. E o próprio Melquisedec faz aliança com Abraão utilizando pão e vinho. Quando se come com alguém é porque se é amigo dele ou se quer ser.
            Jesus se faz pão e vinho. Pão e vinho eram a comida e a bebida de todos, inclusive dos mais pobres. Quando se diz que Jesus ou o pão consagrado, seu corpo é santíssimo não se deve entender que ele é distante e separado de nós.
            O que é ser santo? Ouvi uma pessoa dizer que um seminarista de certa paróquia é santo porque ele se veste diferente dos outros, reverencia os objetos sagrados e faz muita adoração ao santíssimo. Talvez alguém dissesse que os daqui não são tão santos porque se vestem como os outros, entram na casa de qualquer um, conversam com garotas e até dão risadas. Mas o que santifica é o amor ao próximo e não rituais de pureza. Esse amor que faz um se comprometer com a vida do outro na alegria e na dor se retrata na partilha do pão.
            Muitos preferem dizer que Deus é energia ou vibrações espirituais, mas nós dizemos que Deus é pão. Há quem inferiorize tudo o que é material, inclusive o corpo. Mas Jesus ressuscitou com o corpo. Foi tocado e comeu com os discípulos. O Cristo ressuscitado não foi uma alma libertada de um corpo desprezível e que não precisou da inferior matéria. Em sua vida pública ele tocou materialmente os pobres que arrastavam um corpo ferido e doente que ele os fazia recuperar. Entre os primeiros cristãos os apóstolos insistiram na afirmação de que Jesus se encarnou (por exemplo, em 1° João 4,2 ou 2° João 7).
            Deus é matéria. É o pão consagrado e é o corpo do próximo, que não pode ser maltratado. O Evangelho de hoje ensina: quem se alimenta de Jesus não despede, não manda embora, não fica esperando a esmola dos ricos, não se conforma com o mercado capitalista que faz tudo depender do comprar, que reforça o individualismo. “Bastariam dois pães e dois peixes e o milagre do amor pra acabar com tanta fome, pra acabar com tanta dor”. Ou como dizia outro poeta “Por um pedaço de pão e por um pouco de vinho, vejo as nações em conflito e este mundo (estando) maldito por não partilhar. Vejo a metade dos homens morrendo de fome sem Deus e sem lar”.
            Que a festa de hoje nos ajude a acabar com o desprezo dos corpos e a promover a partilha dos bens. E termino mais uma vez repetindo as palavras do poeta Pablo Neruda:
 
“Oh! Pão de cada boca / nós não te imploramos / Porque nós humanos / Não somos mendigos / De falsos deuses / De anjos obscuros / Do mar e da terra faremos o pão / Plantaremos de trigo a terra inteira / O pão de cada boca / De cada homem / Em cada dia / Chegará até nós porque sabemos fazê-lo / Não para um homem / Não para um grupo de homens / Mas para todos / O pão, o pão / Para todos os povos / E com ele o que possui / Forma e sabor de pão / Repartiremos a terra / Repartiremos a beleza / Repartiremos o amor / Porque tudo nasceu / Para ser partilhado / Para ser entregue / Para se multiplicar” / Amém.

A festa Joanina

Postado em 26/7/2011 em 02:37 PM
A Festa Joanina
            O mês de junho é o mês das festas populares chamadas festas juninas, palavra que deriva de “joanina”, referente a São João (o Batista). E porque a festa de São João, dia 24 de junho, ganhou mais destaque do que a dos outros santos? É porque a festa desta data já existia antes de João Batista. Ela veio da cultura dos pagãos. Pagão era habitante do “pagus”, a aldeia. Era o aldeão. O que originou esta festa foi a natureza, pois dia 24 de junho é o dia do solstício de inverno. Ocorre que, no inverno, a luz do sol atinge a terra de modo mais fraco, obliquamente. No dia 24 de junho, sua força é mínima, o tempo é frio e a noite é mais longa. Este dia era tido pelos antigos como início de um novo ciclo, um recomeço. Para este novo ciclo ser bom, acreditavam, era necessário a ajuda dos seres humanos. Surgiu o costume de fazer uma grande fogueira pública na encruzilhada ou no alto da montanha. O fogo aceso durante esta festa era o fogo novo, mais vigoroso do que os outros. Por isso, em muitos lugares, da China até a África, havia o costume de apagar todos os fogos, levando depois o fogo novo da fogueira para casa, onde deveria se manter aceso durante todo o ano. Não é isso bem semelhante ao que fazemos hoje na celebração do sábado da semana santa? E mesmo já havia na época algo semelhante a nossa benção da água! 
Escreve Roberto de Andrade Martins em seu livro “O Universo”, (Editora Moderna, 1997):
Os camponeses acendiam tochas na fogueira e corriam com elas pelos campos, com o objetivo de espantar pragas, doenças e maus espíritos, bem como aumentar a fertilidade do solo. Batiam com as tochas nas arvores e no chão, gritavam dizendo frases mágicas. Os jovens saltavam três vezes pela fogueira e, quando o fogo estava mais fraco, passavam sobre ele as crianças e os animais domésticos como as vacas e os cavalos para dar-lhes saúde. Os jovens que saltavam mais alto sobre o fogo eram os que se casariam primeiro durante o ano. E a altura do salto dos jovens indicava a altura que os cereais e o feno alcançariam no ano seguinte. Nesta noite
 
algumas pessoas passavam descalças sobre as brasas da fogueira, ou colocava brasa na boca, sem se queimar. As cinzas e as madeiras remanescentes da fogueira eram consideradas de grande poder mágico. As cinzas eram espalhadas pelo campo, para aumentar a fertilidade do solo e proteger a plantação. Os tições eram guardados dentro de cada casa, para proteger dos incêndios, de raios e bruxarias. Durante a tempestade, esses tições eram acesos dentro de casa para defender a todos. A água também adquiria propriedades especiais, a partir do solstício. Neste horário, costumava-se recolher água do poço ou fontes e guardá-la para necessidades especiais. Após a meia noite ou pouco antes do nascer do sol do dia seguinte, também era costume que as pessoas se banhassem nos rios ou no mar, ou pelo menos rolassem, nuas, sobre a relva orvalhada. Isso era considerado benéfico para a saúde e simbolizava um novo nascimento.
Com a cristianização do mundo a partir do imperador Constantino, do século III, a antiga festa pagã foi adquirindo a roupagem do cristianismo e se tornou a festa de São João, que durou até poucas décadas atrás como festa camponesae entre nós há gente que pulou fogueira e andou sobre as brasas. Recentemente o mundo se urbanizou de vez, num processo quase repentino. E o que sobrou da festa joanina foram nossas quermesses de inverno.
 

Sermão para Festa de Pedro e Paulo

Postado em 26/7/2011 em 02:34 PM
Sermão para a Festa de Pedro e Paulo
 
(At 12,1-11 / 2 Tm 4,6-8 /17-18 / Mt 16,13-19)
 
 
                “Quem nos separará do amor de Cristo? Nem a tribulação, nem angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada, nem a morte, nem a vida, nem os poderes e nenhuma das criaturas (Rm 8, 35-38).”
 
            Para enriquecer a reflexão da liturgia da palavra de hoje fiquei pensando sobre o que levou os apóstolos Pedro e Paulo a assumirem com tanta convicção o cristianismo a ponto de viver por ele e morrer por ele. De enfrentarem tantas adversidades e se mostrarem felizes com a missão que realizavam.
            Pedro, como judeu que não era indiferente a situação de seu povo, deve ter conhecido os esquemas religiosos e políticos da sociedade de sua época com seus líderes e autoridades religiosas. Em nenhum deles encontrou um amor como o de Jesus. Parece ter demorado para entender os modos como se desdobraria esse amor. Ficou até com fama de teimoso e cabeça dura. Mas quando entendeu Jesus, entregou-se inteiramente a ele.
            Paulo foi discípulo do famoso Gamaliel, mestre da lei judaica. Alcançou provavelmente o título honroso de cidadão romano e foi tão zeloso da cultura e religião judaica que ajudou a perseguir os cristãos e matá-los. Mas em nada disso encontrou um amor como o de Jesus. E quando o encontrou, passou de perseguidor a perseguido.
            Nem sempre Pedro e Paulo estiveram de acordo em tudo. Às vezes divergiram no método. E Paulo, além de toda perseguição dos não-cristãos, também sofreu porque muitos cristãos não entenderam o seu método inovador de evangelizar os gentios, sem exigir que assumissem o modo de ser, de celebrar, os símbolos próprios dos judeus. Há quem diga que Pedro nem sempre entendeu ou demonstrou entender os modos de Paulo. Porém, ainda que tenha havido essa diversidade, eles foram muito unidos. E uniram-se no martírio. Por isso utilizamos a cor vermelha. Sobre como foi a morte de Pedro e Paulo a Bíblia não fala. Quem os descreve são livros apócrifos nem sempre confiáveis, e escritores dos primeiros séculos chamados “Padres da Igreja” ou “Santos Padres”. Mas ainda que não tenham sido condenados à morte por causa da evangelização, foram perseguidos a vida inteira pela missão que assumiram e sofreram graves torturas, duros castigos. Por isso também podemos chamá-los de mártires.
            Não sabemos muito sobre a vida de Pedro e Paulo. O que está na Bíblia não são textos predominantemente históricos. São antes relatos de caráter teológico. Mas o pouco que sabemos significa muito.
O cristianismo verdadeiro não nasceu de qualquer coisa. Temos exemplos de vida fascinantes como os de Pedro e Paulo.

Mensagem para a Festa do Natal de Jesus Cristo

Postado em 26/7/2011 em 02:33 PM

Chico Louco

Postado em 26/7/2011 em 02:31 PM
Chico Louco
                                                                      
          Francisco da Silva é o Chico. É o Chico da carrocinha. É o Chico do Papelão. È o Chico Louco. É Francisco de São Francisco e é Silva de selva. E é filho de negro com índio. Isso ele me contou.
            Para a minha frente, na frente da igreja, e pede a bênção. Tira o surrado chapéu e pede a bênção do padre. “Minha mãe é crente”, diz ele. “Ela me dá conselho. Eu não virei. Sou católico. O senhor sabe, eu bebo uns tragos, mas eu trabalho”.
            Descobri que o Chico é obra de redenção de Deus. Ele está nos redimindo. Lembro de uma história, daquelas dos tempos da escravidão. Um negro dizia o que mais doía nele, além das chibatadas, era ter que derrubar árvores. O povo dele, lá na África, acreditava que cada coisa da natureza tinha um espírito que cuidava dela. Por isso a respeitava. Se tivessem que derrubar uma árvore, então faziam uma oferenda de reparação.
            A seu modo, o Chico está agora oferecendo a Deus o sacrifício de reparação que não deixavam índios e negros oferecer.
            Magro como ele só, vai o Chico recolhendo papel e papelão e aumentando a carga de sua carrocinha, já tão pesada. Crianças fazem gozação para vê-lo parar o carrinho e correr atrás. “Olha o Chico Louco!”.
            Uns o desprezam. Outros dão pinga para ele no bar. Outros o chamam de pobre coitado. Dona Maria dá um monte de jornais para ele.É para ajudar o Chico.
            Engano. O Chico é quem está nos ajudando. Recolhendo papéis, ele está limpando a cidade. E sem ser remunerado pela prefeitura. Ele nem é considerado trabalhador.
            Vou mais além. O trabalho do Chico é um ato de redenção. Cada cinqüenta quilos de papel que ele recolhe significam uma árvore a menos a ser derrubada. Isso não é importante?
            Estamos na cultura do desperdício. Desperdício de papel, plástico, vidro, borracha, metal e tantas outras coisas mais.
            “Acontece que assim se geram empregos”, dizem os que querem justificar o consumismo. Só que há outras formas de se gerar empregos, mais corretas e eficientes. Inclusive aproveitando o lixo, o luxo do lixo, através da reciclagem. Há grupos que estão distribuindo
 
 
comida de um jeito que faz evitar o desperdício de alimentos. Estão também discutindo formas alternativas de geração de empregos e,mais do que isso, de como exercer a cidadania e governar este país.
            Em época de eleições, cabos eleitorais desperdiçam toneladas de papel para ganhar uns míseros trocados. Cabos eleitorais pagos, desinformados, sem saber quase nada sobre o candidato ou o partido que promovem.
            Jogam montes de “santinhos” na cara de todos que passam. Jogam papéis para o alto, entopem bueiros com papel feito de árvores que foram rapidamente derrubadas, sem oração nem reflexão, sem apresentar oferenda de reparação.
            Vem depois disso o Chico Louco recolhendo papéis para serem reaproveitados.
            Deus se alegra com a oferenda redentora do Chico Louco. Mas ainda não fica satisfeito. Quer mais. Muito mais. Quer nos salvar.

Sermão para a Festa de Epifania

Postado em 26/7/2011 em 02:11 PM

 

Sermão para a Festa da Epifania
 
(Is 60, 1-6 / Ef 3, 2-6 / Mt 2, 1-12)
 
 
                Vivenciamos em nossa liturgia as belezas do período que chamamos tempo de Natal e agora celebramos a festa da Epifania do Senhor. A palavra epifania vem do grego e significa “manifestação posterior”. Depois de ter se manifestado no Antigo Testamento, Deus se manifesta na pessoa de Jesus Cristo. Nosso Deus não está escondido ou distante de nós. Ele é o “Deus Conosco”, o Emanuel.
            O modo de ser da manifestação de Deus em Jesus Cristo está expresso em parte no presépio que temos diante de nossos olhos. Aí vemos uma estrela, aquela seguida pelos magos. O que terá sido a estrela de que fala o Evangelho? Há quem diga que, numa construção literária, essa estrela pode ter sido inspirada na passagem do cometa Halley que, segundo astrônomos, teria passado no ano 12 a.C., portanto cinco anos antes do nascimento de Jesus, no ano 7 a.C., já que o nosso calendário está defasado em 7 anos. Há também quem diga que a tal estrela seja uma conjunção planetária de Júpiter e Saturno, que se alinharam à Terra no ano do nascimento de Jesus Cristo e se tornaram muito visíveis. Dois planetas alinhados ficaram parecendo uma estrela muito brilhante. Há ainda quem diga que se trata de uma estrela especial. O evangelho de Mateus fala de alguns magos do Oriente que chegaram a Jerusalém perguntando pelo rei dos judeus que acabava de nascer e foram conduzidos pela estrela até o menino Jesus. Pela referência a três presentes imagina-se três magos e a tradição lendária deu também nomes a esses magos que o evangelho de Mateus não denominou. E sobre eles nada falam os evangelhos de Marcos, Lucas e João. A descrição da vinda dos magos recorda o capítulo 60 do profeta Isaías. Aí se diz que os reis virão ao clarão de uma luz trazendo ouro e incenso. Mateus utiliza o ouro e o incenso para representar a realeza e o sacerdócio de Jesus e acrescenta a mirra, uma resina aromática utilizada como perfume que pode significar que Jesus é o ungido, já que era usada na unção, misturada com o óleo, como pode significar o martírio de Jesus, pois ela também era usada como entorpecente dado aos crucificados. Os magos eram sábios e astrólogos. A tradição os chamou de reis para corresponder ao texto de Isaías. O v. 11 do cap. 2 de Mt diz que os magos encontraram Jesus numa casa. Os mais apressados explicam que José e Maria, após o nascimento de Jesus, teriam conseguido uma casa. Mas os presépios, seguindo a tradição, não representam Jesus com os magos numa casa, mas ainda na manjedoura e entre animais. O Evangelho é um escrito de caráter teológico e poético, em que os dados históricos e geográficos são secundários.
            O presépio mostra também o menino Jesus com Maria e José entre pastores. Os pastores eram nômades, sem terra, pobres, considerados impuros pelos religiosos oficiais da época, mas melhor considerados pelo Evangelho de Mateus, que os coloca entre os primeiros que vêem Jesus. Se o escrito não é predominantemente histórico, não importa a informação de que nos meses de dezembro e janeiro os pastores, devido ao frio, deixavam os animais recolhidos e não andando pelos campos. Aparece também em Mt 2, 1-12 a figura do terrível Herodes. Recentemente vimos pela televisão as cenas do enforcamento de Saddam Hussein e reportagens que mostravam seus palácios luxuosos ao lado da miséria da população do Iraque e também a descrição de seus crimes brutais. Herodes construiu luxuosos palácios e mandou assassinar não só opositores como até alguns filhos por medo que lhe tomassem o trono. É nesse ambiente de terror promovido pelo brutal Herodes que Deus visita seu povo tornando-se uma criança frágil e dependente.
            Assim o Evangelho de Mateus, em 2, 1-12, manifesta a universalidade da salvação em Jesus Cristo. O apóstolo Paulo, em Ef 3, 2-6, vai além da compreensão dos que queriam que os pagãos assumissem o jeito judaico para depois serem admitidos ao cristianismo. Tal atitude inovadora de Paulo pode nos servir de inspiração para superarmos os preconceitos raciais e evangelizarmos a partir dos valores das diferentes culturas.
            Oremos para que a festa da Epifania dissipe as trevas do mundo com o clarão do Evangelho e encha de alegria todos os povos da terra e nos torne luz para as nações.
 
 
-Quem foi Herodes-
1998 Reader’s Digest Brasil
 
            Herodes o Grande conquistou o trono a duras pernas. O seu pai tinha sido governador da Iduméia ao sul e era um grande aliado de Júlio César. Quando jovem ocupou vários cargos na administração do Império Romano. A segunda de suas dez esposas era uma princesa da família real judia dirigente. Ele era um mestre da luta política. Aos 35 anos foi nomeado rei dos judeus pelo senado romano graças ao apadrinhamento das três pessoas mais poderosas do mundo: Marco Antônio, soberano do território oriental do império romano; sua amante Cleópatra, rainha do Egito; Otaviano, filho adotivo de Júlio César e soberano do território ocidental do Império Romano. Mas era apenas um título. Antes que pudesse se apossar de seu trono ele tinha que tomá-lo do rei fantoche, colocado no trono pelo império egípcio. Foram três anos de guerra até que ele conquistou o trono. Herodes não foi bem recebido pelos seus novos súditos. Diz o livro de Deuteronômio: “nunca deixem que um estrangeiro os domine”. Herodes era um idumeu. Os idumeus tinham sido convertidos à força do judaísmo no século anterior, mas muitos judeus ainda não confiavam neles. Herodes começou o seu reinado ordenando a execução de centenas de pessoas, inclusive a maioria dos membros do sinédrio. Conquistou vastas propriedades e importou uma nova aristocracia: judeus ricos da Babilônia, Alexandria e outras partes do império romano. Precisava de um aliado que ocupasse a posição de alto sacerdote do templo, o líder religioso supremo numa terra em que, para a maioria das pessoas a lei religiosa era a única respeitada. Os reis da dinastia judaica que haviam ocupado o trono antes dele haviam se apoderado desse cargo. O sumo sacerdote era irmão da segunda esposa de Herodes. Herodes mandou matá-lo. E nomeou um sacerdote da Babilônia, sem conexões com a antiga aristocracia de Jerusalém. O poder de Herodes dependia de uma polícia secreta e de uma rede de espiões. Era protegido por uma temida equipe de guarda-costas que dispunha de um exército de mercenários estrangeiros.
            Herodes pôs-se a reconstruir Jerusalém arruinada por sua própria guerra. Era o início de um dos mais ambiciosos programas de construção jamais visto no mundo. Milhares de artesãos e operários trabalharam durante décadas. Seus salários provinham de impostos caros. As muralhas da cidade foram reconstruídas. Uma nova fortaleza se agigantou sobre o antigo templo. Ele a batizou de “Antonia” em homenagem a Marco Antonio. Foi construído um teatro em estilo romano. E um hipódromo para corrida de carros de guerra, onde eram realizadas competições em que os atletas competiam nus em jogos de combate mortal, todos altamente ofensivos à sensibilidade judaica. A sua própria casa, um palácio fortificado na região nobre, localizada na parte alta de Jerusalém era muito maior do que as mansões que já existam. Por todo o seu reino Herodes construiu monumentos, jardins, banhos romanos, aquedutos e estradas pavimentadas. E para si próprio construiu diversos palácios. Com material de uma colina destruída construiu um palácio sobre uma colina impossível de ser escalada. Dentro da grande cratera fez um outro grande palácio. Em seu palácio maior sobre a colina havia comida e água suficientes para abastecer um exército durante meses. Também Herodes construiu dois luxuosos palácios na invencível massada, um rochedo que se erguia a 1.300 m acima do mar Morto. Na extremidade norte ficava o refúgio pessoal de Herodes, o palácio suspenso. Ele foi construído em três níveis recortados na superfície do rochedo íngreme. No topo ficava o palácio principal equipado com banhos em estilo romano. Abaixo ficavam os pavilhões em colunatas como área de descanso. Para fornecer água ao complexo foram construídas represas em dois barrancos próximos ao local. A água era conduzida através de canais até uma cisterna com capacidade para armazenar até 40 milhões de litros. Os escravos carregavam a água até ali, jarro por jarro.
            Herodes reconstruiu cidades antigas e criou cidades novas. Ele transformou um vilarejo do Mediterrâneo no único porto marítimo de seu reino. Numa extraordinária proeza de engenharia Herodes construiu o único porto de mar aberto feito pelo homem. Ele nomeou a cidade de Cesaréia em homenagem a seu antigo benfeitor Otaviano, agora imperador César Augusto. Ali vieram gregos, romanos, sírios e outros povos separados da população judia. Esses cidadãos não judeus, que faziam parte do reino de Herodes tinham os seus próprios templos e altares para adorar os seus deuses. Um grave conflito surgiu entre essa grande população pagã e os judeus do reino de Herodes, pois o primeiro mandamento era “Não terás outros deuses diante de minha face”. Mas em Jerusalém nem mesmo Herodes poderia admitir altares pagãos. Ali ele deu ao povo um monumento que superaria qualquer outro no mundo. Mais de uma década antes do nascimento de Jesus, Herodes deu início a reconstrução do templo, o centro absoluto da observância religiosa judaica. Ele queria sobrepujar o legendário templo de Salomão, destruído cerca de cinco séculos antes e substituído por uma estrutura modesta. O monte do templo era muito pequeno para os planos grandiosos de Herodes. Então ele resolveu aumentá-lo construindo maciços muros de sustentação nos vales fronteiriços. As pedras que formam o atual muro das lamentações é tudo o que restou da muralha que apoiava o lado ocidental do imenso pátio exterior do templo. Cada uma pesa várias toneladas. Eram extraídas de pedreiras em pilares arredondados e empurradas até o monte do templo antes de serem cortadas em forma quadrada e suspensas até o seu lugar.
            Ainda assim Herodes sabia que era odiado por muitos. Uma faca assassina era-lhe o perigo sempre presente. Mesmo alguns dos filhos de Herodes conspiravam a sua morte. Por isso ele mandou executar diversos deles. Enquanto envelhecia, Herodes via inimigos por toda parte. Uma ordem de Roma poderia significar o seu fim. Qualquer revolta popular, qualquer líder carismático poderia unir o povo contra ele. O Herodes da época do nascimento de Jesus era um tirano envelhecido, com a mente e o corpo doentes e enraivecido com o que diziam sobre um novo rei dos judeus.
            Herodes morreu no ano 4 a.C. em seu palácio de inverno em Jericó. Seu funeral foi espetacular. Um longo cortejo incluía sua família, guarda-costas, músicos, carpideiras profissionais e um exército bem pago. A procissão caminhou 30 Km pelas colinas da Judéia, de Jericó até Heródia, a grande fortaleza de Herodes. Ali ele foi cremado.
            César Augusto dividiu o reino entre os três filhos de Herodes que ainda viviam, mas não permitiu que nenhum deles se denominasse príncipe. Roma não queria mais reis dos judeus. Herodes Antipas foi feito tetrarca da Galiléia e Peréia. Filipe de Betânia e Traconítide. Arquelau recebeu as ricas mas problemáticas terras de Samaria, Judéia e Iduméia. Arquelau era tão bruto quanto seu pai, mas não possuía a sua habilidade política. Em apenas um mês uma insurreição iniciou-se em Jerusalém terminando em distúrbios durante a semana da Páscoa. A revolta foi violentamente abatida pelas tropas sírias. Cerca de três mil pessoas morreram, duas mil delas crucificadas.
 

Confraternização Universal

Postado em 2/12/2009 em 04:26 PM

Confraternização Universal

     

           O nome do mês que inicia o ano veio de uma antiga lenda, tirada da mitologia greco-romana. Um deus chamado Janus teria um rosto na frente e outro atrás. Com os olhos da frente ele via o presente, o ano que começa, e com os olhos de trás via o passado, o que acaba. Sabemos hoje que esse deus nunca existiu realmente. Mas, de modo figurativo, podemos dizer que ele está dentro de cada um de nós. Pois temos a capacidade de refletir, ou como se dizia em latim, “reflectere”, voltar atrás, examinar detidamente o que aconteceu. É normal que se faça isso no início de um novo ano. Emissoras de televisão apresentam suas retrospectivas. Nelas não faltam relatos com imagens de acontecimentos trágicos: conflitos raciais, guerras, doenças, desastres ecológicos... A falta de um aprofundamento na busca das causas pode levar ao fatalismo de se pensar que os males aconteceram naturalmente, por obra do destino ou por vontade de Deus, isentando da culpa os seres humanos, especialmente os dirigentes das nações. Um certo linguajar nordestino dizia que há “morte matada e morte morrida”, considerando que tiveram morte morrida os que morreram de doença. Mas, sabendo que as doenças não são naturais, que elas vêm da água envenenada, do ar poluído, da comida artificializada, mudamos essa distinção.

     Nesta época do ano aparecem os “futurólogos” lendo o futuro nas estrelas, nos búzios, como tantas vezes desde a mais remota antiguidade, pessoas se arvoraram a capazes de ler o futuro nas entranhas dos animais, nos restos nos copos, nas mãos, nas cartas, etc. Mas o futuro não está escrito, não está definido. Ainda que ele dependa também das circunstâncias, muitas vezes alheias a nossa vontade, nós também fazemos o futuro. E o faremos melhor se for de modo consciente e em conjunto.

                                                                                                                                    

 

 

Minha Paróquia é o Mundo

Postado em 15/6/2008 em 11:24 AM

 

Minha Paróquia é o Mundo

Sou Cidadão do Universo

 

(Epicteto – Citado em “As Mais Belas Orações”, Rose Marie Muraro e Raimundo Cintra, Círculo do Livro, p.57).

 

        Se é verdade que há um parentesco entre Deus e os homens, devemos imitar a Sócrates, que aconselhava nunca responder a quem perguntasse qual era seu país de origem: “Eu sou cidadão de Atenas ou de Corinto”; mas: “ Eu sou cidadão do mundo.” Por que, de fato, proclamar-se ateniense e não simplesmente originário do pequeno canto da terra em que  pobre foi lançado ao nascer? Na realidade, teu nome tem uma origem mais grandiosa, que se prende não a este ou àquele rincão da terra, mas a algo mais importante, que é a pátria de seus antepassados.

      Quando se avalia a organização do universo e se compreende que de todas as coisas a principal, a mais importante, a mais universal é o conjunto que inclui Deus e os homens e de que procedem as sementes produtoras e tudo o que sobre a terra tem vida e crescimento, especialmente os seres racionais que, por natureza, participam da sociedade divina, por meio da razão, por que não se poderia denominar: cidadão do mundo? E por que não filhos de Deus? E se isto é verdade, por que temer as vicissitudes humanas? Se o parentesco com César ou com algum potentado de Roma basta para permitir a alguém viver com segurança, acima de todo o desprezo e de todo o medo, não bastaria para nos libertar de todo aborrecimento e de todo terror o fato de ter Deus por criador, por protetor e por Pai?

     A Providência divina rege a natureza e os homens. Que discurso seria capaz de louvar condignamente os benefícios de Deus para conosco? Se fôssemos inteligentes, não deveríamos fazer outra coisa, em público ou em particular, que cantar a Divindade, exaltá-la e enumerar suas dádivas. Trabalhando, lavrando a terra ou comendo, deveríamos cantar hinos de louvor a Deus...

      Visto, porém, que a maioria dos homens é cega, é necessário que alguém se encarregue de cantar este hino de louvor. Que poderei fazer eu, velho estropiado, senão cantar a Deus? Se eu fosse rouxinol, cantaria como rouxinol... Mas se sou um ser racional, devo cantar a Deus. Esta é minha tarefa. Se a não realizasse, eu abandonaria meu posto. Eis porque vos exorto a entoar o mesmo canto.

 

 

 


Últimos Posts

- contatos com o autor: gefitesp2007@yahoo.com.br
- Apresentação
- Recados
- GEFITESP
- capa
- Introdução
- Um pouco da História
- Sermão para o 5° Domingo Comum, Ano A
- Sermão para o 9° Domingo Comum, Ano A
- Sermão para 12° Domingo Comum, Ano A
- Sermão para o 14º Domingo Comum, Ano A
- Sermão para o 18º Domingo Comum, Ano A
- Sermão para 21° Domingo Comum, Ano A
- Sermão para o 22° Domingo Comum, Ano A
- Sermão para o 23° Domingo Comum, Ano A
- Sermão para o 26º Domingo Comum, Ano A
- Sermão para o 27° Domingo Comum, Ano A
- Sermão para o 29º Domingo Comum, Ano A
- Sermão para o 5º Domingo Comum, Ano B
- Sermão para o 6º Domingo Comum, Ano B
- Sermão para o 11º Domingo Comum, Ano B
- Sermão para o 12º Domingo Comum, Ano B
- Sermão para o 14º Domingo Comum, Ano B
- Sermão para o 15º Domingo Comum, Ano B
- Sermão para o 16° Domingo Comum, Ano B
- Sermão para o 17º Domingo Comum, Ano B
- Sermão para o 18º Domingo Comum, Ano B
- Sermão para o 24° Domingo Comum, Ano B
- Sermão para o 25º Domingo Comum, Ano B
- Sermão para o 26º Domingo Comum, Ano B
- Sermão para o 27º Domingo Comum, Ano B
- Sermão para o 28º Domingo Comum, Ano B
- Sermão para o 29º Domingo Comum, Ano B
- Sermão para o 30º Domingo Comum, Ano B
- Sermão para o 32º Domingo Comum, Ano B
- Sermão para o 2° Domingo Comum, Ano C
- Sermão para o 3º Domingo Comum, Ano C
- Sermão para o 5º Domingo Comum, Ano C
- Sermão para o 6º Domingo Comum, Ano C
- Sermão para o 7° Domingo Comum, Ano C
- Sermão para o 11° Domingo Comum, Ano C
- Sermão para o 16º Domingo Comum Ano C
- Sermão para o 18º Domingo Comum, Ano C
- Sermão para o 21º Domingo Comum, ano C
- Sermão para o 22º Domingo Comum, Ano C
- Sermão para o 23º Domingo Comum, Ano C
- Sermão para o 25º Domingo Comum, Ano C
- Sermão para o 27º Domingo Comum, Ano C
- Sermão para o 31º Domingo Comum, Ano C
- Sermão para a Solenidade de Todos os Santos
- Sermão para 2 de Novembro
- Sermão para a Festa de Exaltação da Cruz
- Sermão para o 1º Domingo da Quaresma, Ano A
- Sermão para o 1º Domingo da Quaresma, Ano B
- Sermão para o 2º Domingo da Quaresma, Ano B
- Sermão para o 4º Domingo da Quaresma, Ano B
- Sermão para o 5º Domingo da Quaresma, Ano B
- Sermãoa para o 2º Domingo da Quaresma, Ano C
- Sermão para o 3º Domingo da Quaresma, Ano C
- Sermão para a Quinta Feira Santa, Ano B
- Lição da Paixão de Cristo
- Sermão para a Festa da Páscoa
- Sermão para o 3º Domingo da Páscoa, Ano A
- Sermão para o 2º Domingo do Tempo Pascal, Ano B
- Sermão para o 4º Domingo do Tempo Pascal, Ano B
- Sermão para a Festa de Ascensão
- Sermão para a Festa de Pentecoste
- Sermão para a Santíssima Trindade
- Sermão para a Festa de Corpus Christi
- A festa Joanina
- Sermão para Festa de Pedro e Paulo
- Mensagem para a Festa do Natal de Jesus Cristo
- Chico Louco
- Sermão para a Festa de Epifania
- Confraternização Universal
- Minha Paróquia é o Mundo

Amigos

- gui789