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CapaPostado em 4/8/2011 em 12:47 PM - 0 Comentários - Link
IntroduçãoPostado em 4/8/2011 em 12:43 PM - 0 Comentários - LinkMeditações
de meu
Recolhimento
Ao por da Lua
![]() Geraldo Domezi
O subtítulo deste opúsculo “Ao pôr da Lua” não é originalmente meu. Emprestei-o do Ruben Alves, um dos que me deram inspiração.
Assim escreve ele:
O pôr-do-sol é o fim do dia. Metáfora do fim da vida. E se fôssemos seres noturnos, aves para as quais o pôr-do-sol não é o fim, mas o inicio da noite?(...) Com a lua nascente, para os seres noturnos, começa o tempo da vida, o tempo do amor (...) para os seres noturnos, um pôr-da-lua deve ter a mesma beleza triste que tem um pôr-do-sol para os seres diurnos (...) não haverá em todos nós um ser noturno que aparece quando o ser diurno vai dormir? (...) A lua desperta o ser que sonha, contempla e ama (...) Há recantos da alma que só acordam sob a luz branca e fria da lua (...) A psicanálise é um ser noturno. Ela só acorda quando o sol se põe e a noite desce. Ela só vê bem na escuridão (...) Não admira que Freud tenha encontrado iluminação para a sua arte não na ciência, mas na literatura.
("Mansamente pastam as ovelhas..." Editora Papirus, p.54).
Ah! Como é delicioso meditar. Faço-o nas deliciosas noites frias, silenciosas, aquecidas pelo chimarrão do qual diriam “deve ser comunitário”. Mas tenho essa mania de contrariar as convenções.
A solidão que me mata é também a que me salva. Ela não é um vazio. Foi nela que escrevi estas reflexões. São artigos de Filosofia, História, Política, Sociologia, Teologia, Espiritualidade e Relatos de Experiências.
Dedico-as a todos os seres noturnos. Mas se você é dos que me dirão
“prefiro ser diurno” também as pode ler. E talvez aproveitar.
Geraldo
A Maldição da CidadePostado em 4/8/2011 em 12:43 PM - 0 Comentários - LinkA Maldição da Cidade
Era uma vez... Era uma ampla extensão de terra entrecortada por rios e córregos e onde as chuvas eram regulares. O sol era abundante e o inverno nunca era rigoroso. Cada família que chegava erguia sua casa e preparava a terra. Cultivava hortaliças, frutas e cereais num pedaço de chão e domesticava animais. Não se preocupava em delimitar um terreno, pois ocupava o tanto de terra que dava conta de cultivar. O trabalho era penoso debaixo de sol, mas a alimentação era farta.
Com o passar do tempo, conforme a necessidade, algumas pessoas foram desenvolvendo outras atividades. Surgiram curandeiros que utilizavam ervas e orientavam a alimentação. Alguns, de modo informal e adaptado ao ambiente agropastoril, se dedicaram a conduzir a religiosidade. Também apareceram cantores, poetas, repentistas, trovadores, palhaços para divertir crianças e mesmo adultos. E havia uma movimentação de troca de produtos. Surgiram oficinas artesanais, mas nada que configurasse qualquer embrião de cidade.
Pois aconteceu que algumas pessoas resolveram deixar de plantar e colher para passar apenas a colher. Ganharam o nome de ladrões e porque andavam em bando, foram chamados bandidos. Muito se discutia o que fazer com eles. Alguns líderes eventualmente juntavam pessoas e expulsavam os tais bandidos, mas novos grupos surgiam e a reação era insuficiente.
Eis que um desses líderes juntou um grupo maior de homens que resolveram se dedicar apenas ao trabalho de reagir aos bandidos.
O que fazer para que os gatos colocados para acabar com os ratos, depois de eliminar os ratos, não se tornem também um grande problema?
A história foi assim: Esse grupo que se organizou para acabar com a bandidagem em troca de contribuições passou a trabalhar em conjunto com os bandidos. Combatia ações de bandidos e também as incentivava.
Assim começou a primeira cidade. De um modo bem perverso. Passaram a viver num mesmo espaço, de onde administravam suas ações. Aperfeiçoaram armas e equipamentos. Construíram prédios. Surgiram os coletores de impostos. O líder denominou-se rei. O método era simples. Os que pagassem o imposto teriam proteção. Os que se recusassem a pagá-lo seriam atacados por bandidos até incentivados pelo rei.
A cidadezinha foi crescendo e se fortificando. Construiu-se a residência do rei, muralhas e uma torre no centro. Da torre se vigiaria os arredores para ver o comportamento dos “protegidos” e se perceberia se houvesse a chegada de algum eventual inimigo.
O pequeno rei, que lutaria para se tornar um grande rei, recebeu a visita de alguns homens, com os quais confabulou. Passou vários dias reflexivo. Depois nervoso. Depois reservado. Acordou num belo dia e convocou uma reunião. Nela comunicou novas medidas.
Disse que recebeu uma revelação divina na qual soube que não era um homem comum, mas filho de um Deus. Portanto devia ser adorado.
Falou que estava preocupado com uma outra cidade, que surgia distante dali. Os protegidos dela sofriam muitos maus tratos. Piedoso como era, de alma generosa, não poderia ficar indiferente a isso. Teria de destruir a tal cidade e cuidar de seus súditos. Ponderou que se não a destruísse, ela é que acabaria agindo contra ele. Para isso necessitaria de muitos soldados.
Os tributos seriam aumentados.
Além de trabalhar na terra, todos os habitantes trabalhariam na cidade três dias por semana. Construiriam um palácio, muralhas mais resistentes, uma torre mais alta...
Um jovem de cada família, querendo ou não, viria para a cidade e seria soldado.
A cidade teria que ser atraente para esses jovens. Por isso as mulheres solteiras mais bonitas também viriam para a cidade.
Haveria um grande templo ao lado do palácio. Nele se centralizaria a religião, a política e a economia.
Todas as pessoas deveriam fazer visitas periódicas à cidade para adoração ao rei, ao templo e às divindades superiores ao rei.
Todos os religiosos, sacerdotes e profetas passariam a viver na cidade, controlados pelo rei. Assim também todos os que atuavam na saúde, curandeiros, etc. O mesmo valeria para os artesãos. E também para os cantores, humoristas, palhaços. Pois os únicos trabalhos fora da cidade seriam os de plantar, colher, capinar, criar animais, cozinhar, cuidar da própria casa.
Todo atitude de rebeldia seria punida com a morte.
O escrivão registrou essas determinações e intitulou-as “dez mandamentos”.
Para os trabalhadores da terra restou a saudade dos tempos de fartura. A vida se tornou muito sofrida. Ficaram magros, desnutridos. Tinham que trabalhar demais. A maior parte do que produziam era tomada. E pior seria se um dia o rei tivesse que pagar tributo a outro rei.
O que fazer? Melhor conformar-se? Alguns ousaram reagir ou incentivar a rebelião. Foram levadas para a cidade, condenadas à morte e sacrificados nas cerimônias religiosas.
Um grupo encontrou uma alternativa. Foi viver nas montanhas. Lá estavam livres, protegidas. Os pesados carros de guerra não podiam subir até eles. E numa guerra estariam em vantagem por estarem em cima. Mas a terra não era fértil. Tinham de viver apenas da criação de animais. E um dia o rei descobriria um jeito de também dominá-los.
Eis que, dentre os camponeses, um novo líder surgiu e se colocou na defesa dos oprimidos. Com muita inteligência definiu os possíveis detalhes de seu plano, percorrendo muitos lugares e expondo discretamente suas idéias. Formou um numeroso exército de opositores ao rei e treinou-os para a guerra.
Atacaram a cidade de surpresa e venceram. Mataram todos os soldados do rei que ofereceram resistência. Incendiaram e derrubaram todas as construções da cidade, sem deixar pedra sobre pedra. Depois esse líder vencedor, inesperadamente, amaldiçoou todas as coisas que estavam na cidade destruída e chamou-as de “anátema”. E então, certo de ser obedecido, deu sua última ordem antes de voltar ao trabalho agrícola e nunca mais se dedicar à guerra. Que ninguém levasse nada daquele lugar maldito. Nenhum objeto que permitisse lembrar que um dia existiu uma cidade. E que contaminasse alguém com o desejo de viver numa cidade ou adotar algum de seus costumes.
Notas do autor:
Sei que a história de qualquer sociedade é mais complexa do que apresenta este texto. Mas esta pequena e sintética ficção tem alguma semelhança com o que aconteceu em diversas sociedades, em diversas épocas.
Esta história não pretende ser, em última instância, uma condenação à cidade, mas o ponto de partida para se discutir o tema.
A Primeira e a Última Guerra MundialPostado em 4/8/2011 em 12:42 PM - 0 Comentários - LinkA Primeira e a Última Guerra Mundial
(Inspirado no filme “A Guerra do Fogo”)
Começo este pequeno e singelo artigo falando da primeira guerra mundial. Não! Não é aquela do início do século XX, que derrotou e marginalizou a Alemanha, que favoreceu a industrialização no Brasil, que gerou a liga das nações e etc, etc, etc. Falo de uma guerra muito mais antiga. Trato de uma guerra cujo relato não tem quase nada de científico porque quase não se têm dados sobre ela, visto que na época em que ela ocorreu, ou melhor, deve ter ocorrido, não existia ainda a escrita. E isso serve de desculpa para que alguém como eu, tão longe de ser um intelectual, se meta a escritor. Como não tenho dados para atender ao rigor de um artigo que se preze, vou usar apenas a imaginação.
Era a época pré-histórica, quando os homens e as mulheres ainda nem falavam direito. A sociedade já era dividida entre ricos e pobres. Rico era quem pertencia a algum grupo que usava o fogo. Pobre e até miserável era quem estava em um grupo que não possuía o fogo. É que naquela época não se conhecia a arte de acender uma fogueira. Muito longe se estava ainda de sequer imaginar tal façanha. Os sortudos apanhavam o fogo de algum incêndio provocado por algum raio, o que só ocorria muito raramente (Aquela história de “Prometeu” é pura fantasia).
Os grupos possuidores do fogo, que eram a minoria, tinham duas grandes mordomias. A primeira era poder cozinhar os alimentos que não podiam ser consumidos crus. A segunda era se defender dos animais ferozes. Ai da onça presunçosa (ou sei lá que animal existente na época) que se metesse com um homem poderoso que tivesse um tição de fogo nas mãos!
Os pobres (não eram pobres-diabos, pois não tinham fogo) ficavam sonhando com o dia, e sobretudo a noite em que possuíssem aquela maravilha.
Como o mercado tivesse que surgir um dia, eis que o fogo se torna moeda de troca. Você me dá vinte mulheres e eu lhe dou o fogo! Pouco mais tarde alguém se indignou com essa atitude inconseqüente. Como pode alguém vender o fogo tão barato? Havia uma idéia melhor. Vocês se tornam nossos escravos e poderão usufruir do nosso fogo! Mas eles não contavam com a astúcia de certos marginalizados espertos que, muito mais tarde, dariam início ao crime organizado. Surgiram os ladrões de fogo. Tal atitude foi, de modo geral, tida como crime inafiançável e os acusados eram condenados à morte pelo fogo.
A história vai se desenrolando. Na medida em que um território ia se empobrecendo em termos de recursos naturais, o grupo que o dominava partia em busca de outro território, é claro, cada um carregando sua tocha olímpica. Acontecia não raro que o território almejado já era habitado ora por um grupo que não possuía fogo mas tinha a vantagem do número, ora por outro grupo que também tinha fogo. Ocorriam então violentas batalhas, com muito sangue e queimaduras de primeiro, segundo e terceiro graus.
Vou contar agora como essa guerra terminou. Um pequeno grupo, dos que não tinham fogo, fugindo de seus ferozes e sofisticados perseguidores, encontrou uma pobre mulher perdida na mata, desgarrada do seu grupo de origem. O chefe do grupo levou-a, pensando em utilizá-la sexualmente. Mas o inesperado aconteceu. Em dado momento, essa mulher, apanhando um pedaço de pau roliço, esfregou-o entre as mãos com uma de suas extremidades em atrito com uma pedra. Estupendo! O espanto foi imenso! Mal conseguiam acreditar no que viam. Não era uma mulher, pensaram eles. Era uma deusa! E começaram a adorá-la. Mas, pouco tempo depois, todos aprenderam a técnica de acender uma fogueira. Oh feliz descoberta! Ma-ra-vi-lho-sa! Mas também teve o seu lado desastroso. A cotação do fogo caiu ao extremo e deixou-os sem referência. O fogo se banalizou e deixou de ter qualquer valor de troca. (E com isso a sociedade voltou a ser igualitária. E assim seria até que alguém inventasse de dar valor ao ouro, quando então os possuidores do ouro passariam a dominar os outros. E depois o ouro passaria a ser chamado dinheiro e usado para um dominar o outro). E logo se saberia: a coisa que mais há no universo cósmico e que nunca irá faltar aos habitantes do planeta terra é o fogo.
Avancemos agora milênios e milênios, séculos e séculos, muitas décadas e, para além do ano dois mil de nossa era, chegamos ao início da última guerra mundial: a guerra da água. É verdade que habitamos o planeta água. Mas só um pouquinho por cento dessa água é doce e potável. E uma imensa parte desse pouquinho está poluída.
O lamentável é que essa última guerra não terá o “happy end” que teve a primeira. A água é um elemento que se tornará cada vez mais raro. E dessa vez não aparecerá ninguém que ensinará a fazer surgir água.
Roubaram a ColherzinhaPostado em 4/8/2011 em 12:41 PM - 0 Comentários - LinkRoubaram a Colherzinha
Tendo parado muitas vezes numa sorveteria, não tive coragem de jogar no lixo a colherzinha plástica do sorvete. Depois de juntar uma boa quantidade delas, coloquei-as numa gaveta da cozinha da casa paroquial onde eu morava. Pensava utilizá-las na próxima vez que servisse café nalguma reunião. Não deu tempo. A cozinheira deitou-as no lixo tão logo as viu, preocupada em deixar a casa em ordem, livre de qualquer tranqueira. Não fiquei zangado com ela, mas triste pela atual cultura do desperdício que ensinou a jogar no lixo tudo o que pode ser descartado e se eu não tomar cuidado irei para o lixo também.
Lembrei-me do ano de 1970, quando eu tinha dez anos de idade. Depois de virmos os parentes um a um vendendo o sítio (era como chamávamos o minifúndio) para alguma grande usina de açúcar e álcool, ou desistindo da terra “de a meia,” fomos também da roça para a cidade. Aquela cidade do interior de São Paulo, que não tinha 40 mil habitantes, hoje, apenas 35 anos depois, já tem quase 90 mil. Foi assim que se deu a urbanização no Brasil: Em 1940, 30% da população estava na cidade e 70% no campo. Em 1980, ao contrário, 70% estava na cidade e 30% no campo. Foi uma mudança repentina. E a industrialização se fez sem dar condições dignas de moradia, educação, saúde, laser...
Fomos morar no extremo da periferia, onde havia muitos terrenos baldios tomados pelo mato. As casas, quase todas alugadas, eram de três ou quatro cômodos e um quarto delas era de tábuas. Tinham o benefício de um quintal para se estender roupas e onde também se plantavam algumas verduras. Ficávamos no grupo escolar ou no ginásio (no meu caso sem nenhuma vontade de estudar) por meio período. E depois? Televisão só havia nalgumas casas. Não havia clima para ficar dentro de casa, ou porque eram muitos irmãos ou, em certos casos, porque o pai chagava bêbado. A vida era brincar nas ruas sem asfalto ou nos terrenos baldios empinando pipa ou chutando uma bola de plástico murcha que algum privilegiado ganhou no último natal. Inventamos uma brincadeira bem criativa: a confecção de cabaninhas. Cada um fazia sua cabana com paus de galhos de árvore, cobertas de folhas de mamona. Havia os que faziam isso em sociedade de dois ou três. Transferíamos o imaginário lar doce lar para a cabaninha. Lá colocávamos alguns brinquedos velhos, por vezes se fazia um banquinho e um visitava a cabana do outro.
Certa vez, olhando para o interior de uma cabaninha solitária, vimos um potinho de doce de abóbora e, reluzindo como num imperdoável exibicionismo, uma colherzinha de alumínio. Meu colega retirou a colherzinha. Duas horas depois, ao passar pelo local, vejo um menino chorando bem alto, desconsolado. “- O que foi isso? – Eu trouxe aqui um doce para comer depois, roubaram a cuiezinha”. Fiquei com pena, fui à casa do outro amigo buscar o objeto e devolvi a ele, que o pegou com as duas mãos e então pode colocar no lugar sem que a mãe percebesse. Dias depois estava ele ao meu lado, numa casa que tinha televisão, rindo e gritando porque o Pelé fazia um gol e o Brasil ia se tornando tricampeão. Alegria de pobre. Só uma década após essa vitória eu saberia que, enquanto gritávamos de alegria, justamente naqueles momentos, tantos opositores da ditadura militar gritavam de dor, torturados nas câmaras de terror. Queriam estabelecer a democracia e muitos deles queriam o socialismo.
Poucos anos depois todos já tínhamos televisão. Foi o golpe certeiro contra a implantação do socialismo que, nos países onde tomou o poder, chegou no máximo até a idade de 70 anos.
Naquele ano de 1970 vimos o homem chegar na lua, mas não podíamos imaginar que uma colherzinha de alumínio (de plástico não existia) pudesse ser coisa para criança brincar, nem que vasilhames de bebidas viriam a ser descartáveis, nem que surgiria o videocassete que logo seria jogado no lixo para ser substituído pelo DVD, nem que os discos seriam substituídos por CD’s, nem que cada jovem teria um computador com acesso à prodigiosa internet, de onde eles tiram textos que nem leram para entregar ao professor como “seu” trabalho escolar e a maioria dos professores aceitam aqueles textos copiados integralmente e nem os lêem e parecem conformados com o fato explícito de que a grande maioria dos jovens que concluem o ensino médio não sabem o que é um átomo, não sabem a diferença entre um planeta e uma estrela, não sabem que os três patriarcas foram Isaó e Jacu, não sabem acentuar palavras nem usar pontuação, mal sabem escrever uma carta e muito menos sabem interpretar um texto.
Não seja JumentoPostado em 4/8/2011 em 12:39 PM - 0 Comentários - LinkNão Seja Jumento
Já li máximas que me pareceram o máximo. Frases sábias chamadas “pérolas de sabedoria”, ditas por poetas, filósofos, cientistas, místicos... Uma que me vem a mente neste momento foi dita por um anônimo nordestino: “Não seja jumento!”. Muita gente não deu ouvidos a frases como essa, de profunda sabedoria, e não foi capaz de superar o caráter jumentístico da convencionalidade.
Alguns personagens da idade média, à frente de seu tempo, querendo que seus concidadãos fedessem menos, deram a idéia de se banhar uma vez por semana. Julgou-se ser o conselho de um louco exagero. Não lhe parece uma jumentice dizer que é suficiente tomar um banho por ano? E o que você acha de acordar de manhã, abrir a janela, e jogar merda na rua? Um rei, inteligentemente (não poderia ter sido ele ainda mais inteligente?), baixou um decreto: todos os que o fizessem deveriam gritar primeiro “sai de baixo!”. Se é verdadeira a hipótese de que o imperador Nero incendiou dois terços da cidade de Roma para acabar com uma peste, então eu pergunto se em vez de fogo ele não resolveria o problema simplesmente usando água. Mas observando nos supermercados o consumo excessivo de sacolas plásticas, sabendo o mal que elas causam ao meio ambiente, eu também fico impressionado com tamanha jumentice, que, neste último caso, é da atualidade.
Alguns dirão que não se deve transportar os sentimentos do presente para o passado. Falemos então do presente. Você não acha uma jumentice usarmos água tratada e clorada para nossas rotineiras e cotidianas descargas sanitárias? Você não acha uma jumentice enviar a merda para o rio, sendo que ela poderia ser útil, benéfica e não prejudicial como tratei no meu artigo de caráter ecológico chamado “apologia da merda”? Por muitos séculos, em vários lugares se jogou na rua; hoje se joga no rio. Continua a jumentice. Ainda uma palavra de três letras: trocou-se rua por rio. E continua o mal cheiro e a proliferação de doenças.
Você não acha uma jumentice organizar a cidade de modo que quem mora no extremo da zona norte, no caminho para o trabalho na zona sul, encontrar alguém que mora na zona sul e está indo trabalhar na zona norte? E como você explica que, na época da velocidade (comparada a velocidade das carruagens do passado) se gaste uma hora inteira para percorrer doze quilômetros da Av. Sapopemba no horário entre 18 e 19 horas? Pois as carruagens ultrapassavam 12 km/h.
E o que você acha de se retirar tantas toneladas de petróleo do solo, espalhá-lo no ar e respirar aquilo? Não é uma jumentice? E o que você acha do método pratico de alimentação vegetariana: dar todos os legumes e verduras para o porco e depois comer o porco? O que você acha de a sociedade dispensar-se de uma alimentação saudável e lotar os grandes, complicados e tumultuados hospitais? E, no hospital, pegar infecção hospitalar porque o auxiliar de enfermagem passou um dia inteiro sem lavar as mãos?
O que você acha de os chamados “evangélicos” dizerem que é pecado beber cerveja porque ela contém álcool, mas nunca se perguntarem o que contém um refrigerante como a coca-cola?
Você que tem mais informações do que eu, deve encontrar mais costumes desses que eu chamaria de jumentice.
Num programa esotérico de televisão se dizia que “os animais têm alma, pensam e sentem como nós”. Como nós quem ???
Talvez eu esteja sendo indelicado ao chamar gente de jumento. Os jumentos não mudam de comportamento porque não sabem que podem mudar. Nós sabemos. Por que não mudamos?
A Clonagem e a LiberdadePostado em 4/8/2011 em 12:39 PM - 0 Comentários - LinkA Clonagem e a Liberdade
Há quem diga que tecnologicamente se progrediu mais nos últimos 50 anos do que em todos os anteriores anos da história da humanidade. De fato, foram muitas as descobertas e invenções surpreendentes nesse período. Entre as invenções está a máquina de fotocopiar, duplicar. Uma vez vi alguém brincar com uma criança propondo colocá-la na máquina fotocopiadora para ver se saía outra igual. Interessante notar que idéia semelhante muitas vezes foi transmitida seriamente. No mundo da biogenética repetidamente se propôs chegar a uma técnica para se criar a cópia de um ser humano. Houve quem aproveitasse a idéia para produzir filmes de ficção e de terror, mas ela continuou sendo encarada com seriedade.
Já no tempo de Adolf Hitler, no comando nazista, dentro do ideal de raça pura, de se criar uma civilização de bem-dotados, eliminando-se gradativamente os inferiores, surgiu a idéia de criar duplicatas de Hitler. Ainda hoje há os que vêem sentido no ideal nazista e justificam com o exemplo: “eu não cruzaria o meu dobermann com um vira-lata”.
Na última semana de fevereiro de 1997, jornais do mundo inteiro noticiaram com muito destaque que pesquisadores escoceses criaram cópia de uma ovelha adulta a partir de uma de suas células. O fato, que considero louvável e vantajoso, não teria sido tão polêmico não fosse a afirmação de que cientistas já dispunham da técnica para criar a cópia de um ser humano adulto a partir de uma de suas células.
Isso me leva a discorrer sobre uma característica própria só do ser humano: a liberdade. Lembro-me do filme “2001, Uma Odisséia no Espaço”. Num dado momento a máquina mente para o homem. Certas coisas mostradas nesse filme já deixaram de ser ficção e passaram a ser realidade. Mas não se inventou uma máquina que tenha liberdade, que seja capaz de esconder informações ou mentir. Já se afirmou que a máquina é, ao mesmo tempo, muito inteligente e muito burra. Uma criança é capaz de mentir mal, dizendo ao vendedor “minha mãe mandou falar que ela não está”. A máquina é absolutamente incapaz de mentir. O cérebro eletrônico é inferior ao de uma criança.
O que mais distingue o ser humano das coisas e dos animais e complica a possibilidade de ele ser clonado é a liberdade. Jean Paul Sartre, filósofo existencialista francês (falecido no ano de 1982) diria que o homem não é, e não pode ser por essência, porque “ele está condenado a ser livre”. Ele “faz-se a si mesmo e se faz a cada momento”. Antes de ser o homem existe. O animal é, mas não existe. Por isso pode ser clonado e permanecer no estado para o qual foi feito. Existir significa “estar fora de”, fazer-se a si mesmo. O animal não pode alterar o seu ser; sempre será aquilo para o qual foi feito. O homem pode se fazer e se refazer. Um ser humano superdotado intelectualmente pode, a partir do emocional, recusar-se a desenvolver sua inteligência. Um homem surdo como Bethoveen pode, pela força de vontade, ser um grande músico. Um homem pode decidir viver como mulher e uma mulher como homem. O homem pode até negar sua existência, suicidando-se. E só o ser humano pode decidir-se pelo suicídio. O escorpião quando encurralado se suicida, mas não o faz livremente, pois todos os escorpiões se suicidam nessa situação. No final da guerra de Palmares, negros encurralados tinham atitudes diferenciadas: uns se atiravam no precipício; outros se entregavam para voltar a escravidão. Na ditadura militar no Brasil muito se torturou a presos políticos. Uns contavam o que sabiam para não serem torturados; outros eram terrivelmente torturados mas não contavam nada, provando assim, a sua liberdade.
Mas, se a liberdade é tão própria do homem, também se constata em tantos desses seres a negação da liberdade. É o que Sartre chamava de “má-fé”. Para a criança a verdade está nos adultos. As palavras, os costumes, os valores são para elas coisas estabelecidas. Com isso elas escapam à angustia da liberdade. Há adultos que se fazem como crianças, recusando-se a pensar. É necessário aprender a pensar com radicalidade, globalidade, rigor e crítica. Mas muitos não querem se dar a tanto trabalho. Preferem acreditar cegamente que a verdade está no padre, no pastor, na Igreja, no papa, na teoria marxista, no esoterismo. O fundamentalismo torna-se cada vez mais forte devido ao medo de assumir a liberdade. Muitas pessoas mentem a si próprias negando a liberdade e tentando se colocar numa situação de essência definida. Querem ser. Não querem existir. Não querem fazer-se. Na Igreja muitos costumam perguntar ao padre se é pecado ou não é pecado. Não querem ouvir um discurso crítico que ajude a pensar e decidir. Só querem saber se é pecado ou não é pecado.
O discurso sobre a libertação não é novo. Já o apóstolo Paulo o fazia. E muito bem. A liberdade é o tema central de toda sua mensagem. “Fostes chamados, irmãos, à liberdade” (GI 5, 13). “Onde está o Espírito, há liberdade” (2 Co 3, 17). Paulo muito sofreu por ajudar os primeiros cristãos a assumirem sua liberdade. Havia o apego à lei judaica. Alguns dos próprios discípulos de Cristo, dos apóstolos, queriam que os novos convertidos, vindos do paganismo, primeiro entrassem em certos moldes judaicos para depois serem batizados. Paulo faz duras críticas à “lei” e coloca tal atitude como fraqueza de espírito. Para ele a natureza do espírito é a liberdade.
O sistema neoliberal, que atualmente domina, não favorece para que se tenha cidadãos pensantes e sim meros consumidores. Divide a sociedade em incluídos e excluídos. Entre os incluídos entra mais facilmente um cachorrinho, que terá direito a escola, boa alimentação, assistência médica etc. do que uma criança abandonada. É porque esta pode decidir ser livre.
Charles Chaplin termina o filme “O Grande Ditador”, feito como crítica ao nazismo, com um discurso onde diz: “Não sois máquinas! Homens é que sois. Não vos entregueis a seres brutais que vos desprezam, que voz escravizam, que ditam as vossas idéias, os vossos atos, os vossos sentimentos, que voz fazem marchar no mesmo passo, que arregimentam vossas vidas”.
Não sejamos clones de ninguém. Não sejamos duplicatas dos modelos apresentados por esse sistema de morte.
A superação do TrabalhoPostado em 4/8/2011 em 12:38 PM - 0 Comentários - LinkA Superação do Trabalho e o
Desenvolvimento Sustentável
Adão e Eva pecaram. Foram expulsos do paraíso e, como castigo tiveram que trabalhar. Muitos disseram então que o trabalho é uma maldição, um castigo ou um mal necessário. Contudo autoridades religiosas escreveram documentos para dizer que o trabalho é uma bênção. Podemos dizer que o trabalho não é uma maldição, mas que, ao mesmo tempo, seria uma maldição não saber superá-lo, e viver na condição de animais que trabalham sem evoluir. E evoluir significa acabar gradativamente com o trabalho. E substituí-lo não pelo tipo de ócio que faz dizer popularmente que “Cabeça vazia é oficina do diabo”, mas por um ócio ativo, saudável, cultural, que talvez merecesse um nome mais bonito do que “trabalho”.
Aristóteles, que viveu entre os anos 384-322 a.c., é o filósofo mais citado e mais conhecido da antiguidade grega. Certa vez ele olhou para um grupo de pessoas trabalhando e perguntou: “Por que os homens trabalham?” Ele mesmo respondeu que muitos trabalham porque são obrigados a trabalhar. E acrescentou “Se a uma ordem dada os instrumentos de trabalho agissem sozinhos os homens não trabalhariam”. O mesmo filósofo havia dito que o ser humano já tinha atingido o máximo de sua possibilidade de evolução técnica. Nisso ele esteve tremendamente enganado. Mas tal conclusão o ajudava a reforçar sua teoria de que uns nascem para pensar e outros para trabalhar com as mãos. Tão triste seria a condição desses últimos que seu trabalho não valeria mais do que o de uma máquina que trabalhasse sozinha. Hoje é bem real o que parecia absolutamente impossível no passado: as máquinas trabalham sozinhas com o apertar de um botão.
Na revolução industrial surgiram máquinas que possibilitaram aumentar a produção. Mas se utilizava muitos operários e operárias para comandar as máquinas. Em grande parte se mantinha o esquema de cada operário em uma máquina. E ainda se conservava, em larga escala, a mentalidade utilitarista da produção, que desprezava a produção artística e muitas vezes a intelectual. Tanto que muito se recordava a fábula da cigarra e as formigas, de Fontaine. Enquanto as formigas trabalhavam, a cigarra cantava. Quando chegou o inverno a cigarra foi pedir abrigo ás formigas. “O que você fazia enquanto trabalhávamos?” “Cantava”. “Pois agora dance”. A resposta é outra numa fábula alternativa de Monteiro Lobato: “Então era você que nos encorajava com sua bela música enquanto trabalhávamos? Entre e venha animar nosso abrigo”. Pelo uso que se fazia da fábula de Fontaine se teria que admitir que Mozart e Beethoven foram vagabundos como todos os outros músicos representados pela cigarra.
O que ocorre hoje coloca em desuso a fábula da cigarra e as formigas. Quase todo o trabalho das formigas é feito pelas máquinas. Sobrou para os humanos o trabalho da cigarra, isto é, o trabalho artístico, aquele que a máquina não faz. Não se necessita mais de gente para produzir cadeiras, garrafas, sapatos. Como também para muitas operações bancárias. As máquinas fazem isso, muitas máquinas comandadas por uma só pessoa. O trabalho do futuro (e talvez a palavra adequada não seja essa, pois trabalho vem de “tripalium”, instrumento de tortura), a ocupação do futuro terá de ser o artístico, cultural, de preservação e recuperação do meio-ambiente, etc. Mas para isso será necessário um reordenamento das finanças.
Numa determinada localidade, cortadores de cana se organizaram para destruir máquinas de colher cana, pois cada máquina substituía setenta homens. Num caso particular talvez essa atitude se justifique, mas, no geral, a se seguir essa regra, teríamos que destruir liquidificadores, máquinas de lavar roupa, e muitos outros utensílios domésticos, pois todos eles geram desemprego.
Como reordenar as finanças para criar novas formas de emprego? Desbancando a teoria neoliberal privatizante, individualizante e excludente do Estado mínimo. Arrecadando-se mais com impostos. Mas os impostos teriam que ser progressivos: quem tem mais paga mais. Atualmente, no Brasil, os pobres pagam bem mais impostos do que os ricos. Isso teria que ser revertido. E enquanto se ensaiasse melhor politização econômica, a chamada “economia solidária” seria um belo sinal.
Contrária a isso tudo, uma atitude assombrosa, que já foi utilizada várias vezes na história, é eliminar numa guerra a imensa massa de gente sobrante. Se não queremos essa medida temos, no caminho pela frente, que fortalecer a democracia direta, a reforma política (que não será feita pelos políticos que são frutos de um esquema eleitoral errado, mas por quem está fora disso), a valorização do que é público mais do que o que é particular (meu carro, minha casa, meu plano de saúde, etc.) e o fim do consumismo que mantém uma economia não sustentável. Um exemplo bem ilustrativo dessa insustentabilidade é o que acontece no trânsito de uma cidade como São Paulo. Nascendo neste ano de 2008 mais carros do que gente, os pedestres encurralados, massacrados entre os automóveis, respirando um ar envenenado, mortal, com o transporte público não atraente, depois de tanto dinheiro jogado fora com obras que rapidamente ficam superadas como novas avenidas, viadutos, túneis, etc., a cidade está parando por excesso de carros.
Soluções surgirão na medida em que se superar o individualismo próprio do histórico sistema capitalista.
A letra desta música chamada “Mágoa de Boiadeiro”, de Nonô Basílio e Índio Vago pode nos levar à seguinte discussão: È possível um progresso tecnológico que não traga como conseqüência uma abrupta destruição cultural?
Antigamente nem em sonhos existiam
Tantas pontes sobre os rios
Nem asfalto nas estradas
A gente usava quatro ou cinco sinoeiros
Pra trazer os pantaneiros no rodeio da boiada
Mas hoje em dia tudo é muito diferente
O progresso, nossa gente nem sequer faz uma idéia
Que, entre outros, fui peão de boiadeiro
Por este chão brasileiro, os heróis da epopéia
Tenho saudades de rever nas corrutela
As mocinhas na janela acenando uma flor
Por tudo isso eu lamento e confesso
Que a marcha do progresso é a minha grande dor.
Cada jamanta que eu vejo carregada
Transportando uma boiada já me aperta o coração
E quando olho minha traia pendurada
De tristeza dou risada prá não chorar de paixão
O meu cavalo relinchando campo afora
Certamente também chora na mais triste solidão
Meu par de esporas, meu chapéu de aba larga,
Uma bruaca de carga, o berrante e o facão.
O velho basto, o meu lado de madeiro.
O polaco e o cargueiro, o meu lenço e o gibão
Ainda resta a guaiaca sem dinheiro
Deste pobre boiadeiro que perdeu a profissão
Não sou poeta, sou apenas um caipira
E o tema que me inspira é a fibra de peão.
Quase chorando, meditando nesta mágoa
Rabisquei estas palavras e saiu esta canção
Canção que fala da saudade das pousadas
Que já fiz com a peonada junto ao fogo de um galpão.
Saudade louca de ouvir o som manhoso
De um berrante preguiçoso nos confins do meu sertão.
Sobre a Boa PolíticaPostado em 4/8/2011 em 12:37 PM - 0 Comentários - LinkSobre a Boa Política
Como explicar a atual complicação política para jovens iniciantes no ensino médio que, em sua maioria, como muitos adultos, nem sequer sabem o que é poder executivo, legislativo e judiciário?
Vamos imaginar uma pequena cidade e o seu prefeito. Será que esse prefeito faz nessa cidade o que ele quer, uma vez que ele é o prefeito, o chefe? Não. Ele faria o que quisesse se fosse rei com poderes absolutos. Mas não. Para realizar qualquer coisa ele precisará de aprovação da maioria dos vereadores, que formam o “poder legislativo’’. E não poderá realizar nada sem respeitar as leis, pois suas ações poderão ser julgadas e condenadas pelos juízes.
Quem inventou essa organização da política em “sistema de três poderes”, essa divisão do poder político em “executivo, legislativo e judiciário” foi um filósofo chamado Montesquieu, por volta do ano de 1750. O objetivo dele foi evitar o abuso do poder. E para isso esse sistema serviu. Mas nem tanto.
Com a divisão dos poderes reforçou-se a “democracia representativa”. Além de eleger o prefeito (ou governador e presidente) você vai também votar para escolher o vereador (ou o deputado no nível estadual e federal). Esse vereador vai representar você. Vai levar para o governo da cidade a sua vontade, a vontade de seu grupo, de sua comunidade, de sua categoria.
Há quem diga que, por causa de certos mecanismos, essa democracia representativa não funciona ou funciona muito pouco na prática. Uns propõe a volta da ditadura. Outros, alegando os perigos da ditadura, propõe que, além da “democracia representativa”, haja também a “democracia direta”, ou seja, mecanismos para o povo participar da política além de apenas votar a cada dois ou quatro anos para escolher os governantes.
Imaginemos que esse prefeito ao qual nos referimos tenha um bom projeto de construção de unidades educacionais, do agrado da maioria da população. Imaginemos também que a maioria dos vereadores dessa cidade, querendo agradar a classe mais rica, que quer utilizar os terrenos para outras finalidades, seja contra o projeto desse prefeito. Ele terá então três alternativas:
1ª- Desistir de seu projeto.
2ª- Criar o “mensalinho”. Subornar, comprar os vereadores que estão contra. Pagar um extra para eles em troca votarem a favor.
3ª- Jogar a população contra os vereadores que não querem aprovar o projeto para que assim, pressionados, eles façam o que é interesse do povo.
A segunda alternativa é a mais simples, rápida e prática é a mais usada. Para a alternativa terceira funcionar vale desde uma atitude mais simples como um telefonema ao gabinete do vereador até uma solução sistemática, organizada, articulada. Como exemplo podemos ainda falar em atos de protesto, campanhas de opinião pública com utilização de faixas, cartazes, artigos mesmo que em pequenos jornais e falas mesmo que em pequenas rádios. Podemos também falar em ações populares e ações civis públicas com denuncias baseadas na lei.
Devemos construir e aperfeiçoar meios de participação popular na política. Só isso poderá fazer com que a política seja boa. Há uma visão equivocada segundo a qual tudo seria maravilhoso se os políticos não fossem corruptos. Baseados nessa ilusão paternalista muitos pedem apenas a punição aos maus políticos. Isso é muito pouco. O que mais precisamos não é de bons políticos e sim de boas políticas, de mecanismos democráticos de se fazer política.
Na Grécia Antiga, antes de Cristo, em Atenas, surgiu a chamada “democracia grega”, sistema em que a política era constantemente discutida pelos cidadãos e que as decisões eram tomadas em praça pública. Há quem critique essa democracia grega, lembrando que as mulheres não participavam, que os escravos não participavam, que os estrangeiros não participavam, que eram só 10% os que podiam participar, sem falar que em nossa sociedade atual a democracia não está muito melhor. Na teoria todos têm direitos políticos, mas na prática, quem tem mais dinheiro influência muito mais. Lembremos, por exemplo, que não temos acesso à televisão, que os meios de comunicação estão nas mãos de um pequeno grupo de gente muito rica. Temos a quase totalidade votando quando o voto é obrigatório, mas não temos nem 10% da população participando constantemente, efetivamente da política. E só para falar do voto, se quase todos votam para presidente da República, governador, deputado e vereador, quem está votando para escolher o conselheiro tutelar, o conselheiro gestor, o conselheiro do idoso, o conselheiro de saúde, para definir prioridades do orçamento do governo?
Realmente, punição momentânea a políticos corruptos resolve muito pouco. E pior ainda que se contentar com esse pouco é não acreditar em mais ninguém e não fazer mais nada. Depois das últimas decepções com políticos muitos perguntam: “Em quem posso acreditar?” Em si mesmo, deve ser a resposta. A indispensável ampla reforma política não será feita pelos políticos sem que haja uma campanha popular em favor dela. A maioria dos políticos, eleitos num sistema pouco democrático, não tem interesse nela e tentará iludir a população mais uma vez com pequenas mudanças superficiais, seguindo o método “mudar para não mudar” ou “façamos as mudanças antes que o povo as faça”.
História do Voto no BrasilPostado em 4/8/2011 em 12:36 PM - 0 Comentários - LinkHistória do Voto no Brasil
Fui votar e aproveitei para apreciar a sensacional “festa da democracia” de que falou a televisão. O que mais me chamou a atenção foi as ruas repletas dos chamados “santinhos”, folhetos de propaganda eleitoral que, pelo exagero, resulta num desastre econômico e ecológico. Quando parei para descansar, lembrei de alguns dados que aprendi sobre a história do voto e resolvi colocá-los no papel.
Por volta do ano de 1850 e em todos os anos em que o Brasil se manteve sob o governo da monarquia os poucos que votavam apenas davam os nomes das pessoas em que queriam votar aos secretários das mesas de votação. Dessa eleição inicial eram escolhidos os eleitores que elegiam os deputados e senadores. Nessas eleições só podia votar quem tivesse uma renda anual acima de cem mil-réis (mesmo que não soubesse ler e escrever) e só podia ser votado quem tivesse uma renda anual acima de duzentos mil-réis. Além disso, como o voto não era secreto, muitos votavam em quem não queriam para não perder alguns favores.
Após a Proclamação da República (1889), alguma coisa mudou. O direito de votar foi um pouco ampliado. Ganharam direito a votar todos os homens acima de 21 anos que não fossem soldados ou padres. Mas tinha um porém. Só podia votar quem soubesse ler e escrever. Como na época poucos sabiam ler e escrever, poucos votavam. E esses poucos eram quase todos das famílias menos pobres. Além disso, o voto daquela época recebeu o apelido de “voto de cabresto” porque os coronéis colocavam sempre alguém para ouvir em quem cada um votava e depois puniam os “traidores” que votavam nos candidatos que eles não queriam.
Com o Código Eleitoral de 1932 surgiu o voto secreto para homens e mulheres maiores de 18 anos. Mesmo com o voto secreto, muitos continuaram com medo de votar contra o padrão: “- Vai saber se ele não dá um jeito de descobrir!”.
O número de eleitores em cada eleição foi sempre crescendo. Em 1930 votaram 2,6% da população. Em 1950 votaram 22% da população. Em 1982, 49%. Houve um crescimento numérico de eleitores. Mas qual a qualidade desse eleitorado? Tornou-se muito comum a prática da compra e venda de votos. Muita gente recebia um favorzinho do candidato e sentiria como falsidade e traição não votar nele. Tinha candidato que conseguia vaga para uma criança numa escola e dizia que se não fosse eleito a criança perderia essa vaga. Tinha até candidato que dava um pé do par de sapatos e só dava o outro se fosse eleito. Ou que distribuía convites para uma churrascada que só aconteceria se ele fosse eleito. Era uma verdadeira bandidagem eleitoral. Muitos pobres viam nas eleições uma rara oportunidade de ganhar um presentinho. Assim, as eleições pouco tinham a ver com consciência política. Além disso, havia muitas fraudes eleitorais, também chamadas “mutretas”. Houve muitas falsificações de documentos eleitorais. Houve até a prática de se fazer morto votar. Eram os chamados eleitores fantasmas.
Um fato político que não deve ser esquecido aconteceu em 1964: a implantação da ditadura militar. Com ela os antigos partidos políticos foram extintos, sendo então criadas duas frentes políticas: ARENA (Aliança Renovadora Nacional), do governo, e MDB (Movimento Democrático Brasileiro), da oposição. Dez anos depois, o número de deputados e senadores do MDB superava os da ARENA. Então, em 1977, o governo passou a indicar 1/3 dos senadores para ficar com maioria no congresso, mas a oposição continuou a avançar. Em 1979 voltou-se a permitir a existência de vários partidos. Uns afirmaram ser isso ruim por se tratar de uma manobra para se dividir a oposição. Outros disseram que acabaria sendo bom já que o MDB estava sendo uma oposição disfarçada, uma falsa oposição.
Em 1989, após tantos anos sem poder votar para presidente, os eleitores brasileiros foram convocados a escolher para a presidência da República do Brasil entre Lula e Collor de Mello. Foi uma eleição muito disputada. Nos debates Collor disse aos eleitores que Lula era comunista e que, se Lula fosse eleito, “ele vai tomar o dinheiro de sua poupança”. Eleito, o próprio Collor fez o que disse que o outro iria fazer: bloqueou todas as contas bancárias; tomou o dinheiro de todo mundo. Muitos até apoiaram essa atitude dele dizendo que com isso ele iria acabar com a inflação que estava muito alta e melhorar a economia brasileira. Como ele não conseguiu conter a inflação e ainda praticou escandalosos atos de corrupção, o povo saiu às ruas em grandiosas manifestações que exigiam a saída do presidente, o que logo aconteceu. O vice assumiu. Anos depois esperava-se que o Lula fosse ser eleito, mas um ministro da economia chamado Fernando Henrique Cardoso, por ter administrado um plano que acabou com a inflação chamado “Plano Real”, foi eleito e reeleito presidente.
Até bem pouco tempo o voto não era pela urna eletrônica. Escrevia-se numa cédula o nome dos candidatos e se assinalava o partido. Os que queriam anular o voto escreviam na cédula piadinhas e palavrões. Assim, muitos que não eram candidatos receberam votos. O falecido Getúlio Vargas recebia muitos votos. Também se votava em Deus, Jesus Cristo, Hitler, Diabo, Xuxa, Pelé, ET de Varginha. Um macaco chamado Tião, atração principal do zoológico carioca, ganhou muitos votos. Se na Roma Antiga o imperador Calígula nomeou senador o seu cavalo para humilhar o senado, agora um animal era eleito por eleição direta. Em 1959, um rinoceronte chamado “Cacareco” recebeu cem mil votos nas eleições municipais de São Paulo e foi o vereador mais votado daquele ano em todo o Brasil. Em pequenas cidades muitos votaram no mendigo ou bêbado mais conhecido. Isso acontece quando o voto é obrigatório. Há quem defenda que o voto seja opcional dizendo que assim só votariam os mais conscientes e os resultados seriam melhores. Isso é assunto para um bom debate. Hoje não se escreve mais bobagens em cédulas porque o voto é eletrônico. Muitos dizem que a urna eletrônica é um avanço. Será mesmo? A apuração se faz com mais rapidez. Mas há quem diga que a possibilidade de fraude é maior.
Hoje temos um instrumento legal para tentar punir a compra de voto. Mas há muitas mudanças que ainda poderiam ser feitas no sistema eleitoral para melhorá-lo.
Dissemos que houve um período no Brasil em que para votar era necessário ter uma renda anual de cem mil-réis. Hoje todos acima de 16 anos podem votar e o voto do pobre vale o mesmo que o voto do rico e se pode dizer então que o voto, além de ser direito conquistado a duras penas é uma preciosidade que não se deve desperdiçar. Ele é, portanto ainda um grande sinal democrático. Mas existe a mesma democracia quando se trata de ser votado? Um pobre, por melhor que ele seja, sem dinheiro para custear a campanha, muito dificilmente será eleito. Consideremos que uma campanha modernizada a deputado em São Paulo tem um custo de um milhão de reais. Será que nesse ponto não estamos ainda no tempo do império?
Outra questão que não deve deixar de ser discutida é a do descrédito generalizado nos políticos. A quem interessa a idéia de que os políticos são todos ruins? Dizer que todos os políticos são ruins não será o mesmo de dizer que todos os professores são ruins, todos os médicos são ruins ou que todos os alunos são ruins?
O castigo de quem não se interessa por política é ser governado por aqueles que se interessam sem a própria participação.
É importante que, além de sua consciência da necessidade de votar, a sua intenção de voto contribua para o debate eleitoral. Hoje não existe mais a necessidade do “voto secreto”, pois você não é mais punido por votar neste ou naquele candidato. Então é bom que cada um diga em quem pretende votar ou em quem votaria e discuta educadamente as razões de sua escolha
Eleições como EspetáculoPostado em 4/8/2011 em 12:35 PM - 0 Comentários - LinkEleições Como Espetáculo
Páginas de jornais têm sido gastas para se falar da corrupção no governo. Segundo pesquisa realizada neste mês de agosto de 2000, 45% dos brasileiros acreditam que o próprio presidente está envolvido em irregularidades. Outros acreditam na teoria do “Não rouba, mas deixa roubar”.
O mais preocupante não deve ser a dúvida se o presidente está envolvido ou não nas irregularidades, mas a certeza de que a grande maioria dos que responderam a tal pesquisa não sabe de que irregularidades se está falando. Não temos uma população acostumada a pensar. E a agir comunitariamente. “A maioria quer um pai protetor. Sente-se desamparada, desconfiada de todo e qualquer político, amargurada por desilusões” (Os trechos aqui grifados são de José Comblin em seu artigo de março de 1996 na revista Vida Pastoral, Ed. Paulus).
Devemos continuar insistindo em dizer que existem políticos bons? O mais importante é dizer que existem “políticas boas”. E certamente o paternalismo não é uma política boa. Como superá-lo? “A prática da liberdade passa por uma trajetória de vida de conflitivo e exigente crescimento individual e coletivo”. É necessário que todos adquiram a consciência do valor desse incômodo amadurecimento. Diria a psicanálise de Freud que todo ser humano deve aprender a administrar seu desejo inconsciente de voltar ao útero materno, do qual foi expulso ao vir à luz. Que não se queira encontrar segurança em nenhum político.
Se não se buscar a melhor política antes de buscar o melhor político, se não se intensificar a educação de base e a participação popular, mesmo que elegendo candidatos progressistas, a “democrática festa eleitoral” poderá ser mais um espetáculo e não ser muito diferente das competições esportivas.
Os antigos gregos reclamavam da democracia tornada demagogia por políticos que queriam agradar a plebe e nada mais. E escrevia Tácito no ano 80 d.C.: “Terminou o tempo em que oradores podiam se expressar livremente diante de um público atento que participava dos debates; o Império se impõe e com ele a democracia da palavra desaparece”.
Continua José Comblin no referido artigo: “Hoje o império de impõe utilizando-se da televisão, cada vez mais nas mãos de menos pessoas. A televisão fabrica a opinião pública na medida em que destrói a capacidade de reflexão crítica fazendo com que se substitua a prática da argumentação pela da repetição de “slogans”.
Vigiados constantemente pela mídia os governantes preocupam-se com a própria imagem. Não se interessam por política de longo prazo ou por obras que não apareçam. Em geral a política é um narcisismo: cada candidato cuida de “sua” imagem”. Com cada candidato desfilando bonito e falando todos a mesma coisa, política fica parecendo um concurso como qualquer outro. Nesse jogo a população não interessa senão como público de platéia. A conseqüência é que o público se cansa desse jogo quando ele se torna desinteressante. A política cai então em grande desprestígio. E a população pede um rei ou um ditador.
Para reverter esse processo a saída é desmitificar a TV e criar ou reforçar outros canais de participação política.
Eleições comoPostado em 4/8/2011 em 12:34 PM - 0 Comentários - LinkA escravidão DisfarçadaPostado em 1/8/2011 em 05:58 PM - 0 Comentários - LinkA Escravidão Disfarçada
Tive uma mini experiência de trabalho escravo. Uma pequena amostra grátis dessa grande monstruosidade à qual muita gente fica exposta quando não há suficiente controle do governo. Foi na cidade de Jaú, centro do Estado de São Paulo, no ano de 1974. Eu tinha 14 anos e queria trabalhar. Procurei emprego nas muitas fábricas de calçados existentes na região. Todas exigiam experiência no ramo e eu não a tinha. Até que cheguei numa pequena fábrica que ficava numa rua chamada Quintino Bocaiúva. “O pai agora está pegando gente para ensinar o serviço. Pode começar amanhã”. Fiquei muito contente. O salário oferecido era de um terço do salário mínimo da época e eu achei que estava muito bom. Depois de trabalhar exaustivamente durante 22 dias eu soube que nada iria receber. Teria que trabalhar de graça durante dois meses. Só depois desse período começaria a ser remunerado. Eu disse que então iria deixar de ir. “Não pode!” A menos que eu pagasse pelos 22 dias de aprendizado. Se eu não pagasse e não voltasse mais iria levar uma bela surra sem ter como provar que fora a mando deles. Essa também era a situação de 5 outros meninos.
Num dia em que o filho mais novo do muquirana chegou com a lista de livros escolares a ser comprados, o miserável que naquele dia estava especialmente nervoso com o acúmulo de trabalho, disse que não iria comprar nenhum. Eu tinha três daqueles livros que havia usado no ano anterior, e disse que doaria a ele. Mas naquele dia todos os meninos explorados combinamos de parar juntos. Passei dias com medo de sair de casa. Não levei nenhuma surra. Eu não estava na Amazônia, ou mais exatamente no Acre retratado pelo seriado da Globo “Amazônia”, que antecipa o tema que será trabalhado pela Campanha da Fraternidade 2007 da Igreja Católica no Brasil.
O capítulo inicial da mini-série mostra um grupo de nordestinos que chega ao Acre, cada um dizendo para a esposa que ganharia muito dinheiro. Ao chegar ao posto de recepção recebem as instruções: 80 % do material que vocês recolherem (das seringueiras) é de vocês. Mas tem que vender para o coronel Firmino. Roubo aqui não é tolerado. É proibido botar roçado porque todo o tempo tem que ser usado no trabalho com a borracha. Descobrem que estão devendo as despesas da viagem. E quando vão comprar os mantimentos no único armazém do local, ficam sabendo que tudo lá custa dez vezes mais do que o preço de mercado. Estão presos pelas dívidas e talvez consigam sair de lá depois de anos trabalhando muito. Um deles, não tendo esposa e filhos, consegue essa façanha, mas antes de receber seu saldo, é assassinado. Enquanto isso o coronel, num cabaré de Manaus, acende o charuto com uma cédula de dinheiro. Essa história não ficou perdida no passado. É uma realidade ainda presente que devemos mudar.
Qual Limite da BrutalidadePostado em 1/8/2011 em 05:55 PM - 0 Comentários - LinkQual o Limite da Brutalidade?
O pai estava necessitando de dinheiro e, numa talvez mistura de maldade e ingenuidade, vendeu a filha a um grosseiro agenciador. Disse à esposa que a menina iria pra cidade e teria uma vida melhor. E a linda jovem foi revendida a um fazendeiro que quis usá-la para tirar a virgindade do filho. Na hora do primeiro encontro ela enfrentou o mancebo com agressividade, de modo que ele nem conseguia o que tencionava fazer. O pai então veio mostrar ao filho com se faz. Violentou a garota na sua frente.
Depois que o jovem se cansou da moça e apareceu-lhe outra mais interessante, ela foi enviada a uma casa de prostituição de um garimpo. O dono da casa bem que avisou que de lá era impossível fugir. Mesmo sem ter treinamento para conviver com a mata ela fugiu com uma colega. Foram capturadas. Como castigo, enquanto a vida de uma foi poupada, a outra, para servir de exemplo, foi amarrada a uma caminhonete, à vista de todos. O seu rosto enrijecido, petrificado, transformou-se por um choro convulsivo. Era a despedida. Foi ela arrastada até morrer. A outra que tentou fugir, de certo modo também despediu-se da vida. Passou a viver só para o ódio. Odiou o assassino, o pai, os clientes todos, as colegas que não fugiram. Odiou Deus. E pediu a Deus que, se ele existisse que castigasse duramente a todos. Era o único sinal de Deus que ela esperava ver.
Enquanto algumas pessoas dirão que esse fato é real e até corriqueiro e tão semelhante a tantos outros, outras pessoas pensarão que isso não acontece senão nalguns filmes que não vale a pena assistir. Pensar assim faz sofrer menos.
Mas a história não acabou. O castigo veio bem desgraçado num fato que uns tratarão como natural conseqüência de uma falta de cuidado e outros diriam ser conseqüência da maldição da jovem. Um agente de saúde passou por aquela casa. Desconfiava que uma das moças estava com um tal vírus HIV. Era ainda o final da década de 1980 e poucos estavam informados. O dono da casa achou ridículo o conselho de usar preservativo. A peãozada não iria querer transar com uma borracha no pênis, disse ele. Conseqüência: tanto ele, como as garotas, como garimpeiros que acharam ouro ou não, morreram com muito sofrimento por essa doença. Assim termina a leve e breve historinha. Da próxima vez eu conto a do chapeuzinho vermelho, onde o lobo é que é mau ou a da bruxa malvada que olhava no espelho.
No momento fiquei pensando na maldade humana. Por quê? Arrastar uma jovem inocente só porque ela quis fugir da escravidão?
O ser humano possui desejos inconscientes reprimidos que o torna sacrificial. Por isso várias religiões, pensou René Girard, tem caráter sacrificial. Meio de conter a violência. E até detê-la no espaço sagrado. A religião judaica discordava dos sacrifícios humanos de sociedades vizinhas. Apenas sacrificava animais. Mas, em dado momento da história, autoridades dessa religião sacrificaram um líder chamado Jesus Cristo que, de seus seguidores recebeu o título de “cordeiro imolado”.
Até que ponto chega a violência conseqüente da falta de consciência e conhecimento do próprio ser e da não administração correta da própria naturalidade? Ela chega a parecer indescritível. E ter como característica não ter limite. Um exemplo ilustrativo é a aplicação da pena da crucificação. Reis e imperadores usaram essa punição às vezes em centenas ou milhares de pessoas de uma só vez. Como se aplicava essa punição, por exemplo, na Roma antiga? O condenado, geralmente prisioneiro político, era levado nu em algum lugar público. Ai era açoitado e depois obrigado a carregar a cruz na qual seria crucificado. Se tivesse bom comportamento, demonstrando resignação, ganharia o prêmio de ter sua morte apressada, quebrando-se-lhe as pernas. Se não ficaria pendurado na cruz morrendo aos poucos, por asfixia. Há relatos de crucificados que demoraram 5 ou 6 dias para morrer. E depois, para desonra, como a sede de vingança do ditador era insaciável, o corpo do crucificado não podia ser sepultado. Ficava lá apodrecendo até ser devorado por animais selvagens e aves de rapina. Isso explica porque a arqueologia encontrou tão poucos esqueletos com marcas de crucifixão. E ocorriam crucificações em massa. Desfilando entre as narrações de historiadores, um romancista, Howard Fast, em sua obra Espártaco (Editora Abril,1981,p.17 a 21) imagina o que até pode ter sido real: numa ocasião em que muitos foram crucificados, parte dos corpos foram vendidos a um fabricante de salsichas. Talvez o leitor deste artigo pare de ler aqui. É difícil não ser poupado de certos pequenos detalhes mesmo que não sejam os mais indigestos. Engolir salsicha de carne humana pode ser menos horripilante do que ler descrições de torturas que vou evitar de colocar no papel, fazendo com que a minha narração tenha o limite que parece não ter havido na violência dos ditadores cruéis.
Flávio Josefo narra em “Antiguidades Judaicas” histórias de crucificações. As mais cruéis ocorreram na ocasião da guerra judaica de entre os anos 66 a 70 d.C. Da crueldade de Floro, no início dessa guerra, quando ele ordenou que as tropas entrassem na cidade e estas aprisionassem, segundo Josefo, três mil e seiscentas pessoas pacíficas, incluindo mulheres e crianças, não vamos falar muito. Apenas lembrar o pequeno detalhe de crianças serem torturadas na frente das mães.
O que significa nua e cruamente não ter limite na crueldade? E como interpretar isso? Os animais matam-se uns aos outros por instinto, num mecanismo de preservação da espécie e seleção natural. O gato brinca com a presa antes de comê-la. Mas a tortura é breve. O bicho homem especializa-se em requintes de crueldade. Por quê?
Flávio Josefo conta que, no final da guerra judaica, mais de 500 pessoas eram crucificadas por dia ao redor dos muros de Jerusalém. Os soldados divertiam-se sadicamente pregando as vítimas nas posições mais variadas. Diz que “tal era o número delas que não havia mais espaços para cruzes e nem cruzes suficientes para os condenados. E não havia mais onde buscar madeira para as cruzes”. Dá para imaginar o desastre ecológico que significou tamanho desmatamento só para tentar saciar uma sede de vingança e afirmação de poder. E, mais do que tudo, responder a um desejo que não sabe qual e nem o que é. Assim tem se mostrado o ser humano que acumula poder.
Voltando do salto à antiguidade para o recente caso das mulheres escravizadas na prostituição, e tentando interpretá-lo, ouço a voz do filósofo Hegel dizendo que a sociedade evolui e que o Estado, como conseqüência de uma evolução histórica, vai se tornando humanizado. Temos hoje o Estado atual em nossa vida social. E até com gente nossa participando do governo dele. Como podemos melhor agir de modo a favorecer a atuação dos meios existentes na eliminação dos abusos e na contenção de violências?
O Ser e o Conhecer o SerPostado em 1/8/2011 em 05:53 PM - 0 Comentários - LinkO Ser e o Conhecer o Ser
O que é o ser? O que é aquilo que vejo? O que é a coisa? Muitas vezes, desde a mais remota antiguidade, se fez essa pergunta. O filósofo Imanuel Kant (que viveu na Prússia entre os anos 1724 e 1804), além de perguntar o que é o ser, por exemplo, aquela árvore que vejo neste momento, perguntou o que é o ver, o que é o conhecer. O que vejo ao ver? O que conheço ao conhecer? Ele filosofou sobre o conhecimento. Fez uma crítica do conhecimento. Fez uma crítica da razão. Concluiu que o ser, por exemplo, aquela árvore, está fechada para mim. É o ser em si. Existe e é o que é independente do meu olhar e do meu conhecer. É eu aqui e ela lá. Meu olhar é como um fotografar. É um enquadramento. Eu tiro uma fotografia da árvore e depois olho a fotografia e não a árvore. É assim o meu conhecimento. Eu conheço a imagem da coisa em mim e não a coisa em si. Ao pensar na árvore eu penso na imagem dela que formei em minha mente. A árvore mesmo eu nunca conhecerei. Dá para comparar essa descoberta de Kant com o fato de que antes se pensava que o sol girava em torno de nós e depois se descobriu que nós é que giramos em torno do sol. Não posso saber o que é realmente a árvore. Só posso saber como ela se mostra para mim, passando pelo filtro de meu olhar, de meus sentidos. Eu a enquadro e delimito. E coloco sua imagem dentro de uma ordem. Mas essa ordem só existe em mim; não existe fora de mim. Só existe em minha consciência. Kant chega a dizer o que parece loucura: que o tempo e o espaço não existem a não ser dentro de mim.
O conhecimento vem da alma? Ou o conhecimento vem do corpo, da experiência do corpo com as coisas, da experiência dos sentidos, no esquema colocado pelos empiristas? Ou o conhecimento simplesmente não vem? Para Kant a experiência não é causa, mas apenas ocasião. Ela não causa o conhecimento da coisa, mas ocasiona esse enquadramento.
Depois de ler isso senti-me um condenado. Condenado a nunca poder conhecer nada. A nunca me aproximar de nada. Estaria eu num paraíso condenado a não conhecer suas belezas? Não existe nada feio nem bonito. Minha mentalidade é que classifica algo como feio ou bonito; que coloca ordem nas coisas.
Eu estava me conformando com esse pensamento quando apareceu outro filósofo, chamado Hegel (que viveu na Alemanha entre os anos 1770 e 1831). Esse falou diferente. Para ele o ser, aquela árvore a qual me referi, não é uma coisa em si inacessível. Porque tanto nela quanto em meu conhecimento, em minha razão, está o “espírito universal”, a razão universal absoluta. “O racional é real e o real é racional”. A árvore não é fechada para mim. Ela é dialética. E é histórica. Ela muda e progride. Porque numa montanha está o espírito universal ela dialoga de modo diferente com o artista, o poeta, o biólogo, o geógrafo, o historiador, de acordo com o que cada um está buscando no momento e com a situação em que cada um está. Essa relação é dialética. Você transforma a coisa e a coisa transforma você. Disse o poeta Vinícius de Moraes: “O operário faz a coisa e a coisa faz o operário”. E nesse processo dialético há uma constante evolução. É possível ser puramente objetivo ou puramente subjetivo? A coisa é sempre dinâmica, nunca estática. Vai sempre ter algum efeito sobre quem a olha. Um espiritualista diria talvez que Deus está nessa coisa. Ou talvez, como Spinoza, diria que Deus é essa coisa.
Esse hegelianismo pareceu-me então bem convincente. Mas, depois, lendo sobre Schopenhauer, pareceu-me, naquele momento, mais acertada a visão de Kant no que se refere á relação sujeito-objeto. E pensei: se eu admitir que o objeto é mesmo inacessível encontrarei algum bem nisso. Fico livre da presunção no que se refere ao conhecimento das coisas, o que me faz humilde. E essa humildade me faz bem. O que sou eu para dizer que há algo que eu bem conheço? Se eu fosse Deus nada estaria limitado para mim.
A partir dessa consideração despertou-me uma questão muito curiosa, já tratada por Hegel, mas não por Kant. A razão é sujeito e também é objeto. Se aquela árvore a qual me referi não é acessível ao meu conhecimento, se o que conheço é apenas a imagem dela tão delimitada que eu enquadrei, o mesmo posso dizer da outra pessoa. A outra pessoa queira ou não, estará sempre meio fechada para mim, por mais que ela queira abrir para mim o seu ouvido, a sua mente e o seu coração. Vale lembrar que duas pessoas nunca têm exatamente o mesmo sentimento ao mesmo tempo. Mesmo na relação entre o melhor casal do mundo, mesmo na relação entre dois santos, haverá grandes limitações em termos de se conhecer. Terei de me conformar com essa solidão, com essa individualidade. Insensata aquela mulher imatura que atende o celular do marido sem a permissão dele e diz que entre o casal não deve haver segredo. O outro é o outro. Só a Deus não pode haver segredo. Não há alma gêmea. Ser dois numa só carne é um princípio válido num plano ideal, como aquele de buscar a perfeição mesmo sabendo que nunca vai alcançá-la. No casal melhor do mundo, ainda que não houvesse essas limitações do conhecimento, haveria as limitações da ausência momentânea, da doença e da morte. Essa solidão existencial foi tema de vários filósofos existencialistas.
Mas essa relação entre a pessoa que é sujeito, com a outra pessoa, que também é sujeito, tem um diferencial. É a solidariedade. A árvore não sabe que eu não posso conhecê-la. Mas a outra pessoa pode saber. E eu também em relação a ela. E me ajudar a conviver com essa condição. Sua presença prestativa e solidária, ainda que tão limitada, será de grande valia.
Aceita um Cafezinho?Postado em 1/8/2011 em 05:41 PM - 0 Comentários - LinkAceita um Cafezinho?
É uma planta de jardim que atingiu grandes repercussões na economia e marcou consideravelmente a história. Acho que não há livro didático de História do Brasil que não fala dela. Mas também muitos que não sabem ler têm muito que falar a partir desse memorável produto. Dizem que não há aroma melhor do que aquele exalado pelo tal do café. Também se diz que não há nada mais bonito do que um cafezal em flor. E mesmo na cidade se vê gente exaltar a beleza de alguma planta de café abarrotada de grãos verdes e vermelhos mesclados em seus vistosos ramos. Quando criança eu procurava filhotes de pássaros em ninhos instalados entre as abundantes folhas dos pés de café. Ao encontrar ficava encantado como quem vai hoje à Disneylândia.
Uma vez, num encontro formativo da Igreja Católica, me chamaram para falar trinta minutos sobre “sacramento”. Não deu outra! Só falei do café o tempo todo. Cronometrei mal os trinta minutos e não sobrou tempo para falar de coisas sacramentais como pão, vinho, óleo, aliança, etc. nem de templo, altar e coisas santíssimas, cintilantes.
Para mim o café se tornou sacramento. Distante no tempo e no espaço de minha infância, plantei uma mudinha de café no quintal. Cresceu lentamente ante a impaciência do meu olhar. Demorou seis anos para dar os primeiros frutos. Foi como os resultados de meu trabalho. Dizia o Paulo Freire que devemos ser pacientemente impacientes.
Nunca enjoei de sentir o aroma do café. Nunca me canso de contemplar um eventual pé de café que se depara comigo em minhas andanças pela cidade. Mas penso qual seria o sentimento de meus pais que tanto sofreram com trabalhos pesados nos cafezinhos, em regime de quase escravidão. Apesar das lembranças desagradáveis da vida nos cafezais, nunca deixaram de tomar o café e oferecê-lo às visitas. As pessoas do sul do país oferecem o chimarrão, que obriga a sentar e conversar. Não dá para tomar chimarrão com muita pressa. Parece que a cultura gaúcha foi menos afetada pelo estilo “taylorista”.
Penso naquelas pessoas que acordam bem cedo em dias de frio para enfrentar ônibus lotados e um penoso dia de trabalho, e se animam com uma xícara de café, que nunca pode faltar. Penso naquelas pessoas que acordam para procurar emprego, encorajam-se com um gole de café para agüentar a humilhação e, no trajeto até o ponto de ônibus, sentem o mesmo aroma vindo de cada uma das casas da vizinhança. Faço uma prece por você e por cada um dos apreciadores do café, desejando que as festas que se aproximam não sejam como aquela “banda” do poeta, a qual, depois que passa, deixa cada um no seu canto com a sua dor, sem conhecer os caminhos para uma ampla e profunda democratização.
Quem Sou eu e quem é DeusPostado em 1/8/2011 em 05:40 PM - 0 Comentários - LinkQuem sou eu e quem é Deus
Saudações. Muito Prazer! Sou fruto da imaginação do autor. Na verdade eu não existo. E, como não existo, posso falar o que eu quiser sem o risco de ser censurado ou punido por alguém e talvez sem prejudicar o meu autor, que poderá dizer que não se trata do pensamento dele próprio, mas de um personagem fictício, que nem existe.
Realmente eu não existo. Mas Deus, esse existe. No caso, ele existe na imaginação deste ser que não existe. Encontrei-me com Ele em sonho. E se algum cético suspirar ironicamente e disser “sempre tem que ser em sonho”, que diferença faz isso uma vez que eu não existo?
Permita que eu diga, sou um tanto rebelde. E não é porque Deus existe ou talvez exista que ele vai me intimidar. Ele pode até me condenar ao fogo do inferno por toda a eternidade que eu não ligo. Eu não existo mesmo. Ele pode ser o todo poderoso, mas não poderá castigar alguém que não existe.
Vou me apresentar melhor, pois até aqui só falei que eu sou rebelde e que vivo na cômoda posição de não existir. Sou quase socialista. Para ser socialista só me falta existir e conhecer melhor o socialismo, que conheço bem pouco. Alguns talvez dirão que falta também o socialismo existir. É que do pouco que conheci acerca do socialismo, gostei muito. Mas sou também quase anarquista. Do pouco que conheci das idéias anarquistas eu gostei. Tenho atitudes anarquistas e não me adéquo ao sistema estabelecido. Do que eu não gostei foi de Deus. Quer dizer, das idéias de Deus que me foram apresentadas.
Apresentei a Deus várias questões, começando pelas que me pareceram mais simples.
Primeira: Adquiri a informação cientifica de que um homem, para ter um filho, numa relação sexual, libera 900 milhões de espermatozóides para fecundar um óvulo. Pra que esse exagero? Se fossem cinco espermatozóides eu entenderia os quatro de reserva. Mas 900 milhões? Pra que isso? Será que o todo poderoso quis humilhar agente? Será que ele não abusou do poder dando uma demonstração exagerada de sua capacidade criativa?
Segunda: Acreditávamos antigamente que a terra era o centro do universo, que já achávamos imenso, e que estrelas eram complementos da terra e giravam em sua volta. Com a ajuda de homens muito estudiosos como Galileu, Copérnico, Giordano Bruno, soubemos que a terra gira em torno do sol como outros planetas e que cada estrela é como o sol, muito distante, e muitas delas muito maiores do que o nosso sol. E muito mais distantes umas das outras do que se acreditava. Passamos a considerar como sendo o universo não a imensidão que imaginávamos antes, mas o que passamos a chamar de Via Láctea, algo muito mais imenso, uma galáxia. Em 1922, Huble descobriu que a Via Láctea, que nos parecia tão imensa, é apenas uma dentre bilhões de outras galáxias. E que, só para se chegar até a galáxia vizinha, a Andrômeda, a luz, que viaja na tão lenta velocidade de um bilhão e cem milhões de quilômetros por hora, demora dois bilhões de anos. Depois alguém calculou o número de estrelas em dez sextilhões, e hoje se diz que a extensão do universo é de 150 bilhões de anos viajando na velocidade da luz. Isto é, se alguém não descobrir que ele é ainda maior. O que chamamos terra é um fragmento do sol, 1.250 mil vezes menor do que este e o sol é um dos menores focos de luz do universo. Perguntei a Deus: Porque tamanho exagero? Porque o universo tem que ser tão grande? Porque o planeta Terra, que já pareceu tão grande, tem que ser tão minúsculo e muito mais minúsculos os seres humanos em relação ao universo?
Eu disse isso e fiquei olhando para a face de Deus, esperando que ela endurecesse, corasse de raiva pela indignação ao meu atrevimento. De repente, ele desatou a rir. Uma risada contínua e sonora. Uma risada gostosa e estridente. Acordei com a risada.
E, naquele momento, eu me vi humilde. E livremente me pus a rir de minha condição humana. Lembrei que a palavra humano tem a mesma raiz de humilde e de humor. Humos, o que vem do chão. Humilde e humorado é o que ri de sua condição. E passei a cantar e contemplar a beleza e a grandeza de minha pequenez.
O Caso IsabellaPostado em 1/8/2011 em 05:37 PM - 0 Comentários - LinkA Sagrada ViolênciaPostado em 1/8/2011 em 05:35 PM - 0 Comentários - LinkComentário do Filme Demétrius e os GladiadoresPostado em 1/8/2011 em 05:30 PM - 0 Comentários - LinkComentário do Filme
Demétrius e os Gladiadores
Geraldo Domezi
Imagem de heróis impressionantes nos vem à memória ao pensar nos cristãos dos primeiros séculos a partir de superproduções norte-americanas ou italianas como Barrabás, Quo Vadis, Bem Hur, O Manto Sagrado, filmes baseados em romances, alguns quase tão antigos quanto o início do cristianismo. Assim é “Demétrius e os Gladiadores”, com um herói que mata tigres famintos na arena, sobrepõe-se a todos os gladiadores arrancando aplausos da multidão de romanos perante o imperador, e reencontra a mulher amada, que é cristã.
Muito pouco tem de comprovadamente, cientificamente histórico. Assim como os Evangelhos e outros livros bíblicos do Novo Testamento, com relatos que têm muito mais de profecia historicizada do que de história recordada (usando termos de John Dominic Crossan) podem trazer muito pouco de informação segura a um sério e apurado historiador.
A existência de um manto que tenha sido usado por Jesus Cristo, dado por Pedro Pescador a um grupo de cristãos para que fosse escondido, é tão pouco provável como diversos outros elementos de um filme baseado muito mais na “santa fantasia”. O que me pareceu bem provável é a atitude de um imperador como Calígula de enlouquecer-se com o poder e incomodar-se muito com os limites de sua condição humana por considerar-se um deus a ponto de exigir ser adorado como tal.
Calígula invade os aposentos de Cláudio, seu tio. Passa por Messalina e encontra o tio examinando escritos sobre os cristãos. Quer saber por que os dois últimos cristãos martirizados não manifestaram medo da morte. Este lhe explica que, segundo a crença deles, Jesus Cristo suplantou a morte. Calígula pega a sica e faz que vai matar o tio. Diz que este está tremendo de medo da morte. Responde ele que se for empurrada e faca ele não tremerá mais e que, morto, ele já não será tão divertido.
Calígula não se conformava. Ele tinha poder de vida ou morte sobre todos. E alguém que estivesse acima de um exército tão poderoso de uma nação que teria a soberania do universo só podia ter sido escolhido pelos deuses. “Por que então devo morrer, provar a morte como um plebeu?” pergunta ele ao tio. Talvez houvesse um feitiço para tornar alguém imortal. Lembrou-se do manto escondido pelos cristãos, que pertenceu ao tal Jesus. Ordenou que fosse encontrado.
Messalina censura o marido por ser tão medroso, ficar de joelhos perante o sobrinho. Responde Cláudio: “Com um tirano é melhor ficar vivo de joelhos do que ereto a ser morto. Roma já esteve cheia de heróis. Estão todos mortos e suas esposas viúvas”.
Em outro lugar de Roma, para proteger a noiva, que escondia o manto de Jesus, Demétrius agride um saldado e, em consequência, é condenado a ser gladiador. Mas não é possível fazê-lo gladiador. Como cristão, prefere morrer a matar. Na arena, vence um gladiador e não o mata. O imperador ordena que soltem sobre ele os tigres. Ele mata os tigres. É aclamado herói e o imperador, para agradar o público, o liberta. Messalina tenta fazê-lo seu amante. Não conseguindo, manda-o de volta à escola de gladiadores.
Os gladiadores têm regalias e sabem que serão libertados se vencerem muitas lutas. E que serão crucificados se tentarem fugir. “Ave César, mourituti salutant”, costumavam dizer ao imperador antes dos combates que tinham a finalidade de divertir a população. “Ave Cesar, os que vão morrer te saúdam!” Numa festa dada aos gladiadores na véspera de um combate, a noiva de Demétrius se faz passar por prostituta penetrando entre as mulheres que foram a essa festa para servir os gladiadores. Fez isso para encontrar o amado. Mas Messalina a descobre. Demétrius é preso e, da cela, vê a noiva morrer nas mãos dos saldados. Quase enlouquecido, ele se revolta contra Deus.
Na arena Demétrius mata trinta gladiadores e chega a declarar: “Não temos outro rei senão César”. É feito oficial da guarda pretoriana, torna-se amante de Messalina e poderoso na corte. Até preocupa o imperador que se sente menos saudado e reverenciado do que ele.
Quando Pedro, o pescador, penetra no palácio para visitá-lo, Messalina lhe diz: “O que pode lhe oferecer? A companhia de escravos e mendigos, a escória de Roma? Sofrimento, preces, lágrimas e morte? Eu posso lhe dar o mundo!”
Messalina diz a Calígula que Pedro está de volta a Roma com o manto. Calígula diz ironicamente que a admira porque ela abandona o seu conforto para ir a ele cheia de zelo e lealdade. Diz-lhe Messalina ao imperador que prenda Pedro porque ele é perigoso. “Perigoso para mim ou para você?”, pergunta César. E continua “Ele criou problemas para você com seu amante? Você não quer o manto para mim. Só quer se livrar do pescador”.
Calígula é temido, mas a situação dele é bem ruim. Suas estátuas foram destruídas pela cidade. A população está revoltada com a falta de grãos. Diz ele que é porque esvaziou os cofres para os guardas e estes não lhe devolveram nada. Aí está uma pequena lição de economia. César distribuiu dinheiro como recompensa para os guardas, mas eles não o investiram bem e as consequências dessa atitude mal planejada trouxeram a revolta da população. Então César, não dando ouvidos ao tio, publica a ordem de crucificar dez soldados cada vez que fosse desrespeitado.
Demétrius encontra o manto com a noiva, que volta à vida. Entrega-o ao imperador. Este vê que o manto não tem poderes mágicos e manda matar Demétrius. Mas os soldados matam Calígula e aclamam Cláudio imperador. Cláudio diz que não é um deus e nem o idiota que parecia ser (Fazia-se de idiota para preservar a vida). E faz cessar a perseguição aos cristãos.
Cristianismo e RevoluçãoPostado em 1/8/2011 em 05:29 PM - 0 Comentários - LinkCristianismo e Revolução
Geraldo Domezi
Vivia de recolher papelão pelas ruas, como fazia também o marido. Em suas andanças pela cidade observou que muitos restos de madeira eram abandonados pelos terrenos baldios onde apodreciam e muitas vezes eram queimados. Expôs sua nova idéia ao marido: formar uma pequena cooperativa e aproveitar essa madeira. Mas como pode dar certo, disse ele, se nós dois trabalhando juntos já brigamos? Deu certo. Com o apoio da prefeitura, que cedeu o local para a realização do projeto, passaram a fabricar e a vender casinhas de cachorro. Mas aí o velho problema: como competir com as fábricas modernas que, com máquinas de última geração, fabricam o mesmo produto com muita rapidez e podem vendê-lo mais barato? O resultado é que cada cooperado consegue, no máximo, o ganho de um salário mínimo.
É o mesmo problema de sempre. Qual a solução? Podemos pensar em duas alternativas. A primeira seria o povo tomar as máquinas, conforme o modelo do socialismo marxista, após uma revolução talvez muito sangrenta, e depois, com uma nova economia, distribuir a renda a cada um conforme a sua necessidade. Isso já aconteceu na história. Em certos lugares a prática do modelo econômico marxista chegou a durar 70 anos.
A outra alternativa é aquela do cristianismo, ensinada, entre outros, pelo apóstolo Paulo. Como as pessoas que seguem o sistema estabelecido gastam mal o pouco que ganham e levam vida infeliz por serem individualistas, o cristianismo tornou-se solução também econômica. Uma vida muito amorosa e muito comunitária, bem orientada para não cair nos males como o do consumismo atual, proporciona a uma comunidade ser feliz com bem pouco. Essa foi a solução encontrada pelos primeiros apóstolos cristãos, cuja atuação foi menos revolucionária que a de Jesus, que teve uma perspectiva mais localizada no tempo e no espaço.
O que fazer em relação aos opressores que concentram as propriedades e exploram os pobres? Convertê-los a Jesus Cristo, respondia Paulo. Tentar destituí-los do poder seria, naquela ocasião, um suicídio coletivo. Houve certos momentos da história em que nem se desenvolveu a consciência revolucionária, faltando meios práticos para encaminhar mudanças sociais estruturais. A solução era organizar pequenas comunidades de partilha de espiritualidade, de instrução e de bens materiais.
O mal foi tomar esse método como absoluto, válido igualdade para todas as épocas e situações, em todos os lugares.
Em 1525, representantes de uma comunidade de camponeses escreveram uma carta a Martinho Lutero na qual diziam que, “se Cristo nos redimiu e comprou a todos com seu precioso sangue, então não devemos ser propriedade de nenhum senhor”. Lutero respondeu discordando deles, dizendo que Abraão teve escravos, que São Paulo ensinou os cristãos escravos não a não se rebelarem contra os senhores, que quem usa a espada morrerá pela espada e, finalmente, que um reino terreno não pode sobreviver sem desigualdade. Thomas Munzer, um dos líderes daquele movimento camponês responde que “a usura e as taxas impedem que se tenha acesso à fé” e que “homens que consomem todos os momentos de sua vida na luta pela sobrevivência não tem tempo para aprender a ler a palavra de Deus”. Após revoltas de camponeses que atacaram castelos e cidades, distribuindo terras e alimentos, Lutero escreveu que faria bem quem matasse os líderes desse movimento como se mata um cão raivoso.
De fato os exércitos dos senhores e príncipes massacraram aqueles camponeses revoltosos. Mas houve momentos da história em que os revoltosos saíram vitoriosos e provaram que uma sociedade pode sim sobreviver sem desigualdade social. Karl Marx descreveu meios científicos para garantir isso. À luz de experiências históricas esses meios estão em discussão. Até porque algo ser cientifico não é motivo para que seja tomado como absoluto, como infalível. É sem fundamentalismos, inclusive sem o fundamentalismo marxista, que se deve continuar a debater o assunto.
O que é SociologiaPostado em 1/8/2011 em 05:27 PM - 0 Comentários - LinkO Que é Sociologia?
Comecemos esta explicação analisando a realidade dos comportamentos. Há comportamentos como andar, dormir, etc. que são individuais e biológicos. Mas há comportamentos como casar, receber salário, fazer greve, etc. que são sociais. Enquanto o comportamento de um animal é puramente biológico, basicamente determinado por reflexos e instintos vinculados a estruturas biológicas hereditárias, o comportamento do homem, além de biológico, é também cultural. O pássaro João-de-Barro faz sua casinha do mesmo jeito que fazia há milhares de anos atrás, sempre igual. Um leão do Brasil se comporta como um leão de qualquer lugar do mundo da mesma espécie. Já o homem se comporta de modo diferente de acordo com a sociedade em que ele vive. Enquanto o animal tem apenas a sua natureza, o homem tem a sua natureza e a sua cultura. Mas onde acaba a natureza e começa a cultura? O tema é polêmico e alguns estudiosos afirmam não haver limite rígido entre natureza e cultura. Como é que o homem passa do estado animal para o estado humano, ou seja, como é que ele sai do estado meramente biológico e passa a ser cultura social? Um indicador dessa passagem pode ser o regramento para o ato de comer (cozinhar os alimentos, usar talheres, etc.) e para a sexualidade (há uma tribo indígena onde o homem, antes de se unir a uma mulher, é obrigado a passar por um ritual no qual deve dar um soco num cacho de marimbondo. E se quiser trocar de mulher deve passar pelo ritual novamente. Isso evita abuso por parte do homem. Em nossa sociedade também há regras para a prática do sexo). Outro indicativo pode ser a construção de utensílios de trabalho. Outro pode ser a criação da linguagem simbólica. Ou o surgimento da religião. Para Karl Marx (filósofo alemão do século XIX) é o trabalho que possibilita a distinção entre o natural e o cultural. Tudo o mais vem depois do início do trabalho, inclusive as relações de produção com a dominação de um sobre o trabalho de outro.
Somente na sociedade o indivíduo se torna humano. Ilustra isso o caso de Amala e Kamala. Eram duas meninas que foram descobertas em 1921 numa caverna da Índia, vivendo entre lobos. Tinham 4 e 8 anos. Passaram a ser observadas pelos estudiosos. A mais nova não resistiu. A outra viveu mais 8 anos. Ambas apresentavam hábitos alimentares animalescos. Cheiravam a comida antes de tocá-la, dilacerando os alimentos com os dentes e poucas vezes fazendo uso das mãos. Possuíam aguda sensibilidade auditiva e desenvolvimento do olfato para a carne. Para se locomover apoiavam-se sobre as mãos e os pés. Kamala levou seis anos para andar ereta. Os animais entendiam-se bem com ela e não se espantavam. Esse e outros casos mostram que o indivíduo criado fora da convivência humana não se torna humano.
A sociologia estuda: A mobilidade social/ Os processos de cooperação/ A divisão da sociedade em camadas/ Os conflitos.
As primeiras tentativas de estudo sistemático sobre a sociedade humana começaram com Platão em seu livro “República” e Aristóteles em “Política”. São de Aristóteles as afirmações “O homem nasce para viver em sociedade” e “O homem é um animal social”.
Augusto Comte (1798-1857) é considerado o pai da sociologia. Foi quem pela primeira vez usou essa palavra. A princípio usou o nome “física social”. Para ele os estudos das sociedades deveriam ser feitos com espírito científico e objetividade.
Emile Durkheim (1858-1917) fez com que a sociologia passasse a ser considerada uma ciência e como tal se desenvolvesse.
A sociologia parte do fato social. Por exemplo, existe um modo de vestir que é comum, que todos seguem. Isso não é estabelecido pelo indivíduo. Quando ele entrou no grupo, já existia tal norma e quando ele sair, a norma provavelmente permanecerá. A pessoa é obrigada a seguir o costume geral. São características do fato social: a. Generalidade: o fato social é comum aos membros do grupo. b. Exterioridade: o fato social é externo ao indivíduo, independe de sua vontade. c. Coercitividade: o individuo vê-se obrigado a seguir o comportamento estabelecido.
As pessoas, em todo o mundo, vivem em grupo. Isso favorece os sociólogos, uma vez que as conseqüências da vida em grupo são o objeto de estudo da sociologia. O interesse pelos grupos é o que diferencia os sociólogos dos outros cientistas sociais. Entre outras coisas, os sociólogos querem saber: Por que grupos como a família, a tribo ou a nação sobrevivem através dos tempos até mesmo durante as guerras ou revoluções? Por que um soldado deve lutar e enfrentar a morte, quando poderia esconder-se ou fugir? Por que o homem se casa, quando poderia satisfazer seus impulsos sexuais fora do casamento? Que efeitos produzem a vida em grupo sobre o comportamento de cada um?
Várias sociedades são divididas em camadas sociais. Um exemplo de sociedade dividida em castas é a da Índia. Fora e abaixo da pirâmide social da Índia localizam-se os párias, grupos de miseráveis, sem direitos, sem profissão e que só inspiram asco e repugnância às demais castas. Vivem da piedade alheia; não podem banhar-se no rio Ganges, nem ler os livros sagrados chamados vedas. Os párias aceitam com resignação seu lugar na sociedade e se conformam por acreditarem na transmigração da alma. Existem sociedades em que os indivíduos nascem numa camada social mais baixa, mas podem subir. Na Índia isso não pode ocorrer. Não é permitido casamento com pessoa de outra casta.
Instituição comum a muitas sociedades é o Estado. Não se confunda Estado com nação. A nação é um conjunto de pessoas ligadas entre si por vínculos permanentes de idiomas, religião, valores. É anterior ao Estado, podendo existir sem ele. E também um Estado pode compreender várias nações. Há nações sem Estado e há Estados que têm várias nações.
Em qualquer sociedade apenas o Estado tem direito de recorrer à violência, à coação, para obrigar alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa. O Estado é a instituição social que tem a exclusividade, o monopólio da violência legítima.
Fator comum numa sociedade é a liderança. Há dois tipos de liderança: 1. A liderança institucional, que deriva da posição social ou cargo que ocupa uma pessoa. Por exemplo, numa sociedade como a nossa, um padre católico ou um professor não foi escolhido pela população para essa função, mas admitido pela Igreja ou pelo governo da cidade ou do Estado. 2. A liderança pessoal, que se origina de qualidades pessoais. Uma pessoa pode exercer influência sobre um grupo sem sua liderança ser reconhecida oficialmente. Há o líder democrático, que se baseia na partilha de opiniões, e o líder totalitário, que se baseia na submissão de seus seguidores.
Realidade de um Assentamento RuralPostado em 1/8/2011 em 05:24 PM - 0 Comentários - LinkRealidade de um Assentamento Rural
No ano de 1987, recém ordenado padre, eu trabalhava numa paróquia da periferia da zona leste de São Paulo que abriu espaço em algumas de suas reuniões para ouvir uma equipe da CPT (Comissão Pastoral da Terra) que pedia apoio para acampamentos de ocupação de terra do MST no estado de São Paulo, especialmente o que havia se instalado a 26 km da cidade de Promissão, numa fazenda improdutiva chamada “Reunidas”, em vias de desapropriação para reforma agrária. Para esses acampados foi feita uma grande coleta de alimentos. Era um enorme acampamento na beira da estrada. Disseram ter ele quase 300 barracos abrigando 350 famílias. Estavam lá há três meses e teriam de agüentar mais três para terem uma primeira resposta do governo, do qual um dos agentes havia dito: “Quero ver quanto tempo vocês agüentam num lugar como aquele”.
Foi aí, nesse momento, após três meses da chegada do povo naquele lugar, em janeiro de 1988, que resolvi visitá-los. Fiquei nove dias com eles, compartilhando da pobreza material e riqueza de idéias, sentimentos, amizade, espiritualidade. Na ocasião, escrevi um relatório, com as deficiências que eu tinha para escrever há 20 anos atrás e talvez algumas imprecisões de um texto não muito bem apurado. Na época eu lhe mandei cópia desse relatório e agora eu lhe envio outra cópia para recordar.
A partir de então, como tudo se encaminhou?
Parte daquelas pessoas não agüentou as dificuldades e as incertezas e desistiu. Uma parte foi assentada em terras que foram sendo liberadas em outros lugares. Restaram 77 famílias (o simbólico número 7 é aqui uma boa coincidência) que se denominaram Comunidade Padre Josimo (em homenagem ao Pe. Josimo de Moraes Tavares, Membro da CPT,assinado no ano de 1998 por defender os direitos dos pobres e a reforma agrária.
Algumas vezes encontrei pessoas dessa comunidade em visitas rápidas por lá ou em reuniões, cursos e celebrações de CEBS aqui em São Paulo. Mas sempre ficava a curiosidade: como seria a vida dessas famílias depois que estivessem assentadas e emancipadas?
Agora, janeiro de 2008, 20 anos passados, exatamente 20 anos desde a ocasião em que passei nove dias com (e pouco mais de 20 anos desde que ocuparam) quando até o forte calor é o mesmo daquele janeiro de 1988, resolvi ver os resultados de perto.
Sabendo que algumas pessoas da Comunidade Pe. Josimo estavam com o Pe.Severino ( membro da CPT e do MST, e que trabalha com os assentados de Promissão) fazendo um curso de teologia em São Paulo (curso de verão, do CESEP), convidei o meu grupo, chamado GEFITESP, para uma conversa com eles, na noite do dia 7 de janeiro, na casa em que estavam hospedadas. Fomos eu e mais 4 pessoas. Todos ficamos admirados e até fascinado com a sabedoria e riqueza de informações dadas por aquelas pessoas, informações que a mídia não transmite.
Dois do grupo, eu e mais um, viajamos logo no dia seguinte; saindo bem cedo, para esse assentamento de Promissão. Nos dois dias em que estivemos lá tivemos conversas longas, agradáveis e profundas com cinco das 77 famílias, e verificamos várias plantações e investimentos locais. Se 20 anos atrás eu tinha partilhado da precariedade material, agora partilhei da abundância, além de meus olhos terem se fartado com a beleza das plantações.
Logo no inicio de nossa estadia, por lá, muito bem acolhidos, anotei algumas informações:
- O município de Promissão tem 1.200 pequenas propriedades. 900 são de assentados provenientes do MST.
- 6% da população é de assentados oriundos do MST. Alguém nos disse que esses 6%são responsáveis por 25% da produção do município.
- Cada família possui 7,5 alqueires de terra, ou seja, 20 hectares.
- As últimas 204 famílias assentadas no município de Promissão receberam 14,5 hectares, com o compromisso de cada um preservar a mata de 20 % de seu lote.
O que vimos lá?
- Muitas estufas, cada uma com 70 mm de comprimento, com uma técnica de gotejamento, dentro das quais há lindas plantações de tomate, pimentão e pepino.
- Tanques refrigerados para armazenamento de leite. No lote da família que nos hospedou há um tanque de leite que serve a 13 famílias. Por dia elas recolhem 800 litros de leite. A cada dois dias um caminhão vai buscar a produção de leite.
Para ajudar na defesa de seus direitos, a comunidade elegeu um dos seus como vereador pelo Partido dos Trabalhadores. Era jovem como eu quando o conheci em 1988. A conversa com ele foi muito agradável e muito boa. Ele disse que teve medo ao assumir, no início, por ser o único de seu partido, mas depois se animou com os muitos apoios que recebeu e pode fazer mais do que parecia possível. Mas lembrou que costuma dizer aos eleitores que foi eleito para conquistar e defender direitos e não para fazer assistencialismos.
A comunidade teve experiências de cooperativa que não deram certo. E alguém até disse: “O que era de todos acabava sendo de ninguém”. Havia uma agrovila, um conjunto de casas uma ao lado da outra, para morarem próximos. Cada um foi abandonado a casa e se mudando para o seu lote. E deixando de freqüentar o refeitório comunitário. (Hoje essas casas servem para acolher pessoas para a realização de cursos). O que existem são formas espontâneas e não formais de solidariedade e partilha. Mas algumas, sonhadas no início, não foram adiante. Há quem diga que seja porque o sistema capitalista acostuma as pessoas ao individualismo.
Discutimos o que faz a reforma agrária dar certo. De minha parte repeti que, para além da questão da boa produtividade e do apoio da sociedade e do governo, ela depende de uma questão moral, da formação humanista e crítica de seus participantes, de uma questão cultural, do amor pela terra, que não pode apenas ser vista como um instrumento de produção, como um objeto que seria abandonado se houvesse algo que desse mais lucro. E eles falaram do problema que significa algum de seus filhos não ter essa compreensão e se deixar levar pelas modas consumistas da modernidade.
Como ameaça ao bom êxito da reforma agrária eles ressaltam o perigo que representa ceder aos benefícios aparentes do plantio da cana, que chega e tenta ser monocultura. “Se alguém plantar um pé de cana esse será o início de nosso fim. Os incentivadores da cana virão com seus venenos pelo ar, destruindo os outros produtos. Deixar a cana entrar significa voltar a ser o que éramos 20 anos atrás”.
Este escrito não pretende ser mais do que alguns dados para ajudar na discussão do tema.
Em breve pretendo escrever um texto comparando uma cidade pequena em torno da qual domina a monocultura, onde não há moradores no campo, com a vida rural em Promissão. Penso que seja um trabalho interessante.
Espero que este texto incentive uma boa conversa entre nós.
![]() 500 anos Debaixo de uma Bruta ChuvaPostado em 1/8/2011 em 05:21 PM - 0 Comentários - Link500 anos Debaixo de uma Bruta Chuva
Tão desacostumados com a democracia e tão acostumados com o paternalismo, muitos sugerem que existam seres extraterrestres que, quem sabe, podem resolver os problemas da terra. Diz, muito ingenuamente, uma bem conhecida canção popular sertaneja: “Tomara que seja verdade que exista mesmo o disco voador. E que seja um ser inteligente prá trazer prá gente a paz e o amor”. Espera-se que seres mais evoluídos possam vir e resolver os nossos problemas.
Próximo ao ano de 1500, habitantes do “planeta” Europa chegaram a este “planeta” ao qual deram o nome de América, em homenagem a um dos seus, Américo, o Vespúcio. Eram seres estranhos. Tão sujos, maltrapilhos e fedorentos, poderiam ter sido desprezados e repelidos, mas possuíam armas de fogo nunca vistas pela gente deste “planeta”. Junto com as armas de fogo chegou outro objeto navegador não identificado ao qual chamaram “cruz”. Diante desse objeto realizaram uma cerimônia não identificada pelos nativos, que olhavam assustados, de longe. Depois começaram outras estranhas ações não identificadas.
Uma vez, dizia alguém,“sonhei que seres estranhos chegaram em minha casa e começaram a mudar todas as coisas de lugar”. Pois foi o que fizeram os que vieram através de “mares nunca dantes navegados”. Sem diálogo, e desprezando todos os costumes locais, começaram a mudar tudo. Diziam estar agindo em nome do Deus cristão. De fato, como diz o ditado, “em nome de Deus se faz o diabo”.
O momento era desfavorável para os primitivos habitantes destas terras, como tão bem ilustra o poeta Oswald de Andrade em seu “Erro de Português”:
“Quando o português chegou / Debaixo de uma bruta chuva / Vestiu o índio / Que pena! / Fosse uma manhã de sol / O índio tinha despido o português”.
O verso “vestiu o índio”, mais do que a obrigação de usar roupas, indica a dominação cultural de que o índio foi vítima. Bom seria se os portugueses tivessem sido despidos de sua ideologia de dominação e do desejo do ouro. Esse deveria ter sido o principal trabalho dos religiosos cristãos para serem coerentes com o Evangelho de Jesus Cristo.
Mas, como diz Plínio Marcos em seu livro “Inútil Canto e Inútil Pranto pelos Anjos Caídos”, “Desceram das brancas caravelas dos brancos cidadãos contribuintes brancos sacerdotes que, viajando sem bandeira, em nome do grande deus branco dos brancos, foram pacientemente, com agrados, ensinando à língua estrangeira, os costumes estrangeiros, a religião estrangeira, a cultura estrangeira ao índio. E foram desarmando o índio dos seus fundamentos (...) E os brancos cidadãos contribuintes viciaram a carne do índio, geração após geração. E foi fácil para os brancos cidadãos contribuintes, com suas brancas armas tecnocratas, matarem os poucos índios que não se degeneraram. E aí chamaram os índios desarmados dos seus fundamentos, adoecidos de corpo e alma, para o comércio (...) Chamaram o índio desarmado do fervor de sua crença, doente de corpo e alma, empobrecido por um comércio sórdido, para fazer acordos territoriais(...) E foram limitados os espaços do índio, os sonhos do índio, os fundamentos do índio. E o índio se tornou enfermo de corpo e alma, adquiriu os brancos vícios dos brancos. E o índio se degenerou no contato social, religioso, cultural, comercial, com os brancos cidadãos contribuintes”.
Os poetas e poetisas do Movimento Sem Terra, com ajuda de cantores como Chico César, Pingo de Fortaleza e outros, produziram CD onde encontramos a seguinte canção de Zé Pinto retratando o significado dos 500 anos:
“A invasão chegou de barco nesta América Latina / Veio riscado da Europa este plano de chacina / Vinham em nome da civilização / Empunhando a espada e uma cruz na outra mão / Nos pelourinhos da morte tanto sangue derramado / Prá mão-de-obra barata índio e negro escravizados / São três histórias neste grande continente / Uma bem antes dos invasores chegarem / E a segunda cinco séculos de invasão / E a resistência índia-negra e popular / E a terceira é a que vamos construindo / Prá destruirmos a raiz de todo mal / E a nova etapa vai trilhando por aqui / Quinhentos anos Campanha Continental / Esta história de dois mundos pelo mundo de espalhou / Com uma visão colonialista não mostraram nossa dor / Mas reacende um grito de resistência / Seguindo exemplos dos verdadeiros heróis / O grito negro de Zumbi vem dos Palmares / Marçal, Proaño e tantos ergueram a voz / Estão presentes em nossa organização / Prá ter mais força é preciso unificar / Marchando firme contra toda escravidão / E o farol de Colombo vai se apagar”.
No dia 26 de abril de 2000, em Coroa Vermelha, Santa Cruz de Cabrália, debaixo de uma bruta chuva, em missa pelos 500 anos de evangelização no Brasil, o jovem índio pataxó que já fora vestido como Jerry Adriani, apareceu vestido como Matalauê e leu o seguinte discurso: “Quinhentos anos de sofrimento, de massacre, de exclusão, de preconceito, de exploração, de extermínio de nossos parentes, aculturamento, estupro de nossas mulheres, devastação de nossas terras, de nossas matas, que nos tomaram com a invasão. Hoje querem afirmar a qualquer custo a mentira do descobrimento”.
Ficou feio na visão de alguns. Houve até um bispo que pediu perdão ao enviado do Papa pelo imprevisto.
Olhando para as comemorações oficiais do mês de abril deste memorável ano 2000 ficamos pensando: Se fosse possível voltar no tempo e refazer a história do Brasil, como seria ela? Evitaríamos, por exemplo, a destruição de Palmares e a de Canudos? Mas o que é que se está fazendo com o Movimento Sem Terra?
Foi um grande absurdo a maneira como se fizeram as comemorações. Haveria um modo bem mais ilustre de solenizar a data. Com a quantia astronômica que foi gasta para construir a réplica da embarcação de Cabral, aquela que nem navegou, para pagar as despesas pessoais da extrema luxuosidade e caprichos de políticos e outras exorbitantes despesas inúteis, poder-se-ia dar um grande avanço na realização da reforma agrária e assim celebrar os 500 anos reconciliando-se com os injustiçados.
E não adiantará a Igreja católica pedir perdão pelos erros passados se fechar os olhos aos erros presentes.
Eis o Ano 2000Postado em 1/8/2011 em 05:18 PM - 0 Comentários - LinkEis o ano 2000
(Escrito por ocasião da virada do milênio)
Dois velhos, na feira, brincavam surpresos: “Quem diria? Chegamos ao ano dois mil!” Mesmo para muitos jovens foi surpresa chegar ao ano dois mil. O mundo não acabou como tanto se anunciara. O velho chavão da religião inconsciente e inconseqüente sofreu uma pequena alteração. “Dois mil passará, três mil não chegará.” O medo foi jogado para a geração que viverá daqui a mil anos. Se ela existir, usar o nosso calendário, houver ainda a manipulação da mídia e tiver a maioria da população imbecilizada como na atual.
A chegada ao ano 2000 merecia comemoração e queríamos ver a virada do calendário para esse ano tão esperado. Alguns tentaram esfriar os ânimos questionando se, estando em vigor o horário de verão, a queima de fogos não deveria acontecer às 23 horas. Outros, ainda bem mais críticos, lembravam que o ano 2000 foi em 1995, considerando que, ao reorganizar o nosso calendário, cometeu-se um erro de cálculo ao estabelecer o ano do nascimento de Cristo. E ainda lembravam que para os judeus o ano 2000 já passou há muito tempo, para os muçulmanos está ainda bem longe e, para a imensa multidão de chineses, o ano 2000 não diz nada, como a tantos outros que não seguem o nosso calendário.
Mas não íamos dar ouvidos a esses desmancha-prazeres. Juntamo-nos a tantos cristãos católicos (que contraditoriamente se chamam de católicos romanos) e não-católicos. Juntamo-nos aos esotéricos obcecados em números. Afinal, se a passagem de um ano para outro nos chama a atenção, o que dizer da passagem de um século para outro e até de um milênio para outro? (muitos entendiam que já era a virada do século e do milênio). Havia motivos sim para comemorar com uma brilhante e esplendorosa queima de fogos. Mas, no lugar em que a gente estava, a chuva se encarregou de apagar esse brilho. A lembrança que me ficou da chegada ao ano dois mil foi de uma deprimente chuva quando as pessoas se aglomeraram num espaço coberto para estourar timidamente um champanhe e se abraçar um empurrando o outro. Era a natureza rindo dos nossos esquemas.
O que deveria ser o ano 2000 na visão de futurólogos, profetas, videntes e adivinhos? O mito do fim do mundo nessa data foi resultado do pensamento (ou não pensamento?) de fundamentalistas que se basearam no texto bíblico do Apocalipse cap. 20,1-10. O texto fala do anjo que desce dos céus, tendo nas mãos a chave do abismo e uma enorme corrente com que acorrenta Satã e o encerra no abismo, por mil anos. Satã ficaria preso todo esse tempo mas retornaria no fim do primeiro milênio. No ano mil, Satã voltaria a seduzir a humanidade, levando-a a confrontos e guerras numerosas. E aí acrescentam por conta própria “por mais mil anos”. Não foram esses videntes, nem os meios de comunicação que os estimulam, forçados a pagar indenização por danos morais pela previsão inconseqüente. Afinal ninguém foi ‘obrigado’ a acreditar, mas apenas “levado” a acreditar.
Para muitos pessimistas, o anúncio de surpreendentes avanços tecnológicos e a constatação de que a ciência e a técnica evoluíram mais nos últimos 50 anos do que em todos os séculos anteriores não significavam muito. Tal é a miséria, tal é a decadência social que, dizem eles, estamos no pior momento da história da humanidade. É o fim do mundo!
A curiosidade sempre fértil nos levou a questionar como foi a chegada ao ano mil. Bem, para muitos a data passou desapercebida porque, na época, a maioria, muito pobre e analfabeta, nem usava calendário. Havia o anúncio do fim do mundo para antes do ano mil. “De mil não passará” Só que a reação não era de medo e tristeza como foi recentemente com as profecias de Nostradamus. Foi de alívio e de alegria. Queriam que o mundo se acabasse mesmo, pois a vida estava insuportável. Seria, inclusive, um modo de os pobres se vingarem dos ricos. “Morro mas eles morrem também!”
Mas não foi só o pessimismo que esteve presente nas previsões. Houve também previsões otimistas. Diversas novidades anunciadas para o ano 2000 não aconteceram. A revista Veja, edição de 20/10/99 p. 156 a 163 traz algumas: “Carros voadores fáceis de pilotar e baratos seriam o sonho de consumo da classe média”. No entanto, o que se vê é que “na hora do rush, os carros andam a 6 quilômetros por hora, velocidade das carruagens no século XIX.” Outras previsões diziam:
“As pessoas morrerão apenas em acidentes, mas não definitivamente. Os mortos serão congelados para ser tratados mais tarde.
Haverá mais humanos vivendo no espaço que na terra.
O controle químico do envelhecimento dobrará o tempo de vida das pessoas.
As pessoas viverão mais, trabalharão menos e se aposentarão mais cedo. Terão férias mais longas e jornadas de trabalho mais curtas”.
Essas são apenas algumas das previsões otimistas que não se concretizaram. E por que não se concretizaram? Algumas por causa do que pouco se previu: a queda do socialismo e, pior do que o domínio total do capitalismo, o estabelecimento de um único modelo de capitalismo, o norte-americano. Em apenas dez anos a chamada globalização teve o seu apogeu e sua queda. Ela serviu como trampolim para o estabelecimento, em escala mundial, do imperialismo norte-americano. E isso acarretou o que estamos presenciando neste último ano do milênio: um processo de imbecilização. Às vezes me pergunto como é possível assistir por mais de dez minutos a maioria dos programas da televisão sem ficar imbecil. Fidel Castro, na comemoração dos 40 anos da revolução cubana, afirmou que a atual ordem econômica mundial converteu o mundo em um gigantesco cassino.
Em artigos anteriores procuramos mostrar como a história da humanidade acompanha a história da democracia, que o problema central da humanidade foi sempre o mesmo: a falta de democracia. Quando aqui falamos em democracia não queremos nos referir a eleições, partidos, parlamentos (esses são apenas alguns meios) mas ao exercício constante e por todos da cidadania. Para isso é necessária muita reflexão, muito diálogo, investigação e pensamento profundo. Rubem Alves diz que “a democracia se faz com os sonhos de cada um associados num sonho comunitário”. Mas que “os miseráveis não têm condições de pensar em algo mais do que a sobrevivência que já lhes exige todas as forças”. É por isso que os donos do capital não querem que os miseráveis deixem de sê-lo. Para que não aconteça a democracia.
Num sistema em que, cada vez mais, as pessoas vão sendo reduzidas a consumidoras, destrói-se o que há de democracia, e o exercício da palavra é pouco apreciado. Quem é que vai ler um artigo como este? Mas quando é que o exercício da palavras, do pensar foi uma constante? Já ouvi falar que as homilias de Santo Agostinho, no século IV, eram muito apreciadas, mesmo por muitas pessoas das mais humildes. Também já ouvir falar que, no século XVII, andava-se muito para poder ouvir os sermões do Padre Vieira. E de diversas outras ocasiões em que a palavra, mais crítica ou menos crítica, contava com interesse de grande público. Mas também ouço falar que na época da missa em latim muitos saíam da missa na hora da homilia, que era a única parte em português. E, mesmo depois que a missa passou a ser na própria língua, continuou por algum tempo, em muitos lugares, o costume de sair na hora da homilia para “pitar um cigarrinho.” Uma situação semelhante: nas missas especiais que celebrávamos, em minha primeira paróquia, um rapaz costumava levar sua filmadora. Na hora da homilia desligava a filmadora como que a dizer que aquela era a parte que não interessava.
Atitudes como essas caracterizam o desprezo pelo pensamento e fazem a ruína da democracia. É isso uma marca forte neste despontar do novo milênio. Frei Betto, em diversos de seus recentes artigos para jornais e revistas, tem denunciado que a TV “reprime o senso crítico para impor o consenso do marketing”. O catolicismo embarca nessa onda neoliberal. Denuncia ainda o referido autor a religião que “adéqua-se à embalagem que a torna, no mercado, um produto atrativo” e “troca o silêncio e a meditação pela histeria pública e pela emoção truncada”. Reclama que, nesse contexto, as homilias de padres que reúnem multidões não passam de “breves exortações alheias à pauta pastoral da Igreja”.
É, em resumo, o desprezo ao pensamento, a rejeição da democracia.
Eis o ano 2000. O teólogo José Comblin, na revista Vida Pastoral de jan/fev de 2000 p. 17 a 23, afirma que a sociedade que inicia o século XXI é uma sociedade que “estimula relações pessoais de dependência, falta de estabilidade e incessante competição”. Uma sociedade em que quase todos, jovens e menos jovens, ficam angustiados pela dificuldade em se conseguir emprego ou com medo do fantasma do desemprego.
Para exemplificar a situação de instabilidade que aumenta as vítimas da depressão, diz ainda o Padre Comblin: “Acabaram as convenções coletivas, que mostravam a força dos trabalhadores, que eram capazes de defender os seus direitos. Agora os contratos são individuais, precários, muitas vezes puramente orais. O trabalhador não tem segurança. Se é vendedor de rua, depende não só dos fregueses, mas também da polícia e do vereador que cobram propina”. Diz ainda que “Em certos estados de extrema angústia, as pessoas entregam-se a qualquer feiticeiro que lhes promete a libertação dos seus males. Vem o momento em que a religião se reduz a um tranqüilizante” e que “a dignidade humana assim recuperada é frágil, superficial, transitória”.
Nessa situação o que fazer para conquistar a democracia? Investir na educação de base. Sem essa educação de base (que faltou inclusive nos estados socialistas) a população continua cada vez mais sendo vítima das maquinações da mídia. Exemplo ilustrativo, em 1996 uma pesquisa mostrou que 80% da opinião pública aprovavam o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, pintado com as cores de uma novela da rede Globo. Em agosto de 1999, com algumas manipulações da grande imprensa, esse número caiu para 28%. Isso revela que existe, neste final de século, uma população que não está refletindo, investigando, pensando com a própria cabeça.
A Mentira na HistóriaPostado em 1/8/2011 em 05:13 PM - 0 Comentários - LinkA Mentira na História
Estou a imaginar uma situação em que alguém fosse roubado ou assaltado e agredido. Teria, no entanto, a ajuda solidária dos amigos. Denunciaria o agressor à justiça. E todos os que o ouvissem bem o compreenderiam.
Agora imagino que esse alguém fosse roubado e depois acusado de ser o autor do roubo, punido, preso como criminoso sendo ele, na verdade, a vítima. Ou imagino uma situação em que ele pacificamente salvasse alguém de ser assassinado e por isso fosse punido como assassino. Seria a lei aplicada às avessas, o absurdo. Seria a inversão da lógica, a reviravolta dos valores. Ou seria a aplicação de uma injusta lei, avessa à verdade e a justiça.
Poderíamos encher muitas páginas com centenas de exemplos, todas com certa semelhança. Vamos lembrar apenas alguns.
O primeiro que nos vem à mente encontramo-lo na Bíblia, no livro “Atos dos Apóstolos”. O texto é de caráter, sobretudo, teológico, mas nos revela ilustrativos fatos históricos. Diz em seu capítulo 12, versos 1 a 3, que “O rei Herodes começou a maltratar alguns membros da Igreja. Mandou matar à espada Tiago. Vendo que isto agradava aos judeus, mandou prender também a Pedro”. E aí pensamos: Por que a tirania do rei agradava ao povo? Certamente houve um trabalho de difamação, de calúnias, com o espalhar de preconceitos facilmente assumidos por muitas pessoas pouco dadas à reflexão e à análise apurada dos fatos. É disso que se alimenta o populismo.
Os primeiros cristãos foram muitas vezes vítimas desse tipo de absurdo. Documentos históricos falam de ocasiões em que a população, prejudicada por decisões erradas de governantes, foi levada a acreditar que a causa do problema era o fato de os cristãos terem ofendido os deuses. E é bem conhecido o episódio em que o imperador Nero manda incendiar a cidade de Roma e faz a culpa recair sobre os cristãos. Também a história da implantação do socialismo, inclusive o de caráter marxista-leninista, é povoada de mártires que passaram por semelhantes situações. O romance do realismo socialista de Máximo Gorki, intitulado “A Mãe” traz, em seu capítulo XV, representando diversos heróis e talvez o próprio autor, um personagem que é terrivelmente torturado diante do público a quem começou a pregar idéias revolucionárias. Conta o livro que pessoas dadas ao vinho comentavam o episódio à sua maneira, dizendo se tratar de um chefe de quadrilha terrorista que fazia muitas crueldades, entre elas a de roubar igrejas e ensinar a não acreditar em Deus.
Livros sobre a história do Brasil, por exemplo, sobre a história do Quilombo dos Palmares também nos dão conta desse tipo de absurdos. “Palmares e o mundo do açúcar contrastavam-se sendo dois embriões de nações vizinhas e inimigas. Nos engenhos, com a servidão ao mercado externo, o cultivo da cana ocupava todas as terras e todos os braços e, por isso, até os proprietários se alimentavam mal. Os habitantes de Palmares plantavam de tudo; apareciam aos olhos dos inimigos como sendo mais fortes e contentes. Por volta do ano 1693, com a queda do preço do açúcar e a seca, em meio à escassez de alimentos, brancos magros e doentes viam negros quilombolas saudáveis e robustos.” A inveja era bem aproveitada. Homens a serviço do governo e dos senhores de engenho” faziam a população acreditar que a causa de seus males era o crescimento da pátria dos negros palmarinos.” Esvaziavam-se os presídios para que os presos, movidos pela promessa de recompensa, fossem atacar Palmares. Os próprios comandantes eram exímios criminosos. Fernão Carrilho foi solto da prisão para comandar expedições contra o quilombo e, em 1677, voltando de um combate em que conseguiu matar muitos negros, houve missa comemorativa na igreja de Porto Calvo. Domingos Jorge Velho, na lista de suas exigências para destruir Palmares, incluía a anistia para todos os seus crimes.
É necessário um pouco de pesquisa e exercício de reflexão para se entender quais os bandidos que passaram para a história como heróis tornando-se nomes de ruas, praças e escolas e quais os heróis que foram pintados como bandidos.
Podemos lembrar ainda que, quando Canudos foi destruída e todos os seus habitantes barbaramente assassinados, houve festa em Fortaleza com muita gente comemorando a vitória da República contra o que falsamente chamavam de “reduto monarquista”.
Bem dizia o poeta Affonso de Santana em sua “Implosão da Mentira”:
“Mentiram-me. Mentiram-me ontem
E hoje mentem novamente.
Mentem de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
Que acho que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impunemente.
Não mentem tristes
Alegremente mentem.
Mentem tão nacionalmente
Que acham que mentindo história afora
Vão enganar a morte eternamente
Mentem no passado.
No presente passam a mentira a limpo
E no futuro mentem novamente”.
Dizem que Adolf Hitler utilizou o método de repetir muitas vezes a mentira para transformá-la em verdade. No Brasil, nas últimas décadas, se tem utilizado largamente a grande imprensa para a massificação de mentiras.
Muito sofreram os militantes do Partido dos Trabalhadores, sobretudo na década de 1980, por causa de mentiras difundidas pela televisão, rádios e jornais. No início dessa década, ao manifestarmos apoio ou simpatia a esse partido éramos identificados como terroristas e não raro agredidos, por vezes até fisicamente.
Muito sofreram lideranças sindicais, sobretudo em períodos de greve por causa de mentiras ou omissão de verdades nos meios de comunicação de massa.
Muito tem sofrido os que trabalham com o que se chama “direitos humanos” por terem sido identificados como “defensores do crime”, como “promotores da impunidade” e outras mentiras. Conta alguém que foi o próprio secretário da Justiça na gestão do governador Montoro, José Carlos Dias que, em certa ocasião, ao pedir a um soldado que parasse de bater num jovem infrator, por pouco não foi linchado. Foi o mesmo que tentou instituir nos presídios a “visita íntima” com o intuito de diminuir a desumanização e a promiscuidade nesses locais e sofreu a oposição de jornalistas policiais que tinham muito espaço no rádio para dizer mentiras.
Por uma infinidade de exemplos podemos ver que, a respeito dos melhores amigos da libertadora verdade se falou muitas mentiras.
A mentira continua rondando descaradamente por aí, confiando muito na miséria, na falta de estudo da população, na demagogia de comunicadores de televisão, que se fartam de receber aplausos. E o atual poder Legislativo vem demonstrando que não é tão inimigo da mentira ou muito amigo da verdade. Prefere ser amigo do pai da mentira, o dinheiro, que é a fonte de todos os males.
Orar com LiberdadePostado em 1/8/2011 em 05:12 PM - 0 Comentários - LinkOrar com Liberdade
Foi um amigo que, bem humoradamente, me ensinou e me ofereceu uma receita infalível para estes tempos de subemprego. Você precisará de uma galinha (viva), de uma chapa de metal com um mecanismo que a faça esquentar ou provocar choque elétrico e também um aparelho de som para tocar uma música de sua escolha. A pobre da galinha sentirá os pés queimar ao mesmo tempo em que ouvirá a música e ficará pulando. Após repetir várias vezes o procedimento, sempre com a mesma música, a galinha, condicionada, pulará sem a chapa quente, só de ouvir a música. Você terá então uma galinha dançante que lhe renderá alguns trocados em praça pública ou poderá ser usada no circo.
Para entender o que acontece na educação tradicional e, por extensão, na liturgia de nossas igrejas, vale conhecer as teorias de aprendizagem desenvolvidas a partir de experimentações condicionadoras em animais, realizadas pelo fisiólogo russo Ivan Pavlov por volta de 1930. A teoria do chamado “behaviorismo” (palavra procedente do verbo inglês “to behave”, que significa comportar-se e que designa o estudo científico do comportamento) afirma que o comportamento humano não deriva de características inatas ou de decisões livres, mas pelo estímulo que tem como efeito uma resposta. O estímulo é uma excitação provocada pelo meio ambiente e a resposta é a reação oferecida pelo indivíduo.
Skinner, pensador norte-americano da psicopedagogia, negava a possibilidade de ser livre baseado na teoria de que todo comportamento é condicionado e afirmava que educar bem não pode ser outra coisa senão condicionar bem e corretamente. Seu contemporâneo, o também norte-americano Carl Rogers, que afirmava a possibilidade de ser livre, baseado em experiência concretas, defendia que as escolas não deveriam ter sistemas de controle (notas, provas, controle de presença, programas pré-estabelecidos), alertava sobre a necessidade de se ter consciência de todos os condicionamentos para que cada gesto seja livremente decidido.
Não há como negar o valor dos condicionamentos quando, por exemplo, uma mãe condiciona a criança a fazer xixi numa determinada hora para evitar que ela o faça depois, na cama. Mas a pessoa que cresce sem perceber como foi condicionada não deixou de ser criança e não aprendeu a ser livre. E disso se têm aproveitado lideranças políticas de sistemas totalitários para fazer horrores.
Percebemos que palavras e gestos de celebrações litúrgicas, que tantos gestos de diversos ritos religiosos, não partem de decisão livre e consciente. Em geral, as pessoas não agem por iniciativa própria, por decisão própria. São levadas a fazer o que o outro quer, sem saberem o que estão fazendo e por que estão fazendo. Um exemplo: um padre condicionou os participantes da celebração eucarística a responderem com a frase “Meu Senhor e meu Deus, eu creio, mas aumentai a minha fé” no momento em que levantava o pão e o vinho consagrados. Tempos depois, a equipe litúrgica concluiu que a frase era de teor individualista, imprópria para aquele momento em que ficava melhor o silêncio e sugeriu que ela fosse abolida, mas todas as vezes em que se levantava o cálice na hora da consagração a resposta vinha automaticamente. Outro exemplo: no momento do abraço da paz uma equipe costumava puxar um canto. Numa celebração menos solene, em que não havia instrumentos musicais e nem canto preparado para aquele momento, duas pessoas ficaram como que desesperadas procurando um canto. Não se deram conta de que as pessoas poderiam se cumprimentar sem canto, pois foram condicionadas a sempre cantar nessa hora.
A primeira condição para bem orar é livrar-se desses condicionamentos.
Outra condição será a recuperação do silêncio. Grandes místicos foram amantes do silêncio. Dialogaram com Deus no isolamento, livremente, e tantas vezes sem orações formuladas.
Predomina hoje a oração da religião do tipo neopentecostal. Deixam-se levar pelo mecanismo comum do sistema, que não permite a pausa, a reflexão, o discernimento. A televisão acostuma as pessoas a receber as conclusões já prontas, a não pensar.
Para encontrar a Deus e ao próximo, é necessário encontrar-se consigo mesmo. E para se encontrar é importante o silêncio. Mas as pessoas têm medo de se encontrar. Fogem de si mesmas. Por isso os lugares mais barulhentos são os mais freqüentados. E, quando a pessoa se sente sozinha, logo liga algum aparelho de fazer barulho.
Mas quando aqui falamos da necessidade da oração silenciosa, não queremos pregar a religião que não faz suficientemente a ligação da oração com experiências materiais, de lutas por trabalho, moradia, etc.
Para muitos, oração é para fugir do mundo. Não seja essa a nossa prática. Não devemos ir aos locais de oração comunitária ou reservar momentos de oração pessoal para fugir dos problemas e sim para aprender a enfrentá-los.
Outra condição é que a oração seja feita na gratuidade. A maioria das religiões é materialista. As pessoas oram sempre para pedir alguma coisa. Orar é estar com Deus, na entrega amorosa, independente das necessidades materiais. Muitas vezes se acusou a Teologia da Libertação de descuidar da espiritualidade e se disse que as religiões pentecostais e neopentencostais e movimentos como a chamada “Renovação Carismática” cuidam mais da espiritualidade. Não é verdade. Nessas práticas religiosas predomina o materialismo uma vez que, em geral, as pessoas oram pedindo a Deus alguma coisa. E pedem para si, levadas pela atitude individualista tão própria do sistema de mercado, tão incentivada pelo neoliberalismo individualizante.
Por estes dias pude ter um momento de profunda oração num lugar onde se cultiva as belíssimas plantas chamadas orquídeas. Entre folhas delicadas explodiram flores lindas de uma vivacidade impressionante. A beleza daquelas criaturas levou-me ao Criador. Não precisei de orações formuladas nem de palavra nenhuma. Apenas fiquei vivenciando a alegria surgida em mim diante da beleza da vida. Lá estava Deus falando.
Às vezes me incomoda ver uma imagem religiosa colocada numa gruta. Será que Deus não podia ser lá visto sem a imagem? Uma vez vi alguém cortar uma linda flor que estava num lugar bem visível, onde passavam muitas pessoas, para colocá-la aos pés da imagem de Nossa Senhora. Não estaria melhor aquela flor em seu lugar natural? Ou quis aquela pessoa inconscientemente, mas numa atitude egoísta, reservá-la para os que são de sua crença? Ou, pior ainda, quis reservar a flor para ela e a sua santa?
Pode orar bem quem é desapegado. Dizia o místico Francisco de Assis que a única maneira de possuir alguma coisa é possuir o Criador de todas as coisas. Sentia-se muito rico por possuir o Criador e tinha pena dos pobres ricos que julgavam serem donos das coisas que compravam. Na verdade, quem se apega a uma coisa desprende-se de todas as outras. Por isso dizia o apóstolo Paulo: “Quem tem seja como quem não tem. Quem compra seja como quem não compra. Quem se casa seja como quem não se casa” (1Cor 7,30). Todo apego é frustrante. Alexandre Magno, no auge de suas conquistas, reclamava de não conseguir conquistar as estrelas. “Olhai os lírios do campo. Eles não fiam e nem tecem. Contudo, eu vos asseguro que nem Salomão, com todo o seu esplendor, conseguiu se vestir como um deles” (Lc 12,27).
Após olhar, ver, enxergar, contemplar aquelas flores lembrei-me de que nenhum dinheiro me foi cobrado por isso. Ser feliz não custa caro. Há pessoas que vivem pelos shoppings centers, dominados pela doença do consumismo, comprando tantas coisas para tentar preencher um vazio que só seria preenchido com aquilo que não é vendido.
Tantas igrejas entram também no sistema consumista. Vendem vela, terço, imagens, sal, óleo, etc. O esoterismo vende cristais, florais, etc.
Tais atitudes atentam contra a liberdade. Para orar é necessário liberdade. E como liberdade é uma conquista, a oração também o será.
Mensagem para Festa de NatalPostado em 1/8/2011 em 05:09 PM - 0 Comentários - LinkMeus Sonhos com JesusPostado em 1/8/2011 em 05:08 PM - 0 Comentários - LinkMeus Sonhos com Jesus
Quando criança, lá no meio da roça, eu costumava contar o que sonhava, como também faziam as poucas crianças com quem convivia. O pai achava sempre no sonho algum palpite para jogar no bicho. Algumas vezes joguei e nunca ganhei. Mas conservei o costume de contar o que sonho. Indiferente às interpretações do esoterismo e mesmo da psicologia, não paro com esse costume. Peguei agora a mania de sonhar com Jesus Cristo e vou contar esse sonhos, mesmo que seus cenários e informações não coincidam muito com o que está escrito nos Evangelhos Canônicos, na Bíblia, no Novo Testamento. Se no sonho, o tal inconsciente inibe a censura eu não tenho culpa. Vou apenas contar o sonho pensando que quem ouvir não deverá se desagradar, pois saberá que se trata apenas de um sonho. Estava eu numa grande praça de uma pequena cidade da Palestina. Homens carregavam cargas de trigo e outros produtos, vigiados por soldados. Alguém que não identifiquei cochichou ao meu ouvido: “Sã tão tolos que eles mesmos carregam os produtos que lhes roubam”. Permaneci no local porque ouvi dizer que lá chegaria, no dia seguinte, um tal Jesus. Homens que lá ficavam à espera de quem os contratasse para algum trabalho comentavam sobre ele:”não vou perder por nada” dizia o mais falante, mais divertido, e que parecia o líder. “É o homem que vai morrer por me fazer de rir”. Apareciam pessoas doentes que esperavam para ser abençoadas e curadas. Quando chegou o mestre, pediu aos seus seguidores que fizessem essas pessoas esperar antes de as ouvir e impor-lhes as mão, pois queria dedicar um pouco de tempo ao ensino. Venham disse ele. Quero contar-lhes uma parábola. Aglomerou-se em volta dele pessoas muito curiosas. Algumas se encarregavam de aquietar os que cochichavam. Pôs o mestre a falar:”O semeador encheu a mão de sementes e semeou. Algumas sementes caíram no caminho. Vieram os pássaros e as comeram. Outras caíram sobre pedra e não criaram raízes na terra. Outras caíram entre espinhos e estes as sufocaram. Outras caíram em terra boa e deram fruto excelente ao céu; sessenta e cento e vinte por medida. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”. Afastou-se dos olhares atônitos e dos sorrisos disfarçados e pôs-se a atender um por um os doentes. Aquele que era o líder do humor pôs-se a provocar cada um dos colegas de espera de trabalho:
- Você tem ouvidos para ouvir?
– Tenho não senhor. Minhas orelhas são de enfeite e meus ouvidos não escutam direito.
– Eu não. Estava longe dele.
- Não entendi. Ele fala difícil.
- Entendi, mas não compreendi.
- Você não é meu amigo e por isso quer que eu ouça e entenda.
- Fique ai com suas gracinhas enquanto somos vigiados por todos os lados. Aqui está cheio de delatores.
- Fica melhor sem entender.
- Prefiro ser um covarde vivo do que um herói morto.
E um outro, olhando para alguns soldados, que nem falavam a língua local, disse: “Pergunte a eles se entenderam”. Aquele sujeito tão perguntador, para não perder a oportunidade de se divertir, arriscava ser confundido com um agitador ou discípulo do tal Jesus, não sem um pouco de medo. Mas sentiu-se seguro quando veio juntar-se a eles um velho soldado romano, prosélito, aposentado, e lhe disse: “Aqui ninguém ouviu nada!”. O homem viu e respondeu-lhes: “Estou lhes dizendo: Roma não é de brincadeira! Tolerará a religião dos judeus enquanto não houver complicações. Posso contar as luas antes que esse Jesus, seguido por fanáticos, seja apedrejado ou até crucificado. E eu fiquei pensando naquela gente sofrida que avistei por lá, gente que produzia aquela carga de alimentos que era levada aos parasitas que viviam sem trabalhar e só explorando os pobres com apoio do rei. A esses interessava que Jesus falasse de religião e não de semente, terra e colheita. A esses interessava que os camponês e tivessem uma visão conformista e fatalista da realidade sem refletir sobre o valor e o significado do trabalho, que faz a terra produzir em abundância, mesmo com todos os entraves, não pensasse a realidade a sua volta, não contemplasse a pensar nas relações de produção, nos mecanismos de exploração ou numa palavra, que as pessoas executassem as tarefas e não pensassem. A historinha tão simples dava o que pensar e o que falar. Poderia levar a pensar, por exemplo, que, mesmo semeando-se antes de arar, em solo macio, sementes não caem sobre pedra e a produção é maior ainda, mas a melhor terra estava nas mãos dos ricos proprietários que as compravam a preço vil. A terra que sobrara para os camponeses que ainda tinham terra era aquela onde se perdia ¾ dos grãos. Mesmo nela a quantidade de grãos colhidos era grande. Se era insuficiente, isso se devia às cargas tributárias. Nada disso Jesus falou. Mas não conformou sua parábola com o sistema tributário, dizendo que o semeador, após a colher 60 ou 120 por 1, separou uma parte para o templo e para o governo. Terminou sua fala deixando uma porta aberta . . .talvez, para a subversão. Acordei. Sei que é esquisito sonhar sobre Jesus e que não estava na Bíblia (ou que parece não estar), mas se as pessoas ouvem todo tipo de história, acho que não lhes fará mal ouvir meu sonho esquisito que não tive culpa de ter sonhado e que não consigo deixar de contar.
Fontes de inspiração:
- Evangelhos canônicos em Mt 13, 1-9; Mc 4, 1-4,: Lc 8, 4-8
-Evangelho apócrifo de Tomé
- Escritos históricos da época de Jesus por Plínio e Flavio Josefo.
Dom Meio da NoitePostado em 1/8/2011 em 05:05 PM - 0 Comentários - Link(Dom para a poesia... Humm... Acho que não tenho. Mesmo assim aí vai uma tentativa. É uma poesia de caráter um pouco vampiresca).
Do Meio da Noite
Vá logo, dia!
Já me deste o teu recado
Já fizeste o teu riscado
A conta já bateu
O chefe já carimbou
Um carro aqui capotou
E quase ninguém olhou
Fumaça escura emanou
Sem reclamar se a respirou?
Barulho de todo lado
Sino bate pro passado
Quem vê a torre escondida?
A noite foi programada
Prá não ser uma parada
Mas eu a olho desligada
Uma discreta risada
Me delicio na sacada
Vendo o planeta girar
Ó venha noite, venha!
Pois já me maltrata o dia
Dia que pertence a todos
Os que vivem sem viver
Os que sentem sem sentir
Os que olham prá não ver.
Dia que pertence a tudo
Como pertencer a nada
Sendo parte desligada
Com luz que ilumina multidão.
Eu desejo mais a treva
Com o doce silêncio
E mais a brisa noturna
Suave me embala terna.
A terra esconde do sol a face
O sol não a invade sempre
É grande mas não é dois
O lado escuro ri dele.
Por isso não só a vida
Mas também a vida viva
Vive porque repousa
Não rime só por rimar
Não cante só por cantar
Não viva só por viver
Esconda-se
Esconda-se do mesmo
Esconda-se da luz
Silêncio!
Olhe para tudo
Olhe para o todo
Olhe da janela no meio da noite
Olhe sem a luz
Para não ver apenas
Aquilo que dá prá ver
Olhe para tudo
Mas olhe para o todo
Não olhe para tudo assim
Assim se vê tudo por nada ver
Olhe calma
Lentamente
Uma coisa por vez
Agora vês?
Quanta beleza!
Beleza que está em ti
Beleza que está no céu
Beleza que está aí
Na singularidade
Pare
Não corra
Pare de não parar
Pare de trabalhar
Mas só pare
Para contemplar.
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