SEMANA DA ARTE MODERNA DE 1922
A partir da segunda metade do século 20, as correntes que seguiam os movimentos da arte e das letras no Brasil estavam ligadas ao nacionalismo e internacionalismo culturais. Com as constantes idas e vindas de literatos, artistas plásticos e escritores à Europa, as idéias brasileiras começaram a ser outra vez descobertas e reconhecidas por todos os que retornavam do Exterior.
Podemos notar que o teor internacional contido no modernismo nascente nessa época foi exaltado para romper com o academicismo. Os modelos europeus de cultura ajudaram bastante, renovando a arte nacional. Entre esses modelos podemos destacar o cubismo, o expressionismo, o surrealismo, e incluir aí o “clima” de Paris, onde naquela época de 22 imperava as linguagens plurais. Direta ou indiretamente, as inspirações daí decorrentes levaram os artistas brasileiros a criar e descobrir uma estética moderna.
Paris, sempre Paris – Fora países como Alemanha e Suíça, a França, tendo Paris como ponto central, ofereceu ótimo ambiente para que os artistas plásticos brasileiros contatassem os europeus. Ao contrário de outros artistas da América Latina, os brasileiros não eram agentes de mostras coletivas ou de movimentos surrealistas, mas marcavam suas ações de forma mais discreta com exposições individuais em locais particulares e nos salões oficiais da Cidade-Luz, em mostras coletivas.
Sucedeu aos nacionais o mesmo que aconteceu aos artistas dos EUA em volta de Robert Henri (1865-1929) e em torno do fotógrafo Alfred Stieglitz (1864-1946). Henri, um dos organizadores do Armory Show (1913), teve sua formação em Paris, enquanto Stieglitz, pioneiramente, tornou-se um vanguardista das galerias de retaguarda na cidade de Nova Iorque. A primeira formação cultural dos artistas brasileiros nesse início de século mostrou alguns problemas para assimilar a arte dita moderna. Os quadros de nossos pintores, ainda que provocantes, denotavam um espírito superficial do vocabulário, tal como a obra dos artistas norte-americanos.
Foi Oswaldo Goeldi (1895-1961), um gravador carioca formado na Suíça que conseguir aglutinar o primeiro grupo de escritores e artistas plásticos paulistas ligados ao que acontecia na Europa no campo intelectual. Goeldi ficou famoso por ter sido criador das primeiras gravuras modernas no Brasil. Goeldi uniu-se a Antônio Gomide, Regina Gomide Graz e John Graz, incluindo os escritores Sérgio Milliet e Rubens Mota de Moraes, sendo esse o grupo modernista inicial dos anos 20. Mas quem deflagrou o modernismo brasileiro, foi Anita Malfatti, que depois de estudar na Alemanha e no ArtStudent’s League,

Abandono, Oswaldo Goeldi
Consciência nacional - O internacionalismo alcançou a arte brasileira desse início de século, impregnando o movimento modernista do país, mas tornou-se evidente a ocorrência do fenômeno particular da criação de uma consciência nacional no meio de nossas mentes intelectuais. Já com a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), no centro da efervescência política do limiar do século, e com os movimentos anarquistas de 1917 e
Havia dois extremos inclusos no movimento de arte moderna, dois extremos modernistas. Como foi dito no início, um deles era o internacionalismo, vindo do contato dos artistas brasileiros com a Europa, Paris
A exposição de Anita Mafaltti quebrou com o marasmo do meio artístico de São Paulo de dezembro de

A Boba, Anita Mafalti
A violenta ação crítica de Monteiro Lobato teve o mérito de provocar uma polêmica entre intelectuais e artistas solidários à pintora. Aconteceu, assim, uma união dos modernistas contra os academicistas. Os então jovens escritores Oswald de Andrade e Mário de Andrade, secundados pelo escultor Victor Brecheret caíram em campo ao lado de Anita Mafaltti, colocando em ação o conflito inicial entre a arte moderna e o pensamento do passado. O movimento modernista brasileiro começou praticamente com esse episódio. Na palavra do crítico Paulo Mendes Campos, foi "uma tomada de consciência nacional de um problema que, até então, não fora sequer equacionado entre nós".
Título glorioso - O grupo de modernistas, formado, além de Anita Malfati por Guilherme de Almeida, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia faz diversas reuniões nos bares da cidade de São Paulo e no apartamento de Oswald de Andrade. Eles debatem os principais autores do futurismo e começam a publicar artigos e textos polêmicos na imprensa, isso durante os anos de 1920 e 1921. Há um rompimento com as idéias convencionais. O historiador Mário da Silva Brito, salientou na ocasião, que “ser futurista equivalia a um título glorioso”, pois tudo que eles apresentavam era estranho e repleto de rebeldia. Os integrantes do grupo – incluindo a partir de então Brecheret, Vicente do Rego Monteiro, Di Cavalcanti (idealizador da Semana), John Graz, Yan de Almeida Prado e Zina Aíta (pintura e desenho), Hildegardo Antonio Moya, Martins Ribeiro, Zina Aita, João Fernando de Almeida Prado, Ignácio da Costa Ferreira, George Prsyrembel, Leão Velloso e Wilhem Haarberg (escultura). - perturbavam a ordem estética da pintura e da literatura.

Marinha, Di Cavalcanti
O ano de 1920 foi o ano da tomada de posições e 1921 o da preparação para o grande evento que viria a se concretizar no ano seguinte (1922), derrubando regras e sistemas antigos e trazendo à baila novos meios de expressão e comunicação. Os modernistas de 22 assinalavam em seus depoimentos que lutavam por uma arte livre. No dia 17 de outubro de 1921, Cláudio Motta Filho publica no Correio Paulistano o artigo “A Moderna Orientação Estética” salientando as mudanças de facetas na arte brasileira e profetizando novas tendências.
"A arte, sendo manifestação da Vida, não pode furtar-se às leis da vida. As filosofias variam; as ciências variam; a moralidade varia; o costume varia; o Universo vive em constante transformação; os seres variam, os minérios endurecidos variam. Por que a arte há de ser mumificada, há de estancar-se diante da muralha chinesa? Hoje, os heróis da estética estão vendo a realização de seu sonho. A Arte será, como sempre foi, o espelho de uma época. Modificar-se-á com os caprichos incompreensíveis da vida; mas, em todas as suas manifestações, terá liberdade, imensa liberdade. Imitar o clássico, copiar o passado, cingir-se e estritamente, a ele, é matar a arte. Ela é a inspiração e não imitação; arte é sentimento livre e não servilismo. Como impor à ultra-sensibilidade moderna o passado calmo, diverso, para nós, quase que incompreensível? A Arte tem algo de Proteu. E encarar a Arte é encarar Proteu. Absurdo!"
A divulgação do evento modernista de 1922 começou a ser divulgado pela imprensa paulista e carioca nos meses de janeiro e fevereiro. Basicamente, tudo estava organizado ao redor do Festival da Pintura Modernista, do Festival da Literatura e da Poesia e do Festival da Música, a ocorrer entre os dias 13 e 18 de fevereiro de 1922. de uma exposição de arte e três festivais. "Diversos intelectuais de São Paulo e do Rio, devido à iniciativa do escritor Graça Aranha, resolveram organizar uma Semana de Arte Moderna, dando ao nosso público a perfeita demonstração do que há em nosso meio em escultura, pintura, arquitetura, música e literatura sob o ponto de vista rigorosamente atual". Correio Paulistano, São Paulo, 29 de janeiro de 1922, p. 1.
"A Semana de Arte Moderna, a realizar-se proximamente no Teatro Municipal, vem agitando de tal forma o nosso meio artístico e intelectual, que se conservar alheio a esse movimento seria dar provas de um parti pris, que não se coaduna, absolutamente, com o grau de progresso que atingiu a imprensa moderna". A Gazeta, São Paulo, 3 de fevereiro de 1922, p. 1. (a mesma nota anuncia a contratação de Mário de Andrade como articulista do jornal). "A notícia de uma projetada Semana de Arte Moderna,

Retrato, Vicente do Rego Monteiro
O mundo artístico brasileiro entrou em nova fase. Nada mais seria como antes. As manifestações causaram impacto, mas foram muito mal recebidas pela platéia paulista, basicamente formada pela elite intelectual da época. Isso contribuiu ainda mais para abrir o debate e para difundir as novas idéias em âmbito nacional. Ocorreu, assim, no Pais, uma divisão. Criaram-se dois caminhos diferentes. O primeiro incluía aqueles que pretendiam a arte como uma cópia fiel do real; e o outro, era formado pelos que desejavam liberdade criadora total para o artista.