Silêncio (Carla Fontaneli)

Hoje o silêncio é grande.
Grande como um cobertor eterno.
A noite arde como labaredas
respingando gotas de trevas pelo chão.
Hoje o amor é grande
Grande como um amor eterno.
Em algum lugar, alguém descobre que está apaixonado pela primeira vez
E escreve suas primeiras confissões apaixonadas.
Hoje o medo é grande,
grande como o silêncio e os cobertores
Mas nunca assim tão grande,
Tão grande quanto o amor.
Ele intimida nossos mais íntimos refolhos
Nos visita pétala por pétala
E todos nós, flores amorosas, orvalhadas pela noite que respinga trevas,
Recebemos sua visita, pálidos e trêmulos
Até que o amor venha
nos envolva, nos acolha, nos receba
Nos desnude e nos vista com ele
E então veremos o mundo,
Não temeremos a noite
fecharemos os olhos, plenos e calmos de amanheceres
E tudo será paz, silêncio, noites e confissões escritas pela primeira
vez.
Hoje a noite calma do mundo se abriu em radiosas estrelas novas
hoje o silêncio dos apaixonados reverberou nos corações de quem não tem
ninguém
E ainda assim, há uma luz, um recado, um espelho, um estigma, uma
estrela, uma visita
Porque tudo se move, contínua e irrevogavelmente.
(Carla Fontaneli, 3 de janeiro de 1924, Cupertino)

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