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Anjo Azul

Política dos Gestos Poéticos

{ 12:13 AM, 30 November 2007 } { 2 comentários } { Link }

 

 

Hoje estava pensando sobre uma frase de Gandhi que tanto gosto... Uma frase que fala sobre a filosofia de fazer poesia com os gestos, falar com as atitudes... Ele disse referindo-se à política que ele fazia , bem diferente do que temos como política no mundo. Eu e Annallegra até estávamos falando sobre isso ontem (pois é, eu e ela descobrimos que somos vizinhas, literalmente - dá para ir andando da casa de uma para a outra -, e fomos nos encontrar ontem! Tão perto e fomos nos conhecer nos Blogs de uma plataforma européia! A internet é menor que nosso bairro! Vocês precisavam ver como ela é linda!). Falamos sobre como é difícil, junto às pessoas, fazer justo o que Gandhi disse que não conseguia evitar: permitir que nosso íntimo brote e se mostre em todos os nossos gestos. Ele disse:

 

 

"Sei muito bem que aquilo que eu fazia estava longe do realismo político. Eu desejava resultados, é claro. Mas, mesmo que eu soubesse que tudo seria inútil, teria feito as mesmas coisas. Há gestos que não podem ser evitados. Eles brotam do fundo, como se fossem o perfume de uma flor. Era assim que eu sentia aquilo que estava fazendo. Meus gestos não eram métodos para atingir um objetivo. Eram partes do meu próprio ser. Eles não surgiam de uma análise realista da situação. Ao contrário, eu me punha a escutar a minha voz interior, e aquilo que ela dissesse, eu tomava como profecia".

 

Essas palavras de Gandhi são de uma sabedoria tão grande! Deixar que os gestos falem, que as palavras não ditas se revelem nas atitudes! Mais que isso, permitir que o íntimo, que os sentimentos e as emoções se transbordem em gestos que conseguem fazer poesia sem palavras.

 

Uma mãe que vê seu filho chorar com medo do escuro, e sem dizer palavras, o abraça, o acalenta e ele sente-se seguro, com coragem de enfrentar qualquer escuridão. Gestos pequenos, porém inundados de nossos sentimentos. Gestos que são capazes de falar mil palavras, que são capazes de fazer brotar no outro, sentimentos nobres e belos!

 

Gandhi e muitos outros que nos deixaram belos exemplos de amor, paz e sabedoria, gostavam dos gestos poéticos. Mas e a maioria de nós? Quanto tempo perdemos em discussões inúteis, em jogos de palavras, em ofensas discaradas ou disfarçadas em mil máscaras de cordialidade. Quantas palavras desperdiçadas em várias situações quando um gesto apenas bastaria.

 

Então estava eu pensando... Se cada vez que discuti durante a vida, eu tivesse tido um gesto que falasse todas as minhas palavras, quantas lágrimas eu teria deixado de chorar, quantas lágrimas eu teria deixado de fazer brotar nos olhos das outras pessoas. Quantas palavras que mais parecem facas afiadas, teriam ficado guardadas nas nossas gavetas íntimas!

 

Pequenos gestos que fazem a diferença. Sair na hora de uma briga para dizer, sem palavras, que não quer brigar. Ir embora de um lugar onde se está sendo desrespeitado, para dizer, sem palavras, que você merece respeito. Se afastar de alguém que lhe faz mal, para dizer, sem palavras, que não quer manter relações. Para quê jogar na cara da pessoa todos os erros dela? Para que tecer palavras e mais palavras apontando todas as falhas que ela teve, todas as coisas que você julgou errado? Aos poucos estou aprendendo o quão sábio é economizar palavras, cultivar o silêncio e ter gestos poéticos...

 

Agora, mais importante que os gestos que falam sem palavras, são os gestos que têm o poder de despertar no outro o que há de melhor nele. Incentivar um filho a dedicar-se ao que ele gosta, mesmo que não seja a profissão que você sonhou para ele. Isso pode fazer brotar nele um brilho tão grande, uma criatividade tão abundante, que ele pode se tornar o melhor no que ele escolheu, muito mais bem-sucedido do que ele seria se escolhesse o que você achava que era o melhor para ele.

 

Amar alguém mesmo que ele te magoe, pode fazer brotar nele, justamente a virtude que o impediria de ferir quem quer que fosse. Ser bom com quem te fez mal, mostra sem palavras que aquele mal não é maior que o bem que você tem para oferecer. Que o bem é mais forte e que tem a capacidade de agigantar um ser. Isso pode fazer o outro sentir necessidade de ser bom também, pode despertar nele a necessidade de ter aquela força, ser aquele gigante, e pode fazê-lo perceber que o mal que ele pensa ser a força e a grandeza, é justo a fraqueza e a pequenez do homem.

 

Tão importante quanto aprender a ter gestos poéticos, é conseguir conquistar a sensibilidade de perceber os gestos dos outros. Muitos nos falam em gestos, e poucas vezes temos olhos de ver...

 

Um marido que chega em casa e começa a descontar na esposa os seus problemas profissionais e o desgosto com o chefe. Briga com ela, a ofende por tudo e nada, reclama de qualquer detalhe sem importância, e é incapaz de perceber que, naquele dia, ela fez seu jantar favorito, que passou o dia cuidando de sua roupa, deixando-a cheirosa, passada, arrumada, cuidando dele mesmo em sua ausência. É incapaz de notar que ela estava com tanta vontade de fazer amor naquele dia, que passou boa parte da tarde, cuidando dos cabelos, das unhas, da depilação, que colocou aquele perfume especial. Ela fez mil gestos de poesia e amor, e ele não conseguiu perceber nada, de tanto que estava absorvido com seus problemas e seu ego.

 

 

Aprimorar-se, portanto, na na observação, na contemplação do outro, de seus sentimentos impressos em seus gestos, é iniciar-se na Arte da Sensibilidade. Daquela que é capaz de perceber o que passa despercebido... Que consegue perceber uma minúscula flor brotando tímida no meio do esterco. Daquela que Jesus teve ao observar um cachorro em decomposição. Enquanto todos os apóstolos apontavam a podridão do cão, o mal-cheiro e a repugnante situação daquele cadáver, Jesus chamou a atenção para os belos dentes brancos que o animal tinha. Ter olhos de ver... Enxergar com a alma... Não deixar que algumas palavras mal ditas, em momentos de pressão, empanem o brilho dos gestos poéticos, diários e constantes.

 

A palavras de uma mãe, que num dia de briga, diz que estaria melhor com o filho longe, por exemplo, não pode falar mal alto e ter mais eco no emocional do filho, que a dedicação diária que ela lhe devota, não pode falar mais alto que todas as noites que ela lhe velou o sono, todas as vezes que ela o amamentou, todas os dias que ela, mesmo com ele crescido, ainda prepara com amor seu almoço, lava com carinho suas roupas, lembra-se dele com afeto ao fazer supermercado, comprando-lhe os quitutes favoritos, os ingredientes para aquela lazanha que ele tanto gosta. Não pode... 

 

Palavras em dias de escuridão, não podem falar mais alto que os gestos poéticos, porque dizer palavras, qualquer um diz qualquer coisa, mas não conseguimos fazer, transformar em gestos, aquilo que não temos na alma...

 

Podemos até, num dia de fúria, dizer que queríamos matar alguém, mas jamais conseguiremos matar, se essa vontade não for a expressão do nosso íntimo. Ninguém transforma em gestos, as palavras que não vêm de dentro.

 

 

"Mas eu poderia ser um poeta dos gestos, gestos que trouxessem de novo à vida coisas que pareciam mortas, gestos de encantamento e sedução. Compreendi que era desses gestos que nasciam as grandes metamorfoses: dos indivíduos, das comunidades, de povos inteiros. A razão? É que eles atingem o coração. Não existe nenhum outro caminho que nos possa levar a transformação do mundo. E nada há que se lhes compare em poder. Digam-me, por favor, qual é a barreira que o sentimento proveniente do coração não pode romper?" (Gandhi, por Rubem Alves).

 


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texto

{ 11:10 AM, 27 May 2010 } { Comentário por claire }
ola ,recebi esse texto por email , é seu ou vc extraiu do livro?

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{ 11:10 AM, 27 May 2010 } { Comentário por claire }
www.anatomiadopensar.blogspot.com

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