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Anjo Azul

Simplicidade e Caridade

{ 10:51 AM, 12 September 2010 } { 0 comentários } { Link }

Hoje estava dando uma olhada no Twitter, e encontrei uma amiga muito querida, a Cris, com quem há muitos anos não tinha contatos. Ela escreveu uma frase hoje que me fez lembrar de algumas colocações de Gandhi em seu livro “Cartas à Ashram”, que recomendo!

“Cada vez mais tenho certeza que o bom mesmo é viver com simplicidade. E isso nada tem a ver com ter ou não dinheiro”.

Eu concordo com a Cris, e há um tempo atrás até escrei um artigo aqui sobre a simplicidade, e como eu gosto de tudo mais simples, desde a arte, passando pela literatura, até a própria vida de um modo geral. Mas nesse livro de Gandhi, que foi um dos seres-humanos mais simples que esse planeta já conheceu, ele amplia um pouco o conceito de simplicidade, com colocações que achei muito interessantes. Primeiro ele diz que tudo aquilo que ele fazia e idealizava, estava à dispor até das crianças. De fato Gandhi parecia mesmo uma criança, mas não aquelas crianças espirituais, que ainda estão muito concentradas em seu ego, mas aquela criança que Jesus se referiu, pura de coração.

Ampliando o conceito de viver de forma simples, ele nos disse que todo aquele que vive com mais que o necessário está roubando, sendo ladrão de bens divinos. O raciocínio que ele usa é bem interessante, e tem como base a Baghavad-Gita, essa escritura tão pura, tão divina. Disse-nos ele que, se todos nós somos filhos de um mesmo Pai, e se todos os bens terrenos pertencem à esse Pai, então todos os seres têm o direito idêntico de uso-fruto dos bens materiais, e que portanto, aquele que tem mais que o outro, ou que vive com mais que o necessário para sobreviver com dignidade, está roubando dos outros filhos de Deus que têm menos ou que não podem viver com o mínimo. É um raciocínio absolutamente altruísta, digno da alma elevada que ele é. E ele vivia esse conceito à risca. Não só ele, mas todos os seus colaboradores, que viviam junto com ele os princípios do Satyagraha.

É interessante um conceito tão profundo, tão desprendido e que engloba de uma só vez a caridade, a fraternidade e a igualdade em seus caráteres mais puros, ser tão intensamento oposto ao que vemos no nosso mundo ainda. Quase todos nós vivemos justamente de forma oposta, tentando ganhar cada vez mais que os outros, ter uma vida cada vez mais confortável materialmente, ganhar salários cada vez maiores, com a desculpa de sempre: ter que juntar bens para deixar de herança para os filhos, sem percebermos que na verdade estamos deixando de herança, mais que o dinheiro, mas o exemplo da avareza e do egoísmo.

Poucos de nós, mesmo quem tenta viver com o mínimo e com simplicidade, tem o impulso de repartir o que eventualmente sobra. Se sobra é festa, e logo pensamos em uma forma de usar aquela quantia para alguma coisa em nosso benefício. E ainda pensamos: “Ah, eu trabalho tanto, e mereço um à mais para comprar um sapato novo, ou um aparelho de TV novo, ou trocar o celular, carro, etc”. Achamos logo que Deus reconheceu nosso esforço no trabalho e na vivência da simplicidade, e que recebemos um pouco à mais para gastarmos com mimos para nós, como se Deus estivesse preocupado em nos dar presentes materiais. Vai ver Ele realmente reconheceu nosso esforço, nossa melhora, e permitiu que houvesse uma sobra para que tivéssemo a dadivosa chance de doar aquela sobra para algum outro filho Dele, que estava precisando muito, porque para ele faltou, não sobrou. Vai ver sim, Ele nos achou mesmo prontos para ganhar um presente: a chance de praticar a caridade, não de praticar o egoísmo, como geralmente achamos. 

Então vem logo à nossa cabeça: “mas se eu não juntar bens, o que será de meus filhos quando eu me for?” Primeiro nem sabemos quem vai primeiro. Segundo, se acaso faltarmos, Deus tem mil meios de prover nossos filhos, que antes de tudo, são filhos *Dele*. Terceiro que educá-los a viver com simplicidade, e de quebra, a doar o que nos sobra, é a melhor herança que podemos deixar para um filho, a mais seguro bem que podemos lhes dar, aquele bem que o sustentará *verdadeiramente*, e que contribuirá para sua *real* vitória na vida material. Aquele bem que a traça não corrói…

“No simples o pouco é completo e o muito é essencial”.


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