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Anjo Azul

Deus e Nós - Prece

{ 05:01 PM, 22 July 2007 } { 0 comentários } { Link }

 

Pai nosso...

 

Antes, oh, Pai, não te sabíamos existente... E vagávamos sob o guante dos próprios instintos... Éramos juízes e réus, e errávamos sem consolo, pelo mundo infinito que nos deste...

 

Então, Pai, a luz brilhou. Irmãos maiores, mas tão pequeninos quanto nós, vieram confirmar que o silêncio das estrelas estava repleto de respostas que com os ouvidos humanos não poderíamos atinar... Havia que percorrer um caminho, algum misterioso caminho, para entender a linguagem dos céus. E nós intuímos, desde então, que ali estava o segredo da eterna felicidade. E quantos caminhos tentamos trilhar para encontrá-la! Por quantos atalhos nos perdemos! Quanto tempo passamos em imaginar-lhe a divina natureza... Ah, Pai.... Só tu sabes... Só tu sabes quantos de nós, desde a aurora dos tempos, fascinaram-se e foram fascinados, julgamos ou fomos julgados possuidores da chave do teu espírito.

 

Oprimimos em teu nome e te julgamos compreender o coração, talhando-o parecido ao nosso. Mas tu nunca nos abandonaste. Nunca deixaste fruir dos céus qualquer gesto de vingança. E, nas nossas preces, mesmo na dos mais rudes e perdidos dos homens, jamais faltou o conforto do seu abraço misericordioso... E embora tuas respostas nem sempre atendessem à fúria dos nossos desejos, jamais olvidaram nossas necessidades mais sagradas e urgentes... E embora nós te hajamos esquecido, e tenhamos abjurado por não o compreender, tu jamais olvidaste nossos olhos em súplicas, e esperaste o tempo que fosse necessário, a fim de ser compreendido e de poder auxiliar-nos como anelava seu coração...

 

E ainda que na lama, nos rincões mais abjetos, nas mentiras mais complexas, nas dores mais torturantes... E nos palácios, nos festins, nos cultos vácuos de sentimento, nas almas que se elevavam em júbilos de gratidão... Tu sempre estiveste lá. Não há aquele entre nós que, uma vez tenha voltado os olhos para o seu passado com o mínimo conhecimento de ti, não se haja surpreendido com a onisciência do seu amor e da sua bondade... Nosso orgulho e nosso medo da solidão são constrangidos ao perceber quão harmoniosos são os encaixes que elaboras, ainda que espalhemos tanto as peças do quebra-cabeças de nossa existência.

 

E então, Pai, que mais podemos fazer, a não ser agradecer-te? Por muito tempo desejamos servir-te, mas esperando, no íntimo, sermos servidos por ti. É que, em nós, ainda não havia confiança nem as sementes da verdadeira fé. Agora, muito lentamente, começamos a perceber que te servir é andar na luz, apesar das nossas sombras; é trilhar o caminho certo, mesmo que não saibamos por onde ir; é estarmos assustados, mas nunca vencidos; sozinhos, mas nunca abandonados; é nos sentirmos confusos, mas nunca insanos... É nem sempre sabermos, mas sempre sentirmos que Tu sabes...

 

Ainda assim, Pai, perdoa-nos por tantas vezes não confiar... Por, tantas vezes, exigir tocar Teu rosto com as mãos, ainda que ele esteja tão perto de nós... Perdoa por confundir nossa inexperiência com falha Tua... Nosso medo com Tua ausência, nossa desconfiança com Teu abandono... Estamos aprendendo, oh, Pai, como Tu bem o sabes. Continua sendo nosso Professor, é só o que te rogamos. Evangeliza nossa alma a custa de testemunhos e amor; Tu nos conheces porque nos criaste, e sabes, mais que nós mesmos, as possibilidades de nossas forças.

 

Portanto, Pai, nesse lugar e hora, não há nada mais que possamos fazer, para além de entregarmo-nos em Tuas mãos e tentar não ficarmos muito assustados, quando nos virmos no Mar Alto das experiências. Tu existes e nos amas; guia-nos e proteges; sondas e reconheces, porque somos seus filhos...

 

Que assim seja.

 

(A.V.)
 


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